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Drica Moraes
Atriz - Dezembro 2000
O lado bom da maldade
Após o fim do humorístico "Garotas do Programa", Drica Moraes vive a dissimulada Marcela, que se tornou a principal vilã da trama de Walcyr Carrasco
[Fonte - TV Press]
Entrar no meio de uma produção bem sucedida pode ser uma armadilha para um ator, que às vezes custa a se entrosar com um elenco já azeitado. Mas Drica Moraes não teve qualquer problema ao entrar na segunda metade da novela "O Cravo e a Rosa" para viver a dissimulada Marcela, que se tornou a principal vilã da trama de Walcyr Carrasco. "Entrei numa novela que já era sucesso, onde toda equipe já trabalhava em perfeita sintonia. Procurei apenas seguir o ritmo", explica a atriz carioca de 31 anos. O convite para entrar em "O Cravo e A Rosa" ajudou a consolar Drica pelo fim do humorístico "Garotas do Programa", que saiu do ar por causa da baixa audiência. "O problema é que colocaram o programa num horário horrível. Sexta-feira à noite, ninguém fica em casa", justifica.
Uma semana depois do fim do humorístico, Drica recebeu um telefonema do diretor Walter Avancini para incorporar o elenco da novela das seis. Com Avancini, Drica já havia trabalhado em "Xica da Silva", também escrita por Walcyr Carrasco. Na novela exibida pela extinta Manchete, ela viveu a perversa Violante, personagem que lhe deu projeção na tevê. "É sempre um aprendizado trabalhar com Avancini. Ele é um dos responsáveis pelo meu amadurecimento", elogia a atriz. Com o mesmo autor e o mesmo diretor, ela está novamente interpretando uma vilã, mas faz questão de dizer que Marcela é mais bem humorada do que Violante. "Além do mais, adoro fazer vilãs. Com elas, a gente pode até se fingir de boazinha", explica Drica, que não se preocupa em ficar estigmatizada com este tipo de personagem.
"O Cravo e A Rosa" é a sexta novela na carreira de Drica, que concilia seu trabalho na televisão com a Companhia dos Atores, grupo teatral que montou juntamente com o ator e diretor Enrique Diaz. Atualmente, ela protagoniza a peça "O Rei da Vela", de Oswald de Andrade, que teve uma montagem memorável em 1973, com Dina Sfat no papel principal e a direção de José Celso Martinez Corrêa. "Nosso principal objetivo nesta companhia é fazer um trabalho que alcance as classes populares", empolga-se a atriz.
P - Em "O Cravo e a Rosa", você volta a fazer uma vilã. Você tem predileção por este tipo de personagem?
R - O folhetim tem uma demanda onde sempre as vilãs se destacam mais. Na dramaturgia, tudo é muito bem definido. Quem é bom tem de ser bom e quem é engraçado tem de ser engraçado. A boazinha, por exemplo, fica muito fadada a textos piegas e bem lacrimosos. Por estas razões, ela acaba ganhando um tom pastel e muitas vezes até a antipatia do público. Já a vilã é completamente oposta. Ela pode até se fingir de boazinha. E também manter várias personalidades ao mesmo tempo. As vilãs geralmente também usam as roupas mais bonitas. Tem um visual mais burilado, louco, exótico e exuberante.
P - Você não fica preocupada em ficar estigmatizada?
R - Isto é muito complicado de dizer. Até mesmo porque cada autor tem uma característica própria de criar suas vilãs. A gente vê o escritor Carlos Lombardi, por exemplo, ter uma maneira muito louca de criar suas mocinhas. Em "Uga Uga", a gente vê a Maria João, interpretada pela Viviane Pasmanter, ter uma faceta meio masculinizada. Algo completamente diferente das mocinhas convencionais. Isto faz com que ela não fique chata. E eu tento escolher meus trabalhos pelos meus personagens mesmo. Procuro ver se tem pano para manga ou não. Por isto, não tenho medo de ficar estigmatizada. Até porque também sou nova. Tenho 31 anos e seis novelas na carreira.
P - Você entrou em "O Cravo e a Rosa" quando a novela já estava em andamento. É complicado entrar numa produção pela metade?
R - Foi tranqüilo porque a novela já era um sucesso. Por isto, esta parte já estava garantida. Em contrapartida, eu tinha de entrar bem. A Marcela, no entanto, não é uma personagem que está muito longe de algumas coisas que eu já havia feito na televisão. Até com o próprio diretor Walter Avancini e o autor Walcyr Carrasco eu já havia feito a Violante, em "Xica da Silva", na Manchete, que foi um grande sucesso. Só que a Marcela tem uma veia mais cômica e este é o tom geral da novela, que não chega a ter um riso escrachado, mas é encantadora. "O Cravo e a Rosa" tem todo um charme e uma graça. E meu estilo de trabalho se encaixa com tudo isto: o de misturar um certo deboche, aliado a um riso engraçado. Tudo muito bem mesclado.
P - E a responsabilidade é maior quando se entra na metade de uma produção de sucesso?
R - A minha personagem é muito boa e tem uma importância indiscutível na história. Isto para mim já é um prêmio. Mas procuro não sentir o peso da responsabilidade. Tento esquecer isto. Acho que a pessoa pode até "amarelar" quando sente a responsabilidade. Acaba criando um clima de final de Copa de Mundo, de Ronaldinho "amarelando" no jogo decisivo contra a França... Acho isto péssimo. Acho que a gente tem de despir deste tipo de responsabilidade para que tenha o jogo e consequentemente aconteça o inesperado. A graça de tudo isso vem do desplanejamento e de um descompromisso que a gente tem com a realidade.
P - Como foi seu entrosamento com o elenco?
R - Este elenco é muito bom. É uma gente que vem do teatro, como Pedro Paulo Rangel, Eva Todor, Ney Latorraca, Maria Padilha, Luís Mello, entre outros. A nossa "cozinha" é muito divertida. A gente tem um olhar em comum e uma maneira de encarar e perceber a profissão de forma parecida. Isto acaba dando uma textura positiva no desenvolvimento da novela. E acho que o telespectador acaba percebendo este entrosamento.
P - Boa parte do elenco de "O Cravo e a Rosa" atribui o sucesso da novela, que vem mantendo uma média de 34 pontos no Ibope, ao trabalho do diretor Walter Avancini. Você concorda?
R - Com certeza. O Avancini segura uma novela como ninguém. Ele é bem rígido e não deixa que nada passe do limite da veracidade dos personagens. Mas também tem o trabalho do restante da equipe e dos demais diretores, que são bastante criteriosos. É uma galera que sabe explora todo potencial de um ator. Por tudo isso que "O Cravo e a Rosa" se torna uma novela graciosa.
P - E como está sendo seu reencontro com o Avancini?
R - Admiro muito ele, que uma pessoa preciosa para toda esta estrutura da televisão. Quando interpretei a Violante em "Xica da Silva" já tive a certeza do talento do Avancini. Ele tem uma sutileza e percepção incrível. Tudo fica mais fácil para nós, atores. No meio de uma novela, é muito comum criarem "barrigas". Mas ele sempre encontra uma maneira de motivar os atores. Todo momento ele lembra que toda cena é nosso grande momento. Outro valor do Avancini é não enfeitar muito. Ele dá a mesma atenção para todas cenas. Este é um dos segredos de um grande diretor.
P - Até que ponto o fato da novela ter uma frente de 20 capítulos também ajuda no trabalho dos atores?
R - Esta frente criada também está sendo fundamental para o sucesso da novela. Dá para toda equipe desenvolver um trabalho muito mais minucioso e detalhado. Mas tudo isto é porque houve um grande planejado antes do início da novela, que poderia ser seguido por todas as demais produções da casa.
P - Hoje você se sente mais valorizada e reconhecida na Globo?
R - Foi realmente fundamental ter saído naquela época. Não saberia dizer como seria a construção de minha carreira na casa se não tivesse ido para Manchete fazer "Xica da Silva". Ao mesmo tempo, eu era muito garota antes de ter mudado de emissora. Por isso, não sei também dizer se não era bem reconhecida assim. Quando fiz "Top Model", minha personagem Cida era de apoio, mas no transcorrer da trama ela ganhou boas cenas. Isto foi um reconhecimento. Acho que estou tendo um crescimento e amadurecimento natural.
P - Curiosamente a única novela da Globo que não vem sofrendo qualquer tipo de restrição por parte da Justiça é "O Cravo e a Rosa", que tem na frente da produção Walter Avancini, um diretor notoriamente reconhecido por sua ousadia. Como você vê toda esta celeuma?
R - O "Cravo e a Rosa" é uma novela leve. Seria extremamente espantoso o juiz Siro Darlan, da Vara da Justiça e Infância, criar qualquer tipo de caso. Tudo tem um limite. Sabemos que a participação de uma criança numa produção é uma questão complicada. Poderia estabelecer um bom senso. Só que o Siro vem sempre querendo criar celeuma em cima do nada. Em cima de uma coisa que um leve toque poderia resolver, mas ele cria uma balbúrdia. Ele deveria até ser convidado para fazer uma novela...
Ideologia nos palcos
Há mais de 12 anos, Drica Moraes integra a Companhia dos Atores. O grupo de teatro, liderado pela própria Drica e também pelo ator e diretor Enrique Diaz, procura fazer um trabalho itinerante em vários palcos do país. "É um projeto grandioso em nossa visão. A gente sempre trabalha com pesquisa de linguagem, música e artes plásticas", explica Drica, lembrando que o principal objetivo da companhia é fazer um projeto ideológico. "Pensamos em teatro como ofício e não comercialmente", completa. Atualmente, o grupo está percorrendo em todo país com a peça "O Rei da Vela", de Oswald de Andrade.
Neste espetáculo, que teve a primeira montagem em 1933, Drica interpreta Heloísa. A saudosa Dina Sfat chegou viver a mesma personagem no final da década de 70, numa festejada e premiada montagem do diretor José Celso Martinez Corrêa. Na história, um homem acaba ficando rico ao vender velas. "É uma peça bem divertida", define Drica, que não cansa de elogiar o trabalho do diretor Enrique Diaz.
Irmão do ator Chico Diaz, Enrique chegou a fazer televisão também. Ele interpretou o mameluco Aimbê, na minissérie "A Muralha". "Ele é um dos grandes diretores deste país. E também um grande ator", elogia Drica. "O problema tanto dele quanto do irmão é que os dois têm aquela cara de cangaceiro. Então, sempre sobram papéis de bandidos para eles", constata, divertida, a atriz.
Final prematuro
O sucesso em "O Cravo e a Rosa" ajuda a atenuar a frustração de Drica Moraes, que integrou o elenco do malsucedido programa humorístico "Garotas do Programa". "O problema é que o programa passava num horário cabeça de burro. Ninguém assiste televisão sexta-feira à noite. Foi uma precipitação tirar o programa do ar", imagina a atriz. "Garota do Programa" ficou no ar pouco mais de quatro meses e era exibido todas sexta-feiras, depois das 22 horas.
A produção, criada e protagonizada por mulheres, tinha como objetivo ser uma versão feminina do "Casseta & Planeta, Urgente!". Drica lembra que a proposta do programa era ousada, porém houve pouco investimento. Também teve a questão da falta de entrosamento do elenco, que ainda era formada por Marília Pêra, Camila Pitanga, Zezé Polessa, Beth Goffman e Mariana Hein. "Os cassetas, por exemplo, estão juntos desde os tempos do colégio, quando um tacava bolinha no outro ainda. Faltou tempo para gente mostrar um grande trabalho", acredita Drica.
Mas antes de fazer "Garotas do Programa", Drica viveu na Globo a sua primeira protagonista: a obstinada Madalena em "Era Uma Vez", de Walter Negrão. "Quando me convidaram para fazer a Madalena foi o reconhecimento de meu trabalho na Globo", enfatiza Drica. A estréia da atriz na Globo ocorreu em 1989, quando interpretou a empregada Cida, em "Top Model", também de Walter Negrão, com a parceria de Antonio Calmon.
Já em 91, ela fez "Lua Cheia de Amor". Na trama de Ana Maria Moretzsohn, Drica interpretou a cleptomaníaca Isabel. Em 94, antes de ir par Manchete, ela fez "Quatro por Quatro", de Carlos Lombardi. "Era uma ninfomaníaca que só queria dar para o personagem do Marcelo Serrado", recorda a atriz, sem esconder o bom humor.