Condicionantes da experiência
«De facto: se nos queremos afastar dos limites naturais impostos pela natureza, se nos queremos libertar das condições naturais da existência humana, então não podemos chamar livre à nossa realização individual.
Para os que se possam sentir presos, que não estão prontos a aceitar as condições que a natureza nos impõe, para esses o autor tem mais uma mensagem pouco satisfatória: a nossa experiência do mundo também não é ‘livre’, porque se baseia numa visão restrita da natureza que, além disso, está cheia de preconceitos. Mas, infelizmente, nada podemos fazer contra as limitações do nosso campo visual e contra preconceitos; é que eles determinam forçosamente o modo da nossa experiência do mundo. Para poder tornar mais clara esta afirmação, o autor tem de descrever alguns resultados da moderna fisiologia dos sentidos. Tratará, por exemplo, de resultados do domínio da visão, cujo significado, em princípio, também é válido para outros sistemas sensoriais, através dos quais temos acesso ao mundo.
Ficamos a dever um conhecimento essencial sobre o modo de funcionamento do sistema visual sobretudo ao trabalho de David Hubel e Torsten Wiesel, da Harvard Medical School em Boston, que foram laureados com o prémio Nobel em 1981. Mais recentemente, surgiram os estudos de Semir Zeki, de Londres, e Edwin Land, de Cambridge nos Estados Unidos, sobre a visão cromática. Em que consiste a novidade introduzida por Hubel e Wiesel? Eles conseguiram comprovar pela primeira vez que o espaço que nos rodeia não se reproduz no cérebro do modo como, física ou matematicamente, é descrito com a maior facilidade possível. O espaço é antes decomposto no cérebro segundo pontos de vista determinados, a que é melhor chamarmos categorias. As informações ópticas que definem o espaço visual não se reproduzem ponto por ponto no cérebro, como, por exemplo, numa chapa fotográfica, mas pequenas partes do nosso campo visual são desmontadas em diversas componentes categoriais. A dificuldade inicial durante as investigações de Hubel e Wiesel foi libertarem-se da noção de que havia uma reprodução pontual do espaço no nosso cérebro, ou seja, que o cérebro era por assim dizer um espelho interno. [ ...]
Isto é válido para a nossa percepção. Mas também será válido para outros seres vivos? O nosso mundo perceptivo, a nossa realidade - devemos estar bem conscientes deste facto - não se podem transferir automaticamente para outros organismos. Podemos chegar a esta conclusão sobretudo através de estudos efectuados por Jerry Lettvin, de Cambridge nos Estados Unidos, que o tornaram conhecido. Lettvin e os seus colaboradores salientaram que cada espécie animal tem a sua própria imagem do mundo já ao nível neurofisiológico. As células nervosas do cérebro de uma rã só reagem, por exemplo, a estímulos ópticos que são importantes para o comportamento e para a sobrevivência da rã. O que no cérebro da rã se reproduz do mundo que a rodeia só se regula por categorias que têm interesse para a rã. Estas categorias são diferentes das de outros seres vivos, por exemplo, de um coelho, de uma cobra, de um melro ou de um homem. O comportamento típico de uma espécie é marcado por categorias perceptivas ao nível neurofisiológico. Isto significa que as células nervosas só podem ser excitadas quando os estímulos externos correspondem exactamente às condições categoriais, para as quais existem programas analíticos. O cérebro é cego para outras constelações de estímulos que não cumprem as condições categoriais. Ora, isto significa que, no sentido próprio da palavra, as categorias de que se dispõe no cérebro determinam a imagem do mundo. Os estudos de Hubel e Wiesel contribuíram de uma forma especial para penetrarmos nos fundamentos da nossa imagem do mundo, apesar de os resultados virem de modelos animais. O ponto de vista essencial é que no cérebro se empreende uma análise precisa para cada lugar no campo visual. Esta análise precisa regula-se no sentido de identificar todas as orientações possíveis de linhas e arestas num lugar do campo visual. Paralelamente à orientação, analisa-se, noutra categoria, a direcção de objectos móveis. Além disso, a cor do objecto é uma categoria decisiva da percepção. Uma categoria por si talvez seja também a velocidade de um estímulo que se move com uma orientação ideal e com cor ideal. Parece que, do ponto de vista neurofisiológico, a nossa imagem do mundo se baseia nestes elementos, aos quais provavelmente se pode acrescentar mais um ou outro.
Mas o que aconteceria se, em vez das categorias citadas, se localizassem no cérebro outras completamente diferentes, por exemplo...? Neste ponto, engasgamo-nos e não achamos nenhuma resposta. Visto que, para mim, é válida a minha imagem do mundo, não me é acessível uma hipótese sobre outras categorias. Quando reflicto, começo a dar voltas em círculos, porque sou prisioneiro das minhas próprias categorias. Todavia, podemos tirar informações de experiências efectuadas com animais, para os quais se descobriram outras categorias, como, por exemplo, nos testes de Lettvin e dos seus colegas; torna-se então necessário ultrapassar o horizonte humano do pensamento e da percepção, o que só acontece com grande esforço. Assim, poderíamos definir provavelmente a "grandeza" de um estímulo ou o "intervalo" como categorias, mas também constelações de estímulos mais ou menos complexas, nas quais não pensámos no princípio. Durante exames feitos em animais, viu-se que não é o estímulo sensorial de estruturas simples, mas configurações complexas - para nós complexas - que podem ser categorias perceptivas básicas. Behavioristas como Konrad Lorenz ou Niko Tinbergen observaram que estímulos desencadeadores de determinado comportamento podem ser extremamente ricos em elementos quando se analisam geometricamente, mas que são simples na medida em que podem provocar um determinado comportamento automaticamente, quer dizer de um modo instintivo. Um exemplo impressionante para este facto foi-nos dado pelo investigador americano Sacket, que estudou o reconhecimento mímico inato nos rhesus. Rhesus pequenos foram criados sozinhos até aos seis meses de idade, tendo-lhes no entanto sido proporcionada uma possibilidade de diversão interessante.Eles próprios podiam projectar vários diapositivos. Havia quatro imagens à escolha. Uma imagem representava um macaco pequeno, a outra vários macacos adultos. Na terceira imagem, podia ver-se um macaco com uma fisionomia ameaçadora e, finalmente, a quarta imagem mostrava uma paisagem. Os jovens animais aprenderam muito depressa a que imagem correspondia cada botão, e assim o experimentador pôde observar quais eram eram as imagens preferidas dos macacos. Viu-se que a paisagem não tinha pelos vistos muito interesse. Ao longo dos seis meses, a frequência com que esta imagem foi observada aumentou minimamente. Por outro lado, as três imagens com os macacos eram muito mais interessantes, mas só até aos dois meses e meio de idade. A partir desta altura, os jovens macacos passaram a evitar a imagem com o macaco adulto ameaçador. Já não a quiseram ver mais até aos cinco meses e meio de idade.
Estas observações significam que uma fisionomia ameaçadora se pode distinguir de uma neutra, apesar de os animais nunca terem visto na vida outros macacos. Dado que cresceram sozinhos, não podiam ter aprendido por si com que é que se parecem as diferentes fisionomias. Quer dizer, os animais possuem um programa genético que lhes permite diferenciar diversos padrões de estímulos que, do ponto de vista geométrico, são extremamente complicados.
Também pode ser que haja no homem, para além das categorias já citadas - como, por exemplo, a orientação de linhas -, outras de maior complexidade geométrica, como foram descobertas em algumas espécies de animais por behavioristas. Será que, por exemplo, as reacções de susto, que se manifestam automaticamente no homem em determinadas situações, como quando vê uma cobra, se podem atribuir ao facto de as cobras constituírem uma categoria perceptiva, devido ao seu perigo potencial? [ ...] Ou aranhas? São precisamente as reacções de pânico que surgem no homem devido a certos estímulos que nos podem dar indícios dessas tais categorias perceptivas "mais complexas". De qualquer modo, parece que as faces constituem por si uma categoria perceptiva. Isto resulta de observações segundo as quais lesões bem demarcadas no cérebro destroem a capacidade de reconhecer caras, mas deixam intactas todas as outras funções visuais.»
Ernst Pöppel, Fronteiras da consciência - A realidade e a experiência do mundo, p. 155-159.