Cepticismo
«É logicamente possível errar a respeito de qualquer crença perceptiva. Muitas vezes, quando alguém tem uma crença perceptiva verdadeira, não está em melhor posição para saber que a sua crença é verdadeira do que estaria no caso em que a sua crença fosse falsa. Como uma crença perceptiva não constitui conhecimento quando é falsa, também não constitui conhecimento quando é verdadeira.
Para clarificar este ponto, suponhamos duas pessoas que estão a olhar através de diferentes janelas. A primeira pessoa relata que está uma esfera numa mesa do outro lado da janela; e vê a esfera como sendo verde. [ ...] Suponhamos ainda que a segunda pessoa que olha através da sua janela vê e diz rigorosamente a mesma coisa. Cada um deles tem exactamente a mesma justificação para afirmar que sabe que está uma esfera verde do outro lado da janela. [ ...] Obviamente que a única conclusão correcta que se pode tirar é que ou ambas sabem que está uma esfera verde do outro lado da janela ou nenhuma delas sabe isso. Seria inteiramente arbitrário, e logo irracional, dizer que uma delas sabe e a outra não.
Todavia, é perfeitamente possível que uma das pessoas esteja enganada e a outra não. Suponhamos que a primeira pessoa vê o que vê porque está uma esfera verde do outro lado da janela. Por outro lado, suponhamos que a segunda pessoa vê o que vê porque está a ser iludida com espelhos e desenhos - não existe qualquer esfera verde do outro lado da janela. Além disso, a fraude é tão boa que, por detrás das janelas, ninguém consegue detectar qualquer diferença entre o que é visto do outro lado. A única conclusão razoável é a de que nenhuma das pessoas tem conhecimento. Uma das pessoas está enganada e a outra poderia estar.
Aquilo que imaginámos tem óbvias implicações gerais. Imaginámos duas pessoas que vêem a mesma coisa embora o que uma delas vê exista realmente e o que a outra vê não exista. Em geral, a experiência que uma pessoa tem quando vê algo que realmente existe pode ser duplicada pela experiência de outra pessoa que está a ser defraudada. Na medida em que a experiência em questão fornece a única evidência que uma pessoa tem para acreditar naquilo em que acredita, se uma pessoa erra ao julgar que conhece aquilo em que acredita, o mesmo acontece com a outra. Se alguém erra ao acreditar em algo, então outra pessoa que tenha uma crença semelhante baseada em experiências semelhantes poderia seguramente estar errada - mesmo que, de facto, não o esteja. Consideremos novamente o caso de duas pessoas que estão a ver uma esfera verde através das respectivas janelas. A segunda pessoa está errada ao acreditar que está uma esfera verde do outro lado da janela. Isto mostra que a primeira pessoa, a qual, de facto, não está errada, poderia está-lo. A segunda pessoa está errada e a primeira não tem qualquer espécie de evidência melhor que a da segunda para aquilo em que acredita. Tendo o tipo de evidência que tem, a primeira pessoa poderia estar errada. A prova disso é que a segunda pessoa tem exactamente o mesmo tipo de evidência e está errada. O que acontece num dos casos poderia acontecer no outro. Isto é suficiente como argumento a favor do cepticismo.
[ ...] [ Premissas e conclusão do argumento]
1. As experiências de uma pessoa que tem uma crença perceptiva verdadeira podem ser duplicadas com exactidão pelas experiências de outra pessoa cuja crença perceptiva é exactamente semelhante mas falsa.
2. Se as experiências de uma pessoa que tem uma crença perceptiva verdadeira podem ser duplicadas com exactidão pelas experiências de outra pessoa cuja crença perceptiva é exactamente semelhante mas falsa, então é sempre logicamente possível que as nossas crenças perceptivas sejam falsas.
3. Se é sempre logicamente possível que as nossas crenças perceptivas sejam falsas, então ninguém pode saber nunca se alguma das nossas crenças perceptivas é verdadeira.
4. Logo, ninguém pode saber nunca se alguma das nossas crenças perceptivas é verdadeira.»
CORNMAN, LEHRER, PAPPAS, Pilosophical Problems and Arguments: An introduction,
New York, Macmillan Publishing Co., Inc., 19823, pp. 48-50 (tradução minha).