1983

 

 

    Trans-ocidental

 

Por detrás das pedras, à sombra dos rios

inconsciente no centro da vegetação cíclica

espera-me um diálogo infindável com o teu rosto

espelhado nos objectos familiares como o pão,

os livros, os cabelos dos outros sorrindo na quietude

imóvel do ar, sem extâse especial, sem gestos bruscos

o sangue acariciando as nervuras, por dentro das têmporas

um sono circular na noite do enigma.

 

Olho em volta e a luz não se move.

Haverá movimento entre os homens na plenitude da manhã?

Apenas meus olhos crescem sem ruído e aguardam

uma dimensão propícia para falar do amor e das recordações,

mas no espaço solitário nada se desune

e regresso ao princípio da inquietação com a morte do assombro

e do mistério encarcerada nos lábios, o tempo venceu-me,

há que acordar de novo no cálice das mãos

um vinho mais embriagador que o álcool dos dias.

 

Tanta terra, tantas mãos, tanto passado

e que resta da velhice dos sonhos que arderam outrora?

Há muros altivos erguidos contra a voz dos meus passos,

muros sem alma, apenas de existência sonâmbula

geometricamente acordada na raíz de todas as fugas.

 

Pesadelo infinito, terra imaculada, e no entanto

tão prenhe de átomos e de feridas valorosas que se deram

num amanhecer mediterrânico crispado nos lábios das oliveiras,

hoje este azeite une as mãos tranquilas, ungindo o templo

dos que conhecem a forma mais elementar do fruto e cantam

na noite uma melodia de apelo, a distância do sol

que regressa à pátria incorrupta dos seus crentes.

 

Flores de pedra cinzelada no regresso de cada viagem

adormecidas nos ombros da noite, em cada pétala

uma emboscada urdida na passagem dos ventos e ao longe

inclinam-se os teus olhos no murmúrio dum luar que não existe.

 

A exaustão do saber, um esboço de penumbra

no odor quente que atravessa este vale iluminado

pelas águas breves que não conhecem dono, nem lhes basta

o açaime imaginado por quem teme do fulgor a duração,

este rio é talvez o mesmo que inundou o chão da palestina,

como estas águas têm a cor dos homens que nelas se procuraram

mãos estendidas pela folhagem rumorejante, ao alto as montanhas

erguidas num assombro de sentinelas ultrajadas.

 

Paisagens desfilando na perpétua sedução do rosto humano

que no sabor da própria carne descobre uma flor de sal erguida

no espectro dos mares, voltada a oriente e adormecendo

sua dança na esfíngica revelação da morte.

 

 

1985

 

 

Escrevo na palma da mão um arbusto de cinza

sua sombra devorando a lentidão do meu gesto.

 

Como se a terra ardesse em minhas mãos.

Como se a luz devorasse o meu olhar.

 

z

 

    As prostitutas

 

Junto ao cais

molhado pela respiração dos navios

são como mãos inocentes

despidas de toda, toda a raíz.

 

z

 

Nossa secreta magia tece o seu halo

em torno da casa dos antepassados

 

Uma linhagem sedutora e feroz

gentil de tanta água em seu olhar

 

Possuindo o rigor ardente dos dias

em seus gestos invioláveis de prazer

 

Promessa de um tempo eis a lonjura

o círculo e a voz germinal da saudade.

 

z

 

Março é o mês da inocência.

É o mês das fogueiras junto ao rio.

É o mês das estrelas vacilantes

sobre a vertigem dos corpos trespassados.

 

z

 

À sombra de um grito feroz e maternal

as crianças passeiam suas mãos acesas,

amadurecem na paz das rosas difíceis

e fazem dos seus lábios a casa dos deuses.

 

Poderia uma criança escutar sua voz

- essa vagarosa cadência do fogo,

sem estremecer na alma das mães

o coração das palavras habitadas?

 

z

 

Para coroar de sentido a raíz dos meus gestos,

para realizar a totalidade acesa das horas -

eu preciso da beleza sábia de teus olhos,

de teus olhos tão sábios porque mensageiros

de um mundo imerso na lentidão assombrada

das palavras jazentes na aurora das coisas,

teus olhos mensageiros da vertigem de amar

como braços dilacerados no amanhecer da vida,

como rosas ascendentes para além do tempo.

 

z

 

Em teus olhos o canto é a terra anunciada.

Prenhe de inocência, à flor do seu leito,

nasce o teu corpo aberto, infindável planura

transparente ao desejo das mãos vigilantes -

repletas de sangue para as horas difíceis,

repletas de morte para as canções matinais.

 

z

 

    Sophia

 

Cristal insepulto, navegante e demandante,

uma estátua grega emerge do seio da luz

- sinal deslumbrado atento à memória

da nitidez dos homens, do poema sobre a terra.

 

z

 

Reconheço-te, planta da vida

tecida em meu labor infantil,

semente materna e dolorosa

inclinada nas trevas do tempo.

 

No claro rosto da neblina

tudo é frágil, meu irmão -

como as mãos de tua mãe,

como o sorriso da tua amada.

 

z

 

Uma poalha de cansaço tomba na fronte do rio

desfeito o corpo da chuva, o interminável ciciar.

 

A leve crispação das águas anuncia a vinda do outono

a voz trágica das estrelas que abre o caminho do mar.

 

Quando todos deixam suas casas esquece-se o pão na lareira

e a rosa das trevas abandonada no abismo da noite.

 

Rosas virgens da tua infância no leito absoluto da vida

repartidas por outras idades mais antigas e solidárias.

 

Ao luar sorridente a liberdade selvagem das águas

terra da imensa sombra, eis a pátria imortal dos irmãos.

 

z

 

    Coração de maio

 

O tempo está contido nos lábios de maio,

sua voz equânime percorre as margens dos dias

e por vezes penetra em seu coração instável.

 

Mistério atento que se agita nos destroços de outono,

na eleição da terra despojada, no calor da vinda

dos filhos errantes pela sedução do mundo.

 

z

 

Há um corpo mais profundo do que a noite

cintilando o coração da rosa-mãe,

há a sombra desvelada dos meus anos

junto ao cais da tua vida mais além.

 

Há meus dedos naufragados de magia

encerrados na canção de estar aqui,

há o sonho e o reverso dos navios

sepultando só paisagens que eu não vi.

 

Quando toda a noite arder a nossa estrela

por estas ruas descalças de segredo

e embriagadas de rasgos e traição:

 

Cantaremos a flor pura da manhã,

a superfície gelada do seu medo

onde ardeu um rosto imenso de ilusão.

 

 

1986

 

 

Estou de novo na margem do tempo.

As luzes vacilam em meu redor. As luzes.

Estranho. As luzes na tarde, na tarde.

Começo a desenhar as lâminas da quietude.

Mais um cigarro, o fumo que se enevoa.

Um piano desenha no fumo a nuvem de Liszt.

A música de Liszt, ainda outra insistência sobre as teclas.

Mais força agora, sorrio, este papel é testemunha

do abandono que não rejeita a ironia, antes a contrai

sobre o papel amarrotado, a mão nervosa, as palavras

ansiosas por se adiantarem ao movimento dos dedos.

Liszt na tarde - intenção do absurdo.

A música na tarde, Liszt e um piano interminável.

As lâminas estão completas, o cigarro acabou.

Estou de novo na margem do tempo.

Luzes na tarde - mágica ironia.

 

z

 

Meio poema, meio pastiche (mas foram coisas como esta que fizeram a fama de algumas eminências da nossa praça...)

 

Tudo começa como se não fosse

outra água a estremecer na baía.

Inicial, rumorosa, nasce a posse

da razão para além da luz do dia.

 

Cresce tímida e frágil e acontece

que muda em claro canto de alegria.

Em torno dos seus lábios há a prece

de um corpo a despontar na maresia.

 

Se a rota do meu sangue se pudesse

perder na tua noite eu quereria

que o fogo nunca mais amanhecesse.

 

E que sobre a manhã despida e fria

a primeira palavra descobrisse

onde a luz fatigada se escondia.