Memórias
(1)
1.
Este documento, escrito
pelo punho do meu bisavô materno, é curiosíssimo, pois trata-se de um assento
(e esta palavra é bem adequada à época e ao estilo do documento) de
nascimentos e baptizados relativo à prole desse meu antepassado. O meu avô é
o Agostinho que vem referenciado como tendo nascido a 31 de Janeiro de 1897. Um
aspecto a salientar é o facto de este meu bisavô não ter achado necessário
referir o nome da mulher que o «recebeu» (e que tão bem o terá recebido que
o primeiro filho nasceu exactamente nove meses e um dia depois...), reduzindo-a
assim, ainda que involuntariamente, ao papel de parideira ao serviço da
descendência do paterfamilias.

2.
Esta fotografia de pose
familiar durante um passeio dominical (estou a especular mas, se tiver razão,
pode muito bem ser no jardim do Campo Grande, os meus avós viviam no
Saldanha...) representa a minha mãe com os pais e o irmão (e o pai é
justamente o Agostinho acima referido). No verso é um bilhete postal, o que me
faz pensar que terá sido tirada por um daqueles fotógrafos que se podiam
encontrar nos principais jardins públicos, com as suas volumosas máquinas em
cima de um tripé e um escaparate ao lado. Ainda me lembro deles no tempo da
minha infância.

3.
Uma pequena
brincadeira. Trata-se da factura relativa ao internamento da minha mãe aquando
do meu nascimento.

4.
Eu, com 3 anos. Não
faço ideia de quem seja a criatura que tenta agarrar-se a mim. Mas tem um ar
fantasmagórico...

5.

6.
Creio que é o meu
primeiro poema, escrito aos 15 anos. No 3º verso fala-se de um «véu cinzento
e húmido». Lugares comuns de um certo tipo de poesia e uma distribuição algo
estranha das rimas (teria bebido?). E, com 15 aninhos, eu sabia lá alguma coisa
do amor confessado raivosamente na cama! O que me estava a queimar deviam ser,
definitivamente, os vapores do álcool...

