Poemas 1997
Os feiticeiros do destino ganham tempo,
a sua forja não tem pressa, arde lenta,
lentamente como as horas que incendeiam.
Inocentes são apenas os despojos
que restam da matança, inocente é apenas
a carne esmagada pela aurora, inocente
é somente a terra inerte e suja
que resta da partida dos heróis.
E cabe-nos a nós ficar ausentes,
prisioneiros da matéria dividida.
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O silêncio parece ser a norma dos deuses,
a sua face é pedra emoldurada num caixilho
de desejo e ruptura, nenhum deles
sobrevoa hoje os nossos céus, saudade esquiva
doutro tempo esquecido na luxúria
das palavras amarradas sobre a língua,
do desprezo que se instala pelo corpo.
Depois da tempestade começam as perguntas.
Alguém responde, outras vozes calam
a chuva sob a pele, o rumor dos brinquedos.
Em cada esquina um bilhete sem palavras.
A solidão amacia esta desforra, descobrindo
a renúncia desbravada sobre o leito,
o nosso amor pelas formas descontínuas.
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O nosso trabalho é refazer as distâncias, conquistar
os dias julgados perdidos, retomar os atalhos por onde
já ninguém passa, acossar a sombra dos olhos perplexos
pela imensidão das promessas corrompidas, pelo
terror insatisfeito, temos um trabalho deslumbrante,
regamos a terra magoada pelo sangue, limpamos
as casas onde o vento se instalou, reaprendemos
todo o pudor desses corpos alinhados rente ao muro.
E talvez no final estejamos sós, de mãos vazias, encolhidos
como um cão demente e cego, rodeado pela morte.
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Habito um canal inamovível junto ao mar.
É esse o meu leito ancestral, o meu corpo sitiado
pela terra incandescente, o meu reino onde adormecem
as histórias proibidas, onde as palavras
emudecem sem destino, escondidas dessas vidas
que se estendem pelos corpos, pela terra que me cerca.
Se a noite se insinua docemente eu fecho as margens
e continuo insondável sobre a água, marinheiro tão distante
de uma aurora que paira sobre a terra, habito, já se sabe,
o meu canal cinzento e triste, algo sinistro
no seu riso entreaberto de papoilas, e até conheço a terra
a espaços de silêncio intermitentes, mas regresso
ao meu canal de comportas decisivas, de lábios ausentes,
regresso à doença das manhãs inamovíveis, a essa margem
de segredos desdobrados, infantis, inutilmente.
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Esquecemo-nos do fardo inquestionável das perguntas, do
recheio insidioso de todas as escolhas, preferimos ignorar
que nunca se dorme sozinho entre as veredas, que nunca
se desfila para a noite como para um festim, não tivemos
em conta todas as histórias mal contadas, todos
os acasos que se constituem na matéria insondável do amor.
Escolhemos as palavras tomadas como setas, martelos
hipnóticos do desejo, das respostas, e era de prever
que não poderíamos fazer a cama com os lençóis sujos da morte.
Mas foi assim que nós entrámos, orgulhosos, na fogueira.
Sem outras despedidas e sem tempo. E então, só então
acordámos desconhecidos para o mundo. Mas despidos e sem tempo.