Poemas 2000/02
Insidiosamente
o jugo da memória
ganha espaço, ganha
uma cor fatigada de paixão.
z
Coincidências ou destino, algo se joga
no campo descontínuo do futuro.
O jogo está aberto sobre a mesa.
Quem jogará a primeira peça, quem
ficará com os despojos depois da contenda?
Havia vozes que falavam.
Agora não compreendo. Havia
uma saída ou o jogo está trocado?
z
Os escravos têm a alma suja de palavras.
Será possível tocar o amor como
uma palavra desprendida de mistério,
uma lenga-lenga da barbárie?
Mas por dentro de tudo e acima de tudo
há o zumbido interminável das abelhas.
z
Pode alguém fugir ao seu lugar? Mas não há
um lugar definitivo, um ponto assente
onde tudo regresse depois das brincadeiras
infantis - pois não há água nem sede, apenas
uma coisa amordaçada, um esgar doentio,
uma dor inacabada, uma coisa qualquer.
z
Já fomos jovens, tão jovens como o mundo.
Já fomos tão jovens que nos esquecemos
de falar, e alguém passou por alto o fim
da história, e nós ficámos, ausentes
e cansados, cansados de estar doentes, dessa
intrigante doença da juventude, dessa
doença sem apelo que tritura
a juventude que se perdeu no seu fulgor.
Mas o mundo está velho, e nós também,
e perguntamos: quem vai tocar o musgo
dos nossos lábios? Quem abrirá a porta
ao dia que nos ama e que nos cega?
z
Não contes as derrotas nem guardes as trincheiras.
A guerra acabou, o desfecho está a vista. As horas
que te pertencem de nada servem, é em relógios alheios
que se faz a contagem das vitórias.
Que esperas ainda encontrar? Guarda
o teu sorriso, não é luz para estes dias.
z
É uma dor deslumbrante, é o ar
que respiro, uma gota de luz
ou apenas eu, intacto
como sempre. É apenas o fim e
tu bem o sabes: sempre foi.