Poemas 1987/89

 

 

 

 

 

 

Contém as palavras, tenta não gastar

o seu movimento, retorno incompleto,

nem a sua ausência, rumo imperecível.

 

z

 

    In memoriam

 

Quase tudo ignoram sobre a morte lenta dos homens

duas mãos ardentes não bastam para esculpir o seu rumo

perdem-se como ramos obscuros na floresta sombria

não há clareira onde a voz possa erguer o seu mundo

um templo entre a folhagem, o anoitecer dos seus gestos

- quem vai recordar essa ternura vã, essa morte intacta,

se o mais inútil dos corpos é a negação do seu tempo?

 

z

 

Traz da sombra mais lunar a mais secreta

das palavras que se movem no teu rosto.

Faz do tempo uma dádiva que se entrega

à memória de um futuro que era nosso.

 

z

 

Agora não ardemos como antigamente.

Ardemos a frio, com uma lentidão

difícil de suster, ardemos devagar

como um retrato envelhecido pelo tempo

ou uma criança enforcada à beira-mar.

 

z

 

O talento está no abarcar do mundo, a partir

de um gesto perdido descobrir o centro da paixão,

a partir de uma voz esquecida descobrir o centro

da palavra, a partir de um rosto submerso descobrir

esse instante amargurado da partida, a solidão.

 

z

 

    O desejo

 

A mão que atravessa a neblina, o brilho

estático do ar despido de vento, a emoção

solitária na garganta da noite, o regresso

ao corpo harmónico da terra, a sagração

das vozes caladas no auge da palavra.

 

z

 

Cada vez mais a lentidão

de cada gesto anuncia a sua ausência,

um primeiro sinal em cada rosto

de que a palavra não existe ou se perdeu.

 

O estrangeiro em cada pátria deslumbrado

pelo vento sempre igual em toda a parte

é como qualquer cão que não tem dono -

um pedaço de chão e a cor da morte

alimentam os seus dias desde sempre.

 

z

 

Passa a tua mão pelo meu rosto, passa

o teu rosto pelo meu gesto, acredita

no meu olhar que nunca cessa, escuta

as palavras que te rodeiam, não fujas

ao nosso encontro - pois não vês como

é imperecível esta sede, como são

necessários os teus lábios junto à terra?

 

z

 

Espanto e dor sobre a mesa

do nosso tempo em que o medo

persiste nas mãos encerradas.

A chama da voz tacteando

o espaço fugaz da verdade -

um silêncio para o qual

não temos resposta nem luz.

 

z

 

Penetramos lentamente no coração da loucura,

as horas espelhadas no dorso do medo, o corpo

inerte das palavras, esplendor dividido

entre a partilha da carne e a busca do vento,

inclinamos o rosto na brancura do dia, uma

árdua melancolia trespassando a nossa voz

e sufocando o seu nome, inextinguível rumo

de uma pátria inocente adiada no silêncio

onde vai sendo tempo de esquecermos a partida.

 

z

 

O pequeno sortilégio inacabado

alcança a chama no fulgor breve

de um só olhar, pequena luz dentre

todas a mais amada, imperecível

como a voragem, como a procura

de um sinal rasgando o medo e falando

de muitas palavras esquecidas, desta

oblíqua tentação, do nosso mundo.