Poemas 1994/96
Projectar lentamente a memória, erguer
uma morada onde os anos repousem
no leito aberto das palavras, convocar
as lembranças incertas da lonjura,
romper o cansaço, os olhos finalmente
embalados na viagem, o túnel
sombrio do regresso, reabrir
cada imagem como um corpo, trespassar
de lembrança cada gesto, deslocar
a muralha turva do silêncio, prosseguir
o trabalho inacabado, a circular obsessão
dos sinais que sobrevivem à derrota.
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A última viagem de G.
Convoquemos a paixão - no eixo da tarde
um pequeno corpo abrindo o ar, carne
em busca do seu canto, fulgor
de músculos crispados, um grito
de apelo e de espanto, porém
tão fugaz é a viagem, inóspita
a travessia, e depois somente
o calor desperdiçado, a avidez da terra
pelo sangue, o sorver das águas
generosas, um coração esquecido
do seu rumo, talvez um derradeiro
sopro de silêncio, talvez
o amainar da crispação, talvez
o cansaço, talvez a noite, certamente
a morte, companheira inadiável.
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La flor nunca cumple un año,
y lo cumple bajo tierra
Miguel Hernández
Tão breve o teu olhar, tão brusca a partida.
Ou terá sido lenta a travessia do ocaso?
Nunca o saberemos, uma coisa todavia
é evidente: resta pouco para amar. Não
por erro ou culpa tua, pois quiseras
aprender um novo jogo, partilhar
o nosso tempo, descobrir como se abre
um pequeno corpo entontecido
com amarras demandadas ao porvir.
Poderemos inventar outras palavras? A verdade
não é senão esta: a luz ficou gelada
em torno do teu corpo migratório
e o dia prosseguiu imperturbável.
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A Paul Celan
Quase imóvel, os olhos lentos de paixão,
a carne pendurada na margem, um trapo
de silêncio, a boca junto ao vento, inclinado
como a ponte de prata cinzenta sobre o rio.
Os dias regressam ao cinema do bairro
e a sede nocturna inundou todos os barcos.
Escurecem devagar as tuas mãos, sombra
de uma rosa, a sentinela da partida.
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Obstinadamente sorrimos e parece
que nada mais poderia acontecer
senão a chuva queimando a nossa dor.
Há porém um outro modo
circular de esquecer, um trejeito
infantil no caminhar, uma promessa
incorruptível por cumprir, a luz
de certas horas, alguns rios
tatuados nas planícies sem fronteira.
Que importam os dias proibidos?
O nosso reino começa sobre a terra
onde a chuva dança, sobre as ruas
molhadas do silêncio, sobre o cais
abandonado dos teus olhos, sobre
uma rosa solitária ou sobre o corpo
flutuante das palavras para amar.
Sobre o nosso rosto, o nosso
rosto imóvel onde a chuva
começa agora a desenhar
uma ténue mas precisa claridade.
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Os teus pés desflorados na partida
da terra amarga, máquina do tacto,
lombas e retrocessos, um cortejo
de animais ausentes como um sopro
de pegadas dançando à beira-mar.
A saliva sobre a pele, uma gota
sedenta de outra gota, uma sombra
desvendada em cada sulco, lentamente
os gestos ganham peso, ganham sangue,
e a planície regurgita de esplendor.
E depois do amor resta somente
o coração dos meus lábios traindo
um rubor incestuoso, certas
afinidades
pouco electivas
à luz do dia.
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Era uma vez
uma criança de dedos maliciosos
que amava o contorno das esferas.
Criança de rugas e de pasmo, um rio
descuidado à partida, infiel na viagem,
levemente acidulado como o vento
que paira nas muralhas da cidade.
Os olhos perdidos sobre a pele,
a folhagem das canções em cada dedo,
- um corpo oscilante, os lábios incertos,
sorrindo junto à noite por trás da vidraça.
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Acaso
Umas coisas ou outras - a fuga
ou o segredo, as horas e as vagas
inalteráveis, quem pode
deslocar a memória, saber
do que vem no fim do dia?
Um elenco de promessas por cumprir,
alguns lábios suplicantes para amar,
uma pergunta sem resposta indiscutível:
será tempo de cantar ou de partir?
Há um tempo para tudo. Mas
quem faz a partilha desejada, quem
desmembra a luz antes da morte?
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E subitamente temos medo. Um medo suave
como uma carícia quase esquecida, um ardor
que passa através dos vidros e da chuva, uma sombra
pendurada na manhã e quase cega.
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O olhar distante e a voz enternecida.
Será possível amar depois da morte?
Precisamos de um corpo incorruptível,
de um insecto refulgente em pleno olhar.
Em plena rota. Viajar dentro de um saco
de papel amachucado pela dor. Silêncio.
O jogo prossegue, os pequenos objectos
dispersos pela chuva podem finalmente
renascer. Ao menor gesto tudo é permitido.
Façamos deste tempo um rosto imundo,
o clamor maternal do nosso olhar.