Ética e Cidadania

"Não vou a nenhum lugar perigoso"

Jornalista, escritora e artista plástica de 95 anos lembra mudança na vida da cidade - para pior

ROSA BASTOS

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                  By Andre e Pedro

     Quando era menina e brincava na calçada da Rua Barão de Limeira, no centro de São Paulo, a grande preocupação da escritora Elsie Dubugras, de 95 anos, era não pisar na linha do caracol desenhado no chão. Nada de medo, de coração apertado, de sentidos sempre à espreita do perigo, como se vive hoje em dia. Na São Paulo do começo do século levava-se uma vida sem sobressaltos. "Arrombavam portas para roubar, mas era raro", lembra Elsie.

     Além do espaço da casa, bem grande, com árvores, galinhas e mosquitos no quintal, a menina podia desfrutar da liberdade da rua, sem sustos. "Naquele tempo nem tinha carro para nos atropelar!" Pulava corda e jogava amarelinha até o anoitecer. Depois, seguia, encantada, o acendedor de lampiões. "Não dava uma grande luz, mas era maravilhoso", conta. "A gente só não podia ir longe porque os pais não deixavam."

     Perder-se na rua escura era o grande medo de então. Na infância de Elsie, o Rio Tietê era limpo, a Barão de Limeira e a Alameda Glete já eram calçadas, mas havia várias ruas de terra batida. "No lugar do Minhocão ficava o sítio do engenheiro Glete", diz. Um córrego descia pela Rua Itambé e desaguava no lago do sítio. "Era tão bonito que os moradores do Largo da Sé iam até lá fazer piquenique."

      Na casa enorme, a cozinha ficava no térreo e a sala de jantar na parte superior. "A cozinheira, de uniforme, fazia subir os pratos de comida por um elevador manual", conta Elsie, remexendo em seu baú de lembranças. No primeiro sábado de cada mês, iam, ela, as outras mocinhas e as mães, de carruagem alugada, a um baile na Avenida Paulista. "Elas não largavam o pé da gente de jeito nenhum."

     Para dançar, o rapaz precisava da aprovação da mãe. E, depois, tinha de trazer a dama de volta. "Eram só valsa e foxtrote, nada de dança violenta, de jogar pra lá e pra cá ou agarrar", recorda. A volta para casa era tão tranqüila quanto a dança. Sem semáforos e, portanto, sem medo de parar neles. "Não lembro de nenhum perigo", afirma Elsie. "Na cidade, pequena e calma, todo mundo se conhecia."

Casa "limpa" - O crime mais "hediondo", segundo seu relato, era o furto de residências. A pessoa saía de férias e encontrava a casa "limpa" na volta. "Não havia seqüestro, essa coisa horrível que fazem, tudo por dinheiro, valores absurdos que a pessoa muitas vezes não tem."

     Jornalista, artista plástica, Elsie tem cinco livros publicados. Há 26 anos trabalha na Editora Três, na edição da Revista Planeta. Um carro vai apanhá-la em casa, às 9 horas e leva-a de volta às 16h30. Com a pequena aposentadoria, mais o aluguel de dois imóveis que possui, poderia viver sem trabalhar. Não consegue. "Deus me livre, eu adoro meu trabalho."

     Viúva há 20 anos, mora sozinha em um apartamento na Rua Veiga Filho, em Santa Cecília, perto do centro. Nos fins de semana encontra filhos e netos. O telefone preto, daqueles antigos, funciona muito bem. Assim como a máquina de costura Singer, que ela ainda utiliza. Nas paredes, quadros que pintou, outros que ganhou de presente, pássaros de porcelana. Em um armário, muitos objetos de arte. "Coisinhas que fui colecionando na vida."

Até alguns anos atrás ia à feira, ao mercado e ao trabalho de ônibus. Uma labirintite hoje a impede. E também, muito, o medo de assalto. Para viver na cidade inchada e apavorante, recolhe-se cedo. "Não dou sopa", diz. "Não vou a nenhum lugar perigoso em hora perigosa", diz. "Para que me expor?", pergunta. "São Paulo hoje em dia não tem mosquitos, mas em compensação..."

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