Shakespeare, Eurípides e Cavafy: a literatura entre o desejo e a realidade

Edith Clever como Ágave

Alguns escritores são grandes pela investigação obsessiva de si mesmos. Outros são-no pela multiplicação das personagens que surgem para a vida nas suas obras. Numa primeira abordagem, talvez possamos dizer que os primeiros se movem num plano vertical, enquanto os segundos se espraiam num plano horizontal. Caso paradigmático de uma fusão genial destes dois movimentos será o de Shakespeare - e daí, como afirma Harold Bloom em O Cânone Ocidental, este autor se situar no centro do cânone da cultura literária ocidental (senão mesmo universal...). Em Shakespeare, nas suas personagens mais conseguidas, há aquilo a que podemos chamar uma força cognitiva, essas personagens evoluem através de uma reflexão interior. E essa é a sua força, e a marca da genialidade shakesperiana, porque é assim que a vida é, um confronto entre o desejo e a realidade.

O caso que primeiro me interessa realçar é o da evolução de Macbeth, e é um caso limite, um caso em que a evolução da personagem na busca de sentido a leva, finalmente, a confrontar-se com a conclusão da ausência de todo o sentido. Macbeth, no quinto e último acto da peça, depois de saber da morte da rainha sua mulher, diz estas palavras:

She should have died hereafter;
There would have been a time for such a word.
To-morrow, and to-morrow, and to-morrow,
Creeps in this petty pace from day to day,
To the last syllable of recorded time;
And all our yesterdays have lighted fools
The way to dusty death. Out, out, brief candle!
Life’s but a walking shadow; a poor player,
That struts and frets his hour upon the stage,
And then is heard no more; it is a tale
Told by an idiot, full of sound and fury,
Signifying nothing.

Em minha opinião, este é o momento chave da peça, e não só, nem principalmente, por ser da mais extraordinária poesia que algum autor, em algum lugar, jamais escreveu - é-o porque expressa essa força cognitiva de que falava, porque é aqui que Macbeth resume todo o caminho percorrido até então, e esse caminho desemboca na ausência de sentido para todo o esforço dispendido, para todos os horrores vividos. A ausência de sentido que a morte despoleta revela a ausência de sentido da vida, e não só da de Macbeth, marioneta trágica de uma cadeia de profecias, mas de toda e qualquer vida.

Este confronto com o destino, condensado num momento culminante, podemos encontrá-lo também recuando alguns séculos, até Eurípides. N'As bacantes (que tive o privilégio de ver na recriação da Schaubühne de Berlim, com uma notável Edith Clever), quando Ágave reconhece que o animal que ela e as companheiras tinham caçado não era um leão mas o seu filho, Penteu (numa espécie de psicanálise avant la lettre, em que o analista de serviço não é senão o próprio pai, Cadmo), chega-se a um ponto em que a acção desacelera para se concentrar numa tensão patética. O que em Shakespeare era dado pela repetição obsessiva de uma palavra (to-morrow, and to-morrow, and to-morrow), é aqui dado pelo ritmo das perguntas e respostas que conduzem Ágave de volta à realidade, uma realidade com a qual nunca seria tarde demais para se confrontar (there would have been a time for such a word...).

Desejo e realidade, um confronto insolúvel que está bem expresso nas palavras finais do coro :

Infinitas são as manifestações da vontade divina; infinitos os acontecimentos que os deuses desencadeiam contra o que tinhamos previsto. Os que esperamos, esses não se realizam; os que não esperamos, um deus lhes abre o caminho.
(tradução de Fernando Melro)

É claro que as personagens das peças trágicas gregas não são apenas vítimas das maquinações dos deuses; elas trazem em si o potencial da tragédia, que radica no seus desejos, isto é, na liberdade. Tal como no mito de Adão e Eva.

A Hybris, que se manifesta de modo diverso nos dois autores mais antigos - e de Eurípides a Shakespeare já vai uma grande distância, os deuses morreram* ou transformaram-se em bruxas... - é finalmente resolvida no poema de Cavafy, Ítaca.

Quando partires de regresso a Ítaca,
deves orar por uma viagem longa,
plena de aventuras e de experiências.
...
Ciclopes, Lestrogónios, e outros monstros,
Poseidon em fúria - nunca encontrarás,
se não é na tua alma que os transportes,
ou ela os não erguer perante ti.
(tradução de Jorge de Sena)

Os deuses transformam-se num mecanismo retórico e o sentido que se encontra é o próprio caminho (Ítaca deu-te essa viagem esplêndida./Sem Ítaca não terias partido./Mas Ítaca não tem mais nada para dar-te.), sendo o desejo sublimado ao transferir-se da vida para a experiência estética. O poeta é um fingidor. E é por isso que, de todos, é Cavafy quem triunfa, um triunfo algo melancólico que é bem um sinal do seu tempo - o desaparecimento dos deuses torna melancólicos os homens que assim descobrem a sua solidão. E qual o sentido disto? Não dizia António Machado que Un corazón solitário no es un corazón? E não se imolou Kafka neste beco sem saída?

Nada resta então além da mais patética inutilidade? Sobre a vida nada sei, mas quanto à literatura direi que resta aquilo que é a sua própria razão de existir - a beleza, isto é, o caminho. É por isso que, de certa maneira, a experiência estética é maior do que a vida, pois através dela podemos viver e resolver os conflitos que nos dilaceram. Numa perspectiva auto-fágica? Talvez seja esse o preço a pagar pelo abandono das ilusões. Não escrevia Keats (no rescaldo do primeiro romantismo inglês e da revolução francesa) que 'Beauty is truth, truth beauty' - that is all/Ye know on earth, and all ye need to know?

Vasco Casimiro


O que tão amargamente é sentido por Hölderlin, como se pode ler em O Arquipélago:

Mas, ai! a nossa raça, sem divino, vagueia na noite,
E vive como no Orco. Presos só ao próprio labor,
Na forja bramante cada um se ouve só a si próprio,
E com braço possante muito trabalham os bárbaros,
Sem descanso, mas sempre e sempre estéril,
Como as Fúrias, é a labuta destes pobres.
Até ao dia em que, desperta do sonho de angústia, a alma
Dos homens ressurja, juvenil e alegre, e o hálito de benção de amor,
Como outrora tantas vezes entre os filhos florescentes da Hélade,
Outra vez sopre em novo tempo e sobre frontes mais livres
O Espírito da Natureza [ ...].
(tradução de Paulo Quintela)*