3.2-
O BAIÃO ONTEM E HOJE
"Debaixo
do barro do chão da pista onde se dança/Suspira
uma
sustança sustentada por um sopro divino/Que sobe
pelos
pés da gente e de repente se lança/ Pela sanfona afora até
o
coração do menino/De onde é que vem o Baião?
/ Vem debaixo
do
barro do chão".
(Gilberto Gil, 1976)
Uma das questões à serem resolvidas com essa pesquisa era,
saber se ainda há alguém tocando Baião hoje em dia,
e pudemos constatar que pessoas como Azeitona , Dominguinhos , Waldonys
, Geraldo Azevedo , etc.; continuando tocando Baião. Segundo Azeitona,
existem várias maneiras de se interpretar o Baião e por isso
"é preciso ter muita afinidade com o ritmo". Na verdade ainda existem
várias pessoas tocando Baião, só que é um Baião
diferente. Reforça, que como ele toca o Baião não
tem muita gente, o que existe é a mistura do Baião com o
Forró, que ele não está de acordo mas diz que "dá
pra ir", ou seja, ele acha que tudo bem, mas por ele não seria assim.
Para ele, desde que o Baião era tocado com viola mudou a maneira
de interpretação, maneira de tocar, de cantar, etc. Tudo,
insiste.
O Baião para Azeitona é tocado com zabumba e triângulo,
e Forró é uma coisa mais "estilizada".
Como seguidor do estilo
criado por Luiz Gonzaga, diz que não pode abandonar o estilo porque
sempre tocou assim. Desde que introduziu o Forró no Ceará
há 30 anos, lançando o Baião de pé-de-serra,
(que chamou de Baião-quadrado), numa época onde só
se tocava rock. E mesmo nesse tempo de tecnologias e aparelhos eletrônicos,
insiste no Baião tocado por sanfona, zabumba e triângulo dizendo
que "o que é nativo da terra não desaparece", por isso continua
compondo no estilo, como Luiz Gonzaga lhe ensinou. Na verdade, o que se
percebe são algumas contradições em algumas das respostas
dadas pelo soteropolitano Valter dos Santos (Azeitona), que nem lembra
mais o ano em que nasceu. Mas, difícil contrapor essas respostas,
pois, quem poderia interferir diante de alguém que há 50
anos toca Baião e vivenciou toda a evolução do ritmo?
Mas, como pesquisador deve ser crítico, pensamos que a História
não confirma algumas afirmações dadas por Azeitona,
por isso foram relevadas algumas coisas depois da transcrição
da entrevista.
Da mesma opinião de Dominguinhos, Waldonys relaciona o Forró
de Pernambuco como o mais próximo ao Baião. Na sua visão
…"de longe é o de Pernambuco" … Waldonys é um dos defensores
do autêntico Forró aqui no Ceará, tendo um pouco de
aversão à esse novo Forró que anda por aí.
Pra ele, alguns não passam de empresas e diz que o Forró
passa um pouco longe do que andam fazendo por aí e, até levando
uma falsa imagem do Forró para fora do estado, principalmente sul
do país. Ele insiste e provoca dizendo que estão nivelando
o Forró por baixo, achando que o povão é besta.
Para o sanfoneiro "é muito difícil se ver alguém tocando
o Baião pé-duro mesmo" , pois mesmo as bandas do interior,
que hoje tentam imitar o que as da capital fazem, perderam as características
mais primárias do Baião original. Para ele a diferença
não é só no ritmo mas também na instrumentação,
e que o único ritmo mais próximo ao Baião é
mesmo o Forró.
Waldonys de certo modo, discorda de Azeitona quando perguntado sobre a
funcionalidade do uso de apenas o trio como orquestração
para o Forró de hoje. Para ele o trio funciona no sentido de feição
da música, mas a aceitação do público hoje
em dia para esse tipo de fazer musical é muito pequena. Waldonys
fala sobre perder qualidade de timbres, e de harmonia. Para ele, o uso
do trio serve apenas como meio de facilitar transporte para apresentações
especiais ou de pequeno porte. É sabido que o olhar do povo é
comparativo. Quer dizer, o ser humano procura comparar as coisas, afim
de analisar o nível de qualidade das coisas, mas muitas vezes analisam
de forma errada. E, ao ver uma banda tocando Forró com zabumba,
sanfona, triângulo e mais contrabaixo, bateria, teclado, guitarra,
metais, etc.; considerariam o som do trio inferior, pois realmente a qualidade
e potência sonora não se pode comparar.
Como comparar o zabumba por exemplo, com a bateria que é uma orquestra
de percussão completa?
Para Waldonys o que
descaracterizou o Forró daqui do Ceará foram algumas bandas,
que como ele disse: "não são bandas, são empresas"
(ele não quis citar nomes), que de Forró não tem nada.
Daí o Forró daqui não se comparar com o de Pernambuco
e o da Paraíba em termos de originalidade.
A Bahia também é forrozeira diz Waldonys:
"Na Bahia também
gostam muito de Forró. Mas, assim, na época das festas juninas.
Há um respeito muito grande por bandas de fora de Forró.
Lá há espaço pra todo mundo, e pra todo estilo de
música. Como não tem tantas bandas de Forró como acontece
por aqui, essas bandas vão pra lá e fazem o maior sucesso.
Eles gostam mesmo, mas o forte mesmo é o carnaval, a música
baiana."
Essas mesmas bandas invadiram o sul e sudeste do país, levando a
quem desconhecia um falso modelo do que é o Forró realmente.
Waldonys ainda diz que estão nivelando o Forró por baixo.
"No
verdadeiro Forró, toca-se a sanfona como eu toco, como Dominguinhos
toca, como Sivuca toca, como Oswaldinho toca. Na sanfona se usa o improviso
e a gente tenta mudar sempre, a cada frase ou mesmo durante a música,
pra não ficar uma coisa muito chata, ou mesmo colocar um acorde
mais elaborado pra dar um "gostinho". Isso eles não usam pois acham
que o povão não gosta."
O Forró bem trabalhado é um ritmo muito interessante, é
muito rico. Pensamos que está acontecendo com o Forró o que
aconteceu com a música sertaneja, a de moda de viola mesmo, que
se tornou um brega-romântico mal feito. Essas músicas são
empurradas "goela abaixo" das pessoas. Decoram as músicas de tanto
ouvir.
As conclusões que se tem diante do depoimento de Waldonys quanto
a esse Forró eletrificado é que: além de estarem passando
uma falsa realidade do que é realmente o Baião, essas novas
bandas estão tomando o espaço e o público de quem
continua fazendo o Baião das raízes.
Percebe-se que Waldonys é um sanfoneiro que gosta do que faz, talvez
por isso o Baião e o Forró estejam presentes com mais força
em suas músicas, apesar de não gostar e tocar apenas esse
estilo musical.
Durante um ano pesquisando
sobre o Forró, tivemos a oportunidade de entrevistar o sanfoneiro
Dominguinhos, considerado o filho artístico de Luiz Gonzaga.
Em seu depoimento , que foi tão importante para a pesquisa, Dominguinhos
nos deu a chance de assistir a uma aula de música popular brasileira.
Quando indagado sobre se ainda se faz Baião, ele disse que sim e,
responde que ele mesmo é um exemplo disso.
Na sua opinião não vamos encontrar Baião mesmo, a
não ser em ocasiões especiais, pois ele conta que o Forró
é um derivado do Baião e o próprio Luiz Gonzaga depois
que começou a fazer Forró deixou o Baião de lado.
"Porque o Baião tem uma batida mais quadrada e o Forró tem
mais ‘tempero’.
Na parte da orquestração Dominguinhos declara que a formação
da sua banda hoje depende muito do local de apresentação.
Para ele o trio de zabumba, triângulo e sanfona ainda funciona, mas
em um local grande, principalmente, com a participação de
outras bandas, o resultado fica um pouco a desejar em relação
à uma banda com contrabaixo, guitarra, teclado, bateria, etc., que
na verdade nas gravações de estúdio são usados
esses instrumentos.
Quando fala sobre o Forró do Ceará, Dominguinhos elogia,
mas logo tece comentários críticos a respeito desse Forró
meio "misturado com lambada". Ele diz que não é a batida
do Forró, não é a dança do Forró, mas
pelo menos tratam de assuntos relacionados a vida do nordestino. Bom, pelo
menos alguns. Talvez isso diferencie o Forró de alguns estilos musicais
que estão também por aí com uma nova roupagem.
Então que música é essa? Quer dizer, talvez o problema
esteja na nomenclatura, pois o que se percebe é que surgiu outro
estilo musical, como aconteceu com a música sertaneja e o samba.
Do mesmo modo que não agrada muito a ele esse estilo de música
(pois tira o espaço de quem toca e faz a música mesmo), ao
mesmo tempo ele afirma que o Forró, o verdadeiro Forró, ainda
esteja aí também por causa disso, ou seja, o Forró
é sempre uma novidade em relação a essa música
que escutamos atualmente.
Dominguinhos reforça uma das questões que abordamos anteriormente,
o emprego dos músicos. O ganha-pão. Muitas pessoas têm
como única e exclusiva fonte de renda, tocar um instrumento ou cantar,
ou algo assim. Bom, o que acontece é que, se as pessoas querem ouvir
determinado tipo de música e eu sou um músico profissional
e ganho dinheiro através disso então alguns se vêem
obrigados a tocar qualquer coisa para se manter.
Tivemos também a oportunidade de entrevistar o sanfoneiro Sirano
, que se coloca entre os que ainda hoje tocam Baião, e cita Waldonys
e Azeitona aqui no Ceará, e também cita Dominguinhos.
Para Sirano, as pessoas
acham que tudo que é tocado na sanfona é Forró. E,
no entanto, na sanfona se toca tudo, até mesmo música clássica
como ele mesmo faz em algumas de suas apresentações, onde
chega a tocar duas músicas diferentes ao mesmo tempo. O Baião,
o Forró, o xote, o xaxado têm alguns elementos parecidos,
mas todos têm uma distinção, e muita gente anda tocando
todos esse gêneros sem saber o que é.
Quanto ao trio, (z.t.s.) ele ainda aprova como sendo uma sonoridade muito
bonita e que gosta muito de usar, mas hoje em sua banda fazem parte também
outros instrumentos. Declara que no começo da década de 70
já se fazia o Forró com guitarra, contrabaixo, bateria, etc.
Em 79 ele já usava essa formação, mas sempre utilizando
zabumba, triângulo e sanfona. Esclarece que, o que está acontecendo
é que o Forró está saindo do estúdio para o
palco do jeito que é gravado. Diz que quem continuou tocando o Baião
autêntico perdeu o lugar na mídia. Hoje em dia se fala muito
em qualidade de gravação e, a guitarra, o teclado, o contrabaixo,
a bateria (que considera um dos instrumentos dos mais completos por constituir
uma percussão inteira num só instrumento) possibilitaram
um salto de qualidade muito bom.
Compara também a evolução do Baião, a evolução
da música sertaneja, e ao samba (pagode).
Sirano tem o Forró
como elemento da cultura nordestina, então diz que o Forró
deve falar do sertanejo. O Forró deve usar o linguajar do dia-a-dia
do caboclo. Nossas manias, costumes. A mensagem deve ter relação
com o sertanejo. Até acha alguns Forrós bonitos, mas não
é a mesma coisa. Cita o bumba-meu-boi de Manaus, a música
do Mato Grosso, que falam dos costumes de cada região, etc.
Na sua comparação do Forró do interior com o da capital,
não vê muitas diferenças, pois não consegue
mais fazer distinção entre meio rural e urbano no sentido
da informação, e que pra isso temos a televisão.
Geraldo Azevedo afirma também tocar Baião, e diz que
existe muita gente fazendo Baião ainda.
Explica não
ser o Baião de Luiz Gonzaga, mais o Baião com influências
de outros estilos, principalmente o Forró aqui do Ceará,
que ele caracteriza como um ‘desvirtuamento no processo’ de se fazer Forró.
Sua colocação é muito parecida com o que Dominguinhos
disse, ou seja, houve uma adaptação do Forró aqui
no Ceará. Essa adaptação se vê na utilização
de novos instrumentos na orquestração do Forró (que
veremos mais à frente), que veio dar um novo conceito de música
de festa.
Assim afirma Geraldo Azevedo :
"Eu
acho que essa adaptação foi muito bem feita. Agora em termos
de composição realmente você me pegou na boa, não
sei. Fora esses grandes mestres como o Dominguinhos, o próprio Alceu
tem muita influência do Baião, Zé Ramalho eventualmente
faz alguma coisa ligada a esse ritmo, mas ele não vê como
uma escola do qual se baseie nisso. Existe por exemplo o "Cascabulho" que
é um grupo de Recife, desses movimentos novos que surgiram lá,
que está fazendo inspirado todo na escola de Jackson do Pandeiro
que tem muita coisa ligada ao Baião, mas Jackson do Pandeiro é
muito mais ligado ao coco do que o Baião. Realmente o Rei do Baião
é o Luiz Gonzaga."
Geraldo Azevedo conta sobre seu filho Lucas que tem uma banda de Forró
no Rio de Janeiro, e que está deslumbrado com o evento do Forró
em todo o Brasil.
Segundo Lucas, a nova
geração forrozeira, ou seja, a turma que está descobrindo
o Forró agora através desses novos movimentos musicais não
gosta desse neo Forró. Eles preferem o Forró autêntico.
Um dos lugares no
Rio de Janeiro onde se encontra o autêntico Forró é
na feira de São Cristóvão todo fim de semana.
Assim declara Geraldo Azevedo :
"A feira de S.
Cristóvão é um reduto de nordestino que tem no Rio
de Janeiro onde tem uma feira de nordestino que vende tudo que é
do nordeste, e está presente muito a cultura nordestina lá
e ele gosta de ir lá porque lá tem essa dimensão do
Forró autêntico, do zabumba, da sanfona. E outra coisa, resgatando
as canções que eu acho que analisando por esse lado aí
(…) que o CD, o evento do CD foi a coisa mais importante nessa história
toda, porque o CD trouxe as gravações daqueles discos antigos
remasterizados, pra nosso tempo agora, com uma nova qualidade né.
E trouxe pra nova juventude até que tava alienada da nossa cultura
brasileira, que a ditadura deixou uma brecha muito grande em relação
a essa história cultural, e o CD foi muito importante pra essa coisa.
Em trazer, Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, todas as pessoas que fizeram
essa cultura de música brasileira, até os nossos discos mesmo
de nossa geração os primeiros discos que a gente fez, que
foram feitos em vinil trouxeram à tona."
Os movimentos surgidos com intuito de resgatar o verdadeiro Forró
não valorizam esse novo Forró. Como ele mesmo diz: "Ninguém
gosta das bandas do Ceará, essas estereotipadas aí."
Na verdade o
público se divide um pouco, pois o sucesso dessas bandas é
incrível. Todos os shows são com casas lotadas, a venda de
discos anda disparada, as rádios só tocam Forró o
dia inteiro. Talvez o Forró no sul não tenha ainda a força
que tem aqui, mas como dizem é por pouco tempo.
Geraldo Azevedo diz que o Forró aqui no Ceará é muito
forte, mas o autêntico Forró se encontra mesmo em Pernambuco,
e na região do Cariri. Cita também a Paraíba e o Rio
Grande do Norte.
Em seu novo disco
Raízes e Frutos, Geraldo Azevedo disse que quando precisou de um
músico que tivesse muita autenticidade para a parte das raízes
procurou Waldonys, indicado por Dominguinhos.
E Geraldo Azevedo o considera como músico autêntico do estilo.
"Ele
foi lá e deu o recado. O Waldonys não só ele tem já
o ele já chegou num estágio muito importante no cenário
musical pra idade, e ainda mais que ele é apadrinhado por duas pessoas
mais importantes do Brasil que foi Luiz Gonzaga e Dominguinhos. Eu soube
que ele tem uma sanfona que foi dada por Luiz Gonzaga então quer
dizer, ele tem uma história já e um compromisso com essa
raiz. E ele estuda muito. É uma pessoa muito interessante como pessoa,
como músico, como… acho que ele tem uma história muito grande
pela frente. É, e muita tranqüilidade, ele é uma pessoa
muito tranqüila, muito autentica."
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