3.6.1- O ZABUMBA   
"Conheci o zabumba  nas bandas de "esquenta muié" lá no
meu sertão, nas bandas de couro. O zabumba tem vários nomes: esquenta
muié, estocador, cabaçal... chama esquenta muié, porque quando o
zabumba sapeca, as mulheres ficam no maior fogo, né? Quando moleque, eu tinha tocado naquelas
bandinhas com pífaros e meu instrumento predileto
era o zabumba. Já me considerava bom zabumbeiro. Quando quis fazer o Baião, achei que devia usar coisas
originais e me lembrei do zabumba."
(Luiz Gonzaga )

                    O zabumba é um instrumento de percussão da família dos membranofones  (como um bumbo pequeno) e tem a pele como corpo vibrante . É percutido através de batidas, e seu som é de natureza seca e ressonante na parte inferior ou posterior, e superior ou anterior respectivamente.   
                    É conhecido também por outros nomes, como: esquenta muié, estocador, cabaçal, etc., mas que são menos utilizados.    
                    Há duas espécies de zabumba : o autêntico, que tem as peles puxadas por cordas, e o industrializado que tem as peles puxadas por um mecanismo de metal.   
                    O autêntico é tocado na batedeira (parte superior) por uma maceta ou maceneta, ou às vezes por uma maceta e uma baqueta de surdo. Esse tipo de zabumba é usado no Maracatu e também em outros gêneros musicais. Já o zabumba industrializado é tocado por uma maceta na batedeira e na resposta (parte inferior) por uma vareta chamada de bacalhau. Esse tipo de zabumba é usado nos Forrós .   
                    O dicionário de música Zahar , define o zabumba como um "grande tambor cilíndrico, semelhante ao bombo, com pele nas duas bocas, utilizado em manifestações folclóricas brasileiras como os maracatus, as congadas, ou em formas de música popular como o Baião".   
                    No nordeste é comum conjuntos instrumentais populares , constituídos de dois pifes (pífaros), caixa e bumbo; banda cabaçal, banda de couro, cabaçal, esquenta-muié.   
                    No Dicionário do Folclore Brasileiro , encontra-se zabumba como: o "nome chulo ou popular dado ao BOMBO, instrumento de percussão; antigamente, porém, como escreve Bluteau, era o mesmo que ZAZ, partícula onomatopaica, para exprimir o som da pancada, que se dá. O termo entre nós, já na acepção daquele instrumento, vem da segunda metade do século XVIII, porquanto, como escreve Lopes Gama, foi "quando governou Pernambuco o General José César de Meneses,  que apareceu aqui o zabumba pela primeira vez" ( O Carapuceiro, nº 15 de 1837). O zabumba é o instrumento popular, predileto, inseparável, dos nossos sambas, batuques, maracatus, pastoris e zé-pereiras e constituindo como que a nota predominante, característica, daqueles divertimentos populares (Pereira da Costa, VOCABULÁRIO PERNAMBUCANO, 758). Em Portugal, como na Espanha, dizem ZABUMBA (ZABOMBA na Espanha) ao que chamamos CUÍCA. "Há poucos meses cantaram-nos em Campo Maior o "Menino do Senhor" com acompanhamento da ZABUMBA ou RONCA, cuíca no Brasil" (Armando Leça. MÚSICA POPULAR PORTUGUESA, 178, Porto, s.d.). Na Espanha acompanham as Pastorales, Vilancicos do Natal (ver cuíca). Mas o BOMBO ou BUMBO é popularíssimo em Portugal, por qualquer parte, mesmo ritmando as lindas cantigas  de arraial e romaria. No norte de Portugal, Beira, há um conjunto de instrumental denominado BOMBO, dois bombos e dois tambores, dois e três ferrinhos e um pífaro. Noutras regiões (Minho, Viana do Castelo, Ponte de Lima, Guimarães) o grupo é composto de instrumentos unicamente de percussão. Aí está de onde nos veio o gosto pelo bombo, zabumba. O mesmo que ESQUENTA-MULHER e CABAÇAL. Terno de zabumba, popular por todo o baixo São Francisco e ao redor de Maceió. "Está presente para acompanhar o bailado dos quilombos, a dança das baianas, para tocar salvas na rezas e acompanhar as procissões do meio rural e para os bailes onde faltam, pois um baiano (Baião) ou uma polca tocada por ele, todos os presentes dançarão, daí seu apelido de "esquenta-muié"…  "Outra função religiosa do terno de zabumba, além das salvas, é sair para pedir esmolas, acompanhando respeitosamente uma imagem de santo. Dentre eles o mais comum é SANTO ANTÔNIO CAMINHANTE. Caminhante pelo fato de ser conduzido numa pequena caixa de madeira  ou papelão para o peditório" (Alceu Maynard Araújo e Aricó Júnior, CEM MELODIAS FOLCLÓRICAS, Documentário Musical Nordestino, S.Paulo, 1957). Ver SALVA, BOMBO, CUÍCA.   
                    Na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, zabumba é tambor grande; o mesmo que bombo ou bumbo . Também se chama porém zabumba (em Espanhol: zabumba ou zabomba) a um instrumento musical muito diferente, de origem e uso rústicos primitivos e vulgares constituído por um cilindro oco, mais comprido que largo, aberto de um lado mas fechado do outro por uma pele tensa, cujo centro é perpendicularmente  atravessado por uma grossa vara de madeira ou por um pau tosco, ou mesmo (na ilha de Madagascar) por um osso. É friccionando fortemente a vara com a mão umedecida que se produz o som rouco próprio. É o que chamamos de cuíca.   
                    O zabumba é o instrumento que dá a característica básica do ritmo do Baião. Há algum tempo foi introduzido a bateria para fazer parte da orquestração do Baião. Essa parceria veio acrescentar muito à batida, dando um toque especial, mas é preciso muito cuidado para que esse ‘casamento’ dê realmente certo. O baterista deve ter uma afinidade musical grande com o zabumbeiro para que sua ‘linha’ não prejudique a performance de seu companheiro e vice-versa. O bumbo da bateria deve estar de acordo com a batedeira do zabumba, e o chimbal e caixa de acordo com o ‘bacalhau’. Isto sem falar de outros instrumentos que compõem a percussão do Baião, como: o agogô, e o triângulo que vamos tratar mais à frente.   
                    Vale lembrar que o Baião como prolongamento da música dos cantadores tem entre suas características o improviso, encontrado constantemente na batida do zabumba, no toque do triângulo, no dedilhado da sanfona, no jeito de cantar, enfim. O improviso está sempre presente na música nordestina e então no Baião.   
                    Em entrevista com Dominguinhos, sanfoneiro, cantor, compositor e maior filho artístico de Luiz Gonzaga, colhemos sua opinião sobre a formação das bandas de hoje que tocam o Baião, e segundo ele, mesmo que se faça uma banda de Forró "é preciso botar esses ingredientes, no meio".   

                    Então passou a ser: contrabaixo, guitarra, bateria, zabumba, triângulo, agogô, coral(...) tudo isso tem na música nordestina."    

                    Nessa nova instrumentação do Forró, a bateria foi inserida. Para alguns, isso pode causar certa descaracterização ao som do conjunto. Na opinião de Dominguinhos o uso da bateria não atrapalha.   

                    O sanfoneiro Waldonys também apresentou boas considerações sobre a entrada da bateria na orquestração do Baião.   

                    "Eu acho que a batida é muito parecida (entre o Forró e o Baião). O que acontece é que no Forró com o uso de vários outros instrumentos, e principalmente a bateria, possibilita um "swing" (balanço) maior, porém, se não for bem tocada e deixar espaço para todos os instrumentos executarem sua "linha", fica uma bagunça danada, e às vezes é aí que se perde um pouco da batida do Baião, mas que deve estar presente ali. Falando por mim, no caso das minhas músicas… Em minha banda eu uso bateria juntamente com o zabumba e também outros instrumentos, mas cada um fazendo a sua parte. O uso da zabumba com a bateria dá uma sonoridade muito rica, o casamento dos dois instrumentos é perfeito."   

                    Quando perguntado sobre usar apenas o trio sanfona, zabumba e triângulo, Waldonys colocou uma opinião que foi unânime entre todos os entrevistados:   

                    "Apenas com esses instrumentos é possível sim tocar Forró ou Baião. O problema é que se eu for fazer um show usando apenas isso, só se for um show especial, como uma coisa diferente, porque hoje em dia perde-se muito usando só o trio. Às vezes eu uso, mas só em algumas ocasiões, questão de transporte, ou uma apresentação informal mesmo. Como diz Dominguinhos: "as vezes você vai tocar num lugar, e vai tocar depois de uma banda que usou guitarra, teclado, contrabaixo, bateria, etc.; e você entrar só com a sanfona, o zabumba e o triângulo seu trabalho cai muito de qualidade" (…) quer dizer, aos olhos de quem está assistindo pois as pessoas comparam.      
                   Então o seu trabalho é do mesmo nível mas perde em relação aos outros instrumentos. Perde a harmonia forte do teclado, os graves do baixo, o ‘swing’ da guitarra, o casamento da bateria com o zabumba, etc."   

                    O sanfoneiro Sirano também tece comentários sobre o assunto e não diverge em nada de Dominguinhos e de Waldonys. Elogia o trio mas reconhece que o seu uso hoje seria um tanto quanto ultrapassado, seria voltar no tempo.   

                    "O trio, ele funciona. Ele é bonito. O próprio Dominguinhos faz isso, eu adoro fazer com o trio. O problema exatamente é a história da evolução. Tem muita gente que acha que o Forró de guitarra e contrabaixo começou hoje e na verdade não é. Isso desde de 73 que já vem, eu acho antes, 70 (?) prá trás até já vem acontecendo isso. Em 79 eu já tocava com contrabaixo, guitarra, com tudo isso aí, entendeu? Eu acho que o Forró com o trio é gostoso mas, devido a evolução que hoje nós estamos fazendo com as bandas, ele funciona mas não como funcionava antes."     

                    A conclusão que podemos tirar é que, quem ainda hoje usa só o trio perde em qualidade, e fica no anonimato. Sirano concorda quando pergunto se quem continua tocando assim, perdeu o acesso à mídia.   
   

                    Mesmo na opinião de músicos a introdução de outros instrumentos à formação original (só o trio) ocasionou uma melhora na sonoridade, como pude comprovar com LadiSilva, cantor e trianguero da Banda Asa Branca que acompanha Azeitona:   

                    "Os instrumentos que foram colocados só fez melhorar. A bateria, instrumentos de cordas. Antigamente se trabalhava apenas o ‘quarteto’ de Forró: zabumba, triângulo, sanfona e o ‘gogó’ (a voz). Atualmente devido as bandas  agente teve que atualizar, botar bateria, baixo, percussão. Tudo isso aí. Modernizamos".   

                    LadiSilva toca num ponto muito importante quando diz que teve que modernizar devido às "bandas". Fala sobre ficar pra trás se não acompanhar a evolução.   
                    Na entrevista realizada com o sanfoneiro ‘Azeitona’, considerado pilar do Forró aqui no Ceará, foram obtidas respostas muito contraditórias, mas de algumas coisas que foram ditas percebe-se que ele não gosta muito desse novo Forró que está aí. Diz não está de acordo com o que é realmente Forró. Nota-se também um certo cansaço nesse sanfoneiro que está há 50 anos tocando Baião, e continua firme fazendo o Forró de Luiz Gonzaga como ele mesmo diz. Para ele, Baião é aquele que é batido, que é tocado com zabumba e com triângulo. E o Forró é uma coisa mais estilizada…(?)"   

                    Para Azeitona o trio ainda funciona. "É nativo da terra não desaparece". E diz que não perde o público por causa disso. Mas, vale ressaltar que na banda que acompanha Azeitona, participa um baterista, o que penso não descaracterizar o estilo por conta disso. Uma das explicações, é que a banda além de acompanhar Azeitona, toca repertório variado, bem como músicas dessas novas bandas de Forró. Azeitona toca basicamente o repertório de Luiz Gonzaga. Pelo menos é o que se pode perceber.
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