Justificativa
 
                Considerando que a mídia hoje tem um poder muito grande de fazer com que as informações caminhem rapidamente, nos vemos de encontro a uma "faca de dois gumes" pois, ao mesmo que tempo em que recebemos as informações e, então, absorvendo-as, podemos nos inteirar do que está acontecendo pelo mundo sem perder ou deixar passar novas informações. Absorvermos essas informações a ponto de mesclar com as nossas surgindo, assim,  novas idéias e conceitos. É assim também que acontece a mistura dos estilos musicais. 
                    A dinâmica da música popular é um dos fenômenos que reforçam sua permanente renovação, e por que não dizer, transformação. Isto tem se acentuado, ultimamente, com o processo de globalização das mídias, que tornam as informações mais acessíveis. O rádio e a televisão, e hoje a internet, nos possibilitam essa troca de informações de forma imediata. A interferência dos meios de comunicação, nas manifestações musicais dos vários setores da sociedade, tem o mérito de possibilitar a socialização das informações, mas, ao mesmo tempo, de atuar de forma negativa pelo enfraquecimento de certos padrões musicais que identificam e distinguem um grupo social de outro.    
                    A pesquisa sobre o processo evolutivo do Baião, surgiu a partir da necessidade de criar um acervo com o registro dos padrões rítmicos da música popular nordestina. A arte está em evolução constantemente, tudo está em evolução, e quando falamos em evolução, falamos em "desenvolvimento progressivo de uma idéia, acontecimento, ação, etc. .", ou seja, a arte não pode parar no tempo. E não pára.    
De início, a pretensão com esse trabalho era auxiliar músicos, arranjadores, compositores, regentes, pesquisadores, entre outros, no seu dia-a-dia com a música. Queríamos compilar "todas as informações possíveis dos ritmos nordestinos", que seriam usados como fonte de pesquisa. Claro, era apenas um sonho. Coisa de estudante universitário (que ainda sou) preocupado com o destino da música.     
Quanto tempo seria preciso para conseguir compilar todas as informações sobre os vários ritmos nordestinos existentes?     
                    Após uma conversa com a Professora Elba Braga Ramalho - na época recém chegada da Inglaterra, prestes a defender tese de doutorado sobre a carreira e a vida de Luiz Gonzaga - "caí na real" e, assim resolvemos guiar a pesquisa para um único desses tantos ritmos da cultura nordestina, o Baião. E posso falar que deu trabalho, e que ainda não está completo. Mas foi muito compensador.     
A escolha do Baião como tema foi pela possibilidade de orientação da Profª. Dr.ª. Elba Braga Ramalho, uma pessoa com conhecimentos profundos no assunto e, por estar mais próximo à realidade daqui do Ceará, que por qualquer lugar que se ande, tem uma banda de Forró se apresentando.    
A preocupação inicial era com a diferenciação entre os ritmos. Mesmo morando num lugar onde essa manifestação musical é muito forte, às vezes nos enganamos na execução de determinados gêneros musicais. Falo por mim como músico, que não há nada mais horrível do que você ir à uma apresentação onde o artista diz do palco: …"agora pra vocês um Baião de fulano de tal …", e tem a coragem e ousadia de apresentar uma coisa que de Baião não tem nada, ou seja, está ‘enganando’ ao seu público e às vezes à si mesmo sem saber, apresentando uma música longe do que é realmente. Confundem Baião com xaxado, Forró, xote, toada, pra não mencionar outros. Tocar Baião não é só incluir sanfona, zabumba e triângulo em uma música.    
Na verdade o que pretendemos com esse trabalho, e o que nos levou a realizá-lo foi uma preocupação muito grande com o que as pessoas fazem com determinados gêneros musicais, sabendo de sua diferenciação pelo nome, mas na hora da execução é outra história.    
                    Não estamos aqui querendo estabelecer regras de como deve ser feita determinada música, pois a proposta não foi de apresentar um livro de receitas, mas a preocupação maior é a de deixar guardadas informações importantes sobre esse gênero musical tão especial, e tão presente na cultura nordestina.    
Por vários motivos (disponibilidade de tempo, falta de recursos financeiros, etc.) toda a pesquisa foi feita no Estado do Ceará, mesmo porque aqui, o Baião é uma manifestação muito forte. Todas as entrevistas foram realizadas também aqui, aproveitando oportunidades quando artistas importantes (no meio musical) se encontravam aqui na cidade realizando shows. Colhemos também informações de artistas daqui do estado.     
Assim, deve-se levar em conta que, as informações contidas nesse compilado, onde se trata do ritmo das músicas e dos instrumentos usados não pode ser vista como regra ou como informação definitiva, pois é muito provável  a ocorrência de variações entre regiões.    
                    Posso lembrar até o depoimento do Sr. Alberto Tsuyoshi Ikeda (Mestre em Artes pela ECA-USP) , em uma matéria escrita por ele em 1990 , onde define alguns ritmos musicais nordestinos e ressalta que as informações ali dadas servirão pelo menos como "…referencial histórico-etnomusicológico…", ou seja, o Sr. Ikeda já alertava sobre a rápida evolução destes estilos. E podemos constatar que nesses últimos 8 anos o velho Forró já sofreu várias transformações.     
E vale mencionar que daqui à menos de 2 (dois) anos essas serão informações do século passado (?).    
                    Essa grande facilidade de se obter informação é um dos fatores que fazem com que as novas gerações tenham contato com os vários gêneros musicais que ocorrem em várias regiões, o que causa a evolução dos estilos por suas misturas.    
                    Assim, para que não se percam os referenciais que identificam seus vários elementos constitutivos, sugerimos o resgate pela pesquisa, dessa manifestação musical tão forte em nossa região (Ceará) o Baião. 
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