O VENDEDOR DE SEGUROS QUE GANHOU O PULITZER
Saiba o leitor que há pessoas para quem o facto de uma corda esticada com determinada intensidade, sempre a mesma, poder produzir um som, sempre o mesmo, universalmente identificável e convencionalmente chamado, por exemplo, dó ou ut, é um verdadeiro mistério, que se adensa perante o espectáculo de múltiplos executantes tocando em uníssono as mesmas notas, num acordo capaz de produzir maravilhosas eufonias.
Saiba ainda o leitor que, para essas pessoas, a ideia de que a música possa exprimir ou transmitir emoções é outro profundo mistério. Que elas se espantam perante as convictas afirmações de críticos e comentadores acerca dos sentimentos que Beethoven ou Mahler tinham aquando da composição desta e daquela sinfonia ou que investiram na sua produção.
Que pessoas dessas podem, contudo, passar os seus dias a ouvir música, e mesmo dizer ousadamente que os "trinados" de Mozart lhes não interessam particularmente, ao passo que Bruckner e Sibelius convocam a sua atenção, que Shostakovitch as impressiona enquanto Tchaikovsky as amolece, que Ravel ou Gershwin as entusiasmam ou que Stravinski as faz vibrar.
Que, para essas pessoas, os compositores são fascinantes sacerdotes de um culto esotérico, constituindo os concertos a parte dos seus rituais que se dignam patentear aos não iniciados - que neles participam com reverente agradecimento pelos dons concedidos.
Saiba finalmente o leitor que a autora destas linhas é uma dessas pessoas, sem tirar nem pôr.
Há compositores cuja vida decorre aparentemente com prosaica normalidade, o que de alguma maneira os torna mais acessíveis a nós, os comuns mortais, com empregos vulgares e sem talentos especiais. Charles Ives, considerado por muitos o primeiro grande compositor americano, ganhava (e bem) a sua vida como corretor de seguros e foi durante muito tempo considerado pela maioria dos seus colegas um amador de música. Em 1947, o júri do prémio Pulitzer surpreendeu o mundo atribuindo-lhe o prémio na categoria de artes pela sua terceira sinfonia, uma obra composta 43 anos antes, mas estreada apenas no ano anterior.
Charles Edward Ives nasceu em Danbury, Connecticut, nos Estados Unidos da América, a 20 de Outubro de 1874. O seu pai, com quem manteve uma relação de grande proximidade, era o chefe da banda da cidade, actividade que acumulava com a de professor de música, entre outras, destinadas a arredondar o fim do mês. Georges Ives não tinha com a música uma relação tradicional, mas aventurosa e decididamente inventiva. Fascinava-o o contraste rítmico e tímbrico proporcionado por duas melodias diferentes entoadas simultaneamente; em certa tarde de domingo, combinou com o maestro de outra banda local levarem a cabo uma experiência insólita: conduzirem as suas bandas ao mesmo tempo pelas ruas da pequena cidade, tocando músicas diferentes, mas com igual entusiasmo - os habitantes de Danbury é que não ficaram particularmente fascinados com a experiência, que naturalmente não se repetiu; por outro lado, conta Ives que ele o obrigava a cantar numa tonalidade diferente do acompanhamento musical, "para me fazer esticar os ouvidos". "Não me parece que tivesse em mente a possibilidade da politonalidade na composição, mas queria levar-nos a explorar o ouvido - e a fazer com que ele e o espírito pensassem por si próprios e fossem mais autónomos - por outras palavras, que não estivessem demasiadamente dependentes de costumes e de hábitos" (Charles Ives, Memos, org. John Kirkpatrick, New York, Norton & Co., 1991, p. 115).
Com quinze anos de idade, Charles tinha assim dois amores: a música e, como muitos outros rapazes americanos, o baseball, que jogava numa equipa da sua cidade. Mas toda a criatividade um pouco anárquica do pai não o impediu de proporcionar ao filho uma formação musical académica e tradicional. Aos dezanove anos, no Outono de 1893, Charles entra para a Universidade de Yale, para cursar Música, tendo sido aluno de composição e teoria musical de Horatio Parker, o fundador do departamento e um compositor profundamente ligado ao romantismo europeu. Nisso, Parker era perfeitamente representativo da situação dos criadores musicais americanos do século XIX e começos do século XX que, desconfiando da sua própria tradição musical, preferiam inspirar-se na seriedade da música clássica produzida na Europa.
A influência que Parker teve sobre Ives foi, por assim dizer, pela negativa: os esforços para transformar as suas próprias composições, adaptando-as ao pensamento musical do seu professor, que, embora com concepções profundamente diferentes das suas, não deixava de ser um músico competente e conhecedor, permitiram-lhe reforçar a sua capacidade técnica. Mas ainda durante estes primeiros tempos académicos, o apoio do pai é decisivo, nomeadamente encorajando-o a traçar o seu próprio caminho e a ignorar as críticas ao carácter heterodoxo das suas primeiras obras. A morte de Georges Ives, o homem que tão bem o compreendera e o cúmplice na experimentação, ocorrida em Novembro de 1894 - "precisamente quando eu mais precisava dele" -, criou por isso um terrível vazio na vida do seu filho mais velho.
Em 1898, Charles termina o seu curso. Confronta-se então com a necessidade de ganhar a vida, apercebendo-se de forma dramática da alternativa com que depara qualquer criador em princípio de carreira: viver mal, do ponto de vista financeiro, dedicando-se exclusivamente à sua arte; ou arranjar um emprego do qual retire um rendimento que lhe permita ter uma vida cómoda e esquecer a arte ou dedicar-se a ela em paralelo, talvez até ao momento em que a fama traga fortuna. Ives inclina-se para a segunda alternativa, e começa a trabalhar numa companhia de seguros de Nova Iorque, estabelecendo-se na cidade numa contraparte americana daquilo que foram na Coimbra dos anos 30-60 as "repúblicas" de estudantes; tratava-se, neste caso, duma habitação comum de vários profissionais jovens - a "Poverty flat" ou "Apartamento dos pobres" -, que mantinham uma vivência de certa maneira comunitária enquanto esperavam que a sua vida tomasse um rumo mais ou menos definido e definitivo, nomeadamente com o casamento.
Deste primeiro período da sua vida e até cerca de três anos depois de terminar o curso datam as primeiras composições de Ives (que, na realidade, começou a compor muito cedo: aos catorze anos, viu a sua primeira obra ser apresentada no teatro de Danbury; enquanto organista da sua igreja, teve ainda oportunidade de ver diversos hinos religiosos de sua autoria entoados pela comunidade). Por esta altura, particularmente nos últimos anos de Yale, Ives parece ter estabelecido para si próprio que seria compositor profissional; mesmo depois de ter decidido começar a trabalhar na companhia de seguros, ainda considerava a hipótese de o fazer apenas durante algum tempo, enquanto não tivesse a sua reputação firmada. As composições desta época são, pois, peças acessíveis, destinadas a serem apreciadas pelo seu público; mas não deixam de conter alguns traços subtis daquele que será o seu estilo da maturidade. Nelas se incluem, entre outras, peças como Variações sobre a América - originalmente escrita para órgão, instrumento de que Charles era um emérito executante -, o primeiro quarteto de cordas, as duas primeiras sinfonias e uma série de canções.
A partir de 1902, contudo, Charles decide "desistir da música"; como dirá mais tarde, esta decisão fica a dever-se sobretudo a dois tipos de considerações: de ordem financeira e de ordem artística, que finalmente se resumem na ideia de que, não sendo a sua música de um tipo facilmente vendável e não sendo ele o género de pessoa capaz de fazer música "doce" para vender, dedicando-se em paralelo ao seu verdadeiro caminho musical; querendo constituir uma família e não podendo "deixar os seus filhos morrer à fome por causa das suas dissonâncias" (Memos, p. 131), teria de arranjar um meio sério de subsistência. Esta "desistência" da música introduz uma orientação definitiva na sua vida profissional. O certo é que, a partir desta altura, as suas composições se tornam mais experimentais, como se Ives se tivesse libertado da obrigação de agradar a quem quer que fosse, e decidido seguir as suas próprias ideias sem compromissos nem limitações.
É enquanto vive no "Apartamento dos pobres" que compõe uma parte muito significativa da sua obra, ao mesmo tempo que anota uma vastíssima série de temas que virá a desenvolver no futuro; podemos imaginá-lo saindo de casa de manhã cedo de pasta na mão, passando o dia a convencer pessoas a comprarem seguros contra isto e aquilo, para regressar a casa ao fim da tarde, fechando-se no quarto ou sentando-se ao piano (que maltratava violentamente), ainda de casaco vestido, mas de colarinho desapertado, dando forma às ideias musicais que lhe iam ocorrendo. São desta época, entre outras, a terceira sinfonia, sonatas para piano, Central Park no escuro, A pergunta por responder, diversas aberturas, estudos para piano e peças de ragtime.
Desconhecendo a maioria dos compositores europeus seus contemporâneos, Ives terá sido o primeiro compositor americano a seguir o conselho de Antonin Dvorak, durante a sua estadia nos Estados Unidos, entre 1892 e 1895, período durante o qual assumiu o cargo de director do Conservatório Nacional de Música de Nova Iorque; dizia Dvorak que os compositores clássicos americanos deviam esquecer a Europa e procurar inspiração na sua própria tradição musical, nomeadamente a música negra. De facto, Charles Ives deixou-se embeber pela música tradicional americana, a música dos hinos religiosos clássicos, das marchas e das canções patrióticas que, depois de trabalhadas, emergem claramente nas suas obras, em curtos e reconhecíveis períodos melódicos.
Em Junho de 1908, no seguimento de anos de namoro, Ives casa-se com Harmony Twitchell, filha de uma proeminente família de Hartford, que cursara enfermagem e escrevia poesia, embora não tivesse particular sensibilidade musical. O casamento foi feliz e durou toda a vida; numa comovida declaração de amor e confiança, Charles atribui a Harmony (certamente predestinada desde o baptismo a casar-se com um músico) uma grande parte da força e da resistência que lhe permitiram prosseguir o seu trabalho de composição: "Uma das coisas de que estou certo é de que, se algo de bom fiz no domínio da música, devo-o, primeiro ao meu pai, e segundo à minha mulher. Depois de os meus amigos musicais [ aqueles que, dirá também Ives, o aconselhavam por meias palavras a escrever "música que não quisesse ouvir, se queria que a sua música fosse ouvida"] terem partido, nem uma só vez ela me disse ou sugeriu ou pensou ou me olhou como se pensasse que o defeito devia ser meu - uma coisa que, embora o não dissesse, quase toda a gente pensava, incluindo os membros da minha família. Ela nunca me disse: ‘vá lá, sê bom rapaz e escreve uma coisa bonita, uma coisa de que eles gostem’. Nunca! Sempre me impulsionou a seguir o meu próprio caminho - a ser eu próprio!" (Memos, p. 114).
Em 1909, funda a sua própria companhia de seguros, "Ives and Myrick", de parceria com Julian Myrick, um antigo colega da companhia onde trabalhava, dedicando ao seu desenvolvimento o mesmo empenho que colocara na música. O seu espírito profundamente criativo manifesta-se numa gestão arrojada, num conjunto de ideias audazes, que acabam por fazer com que a companhia seja um imenso êxito. Mas Ives também encontra na sua principal actividade profissional uma outra vantagem; é que "conviver com muitas pessoas diferentes faz aumentar, e não diminuir, a própria sensibilidade" (Memos, p. 131). No entanto, a sua obra só muito raramente é apresentada em público. Fazem-se de vez em quando uns recitais de canções, nomeadamente em igrejas, e pouco mais.
O período que se estende entre 1909 e 1926, em especial até 1922, é um período de intensa actividade na vida de Charles Ives: desenvolve a sua companhia durante o dia e compõe a um ritmo notável à noite e aos fins-de-semana. A sua actividade é tal, que em 1918 tem um ataque cardíaco - embora já em 1906 lhe tivessem sido diagnosticados problemas de coração. O quadro atrás descrito, do homem com uma vida dupla, com uma mulher que o apoia intensamente mas com quem não discute nem partilha as suas ideias musicais, mantém-se ao longo destes anos, e são muitos, acompanhado pelo total esquecimento dos seus pares.
Ao período compreendido entre 1909 e 1922 pertence a maior parte das mais relevantes obras de Ives, que podem ser vistas como desenvolvimentos de esboços e ideias com origem no extraordinariamente criativo período do "Apartamento dos pobres", entre as quais a Sinfonia das festas, Três lugares em New England, a sonata para piano Concord, diversas sonatas para violino, o Segundo e o Terceiro Conjuntos Orquestrais, a quarta sinfonia, numerosos coros e canções, com poemas de diversos autores, nomeadamente de Harmony.
Em 1912, Ives e a sua mulher compram um terreno e acompanham a construção de uma casa perto de Danbury, para onde vão então viver. Não tendo filhos, dedicam-se a fazer trabalho voluntário em orfanatos e outras instituições de apoio a crianças. Decidem oferecer uma outra casa, mais pequena, situada perto da primeira, a uma instituição de auxílio aos mais desfavorecidos, que a utiliza como local de férias para famílias necessitadas. Conhecem então uma rapariguinha frágil e doente, filha de uma dessas famílias, que parece dar-se bem com o ar do campo; quando termina o período de férias da respectivaa família, convencem-na a deixar a menina com eles, acabando finalmente por adoptá-la, com o nome de Edith Osborne Ives.
Na sequência do ataque de coração sofrido em 1918, Ives suspende a sua actividade profissional durante cerca de um ano, período durante o qual acompanha a impressão da sonata Concord, em edição por si custeada, bem como de um livro de ensaios onde explica a sua génese e os seus fundamentos, Essays Before a Sonata, "escritos pelo compositor para aqueles que não suportam a sua música - destinando-se a música àqueles que não suportam os seus ensaios". O nome completo da sonata - Concord, Mass. 1840-1860 - é uma referência a uma pequena cidade do Massachusetts onde costumava reunir-se, no final do século passado, um grupo de pessoas que constituíam um movimento denominado Transcendentalismo. O grupo fora fundado pelo ensaísta Robert Emerson - que deu o nome ao primeiro andamento da sonata -, e a ele pertenciam igualmente o escritor Daniel Hawthorne, o orador Amos Alcott e a sua filha, a escritora Louisa May Alcott e o pensador Henry D. Thoreau, que dão nome aos restantes três andamentos. Como doutrina, defendiam um panteísmo basicamente pacifista e opunham-se decididamente a qualquer espécie de dogma, autoridade ou tradição. A adesão de Ives a este movimento tem sido muito discutida; fosse qual fosse, porém, o grau do seu envolvimento, o certo é que a noção de liberdade - em todos os sentidos, desde o criativo ao político - por ele preconizada deverá ter-lhe sido particularmente grata.
De facto, do ponto de vista político-social, Ives defendia um conjunto de ideias a que podemos chamar utópicas; era um feroz defensor da democracia directa e da governação por referendo, tendo mesmo escrito um panfleto a este respeito, intitulado "A Maioria". Em 1917, no ano em que os Estados Unidos entram na Primeira Guerra, os Ives alugam um apartamento em Nova Iorque, para poderem acompanhar mais de perto os acontecimentos; Charles procura contribuir para o esforço de guerra, chegando mesmo a oferecer-se como condutor de ambulâncias na frente. Era um liberal, e ficou profundamente entristecido quando, em 1920, o Senado americano votou contra a entrada dos Estados Unidos na Liga das Nações e o povo americano rejeitou Woodrow Wilson, um presidente idealista e progressista, preferindo-lhe Warren Harding, o candidato republicano.
Em 1922, manda imprimir as suas 114 Canções, que constituíam, no seu imenso ecletismo, uma verdadeira antologia das diversas influências que absorveu. Tanto as canções como a sonata Concord foram enviadas a um enorme conjunto de pessoas, numa tentativa de divulgar uma obra que estava, até então, praticamente a ser escrita "para a gaveta". Na realidade, as poucas pessoas que Ives de vez em quando conseguia levar a ouvirem alguma peça sua, mesmo os amigos, reagiam habitualmente da pior maneira. Um dos copiadores por ele contratados, queixando-se de que não percebia nada do que estava a escrever, tentou corrigir alguns choques harmónicos do terceiro andamento da Sinfonia das festas; tendo detectado a interferência, Ives ter-lhe-á dito: "Por favor, não tente tornar as coisas bonitas! Todas as notas erradas estão certas!" A verdade é que Ives era um compositor de vanguarda, que inventou uma série de dispositivos e técnicas de composição mais tarde amplamente utilizados e desenvolvidos por compositores como Stravinski, Schoenberg, Bela Bartok e outros; o que não impediu que, em 1931, um crítico - que Ives desprezava profunda e ironicamente - tivesse "descoberto" influências de Hindemith (que começou a compor em 1920) em Três lugares em New England, uma peça terminada em 1914!
Contudo, é na sequência desta nova tentativa de divulgação que se inicia, na segunda metade da década de 1920, o longo e de certa maneira moroso processo de reconhecimento da obra de Charles Ives. Em 1927, o escritor Henry Bellamann publica na revista Pro Musica o primeiro grande artigo erudito sobre Charles Ives - o pai da abundante série de artigos, teses, livros e biografias com que a posteridade o distinguiu, fazendo dele um dos músicos americanos sobre os quais mais se escreve actualmente. A 20 de Janeiro de 1939, depois de, ao longo da década de 1930, ter incluído em vários recitais o seu terceiro andamento, o pianista John Kirkpatrick - um dos que recebeu as notas enviadas por Ives - toca pela primeira vez toda a sonata Concord no Town Hall, em Nova Iorque, perante uma sala quase vazia, naquela que constituiu a estreia absoluta de toda a peça. O crítico de música do Herald Tribune, Lawrence Gilman, que assistiu ao concerto e tivera ocasião de se documentar sobre a obra antes da sua apresentação pública - também ele recebera as notas de Ives -, escreveu acerca dela que se tratava "da mais notável peça jamais composta por um Americano e a mais profunda e essencialmente americana, nos seus impulsos e nas suas implicações". O concerto teve de ser repetido a 24 de Fevereiro, desta vez com a sala cheia.
Coroando um processo de contínuo reconhecimento e admiração pela sua obra, ainda que principalmente entre os amantes da arte, e não entre o público (Charles Ives? Quem é esse Charles Ives? terão perguntado as pessoas. Nunca ouvi falar dele), em 1947, Charles Ives é laureado com o prémio Pulitzer pela sua terceira sinfonia - tendo enviado o dinheiro que o acompanhava (500 dólares) a J. J. Becker, um compositor e músico profissional seu contemporâneo de parcos recursos, cuja obra muito admirava. Em 1951, Leonard Bernstein dirige a segunda sinfonia no Carnegie Hall, num concerto difundido para todo o país via rádio. Ives não assistiu ao espectáculo, provavelmente por razões de saúde, mas seguiu atentamente a emissão, não deixando posteriormente de manifestar a Bernstein que, na sua interpretação, os tempos estavam demasiadamente lentos.
Uma das características mais marcantes do espírito de Charles Ives é o seu profundo enraízamento na cultura e na história do seu país. Essa ligação está particularmente manifesta na Sinfonia das festas, obra cuja estreia integral teve lugar em 1953, e que é constituída por quatro andamentos perfeitamente distintos, como se fossem quatro obras diferentes (e que, de facto, são muitas vezes apresentados de forma independente), evocando cada um deles um dia importante na história da América, bem como os respectivos ambientes comemorativos numa cidadezinha do século XIX ("a memória que qualquer homem tem das festas da sua infância", descreve-os o autor em Memos, p. 95): O aniversário de Washington, Decoration Day (a celebração do fim da guerra civil), o Quatro de Julho e Thanksgiving (a comemoração do desembarque dos pais fundadores dos Estados Unidos). A obra é atravessada por sugestões de canções e danças, marchas militares, o repicar de sinos e finalmente um coro entoando um hino religioso. A primeira de todas as gravações discográficas de uma obra de Charles Ives, realizada em 1934, foi um registo do primeiro andamento desta sinfonia.
Em 1926, Charles e Harmony compram em Nova Iorque uma casa onde viverão até ao fim da sua vida; pouco depois de se mudarem para essa casa, Charles "desceu um dia as escadas, com lágrimas nos olhos - relata Harmony - e disse-me que não conseguia continuar a compor - que nada lhe saía bem, nada lhe soava bem" (Memos, p. 279); a partir desta altura, Ives suspende por completo a sua actividade como compositor, dedicando-se ao aperfeiçoamento das suas obras, à produção textos escritos e a viajar pela Europa.
Para o seu estilo de música poderão ter contribuído dois factores decisivos. O primeiro foi, como já vimos, a influência do seu pai, Georges Ives; Charles conta que, tendo escrito ao seu pai pouco depois de chegar a Yale, contando-lhe que Horatio Parker lhe apontara dissonâncias não resolvidas numa canção, este lhe respondeu: "Diz a Parker que nem todas as dissonâncias têm de ser resolvidas, a não ser que lhes apeteça, da mesma maneira que nem todos os cavalos têm de andar com a cauda entrançada, só é moda nesse ano" (Memos, p. 116). O segundo desses factores, mais difuso, terá sido um elemento da mentalidade americana da época: a ideia de que a música, em particular na sua vertente de composição clássica, era uma actividade pouco viril ("músico" era então, nos países de língua inglesa, um eufemismo explícito para "homossexual"). Isto poderá ter levado Ives a optar por um estilo de música que não pudesse de modo algum ser confundido com a música doce e acessível a todos praticada por outros compositores; parece evidente que dispositivos como as harmonias dissonantes ou as tonalidades chocantes aparecessem aos seus olhos como marcas de uma virilidade inegável, mesmo num "músico". Claro que não é possível afirmar definitivamente o que quer que seja acerca de processos psicológicos tão complexos como estes; mas há um dado que é certo: durante toda a sua vida e mais intensamente nas últimas décadas, Ives sempre se referiu com desprezo aos tais compositores de música universalmente acessível, mimando-os com epítetos como "maricas", "larilas" ou "meninas".
Charles Ives morreu em 1954, rodeado pelo amor e pela ternura de Edith e de Harmony, que sempre fora ao seu lado uma presença reconfortante e apaziguadora. Talvez o que mais impressione neste homem seja a vulgaridade da sua vida - a vida de trabalho de um corretor de seguros americano da primeira metade do século, casado e com uma filha adoptiva, bem sucedido profissionalmente e com preocupações sociais -, no entanto atravessada por uma espécie de corrente subterrânea de criatividade e vivacidade (que podia mesmo manifestar-se em ocasionais erupções de mau génio). A existência de Ives parece estar marcada por dois grandes períodos solares - a felicidade da infância e da adolescência, a contínua experimentação, o mundo abrindo-se diante dos seus olhos; e, nas últimas décadas, o reconhecimento público sempre crescente -, alternando com um longo período sombrio, de produção silenciosa. Que choque terá sido para aquele jovem, saído de uma cidadezinha de província onde a inventividade comandava os seus dias, descobrir que o vasto mundo, a grande cidade, era e permaneceria durante muito tempo fechada e mesmo hostil às novidades que ele tão generosa e magnanimemente queria oferecer-lhe!
Maria José Figueiredo