FACTOS, FICÇÕES E MEMÓRIAS

É possível que os mais de dezassete milhões de votantes no Partido Nacional Socialista nas eleições de 5 de Março de 1933 - as sextas eleições gerais que tiveram lugar na Alemanha em pouco mais de um ano - o não tivessem feito se tivessem levado a sério os planos de Hitler para os Judeus, claramente expostos em Mein Kampf e cuja horrível concretização é geralmente conhecida.

A verdade porém é que, mesmo para os Alemães que mantiveram a sua boa consciência durante e depois da tragédia dos anos 30 e 40, por alturas da ascensão do Partido Nazi ao poder, os Judeus tinham "ido longe demais" e era necessário fazer alguma coisa.

Como foi possível que um povo que produziu um simpatizante dos ideais da Revolução Francesa da estatura de um Beethoven - que dedicou a Napoleão a sua Terceira Sinfonia, "Heróica", só para riscar veementemente a dedicatória ao saber que o Corso se coroara imperador: "agora vai tornar-se um tirano!", afirmou -, que esse povo tivesse sido capaz de assistir, cento e cinquenta anos mais tarde, ao impiedoso massacre dos filhos de Israel?

O anti-semitismo não foi inventado pelos Nazis, como é sabido; havia em toda a Europa uma longa tradição de perseguição, por vezes violenta, aos Judeus, periodicamente atiçada pelos poderes instituídos, de uma forma mais ou menos directa, nomeadamente através da propaganda.

Um dos vários dispositivos propagandísticos utilizados pelos Nazis para difundirem a tese da perversidade judaica foi um texto já anteriormente utilizado pela máquina de propaganda czarista: o Protocolo dos Sábios de Sião. Tratava-se de um panfleto forjado em 1903 por sugestão de um conselheiro político de Nicolau II, e publicado num jornal de S. Petersburgo como parte de uma campanha destinada a desviar o descontentamento da classe média russa, do governo para os Judeus. Nele se desenvolvia uma vez mais a velha ideia da conspiração universal com a finalidade de dominar o mundo, com base, não num Estado, mas num povo, que a si mesmo se considerava o povo eleito.

Hitler, que alegadamente conhecia de cor o texto do Protocolo, utilizou-o duplamente. Primeiro, e de uma forma mais imediata, como instrumento de propaganda anti-semita, objectivo para o qual concorria de forma perversa o carácter duvidoso do documento: o facto de se ter estabelecido que se tratava de um texto forjado era a prova mais evidente da sua autenticidade pois, ao convencerem o mundo da falsidade de tais planos, os seus autores poderiam prossegui-los de forma secreta, chegando assim a realizar o seu objectivo final. Mas o Führer também utilizou o Protocolo como conjunto de técnicas e de tácticas de dominação do mundo a emular pelos Alemães, o que explica a afirmação de Himler de que "devemos a arte de governar aos Judeus"; de facto, se um povo como o judaico, desprezível, disperso e desarmado, considerava a possibilidade prática de dominar a humanidade, muito melhor a dominaria o povo alemão, certamente superior ao judaico, e dotado de uma poderosa máquina de guerra: ninguém poderia opor-se à vitória alemã sobre o mundo.

Um dos factos mais curiosos de toda esta sequência de acontecimentos literários e propagandísticos é a circunstância de um texto autêntico como Mein Kampf - que expunha planos e objectivos reais, que constituíam o programa de acção do poder nazi - não ter suscitado a atenção que a ficção do Protocolo - um conjunto de ideias fantásticas de autores inexistentes, supostamente levadas à prática por actores irreais - conseguiu obter. O que mostra que, em muitas circunstâncias, e em particular quando delas se faz uma boa gestão, a efabulação é mais poderosa do que a realidade. Ou, numa formulação geralmente atribuída a Goebbels de uma das regras de ouro da propaganda assente na criação de factos, "quanto mais monstruosa for uma mentira, mais possibilidades há de que as pessoas acreditem nela, pois será inimaginável que alguém se tivesse atrevido a inventar uma falsidade de tais proporções".

A escrita na primeira pessoa do singular, a produção de diários, autênticos ou fictícios, é uma técnica literária conhecida e vastamente utilizada. O que talvez não seja tão comum é a produção de diários forjados como se fossem verdadeiros.

Em 1995, Binjamin Wilkomirski, um Judeu suiço de meia idade, publica na Alemanha uma pequena obra intitulada Bruchstücke, Fragments, na tradução inglesa. Trata-se de um notável e comovente conjunto de memórias fragmentadas de infância, da infância de um Judeu nascido em Riga, na Letónia, em 1938 ou 1939. Aos dois ou três anos, Binjamin assiste à morte do seu pai: durante o massacre de Judeus que tem lugar em Riga em Novembro de 1941, o rapaz ouve gritos assustados que advertem: "Cuidado! São as milícias da Letónia!" e há um veículo que atropela o seu pai esmagando-o contra um muro, enquanto o rapazinho assiste ao embate sentado no pátio do edifício.

A memória seguinte de Binjamin é de um grupo de pessoas debruçadas sobre um mapa, numa salinha escura; depois, o pequeno foge de Riga por via marítima; chega a uma estação de caminho de ferro, faz mais duas viagens de combóio, ficando em seguida alojado num local situado nas florestas da Polónia - recorde-se que terá, por esta altura, cerca de três anos; aí passa algum tempo escondido numa quinta com uns rapazes mais velhos, supostamente os seus irmãos. Certo dia, é castigado por se mostrar a uma janela e é fechado no sótão da herdade; enquanto aí se encontra, dá-se uma espécie de batalha, de maneira que, quando consegue finalmente escapar do sótão, Binjamin descobre que está completamente sozinho.

Passado algum tempo, chega ao local um camião cheio de pessoas, crianças e adultos. Uma mulher fardada com um uniforme cinzento, um quepe pontiagudo e botas pretas lustrosas pega nele, dizendo-lhe que o vão levar para Majdan Lublin-Majdanek. Tanto melhor, pensa Binjamin, ansioso por reencontrar os seus irmãos desaparecidos. Mas Majdanek não é propriamente um jardim infantil. Quando lá chega, fica alojado numa de várias tendas, na companhia de muitas outras crianças. Segue-se um conjunto de episódios pungentes e aterradores de violência e crueldade, um dos quais tem como protagonista a sua mãe.

Mais tarde, aos quatro ou cinco anos, é levado para outro campo, possivelmente Auschwitz, e quando finalmente a guerra acaba, para Cracóvia, por uma mulher que aparentemente o conhece. Aí, fica instalado num orfanato judaico, sendo posteriormente levado por outra mulher, "Frau Grosz", para a Suiça. Segue-se novo orfanato, e finalmente a adopção por um casal suiço.

No Verão de 1998, Daniel Ganzfried, outro Judeu suiço, publica dois artigos num semanário do seu país, nos quais declara que a verdadeira biografia de Wilkomirski exclui por completo a possibilidade de ele ter alguma vez estado num campo de concentração nazi, "excepto como turista". Na realidade, Wilkomirski é o cidadão suiço de nome Bruno Dössekker, nascido a 12 de Fevereiro de 1941 no Cantão de Berna com o nome de Bruno Grosjean, filho de Yvonne Grosjean, mãe solteira, que um casal de nome Dössekker - um médico abastado e a sua mulher - recolhe em 1945 de num lar para crianças desprotegidas e leva para Zurique, onde reside, e que mais tarde adopta oficialmente.

Elena Lappin conheceu Binjamin Wilkomirski na Primavera de 1997, em Londres, onde ele foi receber o Prémio de não ficção por Fragments atribuído pelo Jewish Quarterly, a revista de que era então directora, tendo voltado a encontrar-se com ele um ano depois num jantar de promoção do livro, também em Londres. Por esta altura, a jornalista inicia uma longa e pormenorizada investigação acerca da obra e do seu autor, que a levará a várias cidades da Europa Central e de Leste, a Israel, aos Estados Unidos, falando com dezenas de pessoas referidas por Wilkomirski ou com ele relacionadas e, por duas vezes, com o próprio autor, na sua casa de campo perto de Weinfeld, na Suiça, e depois em Zurique. Essa investigação está exposta no artigo publicado na revista Granta ("The man with two heads", Granta, nº 66, Primavera de 1999, pp. 7-65) que constitui a principal fonte deste texto.

As primeiras dúvidas de Elena Lappin quanto à autenticidade do livro de Wilkomirski são suscitadas pelos artigos de Ganzfried; no entanto, depois da primeira grande entrevista com Wilkomirski, que a recebeu calorosa, ainda que a princípio um pouco desconfiadamente, na sua casa de campo, Lappin manteve a convicção de que, dada a intensidade da angústia que exibia ao falar do tema, não era possível que Binjamin não tivesse vivido pessoalmente aquilo que descrevia no seu livro.

E era difícil pensar outra coisa; aquando da sua publicação, Bruchstücke rapidamente se impôs como um clássico, tendo conhecido em pouco tempo traduções em Inglês, Francês, Italiano, Holandês e Hebraico. Os horrores nele descritos eram tanto mais impressionantes quanto eram narrados do ponto de vista de uma criança, sendo as crianças testemunhas particularmente raras do Holocausto, quer por terem sido poucas as que a ele sobreviveram, quer porque os seus testemunhos foram geralmente desvalorizados ou mesmo ignorados; desde a publicação do diário de Anne Frank que as memórias de uma criança não chegavam a um público tão vasto. Mas Bruchstücke combinava este notável carácter humano com uma qualidade literária que o levou a ser integrado em seminários sobre escrita criativa ministrados em universidades americanas e lhe valeu diversos prémios literários. Vários foram os editores que declararam a Elena Lappin que recusavam regularmente manuscritos de memórias do Holocausto mas tinham sido incapazes de resistir à força de Bruchstücke.

Wilkomirski praticamente ignorou as denúncias de Ganzfried, a não ser para declarar numa entrevista que os seus leitores tinham a liberdade de entender o seu livro como uma ficção ou um relato de factos; depois, a conselho do seu médico, retirou-se da vida pública, deixando de dar as múltiplas entrevistas e de fazer as numerosas conferências sobre temáticas relacionadas com o Holocausto a que se dedicara activamente nos anos que se seguiram à publicação do livro.

No entanto, já num posfácio à primeira edição de Bruchstücke se podia ler que a identidade do seu autor fora alterada aquando da sua chegada à Suiça - uma prática comum a seguir à Segunda Guerra Mundial: crianças judaicas escondidas por famílias cristãs adoptavam os nomes dessas famílias, não desejando depois retomar os seus nomes originais, associados ao estigma da perseguição -, existindo até um certificado de nascimento, o mesmo no qual Ganzfried se baseara para o denunciar. Mas esse certificado não passava de um papel, afirmava Wilkomirski, e os dados que nele constavam nada tinham a ver com a verdadeira história das suas origens e da sua infância, certificada, essa, pelas suas memórias - ainda que nenhum documento pudesse confirmá-las.

Parecia haver portanto uma explicação muito simples para todo o imbróglio: Wilkomirski era um Judeu nascido em 1938 ou 1939 na Letónia, cuja infância lhe fora roubada pelo conjunto de acontecimentos que se seguiu à tomada de poder por Hitler na Alemanha, e os documentos que o davam como cidadão suiço eram uma simples apropriação da parte da sua infância que decorrera depois de terminada a guerra, com o pormenor de estabelecerem o seu nascimento a 12 de Fevereiro de 1941.

Apesar de tudo, Elena Lappin decidiu empreender uma investigação, concretamente centrada nos dados históricos veiculados por Wilkomirski no seu livro. É certo que, no caso de eles serem confirmados por fontes exteriores, a autenticidade do livro não ficaria definitivamente estabelecida; porém, se eles fossem infirmados, as suspeitas quanto à sua falsidade receberiam uma forte confirmação.

Lappin começou por consultar alguns dos mais importantes historiadores do Holocausto. Um deles, Raul Hilberg, lera o livro no seguimento de um pedido de parecer quanto à sua validade histórica feito pelo jornal alemão Die Zeit, tendo chegado à conclusão de que diversos incidentes nele referidos eram, ou muito improváveis, ou totalmente impossíveis. Nomeadamente, o uniforme que, de acordo com a descrição de Wilkomirski, era usado pela mulher que o encontra sozinho na herdade da Polónia era o tipo de uniforme que as guardas dos campos usavam exclusivamente dentro dos mesmos e que nunca levavam para fora dos seus recintos; por outro lado, no livro, a mesma mulher dá ao campo o nome de Majdanek, quando os Alemães sempre o conheceram pelo nome de Lublin; mais tarde, ainda segundo os dados veiculados por Bruchstücke, o rapaz é transferido para Auschwitz, mas a verdade é que não há registos conhecidos de transferências de crianças de um para outro campo de concentração.

Em seguida, a jornalista contactou o historiador letão que Wilkomirski afirmava ter confirmado a primeira parte da história. Margers Vestermanis, ele próprio um sobrevivente do Holocausto que ainda habita em Riga, recordava-se vagamente de ter sido consultado acerca do assunto, mas declarou que nunca poderia ter confirmado a história da fuga do rapaz de Riga por via marítima em 1941, porque a linha de costa era nessa altura uma zona militar, portanto intensamente vigiada e controlada, e à qual os próprios pescadores tinham dificuldades em aceder. Por outro lado, era totalmente impossível que, no episódio narrado no livro como tendo ocorrido no mesmo ano, Wilkomirski tivesse escutado o grito "Cuidado! São as milícias da Letónia!", dado que o termo "milícias" só começou a ser utilizado depois da chegada dos Soviéticos; os Judeus da Letónia falavam entre si em iídiche e teriam dado a estas forças o seu nome nesse idioma: bendeldike. É muito estranho que este pormenor tivesse escapado a Wilkomirski (ao narrar a primeira entrevista que com ele manteve na sua casa de campo, Elena Lappin anota que Wilkomirski falou com ela em Alemão com um ligeiro sotaque iídiche).

Quanto à estadia de Wilkomirski em Majdanek, é verdade que, apesar das muitas dúvidas levantadas, nenhum dos historiadores entrevistados por Lappin nega em absoluto que houvesse crianças nesse campo. Lappin faz notar contudo que, num documentário alemão (Der Prozess) acerca do julgamento de guardas do mesmo campo que teve lugar entre 1975 e 1981, são feitas referências à existência de duas tendas com cerca de 200 crianças; essas crianças foram eliminadas no decurso de uma operação especial levada a cabo durante a Primavera e o Verão de 1943; as que eventualmente tivessem sobrevivido a essa operação teriam sido apanhadas na operação seguinte, a Operação Festival das Colheitas, iniciada a 3 de Novembro de 1943. Apesar de tudo, Elena Lappin refere que talvez houvesse em Majdanek tendas com crianças não judaicas, entre as quais poderiam estar misturadas crianças judaicas - embora seja difícil compreender que um rapazinho circuncidado tivesse escapado ao olhar treinado dos guardas.

De facto, a questão da circuncisão é outro dado interessante desta história, acerca do qual as declarações de Wilkomirski são confusas e contraditórias. Quando levou a cabo a sua investigação que conduziu às denúncias publicadas em 1998, Ganzfried foi a ponto de entrevistar uma antiga namorada e a primeira mulher de Wilkomirski, tendo ambas declarado que ele não era circuncidado. Quando Elena Lappin lhe pergunta se é circuncidado - uma pergunta perfeitamente natural a fazer a um Judeu -, Wilkomirski recusa-se a responder, para mais tarde lhe sugerir por escrito que muitos Judeus evitavam circuncidar os seus filhos por motivos de segurança; o que não é inteiramente compreensível quando estamos a falar de uma pessoa nascida em 1938 ou 1939. No entanto, terá dito numa entrevista que, quando se encontrava em Majdanek, se sentia pouco à vontade quando ia urinar, por ter receio de que os outros detectassem que era circuncidado (o que parece confirmar que se encontraria alojado com crianças não judaicas).

Outro núcleo importante de investigação foi o orfanato em Cracóvia. A instituição descrita por Wilkomirski é perfeitamente identificável, de tal maneira que Elena Lappin conseguiu falar com diversas pessoas - actualmente residentes em vários países - que aí estiveram alojadas em crianças durante o período em que Binjamin declara ter vivido na instituição; nenhuma delas se recordava de qualquer rapaz que correspondesse à sua descrição; igualmente incapaz de se recordar dele foi uma das mulheres encarregadas do orfanato na altura, mencionada no livro.

Por outro lado, quando em 1998 Lappin lhe mostra uma fotografia do orfanato, Wilkomirski afirma conhecer perfeitamente o edifício, apontando mesmo para uma certa janela redonda modernista localizada ao lado da porta, e declarando com emoção tratar-se de uma janela da qual tinha muito medo; no entanto, numa filmagem feita em 1994 de um reencontro entre um grupo de pessoas que tinham estado alojadas no orfanato a seguir à guerra, e visionada por Elena Lappin, ao ser-lhe mostrada a mesma fotografia, Wilkomirski perguntara: o que é isto?, sendo então informado de que se tratava do referido edifício.

Finalmente, Wilkomirski teria conseguido localizar "Frau Grosz", a mulher que o levara de Cracóvia para a Suiça. Na sequência da exibição de um documentário feito por uma cadeia de televisão israelita sobre crianças judaicas cujas identidades tinham sido alteradas, e no qual é referida a história de Wilkomirski, este terá sido contactado por uma mulher de Nova Iorque, que lhe terá declarado que também vivera nesse orfanato, onde a sua mãe - cujo nome de família era Gross - a visitava frequentemente; a existência desta mulher foi, pois, apresentada por Wilkomirski como uma prova da autenticidade do seu relato. Porém, contactada por Elena Lappin, a filha da Sra. Gross contou uma versão um pouco diferente: de facto, dissera a Wilkomirski que a descrição que ele fazia de "Frau Grosz" lhe fizera recordar a sua mãe - embora por motivos tão vagos como ela ser o tipo de pessoa que falava carinhosamente com as crianças e se preocupava em lhes explicar as coisas -, mas acrescentara que era totalmente impossível que a mãe tivesse viajado de Cracóvia para a Suiça nessa altura, por razões familiares e outras.

Outra pessoa entrevistada por Elena Lappin foi Gary Mokotoff um membro do Conselho Literário Judaico dos Estados Unidos, cujo prémio para memórias Bruchstücke ganhou; Mokotoff ter-lhe-á declarado, porém, que o livro nunca teria ganho o prémio na categoria de Holocausto, aproveitando para lhe recordar o caso de outro autor, Martin Gray, cuja obra fora apresentada como memória histórica e posteriormente denunciada como fraude (ou ficção), salientando o contributo que este género de casos dá à causa dos revisionistas do Holocausto.

E esse é talvez o verdadeiro problema que um caso como este suscita e a razão pela qual é tão importante distinguir cuidadosamente factos de ficções, independentemente das emoções que estas possam provocar nos seus criadores e no público que os lê: é que, se as memórias de uma "vítima do Holocausto" são inventadas, então talvez as memórias de mais "vítimas do Holocausto" sejam inventadas, e talvez as memórias de todas as vítimas do Holocausto sejam inventadas, e talvez nem tenha havido Holocausto nenhum...

Em 1940, Yvonne Grosjean, uma operária de uma fábrica de relógios suiça, solteira e muito pobre, é atropelada por um carro quando circula de bicicleta em Biel. No hospital onde é internada em consequência do acidente, descobre-se que está grávida. O irmão, Max Grosjean, que não vê há uns dez anos, vai visitá-la nessa altura. Em Fevereiro de 1941, nasce a criança, que recebe o nome de Bruno; filho ilegítimo de uma mãe possivelmente incapaz de o sustentar, o bebé é entregue aos cuidados das autoridades de Biel. Em 1945, terá sido transferido para Adelboden, para uma casa de acolhimento chamada Sonnhalde, onde a mãe o terá visitado pelo menos uma vez; quando os tios tentam adoptá-lo - tendo a então futura tia ido mesmo visitá-lo a Adelboden -, é-lhes dito que é tarde demais, pois Bruno já fora adoptado por um casal abastado de Zurique. Bruno Grosjean é oficialmente adoptado pelos Dössekker em 1957.

Bruno Dössekker cursou História na Universidade, embora nunca tenha entregue a sua tese sobre a emigração judaica entre as duas guerras. Ao longo dos anos, foi comprando e coleccionando material relacionado com o Holocausto: relatos, filmes, transcrições de julgamentos, fotografias, especialmente tudo aquilo que se relacionava com crianças, possuindo actualmente um acervo considerável.

Já nas décadas de 1960 e 1970 contava a dois amigos com quem convivia regularmente nos cafés de Zurique uma história cheia de pormenores comoventes acerca da sua vida no gheto de Varsóvia, e que fora salvo do Holocausto por uma ama suiça. Na década de 1970, faz várias viagens à Polónia e, na década de 1980, à Europa de Leste, "à procura das suas origens".

Em 1981, morre a sua mãe natural; Bruno Dössekker, que por essa altura já assumira o nome e a personagem de Binjamin Wilkomirski, não se coíbe apesar disso de aceitar uma pequena herança que lhe fora por ela legada. Os Dössekker, que viviam de forma bastante confortável, morrem em 1986. Bruno/Binjamin, o seu filho - único - adoptivo, herda todos os seu bens. Mortos os Dösseker, é mais um elo da cadeia de ligações com o passado de Bruno que se quebra; eles poderiam, nomeadamente, testemunhar acerca da propabilidade de o rapazinho que foram buscar à casa de acolhimento de Sonnhalde em 1945 ter já seis ou sete anos de idade (caso em que teria nascido em 1938 ou 1939), em vez dos quatro para que apontavam os dados constantes na sua certidão de nascimento passada pelas autoridades suiças.

Em 1993, Bruno Dössekker/Binjamin Wilkomirski faz uma longa viagem por Majdanek, Auschwitz, Cracóvia e Riga, acompanhado por Elitsur Bernstein, um psicólogo judeu que conhecera em Zurique no final da década de 1970, a quem confidenciara os seus sentimentos relativos às recordações da sua infância perdida e que posteriormente trabalhou com ele, primeiro na fase da recuperação das suas memórias e depois com o objectivo de ajudarem outros sobreviventes do Holocausto a descobrir a sua identidade. Bernstein sempre foi contra a ideia da publicação do conjunto de apontamentos que deu origem a Bruchstücke.

Em 1995, Binjamin Wilkomirski publica Bruchstücke.

Embora tenha sido desafiado a fazê-lo, tanto por Ganzfried como por Lappin, Wilkomirski mostrou-se indisponível para se submeter a testes de ADN, que poderiam provar o seu parentesco com Max Grosjean, o irmão de Yvonne Grosjean, com quem Elena Lappin teve também oportunidade de conversar. É ele quem lhe conta um dos factos mais tristes do passado, não directamente de Bruno, mas da mãe deste: ela e o seu irmão eram Verdingkinder, o estatuto atribuído aos filhos, por vezes ilegítimos, por vezes órfãos, dos pobres, que eram obrigados a trabalhar desde a infância para famílias de camponeses em troca de abrigo e de comida; os espancamentos, o abuso sexual e o sofrimento a eles associados eram o destino comum destas crianças. Fora devido a esse sistema, abolido na década de 1950, que Max e Yvonne tinham vivido separados durante cerca de dez anos.

Em "A vida é bela", um dos mais notáveis filmes alguma vez realizados sobre o Holocausto, Guido, a personagem interpretada por Bellini, mente descaradamente ao seu filho acerca da realidade do campo de concentração em que ambos foram encerrados; e mente-lhe, não alterando os factos - o que seria impossível, dado que a criança os tem diante dos olhos -, mas traduzindo-os (literalmente) noutra realidade, a ficção de um jogo. É natural que, na memória dessa criança, a tremenda realidade do pão duro, dos ratos circulando de um lado para o outro e do duche a que fugiu, escapando à morte, mas não a uma reprimenda do pai, se confundisse com a gloriosa ficção da vitória no jogo, consubstancida na majestosa entrada do tanque de guerra no campo já vazio e no reencontro com a mãe.

Talvez não seja, afinal, assim tão estranho que um homem cujas memórias de infância são de vergonha e agonia, de perda e desencontro, talvez até de alguma frieza - os povos germânicos não são conhecidos pela sua facilidade na expressão de sentimentos de ternura e é natural que os pais adoptivos de Bruno o não abraçassem com tanta frequência como Guido ao seu filho -, quisesse substituí-las por outras, de horror, é certo, mas infinitamente menos prosaicas.

Maria José Figueiredo