SOMBRA
E ALQUIMIA
Vera
Lucia Paes de Almeida
Origens
da Alquimia:
A
Alquimia começou no Ocidente aproximadamente por volta do séc. I a.C.
apresentando um declínio gradual após a queda do Império Romano até o séc.
X. Durante este período ela floresceu no Império Bizantino e nos diferentes países
árabes. Com as cruzadas e a invasão muçulmana na Península Ibérica ela
retornou à Europa no séc. XI, unindo-se à Filosofia Escolástica e tendo seu
apogeu na Idade Média. No séc. XVII desapareceu definitivamente sendo
eclipsada pelo Iluminismo. Parte de seu conhecimento evoluiu para a Química e
seu aspecto filosófico e religioso só foi resgatado no séc. XX por C. G.
Jung. Ele reconheceu que os tratados alquímicos continham uma linguagem simbólica
e falavam do processo de individuação, ou seja, a transformação da
personalidade em busca da totalidade. A transmutação dos metais comuns em
metais nobres, a busca da pedra filosofal, era o equivalente à busca de integração
e conscientização do centro da personalidade, o Self (Franz, 1998:7).
Alquimia
e Cristianismo:
A
Alquimia nunca foi hostil aos movimentos religiosos dominantes mas formava uma
espécie de tendência subterrânea compensatória.
“O esforço da Alquimia
visa a preencher as lacunas deixadas pela tensão dos opostos no Cristianismo.”
(Jung, 1994: par. 26)
Essa
tensão entre opostos no Cristianismo de que fala Jung, refere-se principalmente
à oposição irredutível entre o Bem e o Mal, na qual o Bem é representado
exclusivamente por Cristo e o Mal expressa-se na figura do demônio. Assim, o
cristão é atirado num conflito e sofrimento insuportáveis, já que o Bem
equivale à uma imitação incondicional de Cristo e o Mal a tudo que se opõe a
isto. As exigências éticas do cristianismo acabaram por tornarem-se uma
impossibilidade de serem vividas integralmente na vida prática.
“O
mundo cristão transformou a antinomia entre o bem e o mal num problema
universal, erigindo-a em princípio absoluto através da afirmação dogmática
dos contrários [...] Essa imitação de Cristo tomada em seu sentido mais
profundo, implica um sofrimento intolerável para a maioria dos homens.”
(Jung, 1994: par. 25)
Outra lacuna do Cristianismo é o
impedimento a qualquer busca ou experiência pessoal do sagrado. Todo conflito
deve ser resolvido dentro do âmbito dogmático, acreditando-se apenas naquilo
que é prescrito pela Igreja. Disso resulta que o Cristianismo se constituiu
como uma religião essencialmente patriarcal, fato este expresso no simbolismo
da Trindade.
“O dogma insiste em que o ‘três’ são
‘um’, mas se recusa a reconhecer que os ‘quatro’ sejam ‘um’. Sabe-se
que os números ímpares sempre foram masculinos não só para nós, ocidentais,
como também para os chineses; quanto aos números pares, são femininos. Assim,
a Trindade é uma divindade explicitamente masculina.” (Jung, 1994: par.
25)
Contrapondo-se a isto, a Alquimia propõe
seu axioma central, ou seja, o aforismo de Maria Prophetissa:
“ ‘Um torna-se dois, dois torna-se três,
e do três provém o um que é o quarto’. Dessa forma, os números ímpares do
dogma cristão são entremeados pelos números pares que significam o feminino,
a terra, o subterrâneo e até mesmo o próprio mal.” (Jung, 1994: par.
26)
Esses
temas são a sombra do cristianismo que a Alquimia procurou retomar em caráter
compensatório. Para os alquimistas a matéria era uma contraparte viva e
feminina do criador espiritual, e não algo que ficava à margem participando
apenas lateralmente. Na Alquimia a matéria era um princípio igualmente divino,
chamado freqüentemente por “matriz”, a qual complementava o princípio
masculino espiritual da “forma” ou “ação da região etérea sobre os
elementos” (Franz, 1998:46).
Ao
realizar seus experimentos sobre a matéria nos seus laboratórios, o alquimista
entrava em contacto com o inconsciente, a psique objetiva, e projetava os conteúdos
arquetípicos nas operações alquímicas. Muitos deles de temperamento
extrovertido permaneceram apenas no nível químico de sua busca, mas para
muitos outros ressaltou-se o aspecto simbólico do seu trabalho e seus efeitos
psicológicos de auto-transformação.
“Os alquimistas preferiam, de modo
pouco eclesiástico, a busca do conhecimento à verdade oferecida pela fé,
ainda que como homens medievais se julgassem bons cristãos.” (Jung, 1994:
par. 41)
Franz (1998:36) diz que nesta cisão entre o
dogma oficial do cristianismo e a corrente subterrânea da Alquimia, estariam as
raízes do que hoje chamamos de divisão entre religião e ciências naturais. O
alquimista tentava resgatar o espírito oculto na matéria ao valorizar o
feminino e aceitar o mal na forma da nigredo (uma das fases da Obra) como parte
integrante do processo alquímico. Assim, tentava manter juntos os opostos
cindidos pelo cristianismo. Além disso, seu método de trabalho incluía
igualmente métodos objetivos de laboratório, e métodos introspectivos de
imaginação ativa, meditação e observação dos seus sonhos. No entanto, no séc.
XVII a Alquimia tornou-se uma ciência natural, puramente extrovertida,
excluindo os aspectos psicológicos, filosóficos e religiosos, os quais foram
completamente desvalorizados para a formação da ciência prática da Química.
E assim, a “religião foi guardada na
gaveta para os domingos” (Franz, 1998:37).
Mortificatio
(Edinger, 1995:165-197):
A
opus alquímica têm três estágios: nigredo, albedo e rubedo. A mortificatio
relaciona-se com a primeira fase da obra, a nigredo.
Nigredo,
ou cor negra, refere-se à sombra ou lado escuro da nossa personalidade que está
oculto à luz da consciência. O encontro com a sombra é o primeiro passo no
processo de individuação. Está relacionado com a dor, sofrimento e morte na
Alquimia. Imagens ligadas à tortura, mutilação, apodrecimento (putrefactio) são
pré-requisitos para imagens posteriores de crescimento, ressurreição e
renascimento. De acordo com a lei dos contrários (enantiodromia) a intensa
consciência do escuro constela o lado oposto, a luz.
A
mortificatio fala da morte de vários aspectos psíquicos que devem passar por
este processo para sua transmutação:
a)
Dragão: a imagem do dragão
personifica a psique instintiva, a prima matéria. O mito do herói que salva a
donzela do dragão expressa a necessidade do resgate da alma da sua prisão nas
formas instintivas, primitivas e infantis.
b)
O rei; o leão e o sol: referem-se ao
princípio diretor do ego consciente e ao instinto de poder, os quais devem ser
mortificados para que surja um novo centro, o Self. O velho rei representa um
princípio dominante que perdeu sua eficácia e deve submeter-se à transformação.
c)
O sapo: é uma variante simbólica do
dragão. O sapo como prima matéria representa o desejo irrefreado. É o tema da
pessoa ávida, insaciável que se afoga nos próprios excessos. Os desejos devem
ser mortos nas suas formas projetadas, de cunho obsessivo.
d)
A donzela; os inocentes: a imagem do
sacrifício dos inocentes ou da donzela corresponde à necessidade do sacrifício
da pureza ou inocência para poder se efetuar a ampliação da consciência. Por
exemplo, o mito de Adão e Eva no Paraíso nos fala da consciência que surge
depois de se provar do fruto da Árvore do Bem e do Mal.
e)
Morte, cemitérios, funerais: imagens
que ressaltam a necessidade da morte para que a vida ressurja, estão sempre
conectadas ao plantio e germinação de sementes.
f)
Lua: simbolismo cíclico da Lua que
morre e renasce a cada mês.
g)
Corvos ou abutres: pela cor negra,
vinculação com a morte e o anúncio de maus augúrios são sempre associados
com a mortificatio. A partir da experiência das trevas e do vazio, pode
acontecer o encontro com o companheiro interior, o Self.
h)
A paixão de Cristo: o intenso
sofrimento de Cristo, torturado, flagelado e crucificado é freqüentemente
identificado pelos alquimistas com sofrimentos pelos quais passa a prima matéria
no seu processo de transformação. O ego tem que se sacrificar para se
encontrar com o Self. No entanto, Jung ressalta uma grande diferença entre a
vivência do alquimista e do cristão com relação a este arquétipo.
“Não se trata de uma ‘imitação de
Cristo’, mas do seu exato oposto, uma assimilação da imagem de Cristo em seu
próprio eu, que é o ‘verdadeiro homem’. Já não é um esforço, uma
labuta intencional para atingir a imitação, mas antes uma experiência
involuntária da realidade representada pela lenda sagrada [...] A Paixão
acontece ao adepto, não em sua forma clássica [...] mas na forma expressa no
mito alquímico [...] Tudo isso ocorre, não ao próprio alquimista, mas sim ao
‘verdadeiro homem’, que o alquimista sente estar próximo de si, bem como em
si, e, ao mesmo tempo, na retorta.” (Jung,
1990: par. 157)
Enfim, enquanto o valor supremo (Cristo) e o
maior desvalor (o pecado, o mal) estiverem projetados fora do indivíduo, a
psique se esvazia de significado e a vida religiosa se congela em pura
exterioridade e formalismo. Jung ressalta que poucos experienciam a imagem
divina como a qualidade mais íntima da própria alma, se relacionando apenas
com um Cristo exterior. Da mesma forma, o mal é dificilmente vivido como algo
importante no caminho do auto-conhecimento como a contrapartida de igual peso ao
bem. A conjunctio, etapa final da opus é justamente a possibilidade de
aproximar os opostos de modo a gerar o novo, a pedra filosofal ou a criança
divina.
“A problemática dos opostos suscitada
pela sombra desempenha um papel importante e decisivo na alquimia, uma vez que
conduz à unificação dos opostos no decorrer da obra, sob a forma arquetípica
do ‘hierosgamos’, ou seja, das ‘núpcias químicas’. Nesta, os opostos
supremos sob a forma do masculino e do feminino (como no Yang e Yin chinês) se
fundem numa unidade em que os contrários desaparecem, unidade esta incorruptível.
A condição necessária no entanto, é que o ‘artifex’ não se identifique
com as figuras do opus, mas as preserve em sua forma impessoal e objetiva.”
(Jung, 1994: par. 43)
Assim,
a aceitação da sombra e do paradoxo que ela traz para a psique é fundamental
para a vivência da verdadeira espiritualidade que se expressa no processo de
individuação através da busca da totalidade e não da perfeição , pois:
“Só
o paradoxal é capaz de abranger a plenitude da vida. A univocidade e a não-contradição
são unilaterais e portanto não se prestam para exprimir o inalcançável.”
(Jung, 1994: par. 18)
BIBLIOGRAFIA
Edinger,
Edward F.
1995
Anatomia
da Psique. O Simbolismo Alquímico na
Psicoterapia. São Paulo,
Cultrix.
Franz,
Marie-Louise von
1998
A
Alquimia e a Imaginação Ativa. São Paulo, Cultrix.
Jung,
Carl Gustav
1990
Mysterium Coniunctionis. Vol.
XIV/2. Petrópolis, Vozes.
1994
Psicologia
e Alquimia. Vol. XII. 2ª ed. Petrópolis, Vozes.
Texto
publicado na Revista Hermes, vol. 8, nov. 2003.
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