Guaranis
(Um povo, nação)
Os guaranis, vindos do Paraguai, há mais de 2 mil anos, conquistaram o vale do rio Uruguai, subindo pelos afluentes. Do vale do rio Ibicuí atingiram a depressão do rio Jacuí e seus afluentas. Dividiam-se nas parcialidades nhandeva, mbyá (avá mbyá e cainguá) e cayová. O grupo mbyá habitava o território que seria o Rio Grande do Sul. Na época de evangilização os missionários jesuítas chamavam de Tape (Tapes) a região entre os rios Jaguari, Uruguai e Ibicuí. No século XIX este topônimo deslocou-se para junto da Laguna dos Patos. Os chamados índios Tapes eram guaranizados que habitavam a antiga região do Tape.
Os guaranis caracterizavam-se pelo nhande reko, o modo de ser, em relação as espaço geográfico chamdo de teko hã, onde se vive, formado pela aldeia (tetami), casas (coty), roças (cõ), caminhos (chapecõ) e mato (caá).
Viviam em aldeias (tetami), com várias casas (oga ou coty) dispostas em círculo por ordem de clã e protegidas por uma paliçada de troncos. Cada casa de forma alongada, com uma porta para os homens e outra para as mulheres, sem divisão interna, abrigava os membros de um mesmo clã. Dormiam em red, guardavam os objetos em jiraus, sentavam em banquinhos ou em esteiras, guardavam líquidos e grãos em potes de cerâmica ou em porongos. Numa aldeia viviam vários clãs.
Os guaranis praticavam uma agricultura especializadad em clareiras abertas com a coivara. Usavam várias clareiras em estágios diferentes de plantação, maturação e colheitas, deixando sempre uma capoeira para o solo se recuperar.
O homem preparava a coivara e limpava o solo, a mulher plantava e semeava. Embora trabalhassem em grupo, cada família tinha sua plantação. Cultivavam milho, mandioca, feijão, abóbora, batata doce, amendoim, fumo e algodão.
Coletavam a erva mate e frutos de plantas nativas. Pescavam com redes e flechas. A caça era comunitária e o matador do animal repartia a carne entre os demais participantes. Enquanto durava a caçada o pajé permanecia em transe, para proteger os caçadores. Armavam-se de arco, flechas, lança, tacape e boleadeiras.
O nhanderu ou pajé era encarregado de transmitir o tekoyma, o proceder antigo, pois os mbyás executavam todos os atos do quotidiano com o ritualismo que mantianha a ordem cósmica, como a pintura corporal, a poligamia, o couvade, a saudação lacrimosa, a educação dos filhos, os sonhos proféticos, a antropofagia e o puxirum ou mutirão.
Os clãs estavam divididos em metades. Os chefes de clã, com os chefes das metades, participavam do Conselho da aldeia que decidia sobre a migração, caçada, guerra e paz. O nhanderu também participava do conselho. Havia também o morubixaba que mantinha a ordem na aldeia, sendo um elemento de conciliação. O taxuá era um chefe provisório de caçada, ataque bélico ou pescaria.
Os homens se adornavam mais que as mulheres, tatuando e pintando o corpo, usando colares, pulseiras de sementes, contas e plumas. Furavam o lábio inferior, colocando um tembetá. A pintura corporal tinha significados simbólicos, sendo característica de cada clã, metade de clã, sexo, idade e posição dentro do grupo.
A poligamia era usual apenas entre os chefes, que precisavam de mulheres que trabalhassem para darem comida e objetos aos seus subordinados, mantendo assim a chefia. Davam suas mulheres a outros homens em troca de objetos ou em penhor de uma aliança. Esse costume facilitou a mestiçagem com os brancos.
O couvade ou choco era o ritual de proteção ao recém nascido . Quando a mulher dava à luz, o homem não comia carne durante 15 dias, ficando de resguardo na rede. A mulher tinha o filho sozinha, cortava-lhe o cordão umbilical, banhava o recém nascido e depois entregava-o ao marido, que esperava na rede. Se ele pegasse a criança, estaria reconhecendo-a como filho. A mulher ia logo trabalhar na roça afim de enganar os maus espíritos, que poderiam se apossar da criança. Era também uma maneira de selecionar as mulheres mais resistentes.
Quando chegava um hóspede na aldeia guarani, as mulheres praticavam a saudação lacrimosa. O recém chegado sentava na rede enquanto as mulheres choravam com grande alarido, depois enxugavam as lágrimas e davam boas vindas ao viajante.
O menino até os oito anos ficava junto com a mãe, depois ia para casa dos homens, quando passava a aprender com o pai a pecar e a caçar. A menina permanecia junto à mãe até o matrimônio. Após a primeira menstruação tinha a liberdade sexual, desde que seus parentes fossem indenizados. Não batiam, não gritavam e nem castigavam os filhos. Acreditavam que um banho frio pela manhã prolongava a vida.
Ao acordar, o guarani contava seus sonhos, em busca de uma interpretação, pois acreditava que eles eram proféticos.
Praticavam a antropofagia ritual, comendo os prisioneiros de guerra por ato de vingança, não escapando velhos , mulheres e crianças.
O puxirim ou mutirão era o trabalho em grupo para ajudar na construção de uma roça ou de uma casa.
Algumas parcialidades guaranis enterravam seus mortos em igaçaba , grande pote para guardar grãos que servia de urna funerária, acreditando que o anguera , a alma do morto, poderia escolher três caminhos: reencarnar numa criança que nascia, encostar-se em alguém ou seguir para o paraíso de Monan , onde não faltariam calor caça e água.
Criam que existia um paraíso na terra, o yvi-maray, a terra sem males. A terra era imperfeita e novamente seria destruída pelo fogo e pelo dilúvio, salvando-se apenas o yvi-maray. Os guaranis migravam constantemente em busca desta terra perfeita.
Sua teogonia compunha-se de Monan, o Deus criador e pai de Maíra-monan, que os homens queimaram numa fogueira e de sua cabeça saiu o trovão (Tupã), que por vingança queimou com o fogo o céu a terra imperfeita, salvando-se apenas Irin-majé é a chuva, filho de Monam que fertiliza a terra. O duplo de Monan é Sumá, o civilizador que ensinou a agricultura. Na Segunda versão, Sumé é filho de Irin-majé.
De Sumé nasceram os gêmeos Temendonaré, que deu os nomes às coisas que Monan criou fazendo com que elas passassem a ser, e Aricoute ciumento que mandou o dilúvio. Temendonaré ensinou os homens a sobreviverem na grande enchente, refugiados no alto de palmeiras. Outra versão afirma que salvou um índio e sua irmã grávida, no alto de uma palmeira, dando orígem a toda a humanidade.
Acreditavam no Curupira, ente fantástico com os pés para trás, que habitava as matas e fazia os homens se perderem. O Caapora (caipora), pequeno e triste, trazia a infelicidade para quem o visse. A Uiara (iara), ente feminino que atraía o índio para o fundo do rio. O Yurupari (jurupari) era o espírito do mal, o demônio.
Os guaranis históricos desapareceram lentamente do Rio Grande do Sul, pelos ataques dos bandeirantes, pela guerra guaranítica, pela escravidão imposta pelo governo militar espanhol nas reduções depois da expulsão dos jesuítas, pelo recrutamento militar e pela mestiçagem das mulheres com os homens brancos.
Em 1756 portugueses e espanhóis invadiram os Sete Povos. Em 1757 levaram para Rio Pardo 700 famílias guaranis, que foram apresentadas nas aldeias de S. Nicolau de Rio Pardo, S. Nicolau de Cachoeria e em 1762 na de N. Sª dos Anjos (Gravataí). Com a invasão luso-brasileira nos sete povos, em 1801, os guaranis dispersaram pelo Rio Grande do Sul, Uruguai e Argentina, trabalhando como peões, tropeiros e artesãos.
Os guaranis, existentes atualmente no Rio Grande do Sul, chegaram em fins do século passado, corridos pelos cafeicultores e pelas frentes de colonização em Paraná e Santa Catarina. Alguns grupos menores são oriundos do Paraguai.
Desde a fundação de Assunção, no Paraguai, os guaranis forneceram alimentos e suas mulheres aos espanhóis, porque queriam aliados fortes para combater seus inimigos. Os guaranis eram inimigos de outras parcialidades indígenas por causa de seu ritual antropofágico. O fato de a economia dos guaranis ser principalmente agrícola facilitou os padres missionários reuni-los em reduções para a evangelização.
Na linguagem coloquial do rio grande do sul há vários termos de origem guarani: aguapé, araçá, araponga, aroeira, biboca, biriva, boçoroca, bocó, caboclo, capão, capim, capivara, capoeira, chê, cutucar, cipó, cuia, goiaba, gravatá, guaraxaim, guri, jacaré, jaguar, jararaca, jirau, joá, lambari, mambira, maricá, micuim, perereca, perau, peteca, piá, pitanga, tapera, taquara, tatu, tiririca e urubu. Outra herança guarani é o uso da erva mate (caá-iari) na forma de chimarrão (caá-iró). Se exarminarmos os mapas do Paraguai, Argentina , Uruguai e Rio Grande do Sul veremos que predominam topônimos guaranis: Tauqri, Jacuí, Itacolomi, Itapuã, Paraná, Jaguari.
Segundo a lenda da Mboitatá (cobra de fogo), a chuva caía sem parar, dias e dias, aumentando os rios e as lagoas, que transbordaram. Os animais procuravam abrigo nos lugares mais altos, mais faltava comida. De tanto animal morto, a cobra só comia os olhos dos cadáveres. Comeu tanto que seu corpo começou a brilhar, como se tivesse milhares de olhos. Transformou-se na Mboitatá, que à noite percorre os campos como um fogo azulado.
Os guaranis, vindos do Paraguai, há mais de 2 mil anos, conquistaram o vale do rio Uruguai, subindo pelos afluentes. Do vale do rio Ibicuí atingiram a depressão do rio Jacuí e seus afluentas. Dividiam-se nas parcialidades nhandeva, mbyá (avá mbyá e cainguá) e cayová. O grupo mbyá habitava o território que seria o Rio Grande do Sul. Na época de evangilização os missionários jesuítas chamavam de Tape (Tapes) a região entre os rios Jaguari, Uruguai e Ibicuí. No século XIX este topônimo deslocou-se para junto da Laguna dos Patos. Os chamados índios Tapes eram guaranizados que habitavam a antiga região do Tape.
Os guaranis caracterizavam-se pelo nhande reko, o modo de ser, em relação as espaço geográfico chamdo de teko hã, onde se vive, formado pela aldeia (tetami), casas (coty), roças (cõ), caminhos (chapecõ) e mato (caá).
Viviam em aldeias (tetami), com várias casas (oga ou coty) dispostas em círculo por ordem de clã e protegidas por uma paliçada de troncos. Cada casa de forma alongada, com uma porta para os homens e outra para as mulheres, sem divisão interna, abrigava os membros de um mesmo clã. Dormiam em red, guardavam os objetos em jiraus, sentavam em banquinhos ou em esteiras, guardavam líquidos e grãos em potes de cerâmica ou em porongos. Numa aldeia viviam vários clãs.
Os guaranis praticavam uma agricultura especializadad em clareiras abertas com a coivara. Usavam várias clareiras em estágios diferentes de plantação, maturação e colheitas, deixando sempre uma capoeira para o solo se recuperar.
O homem preparava a coivara e limpava o solo, a mulher plantava e semeava. Embora trabalhassem em grupo, cada família tinha sua plantação. Cultivavam milho, mandioca, feijão, abóbora, batata doce, amendoim, fumo e algodão.
Coletavam a erva mate e frutos de plantas nativas. Pescavam com redes e flechas. A caça era comunitária e o matador do animal repartia a carne entre os demais participantes. Enquanto durava a caçada o pajé permanecia em transe, para proteger os caçadores. Armavam-se de arco, flechas, lança, tacape e boleadeiras.
O nhanderu ou pajé era encarregado de transmitir o tekoyma, o proceder antigo, pois os mbyás executavam todos os atos do quotidiano com o ritualismo que mantianha a ordem cósmica, como a pintura corporal, a poligamia, o couvade, a saudação lacrimosa, a educação dos filhos, os sonhos proféticos, a antropofagia e o puxirum ou mutirão.
Os clãs estavam divididos em metades. Os chefes de clã, com os chefes das metades, participavam do Conselho da aldeia que decidia sobre a migração, caçada, guerra e paz. O nhanderu também participava do conselho. Havia também o morubixaba que mantinha a ordem na aldeia, sendo um elemento de conciliação. O taxuá era um chefe provisório de caçada, ataque bélico ou pescaria.
Os homens se adornavam mais que as mulheres, tatuando e pintando o corpo, usando colares, pulseiras de sementes, contas e plumas. Furavam o lábio inferior, colocando um tembetá. A pintura corporal tinha significados simbólicos, sendo característica de cada clã, metade de clã, sexo, idade e posição dentro do grupo.
A poligamia era usual apenas entre os chefes, que precisavam de mulheres que trabalhassem para darem comida e objetos aos seus subordinados, mantendo assim a chefia. Davam suas mulheres a outros homens em troca de objetos ou em penhor de uma aliança. Esse costume facilitou a mestiçagem com os brancos.
O couvade ou choco era o ritual de proteção ao recém nascido . Quando a mulher dava à luz, o homem não comia carne durante 15 dias, ficando de resguardo na rede. A mulher tinha o filho sozinha, cortava-lhe o cordão umbilical, banhava o recém nascido e depois entregava-o ao marido, que esperava na rede. Se ele pegasse a criança, estaria reconhecendo-a como filho. A mulher ia logo trabalhar na roça afim de enganar os maus espíritos, que poderiam se apossar da criança. Era também uma maneira de selecionar as mulheres mais resistentes.
Quando chegava um hóspede na aldeia guarani, as mulheres praticavam a saudação lacrimosa. O recém chegado sentava na rede enquanto as mulheres choravam com grande alarido, depois enxugavam as lágrimas e davam boas vindas ao viajante.
O menino até os oito anos ficava junto com a mãe, depois ia para casa dos homens, quando passava a aprender com o pai a pecar e a caçar. A menina permanecia junto à mãe até o matrimônio. Após a primeira menstruação tinha a liberdade sexual, desde que seus parentes fossem indenizados. Não batiam, não gritavam e nem castigavam os filhos. Acreditavam que um banho frio pela manhã prolongava a vida.
Ao acordar, o guarani contava seus sonhos, em busca de uma interpretação, pois acreditava que eles eram proféticos.
Praticavam a antropofagia ritual, comendo os prisioneiros de guerra por ato de vingança, não escapando velhos , mulheres e crianças.
O puxirim ou mutirão era o trabalho em grupo para ajudar na construção de uma roça ou de uma casa.
Algumas parcialidades guaranis enterravam seus mortos em igaçaba , grande pote para guardar grãos que servia de urna funerária, acreditando que o anguera , a alma do morto, poderia escolher três caminhos: reencarnar numa criança que nascia, encostar-se em alguém ou seguir para o paraíso de Monan , onde não faltariam calor caça e água.
Criam que existia um paraíso na terra, o yvi-maray, a terra sem males. A terra era imperfeita e novamente seria destruída pelo fogo e pelo dilúvio, salvando-se apenas o yvi-maray. Os guaranis migravam constantemente em busca desta terra perfeita.
Sua teogonia compunha-se de Monan, o Deus criador e pai de Maíra-monan, que os homens queimaram numa fogueira e de sua cabeça saiu o trovão (Tupã), que por vingança queimou com o fogo o céu a terra imperfeita, salvando-se apenas Irin-majé é a chuva, filho de Monam que fertiliza a terra. O duplo de Monan é Sumá, o civilizador que ensinou a agricultura. Na Segunda versão, Sumé é filho de Irin-majé.
De Sumé nasceram os gêmeos Temendonaré, que deu os nomes às coisas que Monan criou fazendo com que elas passassem a ser, e Aricoute ciumento que mandou o dilúvio. Temendonaré ensinou os homens a sobreviverem na grande enchente, refugiados no alto de palmeiras. Outra versão afirma que salvou um índio e sua irmã grávida, no alto de uma palmeira, dando orígem a toda a humanidade.
Acreditavam no Curupira, ente fantástico com os pés para trás, que habitava as matas e fazia os homens se perderem. O Caapora (caipora), pequeno e triste, trazia a infelicidade para quem o visse. A Uiara (iara), ente feminino que atraía o índio para o fundo do rio. O Yurupari (jurupari) era o espírito do mal, o demônio.
Os guaranis históricos desapareceram lentamente do Rio Grande do Sul, pelos ataques dos bandeirantes, pela guerra guaranítica, pela escravidão imposta pelo governo militar espanhol nas reduções depois da expulsão dos jesuítas, pelo recrutamento militar e pela mestiçagem das mulheres com os homens brancos.
Em 1756 portugueses e espanhóis invadiram os Sete Povos. Em 1757 levaram para Rio Pardo 700 famílias guaranis, que foram apresentadas nas aldeias de S. Nicolau de Rio Pardo, S. Nicolau de Cachoeria e em 1762 na de N. Sª dos Anjos (Gravataí). Com a invasão luso-brasileira nos sete povos, em 1801, os guaranis dispersaram pelo Rio Grande do Sul, Uruguai e Argentina, trabalhando como peões, tropeiros e artesãos.
Os guaranis, existentes atualmente no Rio Grande do Sul, chegaram em fins do século passado, corridos pelos cafeicultores e pelas frentes de colonização em Paraná e Santa Catarina. Alguns grupos menores são oriundos do Paraguai.
Desde a fundação de Assunção, no Paraguai, os guaranis forneceram alimentos e suas mulheres aos espanhóis, porque queriam aliados fortes para combater seus inimigos. Os guaranis eram inimigos de outras parcialidades indígenas por causa de seu ritual antropofágico. O fato de a economia dos guaranis ser principalmente agrícola facilitou os padres missionários reuni-los em reduções para a evangelização.
Na linguagem coloquial do rio grande do sul há vários termos de origem guarani: aguapé, araçá, araponga, aroeira, biboca, biriva, boçoroca, bocó, caboclo, capão, capim, capivara, capoeira, chê, cutucar, cipó, cuia, goiaba, gravatá, guaraxaim, guri, jacaré, jaguar, jararaca, jirau, joá, lambari, mambira, maricá, micuim, perereca, perau, peteca, piá, pitanga, tapera, taquara, tatu, tiririca e urubu. Outra herança guarani é o uso da erva mate (caá-iari) na forma de chimarrão (caá-iró). Se exarminarmos os mapas do Paraguai, Argentina , Uruguai e Rio Grande do Sul veremos que predominam topônimos guaranis: Tauqri, Jacuí, Itacolomi, Itapuã, Paraná, Jaguari.
Segundo a lenda da Mboitatá (cobra de fogo), a chuva caía sem parar, dias e dias, aumentando os rios e as lagoas, que transbordaram. Os animais procuravam abrigo nos lugares mais altos, mais faltava comida. De tanto animal morto, a cobra só comia os olhos dos cadáveres. Comeu tanto que seu corpo começou a brilhar, como se tivesse milhares de olhos. Transformou-se na Mboitatá, que à noite percorre os campos como um fogo azulado.
Os guaranis, vindos do Paraguai, há mais de 2 mil anos, conquistaram o vale do rio Uruguai, subindo pelos afluentes. Do vale do rio Ibicuí atingiram a depressão do rio Jacuí e seus afluentas. Dividiam-se nas parcialidades nhandeva, mbyá (avá mbyá e cainguá) e cayová. O grupo mbyá habitava o território que seria o Rio Grande do Sul. Na época de evangilização os missionários jesuítas chamavam de Tape (Tapes) a região entre os rios Jaguari, Uruguai e Ibicuí. No século XIX este topônimo deslocou-se para junto da Laguna dos Patos. Os chamados índios Tapes eram guaranizados que habitavam a antiga região do Tape.
Os guaranis caracterizavam-se pelo nhande reko, o modo de ser, em relação as espaço geográfico chamdo de teko hã, onde se vive, formado pela aldeia (tetami), casas (coty), roças (cõ), caminhos (chapecõ) e mato (caá).
Viviam em aldeias (tetami), com várias casas (oga ou coty) dispostas em círculo por ordem de clã e protegidas por uma paliçada de troncos. Cada casa de forma alongada, com uma porta para os homens e outra para as mulheres, sem divisão interna, abrigava os membros de um mesmo clã. Dormiam em red, guardavam os objetos em jiraus, sentavam em banquinhos ou em esteiras, guardavam líquidos e grãos em potes de cerâmica ou em porongos. Numa aldeia viviam vários clãs.
Os guaranis praticavam uma agricultura especializadad em clareiras abertas com a coivara. Usavam várias clareiras em estágios diferentes de plantação, maturação e colheitas, deixando sempre uma capoeira para o solo se recuperar.
O homem preparava a coivara e limpava o solo, a mulher plantava e semeava. Embora trabalhassem em grupo, cada família tinha sua plantação. Cultivavam milho, mandioca, feijão, abóbora, batata doce, amendoim, fumo e algodão.
Coletavam a erva mate e frutos de plantas nativas. Pescavam com redes e flechas. A caça era comunitária e o matador do animal repartia a carne entre os demais participantes. Enquanto durava a caçada o pajé permanecia em transe, para proteger os caçadores. Armavam-se de arco, flechas, lança, tacape e boleadeiras.
O nhanderu ou pajé era encarregado de transmitir o tekoyma, o proceder antigo, pois os mbyás executavam todos os atos do quotidiano com o ritualismo que mantianha a ordem cósmica, como a pintura corporal, a poligamia, o couvade, a saudação lacrimosa, a educação dos filhos, os sonhos proféticos, a antropofagia e o puxirum ou mutirão.
Os clãs estavam divididos em metades. Os chefes de clã, com os chefes das metades, participavam do Conselho da aldeia que decidia sobre a migração, caçada, guerra e paz. O nhanderu também participava do conselho. Havia também o morubixaba que mantinha a ordem na aldeia, sendo um elemento de conciliação. O taxuá era um chefe provisório de caçada, ataque bélico ou pescaria.
Os homens se adornavam mais que as mulheres, tatuando e pintando o corpo, usando colares, pulseiras de sementes, contas e plumas. Furavam o lábio inferior, colocando um tembetá. A pintura corporal tinha significados simbólicos, sendo característica de cada clã, metade de clã, sexo, idade e posição dentro do grupo.
A poligamia era usual apenas entre os chefes, que precisavam de mulheres que trabalhassem para darem comida e objetos aos seus subordinados, mantendo assim a chefia. Davam suas mulheres a outros homens em troca de objetos ou em penhor de uma aliança. Esse costume facilitou a mestiçagem com os brancos.
O couvade ou choco era o ritual de proteção ao recém nascido . Quando a mulher dava à luz, o homem não comia carne durante 15 dias, ficando de resguardo na rede. A mulher tinha o filho sozinha, cortava-lhe o cordão umbilical, banhava o recém nascido e depois entregava-o ao marido, que esperava na rede. Se ele pegasse a criança, estaria reconhecendo-a como filho. A mulher ia logo trabalhar na roça afim de enganar os maus espíritos, que poderiam se apossar da criança. Era também uma maneira de selecionar as mulheres mais resistentes.
Quando chegava um hóspede na aldeia guarani, as mulheres praticavam a saudação lacrimosa. O recém chegado sentava na rede enquanto as mulheres choravam com grande alarido, depois enxugavam as lágrimas e davam boas vindas ao viajante.
O menino até os oito anos ficava junto com a mãe, depois ia para casa dos homens, quando passava a aprender com o pai a pecar e a caçar. A menina permanecia junto à mãe até o matrimônio. Após a primeira menstruação tinha a liberdade sexual, desde que seus parentes fossem indenizados. Não batiam, não gritavam e nem castigavam os filhos. Acreditavam que um banho frio pela manhã prolongava a vida.
Ao acordar, o guarani contava seus sonhos, em busca de uma interpretação, pois acreditava que eles eram proféticos.
Praticavam a antropofagia ritual, comendo os prisioneiros de guerra por ato de vingança, não escapando velhos , mulheres e crianças.
O puxirim ou mutirão era o trabalho em grupo para ajudar na construção de uma roça ou de uma casa.
Algumas parcialidades guaranis enterravam seus mortos em igaçaba , grande pote para guardar grãos que servia de urna funerária, acreditando que o anguera , a alma do morto, poderia escolher três caminhos: reencarnar numa criança que nascia, encostar-se em alguém ou seguir para o paraíso de Monan , onde não faltariam calor caça e água.
Criam que existia um paraíso na terra, o yvi-maray, a terra sem males. A terra era imperfeita e novamente seria destruída pelo fogo e pelo dilúvio, salvando-se apenas o yvi-maray. Os guaranis migravam constantemente em busca desta terra perfeita.
Sua teogonia compunha-se de Monan, o Deus criador e pai de Maíra-monan, que os homens queimaram numa fogueira e de sua cabeça saiu o trovão (Tupã), que por vingança queimou com o fogo o céu a terra imperfeita, salvando-se apenas Irin-majé é a chuva, filho de Monam que fertiliza a terra. O duplo de Monan é Sumá, o civilizador que ensinou a agricultura. Na Segunda versão, Sumé é filho de Irin-majé.
De Sumé nasceram os gêmeos Temendonaré, que deu os nomes às coisas que Monan criou fazendo com que elas passassem a ser, e Aricoute ciumento que mandou o dilúvio. Temendonaré ensinou os homens a sobreviverem na grande enchente, refugiados no alto de palmeiras. Outra versão afirma que salvou um índio e sua irmã grávida, no alto de uma palmeira, dando orígem a toda a humanidade.
Acreditavam no Curupira, ente fantástico com os pés para trás, que habitava as matas e fazia os homens se perderem. O Caapora (caipora), pequeno e triste, trazia a infelicidade para quem o visse. A Uiara (iara), ente feminino que atraía o índio para o fundo do rio. O Yurupari (jurupari) era o espírito do mal, o demônio.
Os guaranis históricos desapareceram lentamente do Rio Grande do Sul, pelos ataques dos bandeirantes, pela guerra guaranítica, pela escravidão imposta pelo governo militar espanhol nas reduções depois da expulsão dos jesuítas, pelo recrutamento militar e pela mestiçagem das mulheres com os homens brancos.
Em 1756 portugueses e espanhóis invadiram os Sete Povos. Em 1757 levaram para Rio Pardo 700 famílias guaranis, que foram apresentadas nas aldeias de S. Nicolau de Rio Pardo, S. Nicolau de Cachoeria e em 1762 na de N. Sª dos Anjos (Gravataí). Com a invasão luso-brasileira nos sete povos, em 1801, os guaranis dispersaram pelo Rio Grande do Sul, Uruguai e Argentina, trabalhando como peões, tropeiros e artesãos.
Os guaranis, existentes atualmente no Rio Grande do Sul, chegaram em fins do século passado, corridos pelos cafeicultores e pelas frentes de colonização em Paraná e Santa Catarina. Alguns grupos menores são oriundos do Paraguai.
Desde a fundação de Assunção, no Paraguai, os guaranis forneceram alimentos e suas mulheres aos espanhóis, porque queriam aliados fortes para combater seus inimigos. Os guaranis eram inimigos de outras parcialidades indígenas por causa de seu ritual antropofágico. O fato de a economia dos guaranis ser principalmente agrícola facilitou os padres missionários reuni-los em reduções para a evangelização.
Na linguagem coloquial do rio grande do sul há vários termos de origem guarani: aguapé, araçá, araponga, aroeira, biboca, biriva, boçoroca, bocó, caboclo, capão, capim, capivara, capoeira, chê, cutucar, cipó, cuia, goiaba, gravatá, guaraxaim, guri, jacaré, jaguar, jararaca, jirau, joá, lambari, mambira, maricá, micuim, perereca, perau, peteca, piá, pitanga, tapera, taquara, tatu, tiririca e urubu. Outra herança guarani é o uso da erva mate (caá-iari) na forma de chimarrão (caá-iró). Se exarminarmos os mapas do Paraguai, Argentina , Uruguai e Rio Grande do Sul veremos que predominam topônimos guaranis: Tauqri, Jacuí, Itacolomi, Itapuã, Paraná, Jaguari.
Segundo a lenda da Mboitatá (cobra de fogo), a chuva caía sem parar, dias e dias, aumentando os rios e as lagoas, que transbordaram. Os animais procuravam abrigo nos lugares mais altos, mais faltava comida. De tanto animal morto, a cobra só comia os olhos dos cadáveres. Comeu tanto que seu corpo começou a brilhar, como se tivesse milhares de olhos. Transformou-se na Mboitatá, que à noite percorre os campos como um fogo azulado.