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Márcio Garcia

Ator - Junho 2001

Interlocutor

Marcio Garcia diz estar feliz sendo "interlocutor" infantil, e que não pensa em abandonar o ‘Gente Inocente’

[Fonte - TV Press]

Quando se junta aos oito apresentadores-mirins do ‘Gente Inocente’, Márcio Garcia esquece seus 31 anos e se comporta como se tivesse uns sete. Do alto de seus 1,90 m de altura, o apresentador carioca brinca, conta piadas e faz as gracinhas típicas de qualquer menino travesso. Motivos para ele estar tão à vontade é o que não faltam. Desde que estreou no dia 9 de janeiro de 2000, o ‘Gente Inocente’ ainda não perdeu um domingo sequer para a concorrência. O programa registra uma média de 18 pontos no Ibope, contra 10 do SBT. "O programa está sendo a realização de um sonho que eu não sabia que tinha. Graças a Deus, ele faz sucesso sem recorrer a sensacionalismo ou bundalização", orgulha-se.

A boa audiência transforma o ‘Gente Inocente’ no único programa de auditório da Globo a não perder para o SBT nas tardes de domingo. Márcio Garcia, porém, não pleiteia os méritos para si. Segundo ele, o programa não faria metade do sucesso que faz sem o carisma e a simpatia de Henrique, Amanda, Peter, Matheus, Natália, Andressa, Pedro Lucas e Victor. Por isso mesmo, ele não se vê como um representante masculino da geração de Xuxa, Angélica e Eliana. Em vez de apresentador infantil, Márcio se classifica como um simples interlocutor. "Não atribuo o sucesso do programa a mim. Qualquer outra pessoa poderia estar fazendo o meu trabalho", minimiza.

Modéstia à parte, Márcio nunca pensou em se transformar em um ídolo da garotada. Mas, até alcançar o status de bem-sucedido apresentador infantil, penou bastante. Depois de apresentar o ‘MTV Sports’, Márcio se transferiu para a Globo em 1994, quando estreou em ‘Tropicaliente’, a primeira das cinco novelas em que atuou. De lá para cá, comandou ainda o malsucedido ‘Ponto a Ponto’ em 1996 e substituiu Miguel Falabella à frente do ‘Vídeo Show’ por dois anos consecutivos. Atualmente, Márcio não pensa em voltar a trabalhar como ator tão cedo. "Se depender de mim, o programa pode durar uns 10, 20 anos. Nunca estive tão amarradão quanto agora", garante, sorridente.

P - O ‘Gente Inocente’ é o único programa de auditório da Globo a ganhar do SBT aos domingos. Como você vê isso?

R - O ‘Gente Inocente’ está invicto até hoje. Nunca perdeu na audiência. Mas sofremos muito para deixá-lo do jeito que está. Como ele era diferente de tudo que havia na Globo, muita gente torceu o nariz: "Será que vai dar certo?". Graças a Deus, estreou bem e continua bem até hoje. Fico muito orgulhoso por participar de um projeto que consegue registrar uma audiência acima da esperada, sem qualquer tipo de sensacionalismo ou apelação. Ninguém precisa colocar a bunda para fora ou apresentar um homem com tromba para o programa fazer sucesso. Ele funciona sem recorrer a qualquer tipo de desgraça.

P - Você não gostaria que o programa fosse ao vivo para acirrar ainda mais a briga pelo Ibope?

R - Não sei se valeria a pena correr esse risco. Até mesmo porque criança fala muita coisa inusitada. Há perguntas que só as crianças podem fazer. Elas sabem disso e fazem. Algumas pessoas acham que é tudo armação. Mas não é verdade. A produção até sugere algumas perguntas, mas as melhores são as que elas inventam na hora. Elas sempre têm umas tiradas muito legais. Gravamos uma média de sete horas para aproveitar, no máximo, 45 minutos. Na hora da edição, selecionamos as melhores perguntas. Quero que elas se sintam à vontade. Afinal, o programa é delas. Se o time está ganhando, por que mexer nele?

P - Embora o programa não seja ao vivo, você é daqueles apresentadores obcecados pelos números do ibope?

R - É claro que isso me preocupa. Afinal, não adianta o programa ser lindo e maravilhoso e registrar apenas 10 pontos no Ibope. Eu me preocupo com a saúde do programa. No entanto, ele superou todas as expectativas de audiência, tanto as da Globo quanto as minhas. O ‘Gente Inocente’ está andando nos trilhos. O trilho atual é de 15 pontos e o programa dá entre 17 e 20. Já chegamos a 25. Uma das responsáveis pelo sucesso do programa é a diretora Cininha de Paula. Recentemente, a Globo quis remanejá-la, mas não deixei. Bati o pé. As crianças também já pegaram a manha. No começo, elas ficavam inibidas diante das câmaras e da platéia. Hoje, já viramos uma grande família.

P - Até quando você pretende apresentar o ‘Gente Inocente’?

R - Pelo que tudo indica, esse programa ainda vai durar um bom tempo. Por mim, ele poderia durar uns 10, 20 anos. Não me importo. Ele abriu um espaço novo na tevê. Estava cansado de ver programas muito parecidos entre si, todos com a mesma cara. Nenhum outro dá tanto espaço para a criançada quanto o ‘Gente Inocente’. Enquanto o programa estiver rolando sem estresse, estou dentro. As gravações fluem com muita tranquilidade. O astral do programa é sempre leve, descontraído. Os adultos podem até chegar estressados à gravação, mas as crianças logo dão uma "equalizada". Quando aparece alguma delas rindo ou brincando, a gente logo se acalma. É impressionante.

P - O clima nos bastidores do programa é melhor do que o de uma novela, por exemplo?

R - Sem dúvida. No ‘Gente Inocente’, ninguém trabalha por obrigação ou sacrifício. E o mais bacana é que esse clima descontraído chega ao telespectador. Não existe nada pior do que você olhar na coxia e ver alguém com a cara amarrada. É sinal de que alguma coisa não está bem. Isso não acontece por lá. E olha que o ritmo de gravação é mais acelerado do que o de uma novela. Em um mesmo dia, gravo vários programas. O ritmo é pauleira. Mesmo assim, a produção flui na maior tranqüilidade.

P - O seu último papel em novelas foi o Arnaldinho de ‘Andando nas Nuvens’. Você não sente saudade de atuar?

R - É claro que sinto. Às vezes, bate uma saudade danada. Outro dia mesmo, encontrei o Jayme Monjardim num shopping e ele perguntou se eu não queria trabalhar com ele. É claro que eu quero. Mas essa decisão não depende só de mim. Depende da emissora. O ‘Gente Inocente’ é a realização de um sonho que eu não sabia que tinha. Os convidados comparecem ao programa com o maior prazer e saem de lá muito satisfeitos. Ninguém vai por obrigação. Alguns falam: "Puxa, Márcio, não sabia que era assim...". Outros até se emocionam. Estamos sempre superando as expectativas dos convidados. Isso é muito gratificante.

P - Você descarta a hipótese de conciliar as gravações do programa com as de uma novela?

R - Não descarto essa hipótese, mas vai depender do personagem. O problema é que você fica vendo por muito tempo o mesmo personagem no vídeo. O perigo é quando a criança vê o ‘Gente Inocente’ e diz: "Ih, olha lá o Arnaldinho...". Já imaginou? O Arnaldinho não era exemplo para criança nenhuma. E não quero criar uma imagem ruim para o público que assiste ao programa. Pode até ser que, daqui a um ano, a minha imagem como apresentador já esteja consolidada. Aí, pode ser que eu faça uma novela. Mas, por enquanto, não há nada em vista.

P - O fato de já ter apresentado o ‘MTV Sports’ facilitou sua adaptação no ‘Gente Inocente’?

R - Com certeza. O ‘MTV Sports’ me deu bastante "cancha" para fazer o ‘Gente Inocente’. Era tudo no improviso. O diretor virava para mim e falava: "Fala aí, meu irmão. Solta o verbo...". E eu me danava a falar. Hoje, não sei se conseguiria fazer a mesma coisa. Mas foi um programa que me deu muita base. Eu tinha de me virar com quase nada. Não podia deixar a peteca cair. Era eu, numa externa, entrevistando um convidado desconhecido sobre um esporte mais desconhecido ainda. Era como tirar leite de pedra. Mas peguei intimidade com a câmara e desenvoltura como apresentador.

P - Em 1996, já na Globo, você apresentou o ‘Ponto a Ponto’. Por que o programa não deu certo?

R - O ‘Ponto a Ponto’ tinha umas coisas que eu não entendia. Quando você assiste a um programa de competição, quer torcer por alguém. Lá, não tinha por quem torcer. Era um colégio daqui, um de lá e outro de acolá. "Vou torcer por qual? Não estudei em nenhum deles..." Logo, tive a idéia de escalar um "padrinho" para cada equipe. Mais adiante, cada equipe passou a defender as cores de um clube de futebol. Gostei da experiência porque o ‘Ponto a Ponto’ era muito dinâmico. Tinha 11 câmaras e ficava três horas no ar. Apesar de tudo, não funcionou. Funcionar significa dar ibope. Se não dá ibope, eles tiram do ar.

P - Você imaginava que, um dia, fosse fazer sucesso como apresentador de programa infantil?

R - Não me coloco como um apresentador infantil. Eu me vejo mais como um interlocutor. É evidente que tenho um crédito como apresentador, mas não sou o único responsável pelo sucesso do programa. A minha maior preocupação é não aparecer demais. Nem atrapalhar as crianças. Gosto de deixá-las à vontade. Não gosto de ficar intervindo o tempo todo. Nem gosto de ficar traduzindo o que elas falam. Isso é muito chato. Mas também não sou um general que fica dando bronca. Todos me obedecem para caramba. Ao mesmo tempo que me obedecem, quando têm de fazer silêncio ou prestar atenção, têm toda a liberdade do mundo para perguntar o que quiserem. Sou o irmão mais velho da molecada.


Carreira diversificada

Quem vê o ator Márcio Garcia esbanjando desenvoltura à frente do programa ‘Gente Inocente’ não consegue imaginar que ele começou a carreira como modelo. Em 1989, ele foi buscar uma namorada que trabalhava na agência Elite e chamou a atenção de um caça-talentos. Dois anos depois, decidiu fazer Oficina de Atores da Globo. Irrequieto, deixou um "videobook" na emissora e foi tentar a sorte na MTV. Dois anos depois, recebeu um convite do diretor Paulo Ubiratan para fazer ‘Tropicaliente’, de Walter Negrão. "Falei que não abriria mão da MTV e ele topou. Afinal, o programa era meu e podia fazer nele o que bem entendesse", gaba-se.

Foi assim que Márcio tornou-se o primeiro contratado da Globo a conciliar duas produções: uma na tevê aberta e outra na tevê por assinatura. Na MTV, continuou por mais dois anos. Neste período, fez o romântico Guiga de ‘Cara & Coroa’ e o arrogante Nando de ‘Anjo de Mim’. Em seguida, foi convidado para fazer um papel em ‘A Próxima Vítima’, mas se viu obrigado a recusar o convite ao ser chamado para interpretar o índio Peri em ‘O Guarani’, adaptação de Norma Benguell para o romance de José de Alencar. "Sei que o filme não foi bem de crítica, mas muitos colegas de trabalho elogiaram muito minha atuação. Isso me gratificou bastante", avalia.

No cinema, Márcio só voltou a atuar em ‘Zoando na TV’, de José Alvarenga Jr. No ano que vem, ambiciona estrear também como roteirista e diretor. Ele já finalizou o roteiro de ‘O Pacifista’, que mistura espionagem e paranormalidade. Como se não bastasse ter assinado o roteiro, Márcio também pretende dirigi-lo. Para o papel principal, o nome mais cotado é o de Alexandre Borges. Enquanto o sonho de virar cineasta não se realiza, Márcio se aventura na direção de um videoclipe: Quero Viver, do cantor Bukassa. "Sempre tive vontade de enveredar para trás das câmaras. Era algo que ia acontecer mais cedo ou mais tarde", garante.


Visão empresarial

Quando completou 15 anos, Márcio Garcia resolveu gastar todas as economias que tinha na compra de metros e metros de tecido das mais variadas estampas. Em seguida, pagou uma costureira para fazer shorts, bermudas e moletons. Por fim, decidiu vender algumas peças no colégio em que estudava e dar outras para a irmã tentar vender no trabalho. Por conta deste óbvio tino para os negócios, Márcio não titubeou em fazer Administração. A intenção do rapaz era gerenciar uma transportadora de pequeno porte, de propriedade do pai. O futuro ator, porém, desistiu da faculdade ao colocar os pés na MTV. "Desde pequeno, sempre gostei de ter idéias e de transformá-las em dinheiro", brinca.

Mesmo depois de ter trancado o Curso de Administração na Universidade Santa Úrsula, na Zona Sul do Rio, Márcio Garcia continuou investindo na carreira de microempresário. Desde então, já empresariou um grupo de pagode, foi dono de uma griffe de roupas e abriu um restaurante em sociedade com o jogador Ronaldinho. Nenhum destes negócios, porém, vingou para contar a história. O único que Márcio pretende retomar é o negócio de roupas. O departamento de licenciamento da Globo estuda a possibilidade de utilizar a Eject, a antiga griffe de Márcio Garcia, em uma possível marca do ator. "Infelizmente, tive de abandonar o navio. Era muita matemática para poucos lucros", lamenta.

Mas o ator não é do tipo que desiste à toa. Atualmente, Márcio é sócio da Storm, marca de relógios, e da MD, empresa de multimídia. Paralelamente a estas e outras atividades empresariais, ele já entrou em negociação com a Globo para rentabilizar o sucesso do ‘Gente Inocente’. De olho no público que assiste ao programa, o ator planeja lançar os mais variados produtos, como cadernos, mochilas e jogos. O primeiro passo deve ser o lançamento de um CD do programa dominical da Globo pela gravadora Som Livre. Os convidados, porém, ainda não foram selecionados. A única certeza é que Márcio vai gravar uma das faixas. "Mas não quero fazer disso uma profissão. Senão, vira uma salada só", reconhece.