DEE SNIDER NO BRASIL
" O BRASIL ESTÁ PREPARADO PARA O HEAVY"
Dee Snider veio ao Brasil praticamente incógnito para promover os discos do Twisted Sister já lançados aqui ("Stay Hungry" e "You Can't Stop Rock'n Roll") e o lançamento de "Under The Blade", o primeiro disco do grupo. Snider aproveitou a passagem pelo Rio para conceder esta entrevista a METAL, onde falou do passado e do futuro do grupo, de sua carreira e de seu atrito com a MTV, a tv a cabo americana só de vídeos de Rock, quando esta decidiu realizar um corte nos vídeos de heavy, prejudicando muito o Twisted Sister.
METAL:
Por que as gravadoras recusavam o Twisted Sister mesmo quando
vocês já eram conhecidos na área de Nova York?
Dee Snider: Houve muitas razões. Nós éramos o Twisted Sister e
as gravadoras nos odiavam. Odiavam nosso visual, nossas
canções, nossas perfomances ... tudo. Nós surgimos na mesma
época da explosão da discotheque e essa moda absorveu as
gravadoras. Depois a new wave, o funk, o break ... Foi por
descaso na América que fomos para a Inglaterra.
METAL:
A propósito, a maioria das bandas procura a Inglaterra - será
que o sucesso lá é mais fácil?
DS: Sim e não; veja, na década de 50, os EUA produziram uma
coisa nova que mudou a música, o rock. Com a invasão inglesa da
década de 60, a Inglaterra passou a ser o centro da atenção -
até hoje. O mundo passou a Grã Bretanha como exemplo e, se
você desenvolve um bom trabalho e faz sucesso lá, você
conquista o mundo. Agora, o inglês não gosta muito do som da
América. Acontece que nós não soamos como uma típica banda
americana; as minhas maiores influências são Alice Cooper,
Black Sabbath e AC/DC, e só um deles, Alice, é americano. A
tradição mostra que não soavam como a maioria iam para a
Inglaterra. Veja o Jimi Hendrix Experience, por exemplo.
METAL:
Como você faria uma comporação entre o Heavy Metal americano e
o Inglês ?
DS: Chega a ser difícil a comparação. A maioria das bandas
americanas descende do Kiss que por sua vez, descende de bandas
inglesas. O heavy inglês tem mais tradição. Os americanos não
encaram muito a atitude; você vê que o negócio deles é mais o
espetáculo. Os ingleses são mais heavy.
METAL:
Vocês são famosos pela sua energia, sua comunicação direta
com a platéia, e você é o centro dessa energia. Qual a razão
para isso?
DS: Isso é algo que vem de muito tempo. Eu era admirador
fanático de Alice Cooper, não perdia um show dele. Como fã, eu
queria mais energia, queria comunicação, queria força, queria
rock (alusão à musíca "I Wanna Rock"). Hoje, eu
procuro uma maior proximidade entre o palco e a platéia; chego a
conversar com as pessoas das primeiras filas. Num show nosso não
tem espaço para solos de meia hora porque isso corta a
seqüencia dos shows. É por isso que os discos de estúdio não
são tão importantes quanto aos shows; é nos shows que travamos
contato com o público, onde passamos nossa agressividade pra
eles. Nós temos um pouco da agressividade dos punks.
METAL:
Essa agressividade parece mais uma filosofia. Qual é a
importância dela para o grupo e como o sucesso a afeta?
DS: Boa pergunta. A agressividade é uma marca característica
nossa; no dia em que a perdemos, deixaremos de ser o Twisted
Sister. O problema é que o sucesso tolhe a agressividade. Quando
você está começando, tem que lutar por tudo. Muitas vezes
você perde e cada derrota causa mais revolta. O Twisted sempre
foi uma banda marcada; as gravadoras nos odiavam, as pessoas não
nos viam com bons olhos na rua. Hoje o sucesso inverteu esse
quadro: não temos mais problemas de dinheiro; as gravadoras nos
adoram; todos os teatros querem que roqeumos; quando eu saio na
rua, só vejo sorrisos e gente acenando. É claro que surgem
novos problemas, mas numa proporção muito menor, até que a
agressividade acaba. Para o Twisted, perder a agressividade seria
fatal, pois não seríamos mais o mesmo grupo. Pegue o exemplo do
Rainbow: com Dio e Cozy Powel, eles eram heavy e faziam sons
incríveis como Stargazer"; depois, Dio e Cozy foram saindo
e o grupo foi perdendo suas características até chegar em
"Street Of Dreams", que até que é uma canção
bonitinha, mas não é Rainbow. Acho que Blackmore deveria ter
mudado pelo menos o nome do grupo, se queria fugir ao estilo. No
Twisted, nós temos essa consciência que nos impedirá de seguir
quando a agressividade acabar. Acontece que foram oito anos de
muita luta e nós ainda temos muita agressividade acumulada.
METAL:
A maioria dos fãs achou " You Can't Stop Rock'n Roll "
um disco mais visceral, mais pesado que "Stay Hungry".
Em relação a "Under The Blade", como você explicaria
isso?
DS: Eu gosto muito dos três discos, pois o Twisted é o mesmo; o
que muda tudo é a produção. Under The Blade; nosso primeiro
disco, foi produzido por nós e feito em duas semanas num
estúdio alugado, com quase nenhum dinheiro. Era tudo gravado de
primeira e ficava assim para baratear o total. As músicas não
diferem muito das de Stay Hungry mas , por estarem menos
produzidas, pegaram mais o clima dos shows. É um disco muito
pesado, quase hardcore. Para You Can't Stop Rock'n Roll, nós já
tivemos um pouco mais de dinheiro para a produção ; por isso,
pudemos fazer um trabalho mais bem acabado. O produtor que
trabalhou conosco, Stuart Epps, não nos tolheu, deixou que o
trabalho fluísse naturalmente. O problema de Stay Hungry é que
a banda era a mesma e o produtor não. Tom (Werman, o produtor)
é alguém que entende tudo de estúdio mas tem umas idéias
muito próprias sobre rock pesado, o que causou uma certa mistura
no som. Nós estamos sempre buscando coisas novas em estúdio.
Não queremos que nossos discos sejam como os do Judas Priest,
que são muito bons mas são exatamente iguais aos shows. É ai
que entra o produtor, pois é ele que dá o tratamento à
música. Uma mesma canção produzida de maneira diferente gera
reações diferentes nas pessoas.
METAL:
Você já está pensando no próximo disco ?
DS: Sim. Mesmo agora, enquanto falo com você sobre "Stay
Hungry", minha cabeça está no próximo disco. De cinco em
cinco minutos, me pilho pensando nas canções que vão entrar,
nas fotos, na capa, no encarte, em tudo. O produtor será Bob
Ezrin, que já produziu Alice Cooper, Kiss, Pink Floyd e Lou
Reed. Mesmo sem ser necessário heavy, ele sabe fazer um trabalho
de alta qualidade sem tolher o som do grupo. Ainda não tem
título definido.
METAL:
Você vai compor todas as canções como nos outros discos?
DS: Sim, mas isso não significa que eu seja uma espécie de
"dono do grupo". Quando eu entrei em 1976, Eddie e Jay
Jay também compunham, mas as músicas não tinham nada haver com
o espírito da banda. Quando eu comecei a compor, vimos que
minhas canções se enquadravam mais com o Twisted. Mas nosso
processo de criação não é totalmente individual. Todos
participam das músicas e dos arranjos, dando um toque pessoal. O
que ocorre é que as influências dentro do Twisted são muito
díspares. Os guitarristas (Ojeda e French) gostam de blues, rock
dos anos 60 e músicos como Hendrix, Clapton, Beck e Page; o
baterista (A.J. Pero) é mais ligado a jazz e bateristas mais
técnicos como Carl Palmer, Neil Peart e Phil Collins; o baixista
veio de uma banda punk e transa mais o peso propriamente dito.
Todos têm seus estilos e nenhum destes é o estilo da banda.
Acredito que, mais dia menos dia, os membros do Twisted devem
estar com trabalhos solo, inclusive eu. Só que um projeto solo
meu não seria igual, a um disco solo do Twisted Sister porque,
como eu disse, os membros da banda são um júri que julga as
canções conforme seus gostos pessoais, gerando algo que tem a
ver com todos.
METAL:
Seus vídeos são muito populares aqui, especialmente "We're
Not Gonna Take It". Vocês pretendem fazer mais vídeos como
este? Soubemos ainda que vocês fariam um filme, é verdade?
DS: Sim. eu já estava com tudo acertado junto a uma produtora,
mas aconteceram alguns problemas e foi tudo cancelado. Tenho
trabalhado no roteiro e contatado outras produtoras e pretendo
fazer esse filme em 1986. Quanto aos vídeos, eles são muito
importantes para o Twisted , mormente os do tipo "We're Not
Gonna Take It", e pretendemos seguir essa linha. O que tenho
reparado é que a maioria dos vídeos de rock, não apenas de
heavy, está esquecendo o bom humor, a diversão. Só sabem
mostrar guerras, morte, destruição ... nunca mostram o lado
engraçado do rock. Nossos vídeos não se limitam à
transmissão de uma idéia: querem divertir também.
METAL:
E como você vê a restrição da MTV aos vídeos de heavy metal?
DS: Bem, eu tenho novidades: A direção da MTV voltou atrás e,
não apenas recolocou todos os vídeos pesados como me chamou
para produzir e apresentar um programa de três horas semanais
só com vídeos metálicos. O que tinha acontecido era que o
heavy havia despertado muitos ódios e algumas pessoas resolveram
boicotá-lo sob alegação de vídeos tiravam o espaço de pops
como Duran Duran e Pretenders. É claro que, daqui a pouco,
quando saíssem os discos novos do Judas, Scorpions e Ozzy, eles
teriam que rever essa posição. Por sorte eles se mancaram. O
heavy é um dos estilos mais populares do mundo - eles não
poderiam mesmo ignorá-lo.
METAL:
Como você vê as bandas de power metal?
DS: Tirando umas poucas, elas se dividem em três categorias:
imitadores do Motorhead, imitadores do Iron Maiden e imitadores
dos dois. Uma das poucas excessões é o Anvil, que tem um pouco
da agressividade de Ted Nugent. O Metallica também é uma banda
muito boa. Mas as bandas que imitam o Motorhead não representan
nada para mim. Só existe um Motorhead não representam nada para
mim. Só existe um Motorhead e um Lemmy, e eu os adoro.
METAL:
Os anos oitenta parecem ser a década dos retornos. Como você
vê bandas como o Deep Purple ou o The Firm de Jimmy Page?
DS: Esse pessoal parece que se recusa a morrer. Veja, gente como
o Genesis, o Fletwood, Mac, Robert Plant, Jimmy Page, Paul
Rodgers ... essa turma não deixa espaços para as bandas novas.
Eles não se contentam com o que já fizeram e ganharam. Querem
fazer mais discos e ganhar mais dinheiro, não importando se o
trabalho é bom ou não. No caso do Deep Purple, eu acho o maior
barato que, depois de dez anos, eles queiram se reencontrar e
gravar alo para matar a saudade; agora, resolver voltar como
grupo para dar shows e gravar novos discos é besteira. O tempo
deles passou, devem ceder lugar para os novos.
METAL:
Ao contrário da maioria das bandas novas americanas, vocês são
de Nova York e não de Los Angeles. Qual a diferença entre esses
dois lugares em termos de heavy?
DS: Não existe muita diferença, pois os californianos sempre
tentaram imitar o pessoal de Nova York. Como eu disse, eles
descendem do Kiss, que é nova-iorquino. O que há de diferente
é que o pessoal de Nova York tem um lance mais de rua, mais de
revolta, enquanto os californianos não. Eles posam de pesados,
se vestem de couro, mas, quando abrem a boca, é só aquela coisa
de "ei, cara, vamos pra praia... gatinhas ... festa (alusão
a música "Party All Night", do Quiet Riot)".
METAL:
O que acontece em Amarillo, Texas ?
DS (meio sem graça): Aconteceu que eu estava no palco e soltei
um palavrão e a mãe de um fã não gostou. Se fosse comigo, eu
pegava meu filho e ia embora, mas ela ficou e eu fui falando mais
palavrões. No fim do show, ela chamou a polícia e eu fui em
cana por linguagem obscena, perturbação da paz e imoralidade
pública (gargalhadas). Eu adorei porque foi publicidade
gratuita. Agora tomo mais cuidado: quando vou tocar em uma
cidade, procuro ver o nome do prefeito; digamos que seja Jansen ,
eu aviso pra platéia que a palavra fuck (f***) é Jansen (mais
gargalhadas). Aí quando eu digo "Jansen You", todos
sabem que é um palavrão, mas ninguém pode me acusar de nada. O
importante é que as pessoas saibam que nós não somos apenas
uma "banda desbocada".
METAL:
Há possibilidades de vocês tocarem no Brasil?
DS: Muitas. Há duas razões para eu estar aqui. A primeira é
promover nossos discos e a segunda é marcar shows. Depois do
Rock In Rio, ficou provado que o Brasil gosta de heavy metal e
quer que mais bandas venham aqui. Meu empresário já está
acertando algumas datas para incluir o Brasil na nossa próxima
tour, pois nós queremos muito tocar aqui.
METAL:
Qual o seu recado para os fãs brasileiros?
DS: Digo-lhes que continuem conosco, pois nós estamos com eles e
logo estaremos aqui para tocar. Não somos o tipo de banda que se
contenta com o sucesso na terra natal. Queremos que cada fã do
mundo nos veja ao vivo. Queremos ser superstars no Brasil, na
Alemanha... em todos os lugares. O mais importante: fiquem
conosco porque para nós, vocês são o que há de mais
importante.