Sob a proteção de Iemanjá, Marcos Palmeira volta à cena sem medo de estereótipos em "Porto dos Milagres"
[Fonte - Estadão]
Ele agora é um homem do mar. Pele bronzeada, tatuagem temporária e uns 3 quilos mais magro, Marcos Palmeira está de volta à TV na pele do pescador Guma, protagonista de "Porto dos Milagres", nova novela das 20h da Globo.
Em entrevista ao Estado, Palmeira fala sobre o misticismo em torno de seu personagem, o prazer de trabalhar novamente com Antônio Fagundes e de sua volta às novelas com um personagem rústico. Diz ainda que não se sente pressionado pelo alto ibope de "Laços de Família". Estado - Como é a relação entre seu personagem e Iemanjá? Marcos Palmeira - Acho que essa é a parte mais delicada da novela. O texto do autor tem procurado ser o mais respeitoso possível com a religião, e nós também. Eu nunca estive ligado ao candomblé, e agora faço um personagem totalmente místico. O Guma é protegido por Iemanjá, chega a pedir coisas e é atendido por ela. É tudo muito místico. Tive de realizar um trabalho de pesquisa grande sobre a religão e acabei descobrindo relação de familiares meus com o candomblé. Tinha uma bisavó ligada a isso, e por acaso também descobri algumas raízes de minha família na Bahia, na mesma região onde está sendo gravada a novela. É uma feliz coincidência. É um novo caminho que estou descobrindo. Sempre achei o espiritismo uma religião interessante. Das que existem é a que eu mais me identifico, mas nunca tive uma religião. Estou procurando respeitar, para que não haja conflito com os praticantes. Estado - Você aceitou logo o convite? Palmeira - Foi complicado, pois eu não queria mais emendar uma novela na outra. Tinha acabado de fazer isso com Torre de Babel e Andando nas Nuvens. A gente diz que nunca vai fazer isso de novo, mas sempre é pego pelo personagem. Tudo me encantou para fazer o Guma, princi palmente o romance de Jorge Amado, que fala do amor puro. Eu também nunca trabalhei com Aguinaldo Silva e adoro o realismo-fantástico de suas obras. Estado - E como é o Guma? Palmeira - É um pescador protegido por Iemanjá, que vai lutar pelos direitos de sua classe, lutar pela despoluição das águas, lutar contra o personagem do Fagundes, que vai ser o único comprador de peixe da região. Tive que rever uma porção de coisas dentro de mim para construir o personagem e acho que ele ainda não está pronto. Estou muito distante do que imagino que ele possa ser. O Guma é o homem puro, que vai provar do amor verdadeiro pela primeira vez. Para mim, é um resgate de sentimentos: faz muito tempo que eu senti isso. Acho que me identifico muito com ele. Só não sei pescar, mas vou tentar enganar vocês (risos). Estado - Houve alguma preparação física para o personagem? Palmeira - Claro que houve. Tive de tomar mais sol, pois ele é um homem do sol, do mar, coisa que eu adoro. Sempre que posso nas gravações fico de bermuda tomando sol. Tive de fazer uma tatuagem temporária de Iemanjá no braço e emagrecer um pouco. Não sei ao certo quantos quilos, mas acho que meu personagem tem de ser mais leve, mais enxuto. Dei uma secada no corpo, pois o Guma é mais jovem. Eu tenho 37, ele deve ter uns 25 anos. Acabei correndo e nadando mais e cuidando melhor da alimentação. Descobri que não adianta nada malhar se você come mal. Como agora muita salada e peixe, muito peixe, peixe até demais (risos). Estado - Mas você tem essa preoucupação com a estética, com apelo sensual do personagem? Palmeira - Minha preocupação com estética é zero, se estou bonito, se estou feio, não penso nisso. Já a exploração sensual do personagem é uma decisão do diretor. Em princípio, eu só vou trabalhar em cima da emoção. Estado - Como é voltar a viver um personagem rústico? Palmeira - É ótimo. Gostei muito de fazer Andando nas Nuvens, Torre de Babel, mas acho que personagens como o Guma me dão uma sensação mais prazerosa, uma certa liberdade a mais para atuar. Não tenho preocupação em fazer personagens parecidos. Acho que meus personagens são bem distintos. O Guma não tem nada a ver João Pedro de Renascer, nem com João Coragem. Pelo menos, é o que eu acho. Estado - Não o assusta a responsabilidade de manter a boa audiência deixada por `Laços de Família'? Palmeira - Acho que é a Marluce (Dias da Silva, diretora-geral da Globo) que se preocupa com isso. Nós vamos tentar fazer o melhor possível aqui, substituindo quem quer que seja. Isso não é mais uma responsabilidade para dar ao personagem. Minha preocupação hoje é com o Guma e com o grupo, essa coisa de ibope realmente não me estressa. Espero que a gente faça tanto ou mais sucesso que Laços, mas se eu ficar pensando nisso, não faço o que realmente tenho de fazer, que é atuar. Estado - E como é protagonizar mais uma vez uma trama das 8 ao lado de Antônio Fagundes? Palmeira - Dessa vez ele está sendo meu pai e meu tio, e é muito bom. Sem querer, nossas carreiras vão se cruzando. Eu fui ele jovem no filme do Villalobos, fui filho no cinema, fui filho na novela Renascer. É ótimo trabalhar com ele, nos damos muito bem. Estado - Com toda essa correria das gravações, dá tempo de ver a Ana Paula (Arósio)? Palmeira - Tem que dar. Acho que agora em março retomamos a nossa peça de teatro e vamos viajar primeiro pelo interior de São Paulo. Aí terei de conciliar as gravações da novela durante a semana e a peça nos finais de semana, vai ser corrido, mas a energia da TV eu recupero no teatro. Estado - E vocês não pensam em trabalhar juntos na TV? Palmeira - Não nos preocupamos muito com isso, acho que não temos problema em fazer par romântico na TV. Seria muito bom. Por coincidência, até agora não surgiu nenhuma proposta para trabalharmos juntos na televisão. Também, só estamos juntos há um ano e meio. Daqui a uns 15 anos você pode fazer essa mesma pergunta. Garanto que aí, sim, será muito esquisito a gente não ter feito nada junto. Lembre-me disso daqui a 15 anos (risos).