Só há uma maneira de manter a cultura popular viva. As informações
devem ser passadas de geração à geração.
Tudo deve estar sendo refeito sempre, ou seja, deve-se ‘inventar’ sempre.
A cada dia deve-se aplicar uma injeção de ânimo em
algo que estamos fazendo, ou seja, algo novo deve ser acrescentado ao ‘velho’
para que as coisas não fiquem para trás. Devemos abrir olhos,
ouvidos e coração ao novo para as novidades mas, sem deixar
pra trás tudo que foi utilizado para se chegar à uma nova
estética.
O assunto escolhido para nossa pesquisa é muito extenso para ser
trabalhado, pois para podermos comparar o baião de ontem com o de
hoje, ou seja, para tirar conclusões a respeito do que mudou através
de tantos anos é preciso conhecer a fundo o assunto em questão.
Precisamos acompanhar desde seu surgimento, até sua afirmação
como gênero musical preferido do povão na década de
40 e 50, e mais tarde sua mistura com outros estilos e, a partir daí,
o nascimento de outras formas musicais.
Neste compilado foram colhidas informações bibliográficas,
discográficas e história oral (entrevistas), e com todas
as informações obtidas até agora, já é
possível traçar o caminho por onde o baião seguiu
durante esses mais de 40 anos, desde o seu surgimento como fenômeno
musical. Mas, ainda é muito cedo para se ter resultados que se possa
chamar de uma pesquisa completa, afinal o espaço de tempo desde
o início da pesquisa foi pequeno para tal. Contudo, os resultados
apresentados aqui são bem satisfatórios.
Tendo analisado todas as definições de Baião feita
por vários autores, pudemos perceber uma grande diversidade de opiniões.
E percebemos uma evolução do estilo. Ao longo dos anos o
baião mudou realmente. Percebemos que Câmara Cascudo firma
sua posição e, crê no Baião como uma introdução
feita pelo cantador para começar a cantoria.
Já outros autores como Pe. Miguel do Sacramento, Pereira da Costa,
Aluísio Alves, entre outros, vêem o baião como uma
dança. E ainda, na opinião de Silvio Romero, Baião
é música e dança ao mesmo tempo.
Luiz
Gonzaga considera o prelúdio da cantoria dos tocadores de viola,
como uma fonte do Baião que ele soube estilizar.
A conclusão após todas essas informações é
que ainda está se fazendo Baião, não como era no início
deste século, mas, como já disse antes, ele vem evoluindo
durante os anos e, muitas músicas que escutamos hoje em dia, podem
até ser Baião. O que se faz hoje em dia, pelo menos na maior
parte das vezes, é um Baião diferente, usando um ‘tempero’
diferente. É inevitável que num país como o Brasil
- onde encontramos manifestações musicais tão diversificadas
- haja fusão de gêneros, criando um novo ou mesmo dando formas
diferentes aos já existentes.
A partir de informações obtidas depois de entrevistas realizadas
com o sanfoneiro Waldonys, residente aqui em Fortaleza-Ce, e com o sanfoneiro
Dominguinhos, residente em São Paulo e profundo conhecedor do assunto,
considerado o sucessor de Luiz Gonzaga, podemos concluir com seus depoimentos
que o Baião ainda está presente hoje, ou seja, tendo por
base essas e outras informações, e analisando-as, percebe-se
que o Baião está aí com uma nova roupagem.
"A renovação é o principal instrumento da preservação"
. Segundo Michelle de Assunção do Diário de
Pernambuco essa tendência é mundial, e um dos maiores ícones
dessa ‘idéia’ no Brasil nos anos 90 foi Chico Science. Antes, Ariano
Suassuna e mais recentemente Antônio Carlos Nóbrega. Para
eles, misturando tudo dá. . Esse processo é normal e não
é novo. O que acontece é que a distância entre o velho
e o novo está cada vez menor. Como declarou Geraldo Azevedo , o
CD ajudou muito nesse aspecto, porque trouxe à tona, músicas
muitas vezes esquecidas.
A questão maior entre os historiadores não está na
continuação - que é bem vinda - feita pelos jovens,
mas no aprendizado errado das características de cada gênero,
pois a assimilação errada, pode causar distorções
maléficas a cada tipo de manifestação. Folcloristas
como Leonardo Dantas acreditam que "o processo de renovação
é a melhor forma de eternizar os folguedos", já outros acreditam
que os novos estilos podem causar a descaracterização da
arte. O historiador Mário Souto Maior acredita nessa possibilidade.
"As pessoas da arte erudita sempre vão encontrar seus alicerces
na cultura popular. Tudo teve início no folclore de um modo geral.
O meu medo é que as novas gerações entendam esse processo
de forma equivocada".