3.3-
O FORRÓ
"Na longa cadeia
de fenômenos culturais urbanos
que envolvem
a presença de música e dança a serviço da diversão
das camadas mais humildes dos
grandes centros,
o mais recente e mais rico de sugestões é o
representado
pela criação das casas de dança denominadas Forrós.
"
O Forró como gênero musical pode ser considerado filho do
Baião. O nome Forró era usado só para designar o local
onde aconteciam os bailes e só mais tarde foi caracterizado como
estilo musical, derivado do Baião. Muitos ainda confundem Baião
e Forró, e pra ser mais exato, não apenas esses dois gêneros
(que são os mais próximos), mas muitos outros existentes
na música nordestina. Essa grande variedade de gêneros musicais
é devido às influências variadas, à mistura
de um estilo com outro, fazendo com que os próprios músicos
a chamem de "música nortista".
Forró é redução de ‘forrobodó’ , que
por sua vez quer dizer: arrasta-pé, farra, troça, confusão,
desordem, rolo. É baile popular. É o que encontramos no Novo
Dicionário da Língua Portuguesa.
O que podemos perceber é que o uso da palavra forrobodó
para definir os bailes populares tinha um lado de preconceito, que na verdade
ainda acontece hoje só que em menor escala, pois agora podemos notar
com freqüência a presença de pessoas das classes mais
altas participando desse tipo de manifestação.
Podemos encontrar definição parecida no Dicionário
de Câmara Cascudo, onde forrobodó é divertimento, pagodeiro,
festança. "Após a tal sessão houve um grande forrobodó."
(O Alfinete, nº 13 de 1890). "Em honra ao sexto aniversário
de "A Pimenta" houve um espalhafatoso forrobodó" ( A Pimenta, nº
373 de 1905). FORROBODÓ ou FORROBODANÇA é um baile
mais aristocrático que o CHORÃO do Rio de Janeiro, obrigado
a violão, sanfona, reco-reco e aguardente. Nele tomam parte indivíduos
de baixa esfera social, a ralé… A sociedade que toma parte no nosso
forrobodó é mesclada; há de tudo. Várias vezes
verificam-se turras ou banzês, sem que haja morte ou ferimentos.
Fica sempre tudo muito camarada, muito bem, obrigado" (A Lanceta, nº
121 de 1913). Alberto Bessa consigna o vocábulo como brasileiro,
com as expressões de baile ordinário, sem etiqueta; e Beaurepaire
Rohan, como privativamente do Rio de Janeiro, com as de baile, sarau chinfrim.
O termo tem curso no Ceará, para designar os bailes da canalha,
como escreve Rodrigues de Carvalho, e entre nós, porém, desde
muito, e antes mesmo do aparecimento do livro de Rohan, 1889, como
se vê destes trechos: "Um arremedo de folhetim cheirando a forrobodó"
(América Ilustrada, nº 25 de 1882). "Ao ator Guilherme, na
noite do seu forrobodó" (O mefistófeles, nº 15 de 1833).
O termo, portanto, quer originário do Rio de Janeiro quer não,
já tem entre nós os seus cajus (Pereira da Costa, VOCABULÁRIO
PERNAMBUCANO, 349-350). Usa-se em Natal, na imprensa anterior a 1930, como
sinônimo de baile popular, pagode, samba movimentado, entre o povo.
Carlos Betencourt e Luís Peixoto escreveram uma revista teatral,
FORROBODÓ, que foi muito representada e aplaudida por todo o Brasil
(1917-19) .
Na definição de Luiz Gonzaga, Forró é
baile de ponta de rua, dentro da zona boêmia, de letra provocante
e geralmente insultuosa, contando proezas e valentias.
A primeira gravação em disco, cujo título evidenciava
a palavra Forró, como local de dança foi em 1949, por Luiz
Gonzaga . Gonzaga gravou o Baião intitulado "Forró de Mané
Vito", dele em parceria com Zé Dantas, que mostrava muitas das características
dos forrós.
FORRÓ
DE MANÉ VITO
(Luiz Gonzaga
e Zé Dantas) - RCA Victor. 08.06.68.
Seu delegado
Digo a Vossa Senhoria
Eu sou fio duma
famia
Qui num gosta
de fuá.
Mas, trasantonte
No Forró
de Mane Vito
Tive que fazê
bonito
A razão
vô lhe explicá.
Quincola no ganzá
Preá no
reco-reco
Na sanfona Zé
Marreco
se danaro pra
tocá
Daqui pr’ali,
pra’lá
Dançava
com Rosinha
Quando Zeca de
Soninha
Me proíbe
de dançá.
Seu delegado
Sem increnca eu
não brigo
Se ninguém
buli comigo
Num sô homi
pra brigá.
Mas nessa festa
Seu dotô
predi a carma,
Tive que pegá
nas arma
Pois num gosto
de apanhá.
Pra Zeca se assombrá
Mandei pará
o fole
Mas o cabra não
é mole
Quis partir pra
me pegá
Puxei do meu punhá
Soprei no candieiro
Butei tudo no
terreiro
Fiz o samba se
acabá.
Percebe-se que a palavra samba é usada com o mesmo sentido de Forró.
Com todas essas definições sobre a etimologia da palavra
Forró, podemos caminhar junto ao raciocínio do professor
Alberto T. Ikeda quando diz que é de costume do povo simplificar
as palavras, e que foi isso que aconteceu com a palavra forrobodó,
onde as pessoas passaram a chamar apenas de Forró.
Por outro lado, alguns defendem outra versão, na qual a palavra
Forró teria surgido de "for all". Conforme João Epifânio
Lima Campos (1980), com a inauguração da primeira estrada
de ferro no interior de Pernambuco pela companhia inglesa Great Western,
foi feito um baile (ao som da sanfona e zabumba) para comemoração
do acontecimento, promovido pela própria empresa, que convidava
todos através dos dizeres afixados na entrada: "for all" (para todos).
A partir daí então, passariam a chamar os seus bailes populares
de Forró. Esta versão foi reforçada quando o cantor
e compositor Geraldo Azevedo fez a canção "For all para todos"
em 1983. Que fala justamente sobre isso:
FOR
ALL PARA TODOS
(Geraldo Azevedo/Capinam.
LP Ariola. 1982)
Refrão
For all, Forró,
for all,
Forró,
for all, Forró, for all…
Para todos os
fandangos, para todos os terreiros
Para todos os
candangos, para todos os brasileiros,
Eu vou mostrar
pra vocês como nasceu o Forró.
Foi antes de ‘Padim
Cíço’, foi antes de Lampião;
Antes de nascer
o cristo; do batismo de João;
Antes de morrer
por todos; antes de repartir o pão.
Refrão
Para todos da
cidade, para todos do sertão
Para os que preferem
xote, xaxado, samba-rock ou Baião
O inglês
ali andava, sei se anda sei se não.
Botando os trilhos
no mundo bem no fundo do sertão.
Ferrovia para
todos leva uns e outros não
Só a morte
com certeza dá pra todos condução.
Refrão
Para todos de
São Paulo ou do Rio de Janeiro
Pernambuco, Paraíba,
Petrolina, e Juazeiro
Alegria para todos
a tristeza sei se não.
O inglês
da ferrovia escreveu no barracão ( for all) 4x
Foi aí
que o "pau comeu" nunca mais sentou o pó, eu
Só sei
que o povo leu.
Refrão
Veio Jackson,
veio Lua, Januário e Azulão.
Severino não
faltou, democratas do Baião.
Foi cheiro na
carolina, foi subindo a gasolina
Foi o trem e veio
à pó, mas eu só sei que o povo leu:
Refrão
O Forró
da ferrovia, vira e mexe o mundo inteiro
For all 4x foi
aí que o pau comeu, nunca mais sentou o pó
Mas eu só
sei que o povo leu.
Refrão
Foi assim que
o pau comeu
Foi assim que
o povo leu
O for all dos
estrangeiros, para todos os brasileiros.
Refrão
Ferrovia do Forró
nunca mais sentou o pó.
O que mais constatou-se durante a pesquisa sobre a etimologia da palavra
Forró, é que as pessoas conhecem Forró, como a palavra
vinda mesmo de ‘for all’. Isso vem mais uma vez reforçar a nossa
opinião sobre a força que os meios de comunicação
de massa, ou seja, a força com que eles atingem as pessoas de um
modo geral. A música de Geraldo Azevedo veio afirmar mais uma vez
(e com muita força), uma coisa contestada pelos livros e folcloristas.
Bom, como o poder de persuasão do rádio e da televisão
são bem maiores que o dos livros, as pessoas acreditam nessa afirmação.
Em entrevista, Geraldo Azevedo fez o seguinte comentário sobre
sua música For All:
"A idéia
dessa música ‘bicho’, na verdade mais uma vez foi nosso mestre Luiz
Gonzaga. Eu tive assistindo um programa de televisão na década
de (…) final de 70 pra 80, não foi começo de 80. Tava assintindo
a TVE num programa onde estavam presentes Luiz Gonzaga e Sivuca, outro
mestre da sanfona. E era um programa muito interessante. Poucas vezes que
eu vi Luiz Gonzaga conversando, falando das raízes e tal, aí
eles falaram dessa coisa pitoresca pra mim, nessa hora ficou uma coisa
assim interessante, da palavra Forró como teria surgido, e que contava
essa história da estrada de ferro que os ingleses vieram instalar
no Brasil, que tinha aquelas festas, né."
Normalmente tinha aquelas festas para os engenheiros, aquela coisa mais
"elitista", e de vez em quando tinha festa também para os operários,
por que eles ficavam muito no meio do mato, aquela coisa (…) ficavam realmente
isolados. E quando ‘botavam’ para os operários, quando era para
todos, eles botavam … escreviam lá no barracão ‘for all’,
era inglês, botavam lá ‘for all’. Então os nordestinos
"principalmente", começaram a sacar que quando era ‘for all’, era
para todos. Então hoje é for all, hoje é Forró?"
Pode-se perceber que Geraldo Azevedo reconhece o erro que fez, quando tenta
se sair da resposta com um bom trocadilho, mas, jamais iria admitir. Afinal,
estaria indo contra uma coisa que ele mesmo afirmara.
"Aí repare,
eu fiz um disco em 83 e lancei essa música, e o nome do disco era
For All Para Todos. Recebi uma crítica de Câmara Cascudo,
que é uma pessoa idônea na história do folclore, e
ele fez uma crítica diretamente ao meu disco, dizendo que era absurdo,
que não tinha base essa história, que o Forró vem
da palavra forrobodó do banto africano. Hoje, tá passando
um filme chamado For All que trás à tona essa mesma coisa,
só que já é na origem de americanos. Então,
quer dizer. Normalmente as coisas viram lenda, né? Eu acredito que
Forró hoje em dia vem do ‘for all’, é ‘para todos’ e é
um ‘forrobodó’ maravilhoso."
Eleuda de Carvalho também é uma que defende que a etimologia
da palavra Forró vem de forrobodó, e não de for all.
Ela discorda Geraldo Azevedo "For All Para Todos". Segundo a autora Forró
é uma contração da palavra forrobodó.
Mesmo porque desde o século 17 já se fala em forrobodó,
bem antes dos ingleses construírem suas malhas ferroviárias.
Como ela mesma diz: "Só sendo muito abestado pra aceitar isso."
Esta última versão, que diz que o Forró veio de ‘for
all’, tem realmente lógica, pois se formos bem a fundo, veremos
que essa versão vem de um fato ocorrido na segunda metade do século
XIX quando foram inauguradas as primeiras estradas de ferro (1858). Mas,
vimos que Forró tenha surgido mesmo de forrobodó, termo que
é usado até hoje, e antes mesmo do seu registro pela imprensa
como coloca o professor Alberto Tsuyoshi Ikeda.
"for all" num primeiro
momento resultaria em foró, não sendo natural que desta se
passasse para uma palavra de maior impedância que seria Forró.
Por outro lado, seria difícil crer-se que Forró desse origem
a forrobodó, o que, da mesma forma, contraria frontalmente a prática
popular de simplificação das palavras (pelo menor esforço)
tão comum no Brasil…"
Forró inicialmente designava apenas a festa ou baile dançante,
e o local onde acontecia. Só mais tarde passou a ser também
um gênero musical. É bom deixar claro que em muitas regiões,
o nome para esses bailes populares era samba, mesmo que a música
executada fosse o Forró. O gênero se espalhou por todo o país.
Forró
é "gênero basicamente de dança, de ritmo binário.
Em grande percentual trata-se de composições de desenvolvimento
melódico bastante simples, muitas vezes apenas pequenos motivos
melódicos que se repetem várias vezes no mesmo acorde ou
nos graus fundamentais da tonalidade, intercaladas com frases melódicas
pouco mais elaboradas. Pode-se dizer que na maioria são variações
melódicas simples sobre um mesmo ritmo.
Os Forrós (gêneros) com letra (poesia) apresentam melodias
mais desenvolvidas, aproximando-se do Baião. Em relação
à este último, o Forró tem andamento mais acelerado,
tendo pulsação no geral em: semínima ( q ) = 92 à
104 (em dois por quatro), apresentando figuras rítmicas rápidas,
p.ex., à base de semicolcheias."
A diferença básica apontada por todos os músicos quando
indagados sobre a diferença entre o Baião e Forró
é que o ritmo é mais "picadinho" ou mais "repicado", quando
o Baião é mais quadrado e não tem o swing do Forró.
O Forró tem mais "molho ."
Em entrevista realizada com Dominguinhos ele foi da mesma opinião
sobre essa diferença:
"O Forró
é um derivado do Baião. E foi também Luiz Gonzaga
que fez a gente saber o que era o Forró. E, ele próprio depois
que ele passou a falar muito em Forró, e a tocar Forró, ele
deixou o Baião de lado. Porque o Baião tem uma batida mais
quadrada e o Forró tem mais tempero só que o Forró
que tá se tocando atualmente é um Forró mais ...virado
mais pra lambada, uma coisa assim mais sambado, um pouco diferente. Eu
acho que é o Forró dos anos 60, na época que
às vezes alguns artistas daquela época cismavam de gravar
um Baião, e faziam com essa pancada que tem que as bandas
estão fazendo agora, entendeu ? Com esse "molho" aí, o Baião
dos anos 60 ( CERTO ) então agora o Forró passou a ser exclusivamente
um derivado do Baião, por causa exatamente da pancada, que nós
chamamos no meio musical de "quadrada", ela não tem muito molho
o Baião, entendeu? É mais então pouca gente está
tocando Baião porque nem sabe o que é Baião na realidade,
certo? ( ISSO ) E nem sabe o que é Forró, porque nem sabe
nem a batida direito do Forró."
Como se pode deduzir do comentário de Dominguinhos, para ele o Forró
não passa de uma derivação do Baião, um prolongamento
desse. Que realmente o é.
A batida do Baião é mais "quadrada", ou seja, ela tem menos
balanço que o Forró, que também pela introdução
da guitarra, e mesmo da bateria na sua orquestração, possibilitou
que a música se "mexesse" mais. O Forró tem mais ‘swing’
(balanço) que o Baião. É o que Dominguinhos chama
de "tempero", de "molho". Um dos motivos que Dominguinhos expressa como
empecilho, para que hoje não esteja se tocando Baião, é
justamente o fato das pessoas não saberem o que é Baião
e o que é Forró, não sabem distinguirem os ritmos.
É justamente aí que está a perda da "memória",
ou seja, as pessoas perderam o referencial.
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