3.4- A MÚSICA "NORDESTINA" NO SUDESTE    

                    Desde o início do século XX, e com mais força na segunda metade da década de 50, percebemos a presença da música nordestina no sul do país. Vários gêneros musicais nordestinos fizeram parte da história da música popular brasileira e, entre eles podemos destacar o Baião, entre 1946 até por volta de 1955 quando alcançou sucesso internacional.     
                    Depois de um período de certo esquecimento do Baião e de alguns outros gêneros musicais nordestinos, alguns artistas na década de 60 (Gilberto Gil, Caetano Veloso, Geraldo Vandré, etc.) deram um empurrão e nova valorização à essa música. Compondo e gravando músicas no estilo.    
                    A mídia teve uma forte influência nesse aspecto, tanto o rádio como a televisão, dando um impulso ao gênero. Mas ao mesmo tempo, se tornou tão forte que, qualquer gênero musical nordestino era música nortista, ou seja, no auge do Baião, tudo era Baião, e nos últimos 20 anos tudo é Forró, independente do gênero. As pessoas não querem saber realmente o que é. Se tem sanfona e triângulo é Forró.    
                    Já na segunda metade da década de 50 no Rio de Janeiro, começaram a surgir os primeiros salões de dança para os nordestinos migrantes, e em 1962 em São Paulo. Esses salões eram freqüentados por trabalhadores de construção, empregadas domésticas, entre outros. Eram respectivamente o Forró do Xavier e o Forró do Pedro Sertanejo.    
                    As décadas de 60 e 70 foram os anos de maior aparecimento de casas de Forró nessas duas cidades e, durante esse tempo, inúmeros modismos musicais (música jovem)  invadiram o espaço do Forró até que na segunda metade da década de 70 …"alguns Forrós se transformaram em uma espécie de "forrotéque" - como os embalos de sábado à noite - alternando noites de Forró com noites de música jovem".  Como reação, as discotecas, o forró invadiu as universidades via centros acadêmicos, até virar moda dentro de ambientes mais intelectualizados, chegando também aos programas de televisão.    
                    Das dezenas de Forrós de São Paulo, um dos poucos, se não o único a manter-se fiel à música dos trios nordestinos foi o de Pedro Sertanejo. Na época de sua fundação situava-se à rua Catumbi, atualmente no Parque São Rafael na zona Leste. Isso aconteceu porque o próprio público não aceitou muito bem a chegada e a invasão da chamada "música jovem". Aqui no Ceará, o Pirata Bar (casa recente) também mantém-se fiel ao Forró tradicional. Todas as segundas-feiras o sanfoneiro Azeitona e a Banda Asa Branca estão lá dando o seu recado.    
                    Os outros que não permaneceram na linha tradicional alternavam o seu funcionamento com  noites de Forró, lambada, samba e "música black" (1990). E junto com essa "leva" surgiram vários restaurantes no sudeste com comida típica e música nordestina para atender a elite.    
                    O público dos Forrós é variado. Os maiores freqüentadores são os jovens e pessoas de meia idade, mas nos bairros mais populares é comum a presença de idosos.    
                    Os músicos na sua maioria obedecem a uma hierarquia dentro do trio : sanfoneiro, zabumbeiro e trianguêro, por ordem de ‘importância’. O cantor independente do seu instrumento é colocado em lugar de destaque, ao lado do sanfoneiro. Mas a atuação dos zabumbeiros também é de fundamental importância, pois são eles quem dão a sustentação rítmica da música, ponto básico para a dança, elemento principal dessas casas.    
                    O músico do Forró tem atuação apenas funcional de serviço à dança. Não há aplausos. Não há intervalos entre as músicas e até mesmo as "estrelas" servem à mesma função. Por esse fato, os Forrós servem como lugar para exercício de palco para músicos iniciantes.    
                    Independente da região, a "música nordestina" ela tem uma ligação entre seus mais variados gêneros, por isso esse nome. Como Alberto T. Ikeda diz: "ela tem uma aclimatação comum.    
                    O termo Forró era apenas usado no sentido de baile, da festa em si. A música "Forró de Mané Vito" de Zé Dantas e Luiz Gonzaga  gravada em 1949 é um Baião, e "Forró em Limoeiro" gravada por Jackson do Pandeiro em 1953 é um rojão, e como já foi mostrada no começo desse compilado a letra fala justamente de Forró como local da festa, do baile.    
                    Apenas na década de 60 o Forró começa a aparecer como gênero, e na década seguinte com a consagração nacional do ritmo o número cresce, e as casas de Forró se espalham por todos os lugares. O Forró e o xote são os principais ritmos das festas, principalmente pela distinção de andamento.    
Esses Forrós eram freqüentados por operários, domésticas, artesãos, pequenos funcionários, etc., tanto no Rio de Janeiro como em São Paulo (Forró do Pedro Sertanejo, inaugurado em 1962) que iam curtir o som da sanfona, zabumba e triângulo.    
                    O público dos Forrós hoje não é constituídos apenas de cidadãos da  classe de baixa renda, mas a classe alta também.    
                    Os Forrós (casas de dança) no sul e sudeste surgiram entre 1955 e 60, no auge da migração de nordestinos para São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, a procura de trabalho. Como mão-de-obra não especializada, esses indivíduos se encaixavam na construção civil que, na época com a construção da nova Capital e da corrida imobiliária, ofertavam empregos.    
                    Tinhorão diz:    
    

                    Esses trabalhadores chegavam de suas cidades sem a mínima condição de conforto. Vinham para os grandes centros em paus-de-arara e as acomodações de moradia eram as piores possíveis. Ao chegarem, se abrigavam embaixo de pontes, portadas de igrejas e prédios, mais tarde aproveitavam o próprio local de trabalho (prédios em construção) para fazer de lá sua casa. Os que tinham trazido família se refugiavam nos morros em favelas (R.J.), de malocas em brejos e mangues da periferia urbana (S.P.), ou em nas casinholas armadas com restos de madeira na Cidade Livre de Brasília.    
                    Nas horas vagas (lazer), esses trabalhadores - vindos dos mais variados pontos do nordeste - reuniam-se nas construções com outros nordestinos para cantar e tocar (trabalho de aculturação) e assim conciliar suas diferenças regionais. Os da área rural da cantoria a base de viola, sanfona e rabeca se juntavam com os tiradores de coco da zona litorânea (ligados à percussão), batucadores de sambas cariocas .     
 Em São Paulo tinham contato com os negros da área do batuque rural, e em Brasília a mistura era maior devido a presença de goianos (violeiros), e mineiros.    
                    O resultado de toda essa mistura, foi essa nova música urbana que lembrava as origens de um público que se formava (nordestinos) e aumentava a cada dia. Uma música original surgida da mistura de culturas diferentes e que eles estavam dispostos a conservar como modo de manter acesas as lembranças da terra natal. Toda essa situação propiciou a criação de um mercado para essa música, e conseqüentemente várias gravadoras interessadas em lançar esses ritmos como: xaxado, o coco, o chote, a polca e a mazurca.    
                    Os mais pobres só tinham contato com essas músicas através de alto-falantes públicos ou, nas praças onde iam rever os amigos e colher notícias da família. Os Forrós surgiram daí, pois, com o aumento da população nordestina nessas cidades, percebeu-se a necessidade da criação de um lugar onde essas pessoas pudessem se encontrar, principalmente para obter diversão. Onde pessoas de situações sociais iguais pudessem ouvir música, dançar, etc.                            Na segunda metade da década de 60, o Forró do Xavier já mudara de endereço duas vezes, e o dono do estabelecimento percebendo o crescimento do negócio, resolveu mudar o nome de Forró do Xavier, para Associação Recreativa Cantores do Nordeste, porque achava que o nome Forró poderia denegrir a imagem do local por sua conotação de "festa da ralé". Assim a ‘casa’ desceu do morro para perto de Copacabana.    
     
Eu vou no Forró do Pedro
Eu vou, eu vou.
Vou dançar a noite inteira
Eu vou, eu vou.
É Forró animado
Vem gente de todo Estado
Para olhar a brincadeira
Eu vou, eu vou.

                    Mais tarde, Pedro Sertanejo   montou uma gravadora de discos nordestinos a "Indústria de Discos Cantagalo".    
                    Nessa mesma década acontece um fato inesperado. A venda pelo crediário, possibilita a baixa classe média comprar aparelhos de televisão, isso ocasiona uma evasão dos cinemas dos bairros, obrigados a alugar seu espaço para os Forrós, que tem a possibilidade de suportar até 2 mil freqüentadores por noite. E, no início de 1974, podia se somar aproximadamente 50 Forrós na cidade de São Paulo.    
                    Na primeira metade da década 70 já se somavam dois milhões de nordestinos só na Grande São Paulo, o que levou um proprietário de loja de discos do Largo da Concórdia a concluir: "O pessoal chega a São Paulo pensando em duas coisas: se for inverno, é comprar roupa de frio, senão bate o queixo. Se for verão, é comprar um rádio portátil ou uma dessas vitrolinhas. Ninguém no Brasil, é mais musical que o nordestino ."    
                    Aqui no Ceará as "Segundas de Forró" no Pirata Bar  ficaram famosas, recebendo o nome de "a segunda mais agitada do planeta", virando atração turística da cidade. Podemos citar outras casas que têm o Forró como atração, são elas: Cajueiro Drink’s , Clube do Vaqueiro , Parque Valeu Boi , etc.    
                    O Forró tradicional daqui de Fortaleza tem Azeitona como um dos seus pilares. Azeitona é um fiel seguidor do estilo de Luiz Gonzaga há 50 anos, completados em janeiro deste ano numa festa realizado no "Pirata Bar".    
                    Foi acadêmico de medicina, mas o seu negócio mesmo era a sanfona e, mais tarde abandonou o curso. Azeitona ainda se mantém fiel ao uso do triângulo, zabumba e sanfona. Mas, contanto que não descaracterize, aceita usar outros instrumentos.    
                    Nesse "novo Forró" qualquer música pode virar Forró. Pode-se encontrar até versões de músicas internacionais. As músicas são fabricadas nos estúdios Som Zoom (principal celeiro do Forró cearense). Bandas como Mastruz com Leite, Magníficos, Limão com Mel, etc., tomaram conta do mercado fonográfico. Mas ainda existe alguns artistas apegados ao estilo antigo.    
                    Quando se quer manter um padrão musical, quando se tem vontade mesmo, deve-se empenhar um pouco e ‘enfrentar’ tudo. Ir contra a maioria sempre foi uma constante na Arte durante toda  a história da humanidade.     
                    Azeitona é um ótimo exemplo disso aqui no Ceará. Desde que foi apontado por Luiz Gonzaga como um de seus seguidores, Azeitona se mantém fiel ao estilo. Mas até quando?    
                    Continuar tocando a mesma música que se fazia há tempos atrás, indo de encontro a essa avalanche de "música-nova" que está aparecendo aí, é sempre muito difícil e perigoso. Tentar manter a música (arte) estagnada no tempo nem sempre é uma coisa muito boa, ou seja, negar todas as coisas novas que estão aparecendo pode ser uma atitude de certo modo retrógrada. Mas, também não é fácil aceitar uma mudança brusca em algo que se faz há mais de 40 anos e se diz ter aceitação.    
                    Ao mesmo tempo devemos levar em conta que, se esse mesmo Baião feito há 40 ainda hoje fosse bem aceito, ou seja, se as pessoas ainda curtissem essa música quadrada de sanfona, zabumba e triângulo (que por sinal é muito bonita) então não escutariam o que está espalhado por todos os lugares do Brasil hoje. Esse neo-Forró está tomando conta não só do Ceará mas de todo o Brasil (…"por goela abaixo…", diz Waldonys), e a preocupação apontada por muitos é justamente essa, pois essa música que está sendo apresentada fora do circuito Nordestino não é o verdadeiro Forró, ou seja, a batida não é de Forró, a dança não é de Forró, não tocam a sanfona como no Forró (como dizem Dominguinhos e Waldonys), então que música é essa? Quem escuta esse novo Forró e não tem outros referenciais pode passar a acreditar que essa música é realmente Forró, o que não causaria nenhum um grande problema, o pior é quem passasse a não gosta do que nem conhece. Daí entra o preconceito. O "X" da questão não está só na inclusão de novos instrumentos à orquestração do Forró, mas no modo como é executado cada instrumento.    
                    As novas bandas são tão parecidas que no começo de cada música, o cantor anuncia o nome da banda, como forma de fazer as pessoas assimilarem quem canta determinada música. O que acontece, ou a impressão que se tem, é que foi criada uma fórmula para montar uma banda de Forró, e a receita é básica e bem simples, pois é necessário apenas um ingrediente, um bom empresário.    
O que se percebe é que hoje as bandas não são formadas no intuito de fazer música, e sim, ganhar dinheiro. Quando os músicos são escolhidos tanto faz se é bom ou não, mesmo porque a música do Forró tem servido de escola para esses músicos, pois, enquanto a festa está acontecendo as pessoas não se preocupam em olhar quem está tocando, ou cantando, o que permite a presença em palco de músicos com menos, e às vezes até sem experiência.    
                    Como disse Firmino Holanda , "no Ceará, o ar ficou saturado de som forrozeiro de baixo nível musical. As bandas de Forró possuem um apelo regionalista revestido de embalagem pop e vêm alcançando o sucesso por meio de formas populares já assentadas em nossa cultura, por vezes até similar ao das velhas baladas rock and roll."    
                    Em entrevista realizada com o Sanfoneiro Sirano pudemos constatar isso. Sirano fala justamente sobre a maneira que a música é tratada. Perdeu o elemento nordestino.    
    

                    No Baião eletrificado não é a guitarra o problema, pois isso já vem sendo feito desde a Tropicália com resultado bem satisfatório por vários grandes artistas de renome nacional e internacional como: Alceu Valença, Dominguinhos, Elba Ramalho, Gilberto Gil, Hermeto Pascoal, e sim - como já falamos e agora reforçamos - no jeito de tocar.     
                    Para Fagner esse Forró é "ruinzinho", mas é um mal necessário. Para ele "é um modo de atrair a atenção para a arte local ." E outro problema é que essas bandas dão sustento a muitos músicos.    
 Se como já foi dito em uma música que:" … o papa é pop… ", agora ser nordestino é pop, gostar de Forró é pop, e pode ser "moda", e é. O chique se confunde com (pop) o popular que agora não é mais desperdiçado pela elite. A partir do momento que o forró virou moda a elite não se incomodou mais por estar perto do povo, contanto que estivesse em contato com a música que atingiu à todos.     
                    E o que é Pop?    
                    Gilberto Gil explica bem sobre isso, quando fala que sua música ‘Domingo no Parque’ é Pop .     
                    Gil diz que "pop vem de popular que, em inglês, tem a mesma grafia e significado que em português. É arte de consumo. A arte pop é mais direta e atinge mais facilmente o público pois consegue dizer o que tem a dizer. A música pop consegue se comunicar de maneira simples porque é objetiva."    
                    Então, ser popular dá dinheiro. O Forró dá dinheiro, a música sertaneja dá dinheiro e a axé music dá dinheiro. Então esses artistas e suas músicas, quanto mais perto estiverem do povão melhor. Se o seu trabalho é regional, então a afinidade com o povo da região é ainda maior. Hoje em dia não é só o peão da construção civil, ou as empregadas domésticas que escutam ou freqüentam os Forrós. Esse quadro já mudou há anos e nos Forrós não há diferença social.     
                    O Forró está sendo feito para a elite também, ou até principalmente pra ela que detém o dinheiro para comprar discos e pagar entrada dos shows. Lotam os estacionamentos das casas de show com seus carros importados. E como fugir disso? Bom, é difícil. Temos como opção o pagode, e a música sertaneja que também nos são empurrados goela a baixo. Estão nivelando o Baião por baixo porque? Talvez seja mais barato para as gravadoras. O nosso Baião parece não ter conseguido evoluir dentro do próprio estilo, e sai um pouco fora dos padrões pra poder inovar.    
                    A eletrificação não é o problema, pois desde os anos 70 quando foi experimentado por Alceu Valença, Gilberto Gil, Dominguinhos, e até o próprio Luiz Gonzaga, se descobriu que dava certo quando feito do modo certo, sem prejudicar os padrões originais e convencionais do estilo. O problema está na execução, ou seja, quem executa deve ter o cuidado de não fugir muito da proposta de cada estilo, ou gênero musical. A boa execução dos instrumentos é detalhe que deve ser cuidado. 
VOLTAR