Desde o início do século XX, e com mais força na segunda
metade da década de 50, percebemos a presença da música
nordestina no sul do país. Vários gêneros musicais
nordestinos fizeram parte da história da música popular brasileira
e, entre eles podemos destacar o Baião, entre 1946 até por
volta de 1955 quando alcançou sucesso internacional.
Depois de um período de certo esquecimento do Baião e de
alguns outros gêneros musicais nordestinos, alguns artistas na década
de 60 (Gilberto Gil, Caetano Veloso, Geraldo Vandré, etc.) deram
um empurrão e nova valorização à essa música.
Compondo e gravando músicas no estilo.
A mídia teve uma forte influência nesse aspecto, tanto o rádio
como a televisão, dando um impulso ao gênero. Mas ao mesmo
tempo, se tornou tão forte que, qualquer gênero musical nordestino
era música nortista, ou seja, no auge do Baião, tudo era
Baião, e nos últimos 20 anos tudo é Forró,
independente do gênero. As pessoas não querem saber realmente
o que é. Se tem sanfona e triângulo é Forró.
Já na segunda metade da década de 50 no Rio de Janeiro, começaram
a surgir os primeiros salões de dança para os nordestinos
migrantes, e em 1962 em São Paulo. Esses salões eram freqüentados
por trabalhadores de construção, empregadas domésticas,
entre outros. Eram respectivamente o Forró do Xavier e o Forró
do Pedro Sertanejo.
As décadas de 60 e 70 foram os anos de maior aparecimento de casas
de Forró nessas duas cidades e, durante esse tempo, inúmeros
modismos musicais (música jovem) invadiram o espaço
do Forró até que na segunda metade da década de 70
…"alguns Forrós se transformaram em uma espécie de "forrotéque"
- como os embalos de sábado à noite - alternando noites de
Forró com noites de música jovem". Como reação,
as discotecas, o forró invadiu as universidades via centros acadêmicos,
até virar moda dentro de ambientes mais intelectualizados, chegando
também aos programas de televisão.
Das dezenas de Forrós de São Paulo, um dos poucos, se não
o único a manter-se fiel à música dos trios nordestinos
foi o de Pedro Sertanejo. Na época de sua fundação
situava-se à rua Catumbi, atualmente no Parque São Rafael
na zona Leste. Isso aconteceu porque o próprio público não
aceitou muito bem a chegada e a invasão da chamada "música
jovem". Aqui no Ceará, o Pirata Bar (casa recente) também
mantém-se fiel ao Forró tradicional. Todas as segundas-feiras
o sanfoneiro Azeitona e a Banda Asa Branca estão lá dando
o seu recado.
Os outros que não permaneceram na linha tradicional alternavam o
seu funcionamento com noites de Forró, lambada, samba e "música
black" (1990). E junto com essa "leva" surgiram vários restaurantes
no sudeste com comida típica e música nordestina para atender
a elite.
O público dos Forrós é variado. Os maiores freqüentadores
são os jovens e pessoas de meia idade, mas nos bairros mais populares
é comum a presença de idosos.
Os músicos na sua maioria obedecem a uma hierarquia dentro do trio
: sanfoneiro, zabumbeiro e trianguêro, por ordem de ‘importância’.
O cantor independente do seu instrumento é colocado em lugar de
destaque, ao lado do sanfoneiro. Mas a atuação dos zabumbeiros
também é de fundamental importância, pois são
eles quem dão a sustentação rítmica da música,
ponto básico para a dança, elemento principal dessas casas.
O músico do Forró tem atuação apenas funcional
de serviço à dança. Não há aplausos.
Não há intervalos entre as músicas e até mesmo
as "estrelas" servem à mesma função. Por esse fato,
os Forrós servem como lugar para exercício de palco para
músicos iniciantes.
Independente da região, a "música nordestina" ela tem uma
ligação entre seus mais variados gêneros, por isso
esse nome. Como Alberto T. Ikeda diz: "ela tem uma aclimatação
comum.
O termo Forró era apenas usado no sentido de baile, da festa em
si. A música "Forró de Mané Vito" de Zé Dantas
e Luiz Gonzaga gravada em 1949 é um Baião, e "Forró
em Limoeiro" gravada por Jackson do Pandeiro em 1953 é um rojão,
e como já foi mostrada no começo desse compilado a letra
fala justamente de Forró como local da festa, do baile.
Apenas na década de 60 o Forró começa a aparecer como
gênero, e na década seguinte com a consagração
nacional do ritmo o número cresce, e as casas de Forró se
espalham por todos os lugares. O Forró e o xote são os principais
ritmos das festas, principalmente pela distinção de andamento.
Esses
Forrós eram freqüentados por operários, domésticas,
artesãos, pequenos funcionários, etc., tanto no Rio de Janeiro
como em São Paulo (Forró do Pedro Sertanejo, inaugurado em
1962) que iam curtir o som da sanfona, zabumba e triângulo.
O público dos Forrós hoje não é constituídos
apenas de cidadãos da classe de baixa renda, mas a classe
alta também.
Os Forrós (casas de dança) no sul e sudeste surgiram entre
1955 e 60, no auge da migração de nordestinos para São
Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, a procura de trabalho. Como mão-de-obra
não especializada, esses indivíduos se encaixavam na construção
civil que, na época com a construção da nova Capital
e da corrida imobiliária, ofertavam empregos.
Tinhorão diz:
Mais tarde, Pedro Sertanejo montou uma gravadora de discos
nordestinos a "Indústria de Discos Cantagalo".
Nessa mesma década acontece um fato inesperado. A venda pelo crediário,
possibilita a baixa classe média comprar aparelhos de televisão,
isso ocasiona uma evasão dos cinemas dos bairros, obrigados a alugar
seu espaço para os Forrós, que tem a possibilidade de suportar
até 2 mil freqüentadores por noite. E, no início de
1974, podia se somar aproximadamente 50 Forrós na cidade de São
Paulo.
Na primeira metade da década 70 já se somavam dois milhões
de nordestinos só na Grande São Paulo, o que levou um proprietário
de loja de discos do Largo da Concórdia a concluir: "O pessoal chega
a São Paulo pensando em duas coisas: se for inverno, é comprar
roupa de frio, senão bate o queixo. Se for verão, é
comprar um rádio portátil ou uma dessas vitrolinhas. Ninguém
no Brasil, é mais musical que o nordestino ."
Aqui no Ceará as "Segundas de Forró" no Pirata Bar
ficaram famosas, recebendo o nome de "a segunda mais agitada do planeta",
virando atração turística da cidade. Podemos citar
outras casas que têm o Forró como atração, são
elas: Cajueiro Drink’s , Clube do Vaqueiro , Parque Valeu Boi , etc.
O Forró tradicional daqui de Fortaleza tem Azeitona como um dos
seus pilares. Azeitona é um fiel seguidor do estilo de Luiz Gonzaga
há 50 anos, completados em janeiro deste ano numa festa realizado
no "Pirata Bar".
Foi acadêmico de medicina, mas o seu negócio mesmo era a sanfona
e, mais tarde abandonou o curso. Azeitona ainda se mantém fiel ao
uso do triângulo, zabumba e sanfona. Mas, contanto que não
descaracterize, aceita usar outros instrumentos.
Nesse "novo Forró" qualquer música pode virar Forró.
Pode-se encontrar até versões de músicas internacionais.
As músicas são fabricadas nos estúdios Som Zoom (principal
celeiro do Forró cearense). Bandas como Mastruz com Leite, Magníficos,
Limão com Mel, etc., tomaram conta do mercado fonográfico.
Mas ainda existe alguns artistas apegados ao estilo antigo.
Quando se quer manter um padrão musical, quando se tem vontade mesmo,
deve-se empenhar um pouco e ‘enfrentar’ tudo. Ir contra a maioria sempre
foi uma constante na Arte durante toda a história da humanidade.
Azeitona é um ótimo exemplo disso aqui no Ceará. Desde
que foi apontado por Luiz Gonzaga como um de seus seguidores, Azeitona
se mantém fiel ao estilo. Mas até quando?
Continuar tocando a mesma música que se fazia há tempos atrás,
indo de encontro a essa avalanche de "música-nova" que está
aparecendo aí, é sempre muito difícil e perigoso.
Tentar manter a música (arte) estagnada no tempo nem sempre é
uma coisa muito boa, ou seja, negar todas as coisas novas que estão
aparecendo pode ser uma atitude de certo modo retrógrada. Mas, também
não é fácil aceitar uma mudança brusca em algo
que se faz há mais de 40 anos e se diz ter aceitação.
Ao mesmo tempo devemos levar em conta que, se esse mesmo Baião feito
há 40 ainda hoje fosse bem aceito, ou seja, se as pessoas ainda
curtissem essa música quadrada de sanfona, zabumba e triângulo
(que por sinal é muito bonita) então não escutariam
o que está espalhado por todos os lugares do Brasil hoje. Esse neo-Forró
está tomando conta não só do Ceará mas de todo
o Brasil (…"por goela abaixo…", diz Waldonys), e a preocupação
apontada por muitos é justamente essa, pois essa música que
está sendo apresentada fora do circuito Nordestino não é
o verdadeiro Forró, ou seja, a batida não é de Forró,
a dança não é de Forró, não tocam a
sanfona como no Forró (como dizem Dominguinhos e Waldonys), então
que música é essa? Quem escuta esse novo Forró e não
tem outros referenciais pode passar a acreditar que essa música
é realmente Forró, o que não causaria nenhum um grande
problema, o pior é quem passasse a não gosta do que nem conhece.
Daí entra o preconceito. O "X" da questão não está
só na inclusão de novos instrumentos à orquestração
do Forró, mas no modo como é executado cada instrumento.
As novas bandas são tão parecidas que no começo de
cada música, o cantor anuncia o nome da banda, como forma de fazer
as pessoas assimilarem quem canta determinada música. O que acontece,
ou a impressão que se tem, é que foi criada uma fórmula
para montar uma banda de Forró, e a receita é básica
e bem simples, pois é necessário apenas um ingrediente, um
bom empresário.
O
que se percebe é que hoje as bandas não são formadas
no intuito de fazer música, e sim, ganhar dinheiro. Quando os músicos
são escolhidos tanto faz se é bom ou não, mesmo porque
a música do Forró tem servido de escola para esses músicos,
pois, enquanto a festa está acontecendo as pessoas não se
preocupam em olhar quem está tocando, ou cantando, o que permite
a presença em palco de músicos com menos, e às vezes
até sem experiência.
Como disse Firmino Holanda , "no Ceará, o ar ficou saturado de som
forrozeiro de baixo nível musical. As bandas de Forró possuem
um apelo regionalista revestido de embalagem pop e vêm alcançando
o sucesso por meio de formas populares já assentadas em nossa cultura,
por vezes até similar ao das velhas baladas rock and roll."
Em entrevista realizada com o Sanfoneiro Sirano pudemos constatar isso.
Sirano fala justamente sobre a maneira que a música é tratada.
Perdeu o elemento nordestino.