Pecado Ilusório
Dimitri Kozma
O badalo da velha igreja da cidade de Passo Feliz toca anunciando
o horário sagrado da missa de Domingo, como que cumprindo uma
tradição, quase que uma rotina, a população em massa parte em
direção à velha e corroída igrejinha da cidade, uma velha
gorda esbarra no pequeno Waltinho, um garoto de dez anos, que
estava sendo levado pela mão por sua avó paterna, ele ignora o
esbarrão.
- Vovó. Depois posso ir brincar na rua? - diz Waltinho, com sua
doce agitação infantil.
- Isso depois a gente vê, Waltinho, agora fica quieto que a
gente vai rezar. - dispara sua avó, como se querendo logo
encerrar a conversa.
A avó de Waltinho, dona Olívia, uma senhora nos altos de seus
setenta anos, pele carcomida, em parte pela idade, em parte pelo
sol, anos trabalhando na lavoura da cidade renderam-lhe apenas
rugas e calos nas mãos, batalhou pelo sustendo do único filho,
Walter, que se formou e fora morar na cidade grande, lá
conhecera Mariluce, uma mulher dez anos mais velha que ele, e
nascera Waltinho. Mariluce nunca teve vergonha na cara."
Pensava dona Olívia, e este conceito se afirmou ainda mais
quando Mariluce fugiu com um mecânico e largou Waltinho com o
pai, desempregado e sem esperanças.
Walter não teve escolha, fez as malas do pequeno Waltinho e o
colocou em um ônibus para Passo Feliz, mandando-o morar
definitivamente com a avó, até que Walter arrumasse um outro
emprego. Isso já foi a mais ou menos um ano, e até agora nada,
pensa dona Olívia que talvez seu filho tenha esquecido de
Waltinho, e se arranjado com uma outra vagabunda por lá, mas
deixa estar, pois agora cria o garoto como a um filho.
As pessoas tomam acento na pequena igreja, os bancos descorados
pelo tempo, as paredes descascando e as imagens quebradas devido
a má manutenção empregada.
Waltinho pode ouvir tosses secas, ecoando em cada ponto da
igreja, barulhos de sapatos gastos pelo tempo, o silêncio é
quase absoluto, vozes são ouvidas como sussurros, todos parecem
que estão mergulhados numa espécie de torpor místico que
aquelas paredes pareciam induzir. Uma atmosfera mista de medo e
admiração pairava no rosto de cada um de seus fiéis,
calmamente sentados. Dona Olívia empurra o garoto até um banco
com duas vagas, ao lado de um velho com o nariz escorrendo, dona
Olívia o cumprimenta:
- Como vai Seu Arnaldo?
- Vai-se indo, Dona Olívia, e a senhora, como anda? - diz o
velho, enquanto esfrega furiosamente o lenço amarelado no nariz.
- Estou bem, fora um pouco de dor nas costas, de resto vou bem, e
sua filha?
- Norminha está bem, vai se casar em julho, a senhora está
convidada. - desvia o olhar para Waltinho.
- Nossa, como seu neto está grande, dona Olívia, quantos anos
ele tem mesmo, sete? Oito?
- Fez dez anos mês passado, precisa ver como esse menino é
inteligente, seu Arnaldo.
Waltinho observa apenas, até que seu Arnaldo bate a mão na cabeça
do garoto, dizendo: - Nossa! Tudo isso? Realmente o tempo voa, não
é dona Olívia, ainda ontem ele era um bebezinho, agora está
quase um rapaz. Waltinho pode sentir a mão molhada do velho em
seu cabelo, um asco incontrolável tomou conta de seu ser, mas
manteve-se impassível.
Uma música de órgão se inicia e o garoto pode ver o padre
adentrar-se na igreja pela porta lateral, é relativamente novo,
quanto? Talvez uns quarenta, no máximo quarenta e cinco anos.
Solenemente ele se dirige ao altar e começa um discurso infindável.
Uma ordem surge para que todos fiquem de pé, dona Olívia
empurra levemente as costas do neto para que ele também se
levante, ele obedece piamente, mas seu pensamento viaja em
devaneios, enquanto ouve o padre falar, na verdade não ouve
nada, apenas percebe aquela fala ritmada e sem vida penetrar em
seu ouvido, mas seus pensamentos estão em outro lugar, sentada
no banco da frente, Waltinho observa uma linda moça, que deveria
ter no máximo uns dezessete anos, observa as curvas pecaminosas
escondidas por baixo daquele vestido cumprido, observa e em sua
mente dá vazão ás mais torpes fantasias: Será que ela não
gostaria de ceder aos caprichos de um jovem? Será que ele não
conseguiria fazê-la ir as nuvens? Enquanto pensa, Waltinho tem
uma ereção, e fica cada vez mais excitado a medida que
fantasias mais picantes dominam seu íntimo. Então, num
rompante, lembra-se do lugar em que está, lembra-se que está
pensando em algo pecaminoso, sujo, tenta dissuadir sua mente, mas
tal tarefa é em vão, pois já não tem mais domínio de seu
subconsciente, sabe que já sentiu algo muito prazeirozo, e que não
vai mais conseguir tirar de sua mente, mas ainda se esforça,
tenta voltar a realidade, desvia o olhar para sua avó, ao seu
lado, e ao velho com o nariz escorrendo, que está prostrado do
outro lado, e começa a fantasiar uma situação no mínimo
bizarra: Imagina sua avó, à muito viúva, de quatro no altar, e
o velho por traz, numa cena realmente dantesca, e ela gemia, se
contorcia, seu corpo velho, enrugado, suas pelancas balançando
ao sabor do acaso, e o nariz do velho escorrendo, derramando
sobre o corpo de sua avó.
Quando Waltinho se dá conta da barbaridade que está pensando, e
do lugar em que se encontra, quase entra em pânico, ele não
quer pensar nessas coisas, mas elas estão fluindo em sua cabeça,
como? Nunca aconteceu isso antes. Nunca havia tido pensamentos tão
sujos e imorais. E agora essa!
Todos se ajoelham e Waltinho se ajoelha mais rápido que os
outros, tentando se penitenciar pelos seus pensamentos imorais,
tenta rezar um Pai Nosso, mas seu pensamento é novamente
enebriado por sujeira barata e diabólica, imagina o padre
fazendo seu discurso nu no altar, enquanto as fiéis alisam seu
corpo, e Waltinho observa tudo com uma excitação tremenda, e as
fiéis, todas nuas, das mais moças às mais velhas caquéticas,
todas nuas admirando aquele padre atlético e bem apessoado.
Waltinho começa a suar fri:
- Onde já se viu pensar tanta besteira assim? - pensa ele, e
completa o pensamento:
- E se Deus estiver vendo o que eu estou pensando? E se Deus viu
tudo isso que eu imaginei? Ele vai contar para vovó, ela vai
ficar sabendo do que eu pensei... Não!
Um desespero começa a tomar conta do pequeno garoto, seus
olhinhos se arregalam como se fossem saltar das órbitas, olha
para sua avó, ela está impassível, acompanhando a missa, mas
Waltinho já começa a olhá-la de maneira diferente, começa a
olhá-la como se ela soubesse de tudo que ele havia pensado, de
toda a sujeira que sua mente havia produzido em tão pouco espaço
de tempo. Ele se encolhe no banco, tentando se proteger. Olha
novamente, meio de rabo de olho, para o esquelético Seu Arnaldo,
ele continua lá, olhando para o chão, com a coriza do nariz
quase tocando a boca, o velho então suga o corrimento como se
fosse um nectar, e Waltinho pode até ouvir o ruído, novamente a
imagem de Seu Arnaldo sodomizando sua avó no altar se faz
presente em sua mente, mesmo não querendo essa imagem não sai
de sua cabeça, Waltinho dá pequenos socos na testa, tentando
fazer a imagem sumir, mas cada vez ela fica mais nítida, cada
vez mais clara, ele fecha os olhos e lhe vem a cabeça novamente
a garota do banco da frente, dessa vez, Waltinho a imagina sendo
sodomizada por ele na porta da igreja, com toda a cidade
assistindo horrorizada a cena.
Ele abre os olhos, lágrimas começam a rolar pelo seu rosto, lágrimas
de desespero, ele não tem mais controle algum em seus
pensamentos, parece até que uma força malígna tomou conta de
seu cérebro e nada mais poderia ser feito. Uma angústia
incomensurável passou por todo seu pequeno e frágil corpo,
gelando sua coluna:
- Será que Deus sabe o que eu estou pensando? - é uma das angústias
de Waltinho, no alto de sua inocência, imagina Deus, com sua
enorme cabeleira e sua barba branca, observando-o de cima,
imagina o olhar de reprovação de Deus, imagina Deus contando
para sua avó, imagina a cidade inteira sabendo de tudo, imagina
seu severo pai dando-lhe cintadas nas costas, acorrentando-o num
porão escuro e gelado pelo resto de sua vida.
- Não!
Waltinho solta um grito e sai da igreja em disparada, sua avó não
tem tempo de segurá-lo, todos se viram em direção ao garoto,
antes mesmo de dona Olívia conseguir levantar-se para correr
atras do neto, ouve um barulho de freios de carro, um estampido
seco e um grito curto.
Quando finalmente chega a porta da igreja, vê a pior imagem de
sua vida: Waltinho, deitado no meio-fio, metade de seu corpo
embaixo do carro, suas tripas expostas o sangue quente espalhado
por toda a rua. Em sua busca desesperada pela redenção,
Waltinho atirara-se na frente de um veículo que passava em alta
velocidade. Dona Olívia se desespera, corre em direção ao
neto, que ainda tem um sopro de vida, o garoto, vomitando sangue,
e tendo inúmeros espasmos ainda tem tempo de dizer:
- Perdão... Eu pequei...
Depois disso cala-se para sempre.