Um Toque de Classe
Aos 47 anos, Natália do Valle não pára de emprestar seu estilo elegante para papéis como a matriarca Dulce, de "Aquarela do Brasil"
[Fonte - TV Press]
Duas décadas após seu primeiro personagem marcante, a Márcia de "Água Viva", o tempo parece correr a favor de Natália do Valle. Aos 47 anos, Natália não pára de emprestar seu estilo elegante para papéis sensuais. Como a matriarca Dulce na minissérie "Aquarela do Brasil", da Globo. "Felizmente os autores perceberam que mulheres nesta faixa etária também podem ser importantes numa trama. Antigamente, não era assim", explica a atriz, sem traços de saudosismo. O maior reflexo de que a personagem de Natália na trama de Lauro César Muniz vem funcionando é o retorno junto ao público. Principalmente depois que Dulce soube que estava sendo traída pelo marido Armando (Odilon Wagner). "Ela demonstrou dignidade ao dar um basta no casamento. Muitas mulheres me disseram nas ruas que se identificaram com a atitude dela", garante Natália. Até o final de "Aquarela do Brasil", a personagem promete uma nova virada. "Ele vai acabar assumindo a direção da Rádio Carioca", antecipa a atriz. Outra razão que motiva Natália ao participar desta minissérie é o fato da produção reviver um pouco da história do rádio e também da Segunda Guerra Mundial. "Este trabalho está servindo como um resgate, principalmente para os mais jovens, que estão tendo a oportunidade de conhecer um pouco de nossa História", acredita a atriz, que não perde o entusiasmo nem na hora de falar da audiência da minissérie. "Aquarela do Brasil" vem mantendo uma média de 25 pontos no Ibope, bem abaixo dos 35 esperados pela direção. "É impossível uma produção atingir uma média como esta depois das 23 horas", minimiza a atriz, que vem conciliando as gravações da minissérie com a peça "A Vida Passa", de Miguel Falabella, no Teatro Vanucci, no Rio de Janeiro. O espetáculo é uma continuação da peça "A Partilha", também de Falabella, que ficou cinco anos em cartaz.
P - Interpretar uma mulher que reage à traição do marido desperta empatia nas ruas? R - Não há um lugar que eu vá, independentemente do segmento cultural, social ou econômico, que as pessoas não falem da decisão dela, que foi a de ter largado o marido depois que soube que estava sendo traída. Há quem diga que a Dulce era submissa ao marido. Não é verdade. Ela é uma mulher chique, com boa formação e que foi educada dentro dos padrões da época. Ela também exerce uma função social, o que era confortável para os maridos da época. Então, na sua forma, ela aparenta quase uma submissão. Mas na sua essência, ela é uma mulher moderna. Ela é bem arrojada e que sabe o quer. Só que por ser uma mulher tradicional, a gente hoje em dia acha que tem de partir para o confronto. Foi para um caminho diferente, mas atingiu seu objetivo que era desmascarar o marido. Muitas mulheres acabam se identificando com as atitudes dela, que apesar da traição do marido, não se tornou uma mulher amargurada. P - Você se identifica com a Dulce? R - O que tenho de em comum com ela é o otimismo de ver a vida. Ela nunca perdeu a esperança de ser feliz, sem renegar seu passado que foi importante. Ela guarda boas recordações do casamento com Armando, vivido pelo Odilon Wagner. Acho importante que as pessoas saibam guardar bons momentos de seu passado. Mas nos capítulos finais da minissérie, a Dulce vai dar uma grande virada. Vai se colocar à frente daquela época ao assumir a direção da Rádio Carioca. Nos anos 40, era um avanço uma mulher assumir um posto tão importante como a de ser diretora de uma rádio. P - Com 25 anos de carreira, está é a primeira minissérie que você participa. Você acha que os autores estão reservando papéis de destaque para mulheres acima dos 40 anos? R - Com certeza, mas esta conquista é mérito de nós, mulheres. Hoje em dia, as mulheres nesta faixa etária são mais arrojadas, e consequentemente são reconhecidas e valorizadas. Temos como exemplo recente a Marta Suplicy, que acaba de ser eleita prefeita de São Paulo. A mulher mais velha vem conquistando espaço na nossa sociedade. Isto é muito importante. E em se tratando de televisão, os autores perceberam que as mulheres acima dos 40 têm uma função importante no nosso cotidiano. P - Nunca houve a preocupação de não ser devidamente reconhecida com o passar dos anos? R - Eu nunca penso em ser a protagonista. Penso no que o papel pode me dar de bom e me acrescentar profissionalmente. Na minissérie, por exemplo, a protagonista é a Maria Fernanda Cândido. Mas estou satisfeita com a minha participação. Gosto de papéis que têm a dizer numa história. E com a Dulce acho que está acontecendo isto. Ele não passa despercebida e tem algo a dizer. Isto que é o grande barato. P - "Aquarela do Brasil" tem como pano de fundo a era do rádio no Brasil e a Segunda Guerra Mundial. Seu trabalho na minissérie fez com que você mudasse sua visão sobre alguns fatos de nossa História? R - Com certeza. Além disso, "Aquarela do Brasil" também motiva os mais jovens a conhecer melhor nosso passado. E o Lauro está contando muito bem esta história aliada a uma ficção dramatúrgica. O Lauro é um excelente pesquisador. A minissérie também está servindo para os mais velhos, como ex-combatentes do exército e cantoras, que estão tendo a oportunidade de reviver seu passado nesta produção. P - Nesta minissérie você está trabalhando com atores jovens como Maria Fernanda, Thiago Lacerda e Fernanda Rodrigues. Que tal esta nova safra de atores na televisão? R - Acho que tem muita oferta, porém, muita gente boa no mercado. Acho apenas que a tevê tem que tomar mais cuidado na hora de selecionar os atores. Existem muitos pretendentes a atores que não estão preparados. A televisão deve investir mais na formação. Seria interessante ampliar mais ainda a Oficina de Atores. Fazer uma preparação mais detalhada. Não fazer um curso rápido de interpretação ou impostação de voz e depois de dois meses coloca o jovem aspirante de ator no ar. Mas quem consegue se destacar com toda esta oferta é porque é bom e tem talento. P - Com tantos anos de carreira, você tem predileção por algum personagem? R - Esta é uma pergunta difícil de responder. Tenho carinho por todos. "Água Viva", por exemplo, foi um trabalho marcante porque foi minha estréia na televisão. Já "Baila Comigo" foi a novela onde conheci Tony Ramos, um grande ator com quem voltei a trabalhar em "A Próxima Vítima" e depois em "Torre de Babel". P - Ao final de "Aquarela do Brasil", você já tem outros projetos? R - Na televisão, quero descansar e só voltar daqui um ou dois anos. Em 2001, pretendo viajar com a peça "A Vida Passa" por todo país.Sob as luzes da ribalta
Durante cinco anos, Natália do Valle integrou ao lado das atrizes Susana Vieira, Arlete Salles e Tereza Píffer a festejada peça "A Partilha". Na peça de Miguel Falabella, as quatro irmãs "brigavam" pela herança deixada pelo pai durante o velório. Na pele da intransigente Selma, Natália interpretava a mais arrogante das irmãs. Dez anos depois, o autor da peça resolveu dar sequência ao espetáculo com o título "A Vida Passa". Nesta nova história, o autor mostra o que mudou na vida das quatro irmãs depois de uma década. "De todas produções que já participei em minha carreira, esta peça é um dos trabalhos mais aguardados pelo público", acredita Natália. A atriz, no entanto, tinha um certo receio quanto ao sucesso do novo espetáculo. Principalmente por causa da cobrança. Em 1990, quando foi feita a montagem no Rio, ela lembra que Miguel Falabella não era um autor reconhecido do público e da crítica. "Tinha medo que muitos acusassem o Miguel de estar pegando carona no sucesso da 'A Partilha'. Mas ele consegui, com toda sua inteligência e brilhantismo, fazer um trabalho totalmente diferente", imagina Natália. Mas, mesmo com o sucesso de "A Partilha", Natália e toda equipe é que estão financiando "A Vida Passa". A idéia de fazer "A Partilha", segundo Natália, começou quando ela e a própria Arlete Salles trabalharam com Falabella na novela "O Outro", de Aguinaldo Silva, exibida em 1987. "Ele prometeu que iria fazer uma peça especialmente para gente. Desde então, passei a cobrá-lo com freqüência", conta Natália. Ela reconhece que foi justamente na "A Partilha" que foi reconhecida como uma atriz de teatro. Justamente pela paixão de atuar nos palcos que Natália sempre prefere fazer contratos curtos na Globo. "É uma maneira de me dedicar nos palcos. Mas adoro fazer televisão e por isso, não abro mão de fazer", avisa a atriz.Estréia discreta
O nome da atriz Natália do Valle ganhou destaque nacional na novela "Água Viva", em 1980. Mas poucas pessoas sabem que sua estréia na tevê ocorreu em 1975, na bem sucedida "Gabriela". Nesta produção, ela fez uma ponta na pele de Aurora. "Foi uma participação, rápida de apenas dez capítulos, porém, marcante porque tive a oportunidade de ser dirigida por Walter Avancini", recorda a atriz. Nesta época, Natália ainda não havia decidido seguir a carreira de atriz. Ela já havia feito teatro amador no Rio de Janeiro, mas não sabia se iria ser aceita pela classe artística. Por isso, resolveu se mudar para São Paulo para fazer a Faculdade de Filosofia. "Quando entrei na faculdade foi mais com objetivo de ter um curso superior. Naquela, época também não sabia o que queria", reconhece. Depois de ganhar projeção com a novela "Água Viva", ela participou de produções como "Transas e Caretas", "Baila Comigo", "Final Feliz", "Cambalacho", "Olho no Olho", "A Próxima Vítima" e "Torre de Babel", entre outras. Natália também participou de alguns episódios do "Você Decide", mas a estréia em minissérie só está acontecendo agora em "Aquarela do Brasil". "Estou gostando do ritmo de trabalho. Dá para fazer uma produção mais elaborada", acredita.