Ética e Cidadania
Crimes                                                                            

     A que ponto já se chegou hoje na prática de tais crimes?

     Da Índia chegam notícias da venda de rins para hospitais privados britânicos. Um cientista americano propõe uma recompensa de mil dólares como uma espécie de caução aos parentes de pessoas mortas que tenham tido algum órgão retirado. Um médico daquele país defende há tempos "a nobreza das doações através de pagamento". Um professor universitário inglês apoia enfaticamente um artigo publicado no Journal of Medical Ethics, que defende a doação de órgãos por pessoas vivas: "Não existem argumentos morais conclusivos contra este tipo de pagamento pela doação de rins", assegura o professor. Em 1989 a revista The Lancet informou (pela primeira vez) que rins eram retirados de prisioneiros condenados à morte em Cantão (China) e vendidos. Em 1997, a rede de televisão americana ABC informou que militares chineses estavam vendendo por 30 mil dólares órgãos de prisioneiros executados. O anúncio de um jornal chinês publicado em Nova York dizia: "Transplante de rins na China continental. Não percam a oportunidade." Um intermediador chinês em Nova York oferecia córneas a US$ 5 mil o par, e por preços mais altos também pâncreas, fígados, pele e pulmões (de prisioneiros não fumantes).

     Em 1991 a polícia uruguaia prendeu sete pessoas que pretendiam repassar para um hospital de São Paulo, pela quantia de 40 mil dólares, rins comprados por 2 mil dólares nos bairros pobres de Montevidéu. O gerente de uma instituição francesa especializada na atividade de fornecimento de rins pagos se justifica: "É um processo gratificante porque se consegue tornar felizes duas pessoas." Outro defensor da venda de órgãos de pessoas vivas explica: "As éticas não são absolutas e modificam-se de acordo com as condições e os constrangimentos econômicos".

     Na Europa, principalmente na Itália e na França, já existem agências de turismo que vendem pacotes "médicos" por US$ 20 mil, incluindo passagem, internação, compra do rim e transplante. Companhias americanas implantaram um sistema chamado "cash death benefit": paga-se uma certa soma, em dinheiro e em vida, em troca da doação de órgãos no caso de morte até os 50 anos de idade. Um professor de Bioética — uma cadeira nova no ensino da medicina (aparentemente inútil como se verá a seguir) — acredita que a humanidade está passando por uma evolução de mercado: "No tempo da escravidão o homem era vendido inteiro; hoje, rins são comprados e vendidos com facilidade na Índia e em outros países", fundamenta o professor.

     Enquanto cresce a freqüência de artigos publicados nas revistas científicas, tentando legitimar e estimular formas de pagamento de partes ou funções do corpo humano, seja de cadáveres ou de vivos, o mercado de órgãos continua em franca expansão no mundo todo. Além de rins, pode-se adquirir hoje nesse mercado os mais variados produtos: de sangue fresco à medula óssea, de córneas a fígados, de esperma a coração e pulmões. E, segundo denúncias, até mesmo crianças inteiras.

     Há também quem denuncie experimentos utilizando embriões e fetos, e já se fala na possibilidade de transplantes de cérebros… Em julho de 1995, a Dra. Hilda Molina, diretora do Hospital Neurológico Cubano, renunciou ao cargo denunciando o uso de fetos para transplantes em estrangeiros.

     Num artigo publicado na revista Philosophy, um cientista sugere a criação de uma "loteria da sobrevivência", em que cada pessoa receberia um número para participar de um sorteio compulsório. A escolhida seria morta e seus órgãos distribuídos para os que necessitassem de um ou mais transplantes. Desse modo se poderia salvar várias vidas sacrificando-se uma só…

     Uma outra corrente de pesquisadores quer produzir, através de engenharia genética, uma raça de sub-homens com a única finalidade de fornecer órgãos para transplantes. Um dos mais fervorosos defensores dessa idéia é o Dr. James Watson, descobridor, juntamente com outros cientistas, da estrutura molecular do DNA na década de 50 e prêmio Nobel de Biologia: "Quando pudermos produzir um andróide com órgãos humanos perfeitos e sem cérebro, para nos fornecer órgãos para transplantes, vamos fazê-lo e pronto!", ameaça.

     Logo após as primeiras notícias sobre o desenvolvimento com sucesso de animais clonados, isto é, animais nascidos de uma única célula geneticamente alterada de um animal adulto, um operador de uma bolsa de valores declarou que estaria disposto a pagar três milhões de dólares para ter um clone seu, à sua disposição, para o caso de ele necessitar de algum órgão para transplante...

     Atualmente, as pesquisas científicas estão direcionadas para o chamado xenotransplante, isto é, o transplante de órgãos entre espécies diferentes. Num teste com dez macacos, que tiveram corações transplantados de porcos, o recorde de sobrevivência foi de 60 dias. Mas o que interessa aos pesquisadores são transplantes de órgãos de animais para seres humanos. Já se fez transplante do coração de um macaco para um bebê, da medula de um babuíno para um doente de AIDS e parece que também do fígado geneticamente alterado de um porco para um moribundo. O porco, aliás, foi o escolhido por uma empresa britânica de pesquisas, que criou o primeiro animal "transgênico" do mundo: um porco que abriga um coração com gene humano. A empresa acredita que o órgão com gene humano do animal pode "enganar" o sistema imunológico do paciente humano, evitando a rejeição no período pós-operatório, apesar de um relatório de especialistas ingleses alertar que isto poderia introduzir vírus novos e letais na população. Em outubro de 1997, pesquisadores descobriram que os órgãos dos porcos abrigavam pelo menos dois tipos de vírus capazes de infectar células humanas, ambos da família do HIV.

     Nunca, em tempo algum, em lugar algum, um xenotransplante será bem sucedido num ser humano. Jamais haverá nada que sequer se aproxime do conceito de um xenotransplante bem sucedido. Não é apenas a espécie do corpo terreno humano que é diferente da espécie do corpo de outros animais. O sangue humano é muito diferente de qualquer outro tipo de sangue animal, pois ele está em íntima relação com o próprio espírito humano. O animal não possui espírito, e por isso a constituição do seu sangue é também completamente diversa da do ser humano, muito mais do que seria de se esperar considerando-se apenas as diferenças corpóreas entre as duas espécies. As diferenças na composição do sangue das diversas espécies animais já se constitui numa barreira intransponível para qualquer tentativa de transplante prolongado entre eles, quanto mais — pelos motivos expostos — entre um ser humano e um animal.

     Acredito, sinceramente, não ser necessário comentar com mais detalhes outras passagens da prática macabra dos transplantes de órgãos. Qualquer pessoa que ainda não tenha o espírito completamente enrijecido terá de sentir repulsa em relação a essas coisas. Sua própria intuição lhe mostrará o real significado dessas práticas, um dos mais asquerosos crimes contra a natureza.

     Este é, em largos traços, o retrato do crescimento vertiginoso da diversificada criminalidade no nosso tempo. Não é necessário falar mais a respeito, pois, como já mencionado, o aumento dos atos criminosos em nossos dias é tão grande, tão nitidamente perceptível, que qualquer um que acompanhe, por pouco que seja, os acontecimentos à sua volta, tem de estar convencido disso. Cabe a ele então o esforço de ponderar sobre esse crescimento e procurar suas verdadeiras causas.

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André Carnevale - Pedro Paulo Ruiz