3- DESENVOLVIMENTO  

     3.1- O BAIÃO   

                    Para começar nossos estudos, é importante discorrer sobre a etimologia do termo Baião, a qual encontramos várias definições de diferentes autores e estudiosos do assunto. O termo Baião tem vários significados.    
                    Como cita a professora Elba Ramalho em sua tese, os termos baiano, baiana, baianá, baião estão relacionados etimologicamente, e todos referem-se ao estado da Bahia .     
                    O Novo Dicionário da Língua Portuguesa define a palavra baiano  como: 1. De, ou pertencente à Bahia, o natural ou habitante da Bahia, Baião. E o Baião como uma variação de baiano: Dança e canto popular, ao som da viola e doutros instrumentos, derivado do baiano; baiano, chorado, choradinho. 2. Pequeno trecho instrumental que os contendores executam nos desafios para dar tempo ao adversário de preparar a sua resposta, rojão. 3. Pequeno trecho de música que acompanha o canto, nos desafios e cantorias, e que, desenvolvido independentemente da cantoria, originou um gênero musical sertanejo de canto e dança. E ainda, descreve rojão  como o toque arrastado ou rasgado de violão ou guitarra portuguesa, um Baião mais rápido, que acompanha os trechos mais fogosos das cantorias e desafios.     

                    Mário de Andrade em seu Dicionário Musical Brasileiro diz que baiano e baião  são o mesmo:     
    

                    Mas é no Dicionário do Folclore Brasileiro de Câmara Cascudo , que encontramos as definições mais completas do termo Baião. Câmara Cascudo define baiano como: "uma dança viva, com coreografia individual, permitindo improvisações e habilidades de pés e velocidade de movimentos de corpo consagradores na apreciação popular." Cascudo cita vários autores, colhendo as mais variadas definições do termo baiano. Menciona o Pe. Miguel do Sacramento , que fala sobre o baiano sendo dançado em batizados e casamentos, "quando ainda não o consideravam dança imoral como hoje" (1842). Era dançado não só pelo povo mas, nas salas da sociedade também.    
                    Já Pereira da Costa , citado por Câmara Cascudo em seu dicionário, diz que baiano é dança rasgada lasciva, movimentada, ao som de canto próprio, com letras e acompanhamento a viola e pandeiro, e originário dos africanos. Diz ser uma transformação das suas danças nacionais como o maracatu e o batuque.    
Outra definição mostrada por Cascudo é a de Silvio Romero . Para ele baiano é dança e música ao mesmo tempo. Da execução fazem parte dançarinos e tocadores de viola. Os figurantes (dançarinos) e os tocadores improvisam o tempo todo. Romero descreve ainda a ‘Umbigada’ , que é um modo de envolver mais e mais brincantes durante a dança. Sobre a origem do baiano, Romero o considera produto do mestiço; é a transformação do maracatu africano das danças selvagens e do fado português.    
                    Câmara Cascudo dá outro exemplo do termo Baião como uma dança, com as palavras de Aluísio Alves . Conta que "o convite a dançar era feito pelo tocador que, requebrando-se, fazia uma cortesia como um ‘cumprimento aberto’, e o primeiro contemplado punha-se a dançar, convidando outros ao jogar o lenço da sorte." Assim vinham muitos dançar o Baião.    
                    Outro a considerar o Baião (o mesmo que baiano) como uma parte do samba foi o Sr. Júlio Monteiro , também mencionado por Cascudo em seu dicionário. E fala ainda sobre  outro tipo de convite à dança, que era através de estalos de dedos jogados em direção à quem se quer chamar  para a dança.    
                     Cascudo ressalta que, entre os cantadores sertanejos /  o Baião não é canto nem dança . É uma breve introdução musical, executada antes do "desafio" , antes do debate vocal entre os dois cantadores. São chamados também de rojão, ou rojão de viola, mais comumente.    
                    Correia de Azevedo  é outro autor citado por Câmara Cascudo que caracteriza o Baião como baiano e como uma designação regional do samba. Diz que o Baião só apresenta de especial o movimento rítmico sincopado.    
                    Dentre a Ciranda, São Gonçalo, Maracatu, Rolinha-doce-doce e outras danças, o Baião era uma das danças mais comuns e preferidas durante o século XIX no nordeste do Brasil, como relata Rodrigues de Carvalho .    
                    Colhemos a definição de Luiz Gonzaga , que fala do Baião em entrevista dada à Tárik de Souza. Para Gonzaga o Baião corresponde no sertão, ao samba na cidade grande.    

                    Comentário de Luiz Gonzaga:    

                    A definição de Gonzaga, essa descrita há pouco, era a forma clássica conhecida por Câmara Cascudo. Mas, se analisarmos mais profundamente, podemos perceber que essa visão de Cascudo para com o Baião é muito restrita. O Baião segue por outros caminhos, e como outros autores já citaram anteriormente, Baião também é canto, é dança e é instrumental.    
                    Ramalho  (1997: 149) cita a concepção de Baião de Guerra Peixe como uma das mais abrangentes, pois ele elege para o referido termo a confluência de canto, dança, e mais uma gama variada de ritmos.     
"A respeito desse assunto, Guerra Peixe refere-se ao amplo âmbito do Baião. Cita o termo Baião com diversas execuções. O termo Baião se refere ao bumba meu boi e aos caboclinhos, embora nem todos apresentem o ritmo do Baião  o termo derivado - abaianado - refere-se às variações rítmicas das bandas de pífaros, e aos cultos afro-brasileiros em Recife. Em relação às influências dos violeiros, Guerra Peixe enfatiza os "intermezzos" entre cada verso como um tema principal também relacionado ao Baião. Toda essa abrangência do termo Baião, inclui traços comuns de alegria, variação e vivacidade, que podem alcançar o mesmo nível como outras manifestações populares chamada Samba e "mesmo" batuque.    
Nós podemos concluir que o Baião pertence aos variados gêneros de canções e danças tradicionais do nordeste."    
                    O que não deve acontecer é vermos o Baião apenas como uma coisa limitada, e foi isso que Luiz Gonzaga fez como veremos mais adiante.    
                    Até 1946, o Baião talvez fosse uma manifestação nordestina apenas da Bahia para cima , pois encontravam-se referências somente em Sergipe, Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Ceará e Maranhão, só mais tarde, (na década de 40) o Baião começou a ser conhecido no sul e sudeste do país, virou moda mesmo. E como conta Câmara Cascudo , a partir de 1946 o grande sanfoneiro Luiz Gonzaga do Nascimento, pernambucano de Exú, nascido em 1912, divulgou pelas estações de rádio do Rio de Janeiro o Baião. Era uma nova fase para o Baião, que deixava de ser apenas executado durante as festas (casamentos, batizados, etc.) do sertão nordestino, e passava a ser conhecido e apreciado em todo Brasil como dança. Passava de simples dança do interior, a um dos principais e preferidos gêneros musicais brasileiros, com lugar de destaque nas execuções radiofônicas nas melhores rádios.    
                    Luiz Gonzaga gravou a música, com mesmo nome do gênero, que o levaria a ser o principal artista do nordeste brasileiro. O principal cantador, e contador das histórias do povo do nordeste. A música Baião foi gravada, em 1946.    
Baião
Autores: Luiz Gonzaga/Humberto Teixeira.
         LP 13.251-a. Odeon. 22/05/46. 4 Ases e um Coringa
Eu vou mostrar pra vocês /
Como se dança o Baião /
E quem quiser aprender /
É favor prestar atenção /
Morena, chegue pra cá /
Bem junto ao meu coração /
Agora é so me seguir /
Pois eu vou dançar o Baião /
Eu já dancei balancê /
Chamego, samba e xerém /
Mas o Baião tem um quê /
Que as outras danças não têm /
Quem quiser é só dizer /
Pois eu com satisfação /
Vou dançar cantando o Baião /
Eu já cantei no Pará /
Toquei sanfona em Belém /
Cantei lá no Ceará /
E sei o que me convém /
Por isso eu quero afirmar /
Com toda convicção /
Que sou doido pelo Baião.

                    É claro que o Baião que Luiz Gonzaga gravou não é o mesmo que se ouvia no século passado. Tudo tem uma evolução e, a partir disso, concordo com a professora Elba Ramalho que, comparando o Baião de Gonzaga com a definição de Cascudo sobre a música dos cantadores, diz que: …"o entendimento será complicado para a maioria da população do país, que conectar o mundo do Baião com o tipo de música gravada por Luís Gonzaga"…  Quer dizer, é difícil hoje em dia não ter a imagem do Baião como uma música de Luiz Gonzaga. Gonzaga depois que gravou o "Baião", o gênero se tornou febre nacional, fazendo com que esse ritmo se tornasse quase que uma idéia do sanfoneiro, ou seja, quando se ouve Baião imediatamente se associa à música de Luiz Gonzaga. Toda a referencial do gênero vem da música de Gonzaga e não do Baião dos cantadores de viola, que tem grande diferença.    
                    Do mesmo modo que o Baião vem evoluindo ao longo dos anos, ele se modifica de uma região para outra. Claro que essa diferença entre regiões é pequena, principalmente hoje, por causa da força dos meios de comunicação que nos passam novas informações rapidamente. Em minutos ou segundos podemos saber o que está acontecendo do outro lado do mundo, a televisão nos proporciona até, uma divulgação imediata de acontecimentos longínquos. A internet é outra fonte de informação com essa força. Se formos procurar mais autenticidade, hoje se diz que é possível encontrá-la ainda no Estado de Pernambuco. Os pernambucanos são considerados especialistas no assunto. É como explica Waldonys  (sanfoneiro cearense), quando diz que, um dos únicos lugares onde ainda podemos encontrar o Baião "pé duro" mesmo, é em Pernambuco. Explicado, talvez, pela influência da música de Luiz Gonzaga naquela região, como reforça o sanfoneiro Dominguinhos :    
    

                    Talvez porque Gonzaga fosse de Pernambuco ele acha que ainda se encontre Forró autêntico por lá e, por isso tenha se sustentado um pouco mais. Também pela mistura de ritmos que existe naquela região. Mas, de certo modo, ele acha que tanto faz uma banda de um lugar ou de outro, do interior ou da capital. As diferenças são poucas, porque como afirma Dominguinhos "eles vão tocar o que escutam no rádio". Dominguinhos se contradiz ao afirmar isso, pois, se ele acha que não existe diferença das bandas do interior pra bandas da capital, então como encontramos o baião autêntico?    
Para ele hoje em dia ainda não apareceu nada de novo depois de Gonzaga, tudo é copiado e cita como exemplo a música baiana. Para ele o maior problema do Forró é a falta de atenção da mídia, pelo verdadeiro Forró (qual é o verdadeiro Forró?). "Se a mídia se incomodar em executar o Forró como executa outras músicas, o Forró vira a mesa de um dia pro outro. Não tenha nem dúvida".    

                    Na época (1946) Gonzaga quis dar ao Baião uma nova roupagem e, para isso, enriqueceu o conjunto regional urbano com o conjunto tradicional do nordeste; acordeon, zabumba e triângulo. Ele precisava de uma banda nos moldes, ou seja, adaptável às necessidades radiofônicas do gênero.    
O instrumento de Luiz Gonzaga era a sanfona, e quando resolveu fazer o Baião nada mais natural usá-la para compor o conjunto para a execução do Baião. Só mais tarde, veio a idéia do zabumba , que ele conheceu nas bandas de "esquenta muié" ou bandas de couro no sertão. Gonzaga se dizia um bom zabumbeiro. Quando moleque era o zabumba que ele tocava nas bandinhas de pífaros. O triângulo  surgiu mais tarde.    
    

          isso entre 1946 e 47. Mais à frente falaremos mais sobre a instrumentação do Baião e do Forró.
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