Que dia é hoje? Domingo, 28 de outubro de 2001.
http://www.tresler.cjb.net
Olá! Está é a edição número 28 do nosso fanzine eletrônico. Espero que você
goste (ou não). Olha o que temos no menu de hoje:
1. Editorial (Daniel Wildt)
2. Global Village (Ariadne Amantino - CARPE DIEM)
3. Desilusões, recuperações e soluções (Daniel Wildt - BORN TO BE WILDT)
4. Ide em paz (Eduardo Seganfredo - DE NOVO, PÔ!)
5. Hoje não tem (Vincent Kellers - LINHAS DE PENSAMENTO CAÓTICO & PARALELO)
6. A cidade na viagem do olhar (Almandrade - O PLUS A MAIS DE HOJE)
7. CRÉDITOS FINAIS
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======================== EDITORIAL (Daniel Wildt) =========================
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Antes de mais nada, parabenizar dois amigos! César Henrique Costa e Sandro
Augusto Cardoso (seguindo aqui uma ordem alfabética), que estavam de
aniversário neste sábado! Fica aqui um abraço do camarada Daniel Wildt.
Livros, livros e mais livros. Feira do livro em Porto Alegre! Como estava
quente hoje! E olha que eram 19h passadas quando chegamos no centro da
cidade. Chegamos = DanielWildt + namorada. Bom, andamos por tudo, mas
nenhuma cara conhecida no meio da multidão. Tudo muito bom, e eu que
tinha entrado sem querer em uma super livraria na última terça-feira com
meu Visa Electron, bom, acabei gastando algumas boas "balas", e fui para a
feira apenas com dinheiro para comprar dois livros. Logo no início da busca
encontrei o tão procurado "Prezados Ouvintes", do não menos prezado Mauro
Borba, cara muito conhecido aqui no Rio Grande e locais onde a rádio Pop
Rock chega (http://www.poprock.com.br).
Como saí de Porto Alegre com sete anos de idade e só voltei quando estava
prestes a completar 14, perdi muito da cultura musical da minha cidade.
Bandas como Cascaveletes, TNT e outras, eu hein, nem sabia de nada. Sob um
céu de blues não era nada além de uma redundância usando uma bela mistura
com outro idioma. Hehe.
Ler é muito bom. Passado o trauma do Ensino Médio, onde o nosso gosto por
leitura foi sequestrado, hoje posso dizer que estou formando uma bela
biblioteca. E tem aquela propaganda sabe, do "é impossível comer um só!"?
Bem, eu sou mais ou menos assim com a literatura e com a divisão do meu
tempo de modo geral. EU QUERO FAZER DE TUDO! Escrever, ler, cantar,
estudar, namorar, trabalhar, malhar, cozinhar, enfim, ocupar o meu tempo da
melhor maneira possível. E com relação aos livros, esta é a minha atual
situação:
Atualmente estou lendo os seguintes livros:
- Contos Cinematográficos (Carlos Gerbase)
- Zen e a arte da manutenção de motocicletas (Robert Pirsig)
- Notas de um velho safado (Charles Bukowski)
- O Gerente Eficaz (Peter Druker)
E aguardando liberação de tempo (ou quando não tenho vontade de ler alguns
dos acima citados, passo para um desses aí abaixo):
- Poemas (Millôr Fernandes)
- Prezados Ouvintes (Mauro Borba), que comecei a ler!
- Contabilidade (Alvísio Greco)
- Feitas para Durar (James Collins)
- O Xangô de Baker Street (Jô Soares)
- Ócio Criativo (Domenico De Masi)
Música da semana!
Rolling Stones - You Can't Always Get What You Want
Álbum da Semana!
Los Hermanos - Los Hermanos
No Tresler de hoje, encontros de estudantes, um texto muito legal sobre
cidades, lembranças e ciclos, e uma espécie de declaração de amor, um
atestado de que uma pessoa me faz ser uma pessoa melhor a cada dia que
passa. O amor é lindo.
Daniel Wildt
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====================== CARPE DIEM (Ariadne Amantino) ======================
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GLOBAL VILLAGE
A Global Village é um evento típico da AIESEC. O que é AIESEC? A sigla
significa Associação Internacional de Estudantes de Ciências Econômicas e
Sociais. É basicamente uma organização estudantil que promove o intercâmbio
de estudantes para fazer estágio remunerado no exterior. Mas voltando à
Global Village, este é um evento típico da AIESEC porque é onde os
estagiários vindos de outros países ou aqueles que já trabalharam fora e
voltaram para o seu país mostram um pouco da cultura do seu país ou do país
onde moraram durante o estágio. Quem estiver interessado em mostrar alguma
coisa, organiza um stand com fotos, informações, bandeiras, comida e bebida
típica do país e tudo que estiver ao alcance.
No Brasil, fomos a uma Global Village com diversos stands montados,
principalmente, por brasileiros que moraram algum tempo no exterior. O
movimento era grande. A quantidade de pessoas e informações também. Todos
interessados em mostrar ou aprender algo sobre culturas diferentes.
Quando falaram em Global Village aqui em Viena, já me interessei e alertei
logo os outros brasileiros para fazermos algo de interessante para mostrar
que a cara do nosso país não inclui simplesmente samba, futebol e floresta
amazônica. No dia anterior, nos organizamos, fizemos dois cartazes com
informações sobre o Brasil, negrinhos, doce de leite e, é claro, deixamos
tudo preparado para a tradicional caipirinha, já tão conhecida dos
europeus.
Chegamos ao local do evento bem cedo para ter tempo de organizar tudo. Foi
estranho porque não tinha ninguém lá, a não ser umas pessoas estudando e
nos olhando com cara feia porque estávamos atrapalhando. Mas como tinham
nos dito que era ali, fomos arrumando as coisas. Já era passada a hora
marcada para o início e só estávamos nós lá. Mais tarde apareceram os
representantes da Eslováquia, Venezuela e Colômbia. Teve ainda a Nova
Zelândia com uma bandeira, uma camiseta e um livro sobre o país. E o nosso
stand lá, ocupando duas mesas, quase tão grande quanto o nosso país em
relação aos demais presentes.
Nossa banca fez muito sucesso. Principalmente por causa dos negrinhos!
Todos que chegavam ali queriam saber como eram feitas aquelas "bolas de
chocolate maravilhosas" como eles chamaram. As fotos eles acharam
maravilhosas e muitos dizem que parece um paraíso. O doce de leite também
fez muito sucesso. Isso sem falar na caipirinha, que tem por tudo quanto é
lugar aqui, mas é cara, e muitos não sabem que vem do Brasil. Limão aqui
custa mais de 1 real cada um! Colocamos na parede alguns preços das coisas
no Brasil, e muita gente disse que vai para lá porque é muito barato.
Enfim, a AIESEC disse que o nosso era o melhor stand! Também, com cinco
brasileiros participando!! Mas tem muito mais estagiários da AIESEC por
aqui que simplesmente não fizeram nada. Posso contar pelo menos com uma da
Austrália, uma da Polônia e uma da Latvia. Falei rapidamente com as duas
últimas. Uma disse que não tinha tempo para isso, e a outra, que estava
sozinha e é muito tímida. A princípio, sozinhos todos estão, foi apenas
coincidência que temos uma delegação de brasileiros aqui. Vai saber...
Na verdade, acho que a maioria deles não tem o espírito brasileiro (ou sul
americano porque todos os latinos participaram) de se organizar e querer
mostrar as coisas do seu país. Disseram que nós estávamos muito animados e
que precisam de mais gente animada e a fim de fazer as coisas por aqui.
Enfim, a Global Village resumiu-se a poucos países com presença esmagadora
do nosso gigante país continente! Não ocupou nem a metade do espaço da que
presenciei no Brasil, e não mobilizou nem metade do número de pessoas. E,
se olharmos em volta, a diversidade cultural aqui, em termos de culturas
internacionais, é bem maior e mais fácil de encontrar do que no Brasil. Na
Global Village brasileira, quem organizou stands foram os estagiários
brasileiros que tinham estado no exterior. Por isso lá tinha tantas banca
de tantos países diferentes. Eram, na sua maioria, brasileiros mesmo. E
dá-lhe Brasil!!!
Ariadne Amantino
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===================== BORN TO BE WILDT (Daniel Wildt) =====================
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DESILUSÕES, RECUPERAÇÕES E SOLUÇÕES
Tudo preparado. Andrade falou que a pequena estaria me esperando naquela
noite, que poderia ficar calmo que estava tudo encaminhado, era só eu
chegar e matar aquela bola. Era o primeiro final de semana, depois que o
ensino médio tinha entrado em férias. Bom, esqueci do fato que adolescentes
bêbadas não fazem nada do que querem. Acabei filmando tudo, mas naquela
noite não fiquei com a pequena. Como uma forma de ganhar popularidade junto
à minha turma, sempre filmei nossos encontros e de uma forma ou de outra,
eu era o centro das atenções. E foi assim até o final do segundo grau. Ah,
eu já filmei coisas que me destruíram por dentro, sabe quando você está
brincando com o foco manual e quando consegue enquadrar, vê o que não quer
ver? Naquela época, até o dia do último churrasco, levei uma carga de
desilusão causada por um nome, que também diz muito para um amigo meu. Ele
sabe. Depois daquele último churrasco eu me libertei daquele amor
platônico.
Desde que me conheço por gente, sempre estou apaixonado por alguma menina.
E na grande maioria das vezes de uma maneira platônica. Aos cinco anos de
idade, sim, apaixonado. Tinha uma namorada. Este era platônico, pois era um
amor puro, alheio a interesses ou gozos materiais, segundo uma das
definições do dicionário.
Quando cheguei no colégio novo, em São Paulo, depois de me mudar, aos 11
anos, idem. Só que eu me apaixonei por uma das meninas mais populares do
colégio. Era minha colega, estudava na mesma sala que eu, duas cadeiras
para o lado esquerdo e três para a frente, linda, mas ela andava com o
pessoal da oitava série. Eu, ainda na sexta. Uma criança que adorava jogar
videogame. Passado este tempo sofrendo em silêncio (o amor se perdeu entre
outros pensamentos), no prédio onde morava tinha uma outra menina. Foi o
amor platônico seguinte. Ela sempre me tirava do sério, e vice-versa. Era
mais velha do que eu, quatro anos. Nunca aconteceu nada. Ela também nunca
soube que eu era apaixonado. Uma vez fiz um desabafo, dizendo para a menina
que gostava muito dela e que não aguentava mais brigar. Depois daquele dia
nunca mais brigamos. Tinha acesso a belos sorrisos, mas nada mais que isso.
Eu era criança, com corpo de adulto, uma criança de 13 anos e 1m88cm.
Amor platônico na definição do dicionário, mostra um amor alheio a
interesses ou gozos materiais, um amor ideal, um amor casto. Mais uma
situação? Meu primeiro dia na faculdade. Claro que me apaixonei de cara,
mas a menina tinha namorado. Fiquei naquela os dois primeiros meses de
faculdade, quando descobri que ela estava na real interessada por um outro
amigo meu. Meu nome do meio é sensibilidade.
Me arrependo muito pela minha falta de iniciativa em muitas ocasiões
envolvendo mulheres. Mas olha, posso dizer com certeza que o que é para
ser, vai ser. Essa falta de iniciativa no caso específico da conquista, já
me deu muita dor de cabeça e medo de rejeição. Eu era um cara muito
reprimido. Ainda sou, sei disso, mas enfim, me viro como posso, mas sabe
que lembro com muito orgulho de situações onde estava decidido do que
queria. Só que isso não acontecia sempre. Na verdade não acontecia quase
nunca, apenas quando eu estava "irritado" com algo. É que não era uma
irritação, não sei bem o que era. Eu conseguia focar aquele sentimento
interior para força de vontade, desenvoltura e uma capacidade estonteante
de não conseguir me comunicar como gostaria. Mas eu sabia dançar. Me
movimento muito bem. E com a música alta, você precisa de apenas alguns
diálogos básicos, algumas trocas de olhar e olha só, você está beijando a
menina.
Foi mais ou menos como naquela noite, que eu não estava a fim de sair, mas
tinha sido convidado. Meus amigos e amigas estariam indo pela primeira vez
em um lugar que eu achava na época de colégio que era uma casa de putas
mesmo. Eu resolvi ir dormir. Mas depois resolvi sair de casa. Era uma hora
da manha passada quando cheguei no local. Fui sem óculos. Isso dificultaria
a troca de olhares, mas não seria o fim do mundo. Eu não estava entendendo
porque queria sair de casa, mas saí.
Cheguei no local, uma casa antiga, pé direito bem alto. Comecei a procurar
conhecidos e com facilidade os localizei na pista de dança. Dançamos um
pouco, rock dos anos 80 e início dos 90. Foi demais, fazia muito tempo que
não ouvia músicas que me fizeram crescer. Quando tocou No Sleep Til
Brooklin, dos Beastie Boys por exemplo, achei que aquele chão ia cair.
Depois de dançar bastante, fui tomar alguma coisa. Água sem gás. Certo, eu
não sou de beber. Grande coisa. Na verdade, eu já tinha bebido bastante
durante as semanas anteriores, e estava dando um tempo na bebida. Depois
dei umas voltas pelo local, fiquei conversando com meus amigos e amigas, e
depois comecei a me perguntar por que não estaria eu dormindo? Neste
momento tive a certeza que queria ir embora. Sem dar até logo para o
pessoal. Queria demonstrar minha insatisfação pelo local.
Me levantei e comecei a caminhar para o caixa. Nisso tentei encontrar
defeitos no local e neste percurso vi umas figuras estranhas e vi também
duas meninas se beijando. Droga, como achar ruim um local onde lésbicas se
beijam enlouquecidamente? Foi isso que eu pensei também.
Cheguei no caixa. Comecei a separar o dinheiro para pagar, separei minha
consumação, e ficava me perguntando porque aquela pessoa na minha frente
demorava tanto. Foi quando me virei para a esquerda, em direção a pista de
dança, para procurar o nada. E quando estava retornando o olhar para a
direita, para o caixa, encontrei tudo. Dois olhos maravilhosos que entraram
em conexão com os meus de uma maneira que até hoje não sei explicar. Aquilo
não poderia estar acontecendo. Desviei o olhar, achando que aquilo não era
comigo, mas quando voltei a olhar ela também havia voltado e estava me
encarando.
Coloquei a consumação no bolso. Coloquei meu dinheiro no bolso. Coloquei
uma mão no bolso. Saí da fila. Fiquei um pouco mais para a esquerda, onde
pude ver melhor os cabelos. E agora não me encantava apenas com os olhos,
mas também com sua boca e seu nariz. Que nariz. Que olhos. Ela não parava
de me olhar. E eu não conseguia parar de olhar da mesma maneira.
Precisava de uma bebida. Fui novamente para o bar, para o lado oposto de
onde ela estava. E fiquei olhando, ela estava encostado no balcão do bar.
Ela se virou para me procurar. Ficamos nos olhando, nos encarando de uma
forma muito louca. Eu estava com muito medo. Do que não sei. Ficava me
escondendo atrás de uma coluna e volta e meia aparecia. Porque não sei.
Todo caso, aconselho você a não fazer isso, pois pode lhe custar caro. Pode
lhe criar um amor platônico. Tinha chegado em um ponto da minha vida onde
amores platônicos não eram mais bem vindos. Mas eu continuava olhando.
Bebendo minha água e olhando. Acabei de beber a água. E agora, o que faço?
Ela se mexeu. Foi para o outro lado do salão, longe das amigas dela. Vai
Daniel.
Comecei a caminhar em direção a menina. Quando estava muito perto de chegar
para conversar com ela, apareceu uma amiga minha, para avisar que eles
estavam indo embora. Disse tudo bem, dei três beijinhos e tchau! Ela me
perguntou então se não ia cumprimentar os outros. AHH!! Aquilo não era
verdade, eu simplesmente passei pela menina para dar tchau para meus
amigos. Na passada por ela eu ainda tento me lembrar se o "eu já volto" que
eu falei foi apenas para mim ou se ela ouviu. Enfim, amigo que é amigo não
faz isso! Todo caso, agradei a todos, me despedindo com eduação e tal.
Voltei para o local onde ela estava encostada. Respirei fundo e iria falar:
- Olá, eu estava indo embora, mas nossos olhares se encontraram de uma
forma que eu não sei descrever ainda, deve ser pelo mesmo motivo que muitas
pessoas tem dificuldade de descrever o amor, pois eu acho que estou
apaixonado e quero um beijo teu agora menina linda, pois tua boca longe da
minha me faz pensar em como eu te quero.
É, mas eu consegui dizer apenas isso:
- Quer dançar?
Ela ficou me fitando, olhando para os lados, pensativa, ela não esperava
aquela pergunta e muito menos eu. Fiquei chamando ela em direção ao salão,
com gestos do tipo vamos?, estava pensando Meu Deus não era nada disso, e
então já perguntei:
- Não queres? Vem comigo, vamos?
Ela fez sinal com a cabeça, um sinal positivo, e nos encaminhamos para a
pista de dança. E começou o show. Eu sempre dancei muito bem. Pelo menos eu
pensava assim. Ainda penso. Acho. Bom, trocamos informações básicas, do que
fazíamos, trabalho, se já tínhamos ido naquele local outras vezes, ela me
falou que estava comemorando o aniversário, mas eu perdi esta parte, estava
prestando atenção nos olhos dela. Foi quando eu falei Teus olhos são
lindos! e ela respondeu com um sorriso que me fez viajar.
Quando achei que era o momento, eu falei, já sem medo:
- Queria te dar um beijo...
- Não queres mais?
- Quero... Posso te dar um beijo?
- O que queres que eu responda?
- É só não relutar.
- ...
Se deu certo? Semana que vem comemoramos sete meses juntos. Te amo Márcia!
Daniel Wildt
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==================== DE NOVO, PÔ! (Eduardo Seganfredo) ====================
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IDE EM PAZ
Caminhei vagarosamente por entre as árvores. A copa realmente densa, e o
dia nublado davam uma sensação de penumbra no lugar. Cheguei ao portão.
Estava trancado por um arame erolado diversas vezes na tramela utilizada
como fechadura. Comecei a desenroscá-lo com as mãos, mas não estava nada
fácil. Considerei procurar uma brecha na cerca de bambu, mas o mato em
volta me desanimou. Lembrei da minha missão, respirando fundo e renovando
as forças. E retomei o trabalho manual, até conseguir libertar a tramela e
abrir o velho portão.
Ao entrar, a paisagem mudava ligeiramente. Havia uma espécie de corredor
natural, formado por laranjeiras dos dois lados, cujos ramos se cruzavam
numa altura de aproximadamente 2 metros. Olhando para a frente era possível
perceber maior claridade ao fundo, o que sugeria uma clareira. Avancei.
Pouco mais adiante, estendida entre os galhos das árvores, uma imensa teia
de aranha, digna de filmes de terror. E aquela majestosa construção da
natureza tinha uma dona tão exuberante quanto ela própria. Uma enorme
caranguejeira pairava no centro da teia.
Superado o calafrio, peguei a pá e abri uma passagem em um canto da teia,
com os olhos atentos para a reação do aterrador aracníndeo. Felizmente, ele
se recolheu para o canto oposto, o que me encorajou a transpor aquele
obstáculo.
Enfim, cheguei na clareira. Ali, dispostos aparentemente em um
semi-círculo, jaziam as sepulturas. Cerca de seis bases de cimento formavam
a meia-lua, enquanto mais umas 5 lajes alinhadas completavam o desenho. Os
túmulos estavam tomados pelo mato, o que dava um aspecto de abandono ao
local.
Encontrei um bom ponto a frente das lajes e pus-me a cavar. A terra era
compacta e difícil de revolver. Para meu espanto, depois de várias pazadas,
percebi uma colônia subterrânea de formigas. Agora eu precisava cuidar para
que elas não começassem a subir pelas minhas pernas. Além disso, a pá batia
em algo mais consistente. Temi que fosse outra laje ou alguma ossada
antiga. Por sorte, era apenas uma raiz desgarrada.
Muito suor e tempo depois, a cova estava pronta. Voltei cautelosamente pelo
mesmo caminho, temeroso pela possível presença de cobras ou outros perigos
naturais. Peguei o corpo e entrei novamente no velho cemitério. Coloquei-o
na cova, fiz mentalmente uma oração e cobri com a terra.
Apoiei-me na pá e deixei a mente vagar. Ali estavam sepultadas muitas
lembranças da minha infância. Os cães Pipo, Tuti, Tica, e outros que
ajudaram na minha criação. Passaram-se na minha cabeça algumas das cenas de
muitas alegrias, que aqueles pequenos animaizinhos proporcionaram em nossa
família. Cada um indiscutivelmente do seu jeito, com a sua personalidade.
Lembrei que eram estes memoráveis momentos que pagavam todo o trabalho
envolvido em adotar um animal de estimação.
Saí caminhando respeitosamente daquele lugar, sentindo que mais um ciclo se
findava, que o que era da terra voltava para terra e o que era do espaço
voltaria para o espaço, e que aquelas memórias era a parte que me pertencia
e por isso permaneceriam comigo.
Fechei o portão com a sensação de dever cumprido e certo de que estava mais
rico do que nunca.
Descanse em paz, velho cão Nenê.
Eduardo Seganfredo
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======== LINHAS DE PENSAMENTO CAÓTICO & PARALELO (Vincent Kellers) ========
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HOJE NÃO TEM
Hoje não tem coluna do Vincent. Todo caso, pensei, alias, pensei e estou
executando a tarefa de colocar aqui uma letra de música. Essa eu sei que
ele curte, e eu também acho muito legal. E também serve para dizer para a
galera que gosta de Bad Religion, que eles estão voltando!! Olha o link
esperto aí! http://epitaph.com/bands/index.html?Id=86635. E vamos a música!
BAD RELIGION - "21st century digital boy"
I can't believe it,
the way you look sometimes,
like a trampled flag on a city street,
oh yeah
and I don't want it,
the things you're offering me,
symbolized bar code, quick i.d.,
oh yeah
I'm a 21st century digital boy,
I don't know how to live, but I've got a lot of toys,
my daddy is a lazy middle class intellectual,
my mommy's on valium, she's so ineffectual,
ain't life a mystery?
I can't explain it,
the things they're saying to me,
it's going yayayayayayaya,
oh yeah,
I'm a 21st century digital boy,
I don't know how to read, but I've got a lot of toys,
my daddy is a lazy middle class intellectual,
my mommy's on valium, she's so ineffectual,
ain't life a mystery?
i tried to tell you about no control,
but now I really don't know,
and then you told me how bad you had to suffer,
is that really all you have to offer?
Daniel Wildt
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=================== O PLUS A MAIS DE HOJE (Almandrade) ====================
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A CIDADE NA VIAGEM DO OLHAR
As cidades são tristes quando uma curiosidade, uma presença, ou um lugar
não aquece a solidão de quem vive a abstração da vida cotidiana. Nada tem
sentido. A falta sempre remete a uma espécie de deserto que desorienta o
viajante solitário de seu próprio espaço. – Será que as cidades deveriam
ser habitadas por imagens que desejamos e por imagens poéticas? “Mas o
desejo, a poesia, o riso fazem necessariamente a vida deslizar no sentido
contrário, indo do conhecido ao desconhecido”. (Bataille) – Enfrentar o
desconhecido é uma tarefa difícil para o homem, principalmente quando ele
vive em cidades hostis ao mundo do conhecimento.
A publicidade faz a imagem da cidade, como se a natureza fosse uma imitação
de uma outra natureza. A arquitetura não é mais arquitetura, é imagem de
out-door. A festa faz o paraíso urbano e uma música medíocre anuncia o
Carnaval, esta intervenção autoritária que desapropria a vida da cidade,
para aqueles que não têm o direito de opinar contra a festa.
A cidade é a multidão que troca de imagem segundo a moda. Mas tem a imagem
que permanece na memória, como objeto da paixão para o apaixonado. Pensei
em Walter Benjamin e o Diário de Moscou: o olhar apaixonado de um filósofo
sobre uma cidade: “Naquela manhã sentia-me com uma energia e por isso
consegui falar de maneira sucinta e calma sobre minha permanência em Moscou
e sobre suas perspectivas imensamente reduzidas”. Uma relação de paixão
compartilhada com o conhecimento das imagens percebidas de uma cidade.
Da janela, contemplei a rua como um voyeur de cidade. O trânsito, a
publicidade, a multidão, o centro histórico. Os monumentos e a arquitetura
eram objetos para as câmeras fotográficas de turistas, como cenários sem
data. Sem a imaginação o passado é a imagem engraçada, um efeito especial
do cotidiano, onde tudo é repetitivo. A história, neste caso, não passa de
uma mercadoria para um olhar carente de um lazer cultural. “A era faustuosa
da imagem e dos astros e das estrelas está reduzida a alguns efeitos de
ciclone e terremotos artificiais, de falsas arquiteturas e de truncagens
infantis com que as multidões fingem deixar-se empolgar para não sofrer uma
decepção amarga demais” (Baudrillard).
Por outro lado, a singularidade de um espaço, de um monumento ou de uma
arquitetura fascina o viajante. É como as imagens poéticas que provocam o
desejo de olhar e de viver um estado de deslumbramento. Mas as imagens não
são totalmente transparentes que se revelam a qualquer olhar sem reflexão:
elas provocam a imaginação e exigem um olhar atento, com um repertório de
referências. Isto é, uma sensibilidade capaz de perceber nas imagens suas
histórias e suas verdades, mesmo que seja uma sensibilidade marcada pela
paixão de uma imagem.
Almandrade
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============================= CRÉDITOS FINAIS =============================
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