[...] - Oh velha maldição dos poetas,

que se lamentam quando deviam dizer,

que sempre julgam o próprio sentimento

em vez de lhe darem forma; que ainda supõem

que tudo o que neles é triste ou alegre

o sabem e o podem lastimar ou celebrar

num poema. Como os doentes,

eles usam a língua cheios de melancolia

para descreverem onde é que lhes dói,

em vez de se transmudarem em palavras,

duramente, como o canteiro duma catedral

se transpõe com aferro para a equanimidade da pedra.

 

Era isto a salvação. Se uma só vez tivesses visto

como o destino entra nos versos

e não regressa, como neles se faz imagem

e nada mais que imagem, do mesmo modo que um antepassado,

que dentro da moldura, quando por vezes o contemplas,

parece ser como tu e ao mesmo tempo diferente de ti -:

terias persistido.

 

Mas isto é mesquinho,

pensar o que não foi. E há também certa aparência

de censura no confronto, que não te atinge.

O que acontece leva tal dianteira

sobre o que supomos, que nunca o alcançamos

e nunca chegamos a saber como foi realmente.

Não te envergonhes quando os mortos roçarem por ti,

os outros mortos, os que resistiram

até ao fim. (que quer dizer: fim?) Troca

com eles teus olhares, tranquilo, como é costume,

e não tenhas receio de que o nosso luto

te sobrecarregue, de forma a dares-lhes nas vistas.

As grandes palavras dos tempos de outrora,

em que o acontecer era ainda visível, não são para nós.

Quem fala de vitórias? Suportar é tudo.

 

(Tradução de Paulo Quintela)