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Ângelo Paes Leme

Ator - Outubro 2000

A simpatia de um atrapalhado

"Uga Uga" está servindo para Ângelo Paes Leme enterrar a fama de ator que só interpreta papéis antipáticos

[Fonte - TV Press]

A novela "Uga Uga" está servindo para Ângelo Paes Leme ter uma certeza: na pele do atrapalhado detetive Salomão, ele acredita que está definitivamente enterrando a fama de ator que só interpreta papéis antipáticos. Em "História de Amor" e "Por Amor", ambas novelas de Manoel Carlos, Ângelo é o primeiro a reconhecer que tanto Caio quanto o Rodrigo eram personagens que tinham poucos atrativos para cair no gosto popular. Os dois eram assumidamente encrenqueiros. Nem mesmo o Vasco, de "A Muralha", conseguiu angariar a simpatia do público, já que costumava dar em cima das mulheres alheias. "Já o Salomão é totalmente diferente: ao mesmo tempo é romântico, atrapalhado e engraçado", sintetiza o ator carioca de 26 anos. O maior reconhecimento de Ângelo neste trabalho é quando está no trânsito, na fila de um banco ou em um restaurante. "As pessoas quando falam comigo, sempre estão rindo. Isto é a maior prova de que o personagem está funcionando", imagina.

Mas para conquistar o personagem criado por Carlos Lombardi, mesmo com quase dez anos de Globo, Ângelo teve de passar por uma bateria de testes, como qualquer novato. Ele revela que antes de ser aprovado, vários atores da casa disputaram o papel. Como teve pouco tempo para compor o Salomão - dois dias depois de ser selecionado para fazer a novela, já estava gravando - , Ângelo buscou referências próprias para dar vida ao personagem. "Como fiquei sabendo através da sinopse que ele estava sempre correndo de um lado para o outro, resolvi emprestar um visual despojado para o personagem", conta.

O cabelo curto, a barba e os óculos de grau foram sugestões do próprio ator que foram aceitas pelo diretor Wolf Maia. Outra atitude defendida pelo ator foi a famosa gagueira, que virou marca do personagem. No início, Salomão era apenas um detetive confuso e atrapalhado. Percebendo estas características, o ator achou interessante emprestar uma gagueira para o personagem, logo no início das gravações. A atitude do ator foi logo "abraçada" por Lombardi. "Depois da primeira cena que fiz gaguejando, o Lombardi não parou mais de jogar no texto esta característica", comemora.

P - Em quase dez anos de Globo, o Salomão é o grande personagem da sua carreira na tevê?

R - Sem dúvida. O Salomão é um personagem com muita substância. O Caio em "História de Amor", também era legal. Tive a oportunidade de fazer cenas dramáticas e interessantes. Era um personagem com grande suporte. Da mesma forma que é o Salomão. Só quando o trabalho é divertido, como está sendo agora em "Uga Uga", acaba sendo mais prazeroso. O Salomão é muito surpreendente. E toda hora ele está fazendo uma loucura. As novelas do Lombardi são assim mesmo. Além do mais, o Salomão, por ser detetive, acaba integrando todos os núcleos da novela. Isto é muito legal para o ator. O personagem acaba tendo vida própria e não serve apenas de escada para outro.

P - Com este trabalho então, você acredita que realmente tenha enterrado a fama de interpretar papéis chatos...

R - Acabei ficando com esta fama depois de fazer o Caio e o Rodrigo, em "História de Amor" e "Por Amor", respectivamente. O Caio então, era um garoto muito radical. Então, ele acabava despertando revolta no público. Já o Rodrigo era mais irônico, mas por outro lado, era um papel pequeno. Por isto, acabou não tendo uma grande repercussão. Já o Vasco, em "A Muralha", era um cara romântico, mas que dava em cima da mulher dos outros, enquanto o Salomão é o oposto: divertido, despojado e boa praça. O legal na carreira do ator é a cada trabalho fazer um personagem diferente. Com o Salomão, acredito que esteja conseguindo isto.

P - E como você vem sentindo a reação do público?

R - Sinto que estou conseguindo provocar riso nas pessoas. Quando elas vêm falar comigo, estão sempre rindo. Isto é a maior prova que o personagem está funcionando. Por ser um cara atrapalhado e divertido, ele acaba cativando o público.

P - Você chegou a buscar alguma referência de algum ator para compor o Salomão?

R - Assisti alguns filmes da "Pantera Cor de Rosa", com Peter Sellers. Também procurei ver com mais atenção o estilo do ator italiano Roberto Benigni, vencedor como ator do "Oscar" com o filme "A Vida é Bela". Referência nacional busquei só na minha memória com a atuação do Luiz Gustavo, quando interpretou o Mário Fofoca. Já a composição do figurino foi uma idéia minha. Quando fui fazer o teste, estava barbudo e o diretor Wolf Maia acabou achando legal para o personagem. Também sugeri que o Salomão usasse óculos. Todas estas características fui percebendo que tinham a ver com ele. O Salomão é um cara atrapalhado e está sempre com pressa por causa da profissão de detetive. Ele não se preocupa com a estética e não tem tempo para fazer a barba. E eu estou adorando porque não preciso fazer a barba todo o dia.

P - E a gagueira?

R - Não era uma característica do personagem também. No primeiro dia de gravação, na Barra da Tijuca, com a Mariana Ximenes, que interpreta a Bionda, percebi que ele ficava nervoso com uma certa facilidade. Comecei a sentir que toda hora que isso acontecia, era interessante uma gagueira para o personagem. Então, começou a rolar uma coisa minha com o autor. Comecei a experimentar e o Lombardi começou a jogar no texto com mais freqüência. Conversei com o Wolf, que também gostou. Mas pediu para que eu fosse devagar. Esperasse a aprovação do autor. Fiquei feliz porque foi uma criação minha. Esta relação com o autor é muito importante para a gente.

P - Já com "Por Amor", onde você viveu o Rodrigo, não teve esta mesma relação. Você ficou decepcionado com o Manoel Carlos, porque na novela anterior dele, "História de Amor", você era o protagonista?

R - Um pouco. "Por Amor" não foi uma novela boa para mim. Pode ter sido para ele, mas para mim não. Meu personagem foi ficando para as beiradas ao longo da trama. O que acontece é que a novela vive de bons núcleos. E o meu não estava funcionando no início. É fundamental também que o personagem tenha uma história própria. O Rodrigo servia de apoio para os outros. Ele estava ali para enriquecer os demais personagens. Teve até no início uma pequena história com a Cati (Carolina Dieckmann), mas que acabou não vingando. Achei que isto faria que o Rodrigo crescesse na trama, mas acabou não acontecendo. O meu personagem não tinha história própria. Mesmo que o personagem não pertença ao núcleo principal, ele pode ter uma função importante na trama. Isto não aconteceu. E quando fui fazer este personagem, esperava muito dele. Principalmente por causa do autor. Vinha de um trabalho legal com ele. O Caio que foi o protagonista em "História de Amor".

P - Mas em "Por Amor" não teve nada de positivo?

R - Claro que sim. A história do pai do Rodrigo, vivido por Odilon Vagner, que era bissexual. Só que esta história foi empurrada para o final da novela. Só nos capítulos finais que tive boas cenas, quando meu personagem descobriu a preferência sexual do pai. Fiz ótimas cenas com o Odilon e também com a Ângela Vieira, que fez a minha mãe. Mas de resto, não tenho saudades do Rodrigo. Só que compreendo o autor. É muito difícil escrever para mais de 20 atores numa novela. E nas histórias do Maneco geralmente quem dão banho de interpretação são as mulheres.

P - O que você espera do Salomão até o final de "Uga Uga"?

R - Que ele continue me surpreendendo como vem acontecendo até agora. Como disse, é o grande personagem de minha carreira. Estou feliz não só pela atuação como também pela oportunidade de estar participando da criação.

Paixão pela música desde cedo

Ângelo Paes Leme não pretendia seguir a carreira de ator. Quando garoto, ele começou a arriscar os primeiros acordes no piano e também no violão. Até hoje, ele cultiva silenciosamente a paixão pela música. Principalmente o jazz. Na sala do aconchegante apartamento onde mora, no bairro do Jardim Botânico, Zona Sul do Rio de Janeiro, num dos cantos há um piano que Ângelo dedilha de vez em quando. E o melhor, segundo o ator: sem nenhum compromisso. "Com esta correria que é a minha profissão de ator, fica difícil tocar. Por isto, a música acaba sendo relegada a segundo plano", lamenta o ator.

Já a paixão pelos palcos começou quando Ângelo tinha 14 anos. Ele estudou teatro no Tablado no Rio de Janeiro, antes de entrar para televisão. Desde então, ele chegou a participar de mais de 10 peças teatrais. "No começo fazia teatro por fazer. Hoje, é diferente e encaro como uma profissão", ressalta. Ângelo não esconde a emoção no início de carreira. Nos primeiros espetáculos, ele ficava orgulhoso ao ver o cartaz da peça com seu nome. "Aquilo era o máximo para mim", derrama-se.

A paixão pela arte da comunicação fez Ângelo Pães Leme entrar para Faculdade de Comunicação Social. Depois de fazer sete dos oito períodos, no entanto, Ângelo percebeu que a carreira de ator não tinha nada a ver com a de jornalista ou publicitário. "A verdade é que não me identifiquei com o curso", reconhece o ator, que teve o primeiro trabalho de destaque na Globo participando da minissérie "Contos de Verão", em 93. Depois, ele fez "Salomé", "História de Amor", "Por Amor", e "A Muralha".

Mas foram em episódios dos extintos programas "Mulher" e "O Belo e a Fera", que Ângelo Paes Leme acabou provocando a "inveja" do público masculino. Ele acabou formando par romântico com duas das principais musas da televisão brasileira: Patrícia Pillar e Vera Fischer. No primeiro episódio, seu personagem teve um rápido namoro com a doutora Cris, interpretada por Patrícia. Já na sitcom estrelada por Chico Anysio, Ângelo fez um sobrinho do próprio protagonista. Ele acabou "roubando" a mulher do tio. "Muitos amigos me perguntam como foi a experiência de ter beijado as duas. Para mim, foram mais dois trabalhos, que até já esqueci", esnoba.

Produtor iniciante

Nem bem chegou à metade das gravações de "Uga Uga", Ângelo Paes Leme já está com um projeto traçado: produzir e atuar num espetáculo teatral. Ângelo é um dos oito integrantes da peça "Esplêndidos", dirigida por Daniel Herz, que vai entrar em cartaz até o final do ano no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro. Depois, ele pretende excursionar com a peça em todo o país.

No espetáculo, Ângelo interpreta um policial que investiga a morte de uma mulher num edifício totalmente ocupado por seis bandidos. "Mas não tem nada a ver com o Salomão", vai logo avisando. Na história, os marginais seqüestram a filha de um milionário, interpretado pelo veterano ator Nélson Xavier. "É um texto que fala o tempo todo em traição e mentiras", antecipa Ângelo. Para ele, virou uma tendência o fato de produzir espetáculos teatrais entre os atores da nova geração. "Com isto, a gente tem a possibilidade de fazer o que bem entender. O que é melhor: a gente escolhe com quem trabalhar. Então, a responsabilidade é toda nossa", explica.