Ética e Cidadania

'Faltam diretrizes para a PM efetuar trabalho'

Para coronel, governo negligencia a corporação e não tem energia para cumprir seus projetos

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                  By Andre e Pedro

     Presidente em exercício da Associação dos Oficiais da Reserva da Polícia Militar, o coronel Hermes Bittencourt Cruz disse que falta energia ao governo estadual para impor sua política de segurança pública. "Em 41 anos como policial, nunca recebi de governo, nem nunca senti, uma orientação clara quanto ao objetivo, a filosofia de trabalho operacional e a política de pessoal e de formação na Polícia Militar."

     Cruz passou para a reserva em 1995, quando o governador Mário Covas tomou posse, acompanhado por outros 26 policiais. Durante a carreira, chefiou, entre outros, a Academia da PM, a Rota e o Estado-Maior do Comando de Policiamento Metropolitano.

     O coronel foi ainda um dos criadores do programa de tratamento psicológico para os policiais envolvidos em tiroteios e o primeiro professor de policiamento comunitário da PM, no Curso de Aperfeiçoamento de Oficiais. Para ele, a violência em São Paulo fez o paulistano desenvolver a "síndrome da próxima vítima". A seguir, os principais trechos da entrevista ao repórter Marcelo Godoy:

Estado - O senhor acredita que os controles internos da PM são eficazes?

     Hermes Bittencourt Cruz - Os controles internos dependem, primeiro, da pessoa que ocupa a função de corregedor. Sendo uma pessoa com apetite, eles funcionarão bem, pois a lei e a estrutura interna permitem que o controle seja feito. Agora, só o corregedor não basta. É necessário um sistema de controle operacional que funcione 24 horas, que represente o Alto Comando da PM, para que a tropa tenha a expectativa de que, a qualquer momento, será fiscalizada. Para ser mais claro: é preciso uma ronda de coronéis, pois, após as 18 horas, há uma ruptura entre os altos níveis hierárquicos e a ponta de linha, prevalecendo valores existentes na ponta de linha. O caso da Favela Naval é um exemplo disso. O policial julga-se em condições de fazer aquilo porque não tem fiscalização de seus superiores.

Estado - A polícia é muito criticada por causa do desvio de seus homens da rua para trabalhos em bandas, na Câmara... Por que isso ocorre?

Cruz - A insegurança de hoje reflete-se no próprio policial, que faz um fluxo migratório perverso, da ponta da linha, o patrulhamento das ruas, para uma área de policiamento especializado, como o policiamento de trânsito e o florestal, nos quais a possibilidade de enfrentar uma ocorrência grave é menor, ou para unidades em que existem gratificações financeiras, como a assessoria militar da Assembléia Legislativa e o Palácio dos Bandeirantes e outras próximas do poder. O policial é levado a rejeitar a ponta da linha...

Estado - Porque não há gratificação para o patrulhamento das ruas...

Cruz - Exatamente. O clima de insegurança e os locais mais atraentes e sem riscos provocam essa escolha, que é uma tendência natural. O dia em que o governo entender que a prioridade é a ponta da linha, as distorções acabarão. O policial da linha de frente deve ser a peça mais importante da PM.

Estado - O senhor fala em insegurança afetando o policial. Se o policial sofre com ela, como ela atinge o cidadão?

Cruz - Nós vivemos a síndrome da "próxima vítima". Ela é causada pela tensão emocional ante a possibilidade de ser vítima de um crime. Essa síndrome ocorre em áreas de grandes catástrofes ou em zonas de guerra. Não vivemos nessas situações, mas, como os criminosos usam métodos semelhantes aos da guerrilha urbana, podemos concluir que estamos num clima de guerra não-convencional, daí o efeito devastador da insegurança no equilíbrio emocional do paulistano, que a qualquer momento - imagina - pode ser vítima de um crime.

Estado - Como é a relação entre o trabalho policial e a política de segurança pública?

Cruz - Em 41 anos como policial, nunca recebi, nem nunca senti, uma orientação clara quanto ao objetivo, a filosofia de trabalho operacional e a política de pessoal e formação da Polícia Militar. Isso era feito segundo os sinais informais que alguns governos passavam para a polícia. A nomeação do comandante-geral nunca foi uma escolha baseada apenas na capacidade e no conhecimento da polícia. Há negligência do governo quanto à orientação e à composição dos altos escalões de comando. Os dois grandes projetos de policiamento que eu vi nesses 41 anos nasceram na própria PM: o radiopatrulhamento padrão e o policiamento comunitário.

Estado - Ex-secretários da Segurança dizem que a PM é incontrolável. O senhor concorda?

Cruz - Não, não é a PM que é incontrolável, é o governo que não a controla, que a negligencia. A Polícia Militar é obediente, mas faltam diretrizes e meios para efetuar seu trabalho. Em todos os postos que assumi na corporação nunca recebi orientação do governo estadual.

Estado - O senhor é favorável à unificação das Polícias Civil e Militar?

Cruz - Não. Sou a favor de uma unidade operacional entre as duas instituições, que elas sejam vinculadas a uma mesma base territorial e dividam uma mesma dependência, mas cada uma administrando seus problemas.

Estado - O senhor defende proposta semelhante à adotada pelo atual governo, os Grupos de Planejamento Integrado (GPIs). Há um ano e meio o governo tenta executar esse plano, mas só em janeiro saiu do papel o primeiro grupo, em Jaú. O que impede os GPIs?

Cruz - Falta energia ao governo para fazer cumprir seus projetos. O governo deve deixar de negligenciar a polícia e mostrar às cúpulas que deseja um modelo. Não adianta falar que a polícia é violenta se ele não cria estratégias para mudá-la, como ocorreu em Nova York. Pergunte a qualquer governador ou secretário quais os dez objetivos de sua política na área, eles dizem um ou dois. No terceiro, começam a filosofar, falar de desemprego, de pobreza, etc. O Brasil é um país pobre. Se estivessem certos, 90% da população seria criminosa. O criminoso algemado não comete crime.

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André Carnevale - Pedro Paulo Ruiz