Amnistia Internacional

Acusações país a país

Todos os seres humanos, quem quer que sejam ou onde quer que estejam, têm direito a todos os direitos humanos. Esta promessa foi feita pelos governos mundiais há 50 anos, quando adoptaram a Declaração Universal dos direitos Humanos. Apesar disso, os direitos humanos são flagrantemente violados todos os dias em todo o mundo.

Alguns governos procuram justificar as violaç6es dos direitos humanos alegando que certos direitos constituem um luxo que não podem cumprir, que a liberdade política deve aguardar pela prosperidade económica. Outros afirmam que certos direitos não são aplicáveis nos seus países devido à sua tradição e cultura. Estes argumentos desprezam as vítimas da crueldade e da repressão, os famintos e os sem abrigo.

O relatório da Amnistia Internacional foca abusos dos direitos humanos praticados pelos governos e por grupos armados de 140 países e territórios em todo o mundo. desafia todos os detentores do poder a desenvolver todas as acções possíveis para proteger os direitos contidos na declaração Universal dos direitos Humanos.

 

Austrália

Um número alarmante de mortes sob custódia policial, especialmente aborígenes, fez surgir receios acerca de possíveis maus tratos.

As pessoas que chegam á austrália sem a devida documentação, incluindo os requerentes de asilo, continuaram a enfrentar a detenção obrigatória enquanto o seu pedido é avaliado, em clara violação das normas internacionais dos direitos Humanos. Apesar da opinião generalizada, alimentada por políticos, de que milhares de refugiados tentavam entrar na Austrália ilegalmente, apenas 346 “boat people” (balseiros) chegaram à Austrália durante o ano, dos quais 267 foram repatriados, a maior parte após algumas semanas.

A Comissão para os Direitos Humanos e Igualdade de Oportunidades considerou que certas políticas tinham sido “genocídios” e referiu os contínuos efeitos das violações dos Direitos Humanos sofridos pelas vítimas, incluindo maus tratos e restrições à liberdade de movimentos, O relatório salientou a ligação entre os efeitos das políticas e as actuais altas taxas de criminalidade aborígene e morte sob custódia. Em Dezembro, o

governo anunciou medidas sociais e de reagrupamento familiar, mas não comentou as conclusões da Comissão de que estas políticas tinham permitido o genocídio, discriminação racial sistemática e abuso físico e sexual de crianças.

 

Chile

Foi apresentada ao Supremo Tribunal de Justiça uma nova petição militar destinada a encerrar todas as investigaç5es sobre as antigas violações. Activistas dos Direitos Humanos receberam ameaças de morte. Continua a haver informações de tortura pelos membros das forças de segurança.

Em Março, a Comissão Inter-Americana dos Direitos Humanos (CIADH) divulgou uma resolução de Outubro de 1996 relativa a quatro casos de violações dos Direitos Humanos cometidas durante o governo militar do General Augusto Pinochet. Os casos de Ricardo Lagos Salinas, Juan Aniceto Meneses Reyes e Pedro José Vergara Inostroza, que “desapareceram”, e o de Juan Alsina, que foi assassinado após ter sido detido pelas forças de segurança, foram encerrados pelos tribunais civis e militares, por aplicaçao de um decreto-lei de amnistia, promulgado pelo governo do General Pinochet. A CIADH confirmou que a aplicação deste decreto nestes casos constituía uma violação do artigo 1.1 da Convenção Americana dos Direitos Humanos. Um deputado denunciou publicamente que quatro jovens recrutas foram espancados, insultados, privados de sono e ameaçados, para os obrigar a confessar.

Em Janeiro, a Amnistia Internacional escreveu às autoridades expressando a sua preocupação sobre as informações de maus tratos a presos políticos na cadeia de alta segurança de Santiago.

 

China

Centenas, provavelmente milhares de supostos opositores ao governo foram detidos ao longo do ano, enquanto milhares de presos políticos detidos em anos anteriores continuavam na prisão. A Amnistia Internacional considerou muitos deles Prisioneiros de Consciência. Alguns foram condenados após julgamentos injustos, outros foram detidos sem acusação ou julgamento. A tortura e os maus tratos continuaram a ser prática corrente. A pena de morte continuou a ser largamente utilizada.

 

Congo (República do)

Milhares de civis perderam a vida nos confrontos entre as tropas governamentais aliadas com milícias civis armadas e elementos de milícias de um grupo armado da oposição. Ambas as partes foram responsáveis por

torturas e homicídios deliberados e arbitrários. A maior parte das vítimas foi atacada devido à sua identidade étnica.

 

Congo (República Democrática do)

No período anterior à mudança de governo em Maio, dezenas de pessoas continuavam detidas sem acusação ou julgamento, e as forças de segurança torturaram detidos e massacraram civis desarmados. Quinze pessoas foram condenadas à morte. Grupos armados de oposição cometeram graves abusos dos Direitos Humanos, incluindo milhares de homicídios deliberados e arbitrários. Numerosos refugiados ruandeses desapareceram após operações armadas; muitos poderão ter sido assassinados. Sob o novo governo, foram detidas centenas de presumíveis opositores, a maioria sem acusação ou julgamento; alguns foram considerados Prisioneiros de Consciência. A tortura e os maus tratos constituíram práticas generalizadas. Houve relatos de «desaparecimentos» e de centenas de execuções extrajudiciais. Um soldado foi executado por fuzilamento e outros treze foram condenados à morte. As novas autoridades repatriaram um grande número de refugiados para países onde corriam grave risco de sofrerem violações de Direitos Humanos. Grupos armados que se opunham ao novo governo também cometeram graves abusos de Direitos Humanos.

 

Cuba

Continuavam presos centenas de presos políticos detidos em anos anteriores e condenados em julgamentos sem as devidas garantias. Muitos eram prisioneiros de Consciência. Dezenas de dissidentes estiveram detidos por curtos períodos de tempo, tendo sofrido ameaças, enquanto outros foram forçados ao exílio. Receberam-se frequentes informações de maus tratos, qualificáveis nalguns casos como tortura, dos quais resultou pelo menos uma morte. As condições das prisões constituíram, por si só, tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes. Pelo menos cinco civis desarmados foram mortos a tiros por agentes das forças de segurança em circunstancias pouco claras. Não se receberam informações de execuções, mas havia vários homens no corredor da morte.

 

Espanha

Continuaram os inquéritos judiciais às alegaç5es de “guerra suja” clandestina levada a cabo nos anos 80 contra o grupo armado basco Euskadi Ta Askatasuna (ETA), Pátria e Liberdade Basca. Houve novas alegações de tortura e maus tratos por parte de agentes das forças de segurança. Vários agentes das forças de segurança acusados de tortura foram julgados

e condenados. A ETA continuou o cometer violações de Direitos Humanos, que incluíram assassínios deliberados e arbitrários e tomada de reféns.

 

Estados Unidos da América

Setenta e quatro prisioneiros foram executados em 16 Estados e mais 3.300 permaneceram nos corredores da morte. Foram ainda relatados disparos em circunstancias pouco claras, tortura e maus tratos por parte da polícia e agentes prisionais que resultaram, por vezes, em mortes sob custódia. Foi libertado um prisioneiro após ter sido provado que a sua acusação era de natureza política. Foram relatados mais casos de tratamentos cruéis, desumanos, e degradantes em prisões e cadeias incluindo o uso abusivo de aparelhos limitadores tais como cadeiras especialmente construídas com correntes para amarrar pernas e braços (cadeiras de retenção de quatro pontos), que imobilizam completamente o prisioneiro. Em prisões estaduais do Utah, reclusos com perturbações mentais foram amarrados o cadeiras deste tipo durante várias horas.

 

Irão

Centenas de presos políticos, incluindo Prisioneiros de Consciência, foram detidos. Enquanto que uns foram detidos sem acusação ou julgamento, outros cumpriam longas penas de prisão, aplicadas na sequência de julgamentos injustos. Continuaram a ser divulgados casos de tortura e maus tratos. Foram aplicadas penas de flagelação. Foram relatados vários “desaparecimentos” e possíveis execuções extrajudiciais. Pelo menos 143 pessoas foram executadas, incluindo possíveis Prisioneiros de Consciência e um número desconhecido de indivíduos continuavam a aguardar execução, alguns dos quais após julgamentos injustos.

 

Israel

Pelo menos 1.200 palestinianos foram detidos por motivos de segurança. Foram emitida pelo menos 1.900 ordens de detenção administrativa; 354 pessoas continuavam sob detenção administrativa no final do ano. Entre os presos que a Amnistia Internacional considerou Prisioneiros de Consciência, incluíam-se algumas pessoas sob detenção administrativa e três objectores de consciência. Pelo menos 60 libaneses, incluindo 22 detidos sem acusação ou julgamento, ou após terem cumprido integralmente as suas penas continuavam detidos em Israel no fim do ano. Mais 2.500 de palestinianos condenados em anos anteriores por motivos políticos continuavam presos. Pelo menos 450 palestinianos foram julgados em tribunais militares, cujos procedimentos ficaram aquém das normas internacionais para julgamentos justos. A tortura e os maus tratos de

detidos durante o interrogatório continuaram a ser uma prática sistemática e oficialmente reconhecida; houve relatos de espancamentos de palestinianos por parte membros das forças de segurança israelitas. Pelo menos 18 palestinianos foram mortos em circunstâncias que sugerem tratar-se de execuções extrajudiciais. Cerca de 8 casas de habitação foram destruídas ou seladas a título de castigo. Grupos de oposição armada palestinianos que se opõem ao processo de paz mataram deliberada e arbitrariamente pelo menos 28 civis.

 

Jugoslávia (República Federal da)

Aproximadamente 34 presos políticos de origem albanesa foram condenados após julgamentos injustos. Muitas outros pessoas continuaram presas. Algumas poderão ser Prisioneiros de Consciência. A polícia torturou e maltratou sistematicamente detidos e manifestantes pacíficos. A maioria dos vítimas eram albanesas da província do Kosovo, mas algumas eram sérvias. Pelo menos três pessoas morreram sob custódia policial e outras tontas foram condenadas à morte.

No princípio do ano, continuaram em Belgrado e noutras cidades as manifestações de simpatizantes da coligação dos partidos de oposição Zajedno, visto as autoridades terem recusado o restabelecimento dos resultados das eleições locais que tinham anulado nos finais de 1996. Em Fevereiro, as autoridades reconheceram as vitórias da oposição, graças à insistente pressão internacional.

Na província do Kosovo, os partidos políticos de etnia albanesa continuaram a exigir a independência para a província através de meios pacíficos. Contudo, continuaram a verificar-se ao longo do ano violentos ataques contra esquadras e agentes da polícia, civis sérvios e pessoas de etnia albanesa que trabalhavam com as autoridades ou para elas. Entre as dezenas de vítimas destes eventos, encontravam-se dois agentes da polícia atingidos a tiro em Agosto, nos arredores da aldeia de Srbica e um civil de etnia albanesa que os acompanhava no seu automóvel. Uma organização albanesa clandestino, denominada Ushtria Çlirimitore e Kosovës, UÇK (Exército de Libertação do Kosovo), reivindicou a responsabilidade de muitos destes ataques.

Ao longo do ano, ocorreram quase diariamente incidentes nos quais a polícia espancou e maltratou pessoas de etnia albanesa, incluindo mulheres, crianças e idosos. As vítimas foram frequentemente espancadas nas suas casas durante rusgas em procura de armas. Os casos mais graves de maus tratos aconteceram em esquadras de polícia, onde as vítimas eram muitas vezes levadas para interrogatório. Muitos dos casos de torturo ou maus

tratos ocorreram no contexto de operações policiais de resposta a ataques contra o polícia e civis sérvios.

A polícia terá submetido a maus tratos refugiados que tinham regressado à República Federal da Jugoslávia, quer voluntariamente quer sob coacção. A Amnistia Internacional apelou repetidas vezes às autoridades que iniciassem investigaç5es independentes e imparciais sobre queixas de “desaparecimento”, tortura e maus tratos, e que os responsáveis fossem apresentados à justiça.

 

Portugal

Novas alegações de maus tratos recaíram sobre agentes da polícia e guardas prisionais. Os inquéritos judiciais destas alegações decorreram lentamente, tal como os relativos a uma série de mortes ocorridas em anos anteriores sob custódia policial ou logo após a libertação. Foram julgados vários agentes da polícia acusados de maus tratos e de homicídio.

Houve outras alegaç5es de maus - tratos por parte de agentes das forças de segurança e guardas prisionais. Em Fevereiro, Vítor Manuel dos Santos queixou-se que os agentes o espancaram durante a trajecto e já na esquadra de Vila Franca de Xira. Em Junho, Belmiro Santana informou que tinha sido brutalmente espancado por cinco guardas prisionais na prisão de Caxias.

A Amnistia Internacional apelou às autoridades que garantissem investigações exaustivas e imediatas de todas as alegações de maus tratos e mortes sob custódia policial e pediu informação às autoridades sobre a evolução das investigações judiciais e disciplinares relativas o tais alegações. Nos informações apresentadas à Comissão das Nações Unidos contra a tortura, a Amnistia Internacional demonstrou a sua preocupação não só em relação a casos específicos, mas também em relação à lentidão dos processos judiciais das investigações de alegações de tortura e maus tratos, à eficácia questionável do artigo do código penal relativo à tortura e maus tratos e às sentenças nominais proferidas nos casos excepcionais em que os infractores foram considerados culpados.

 

Reino Unido

Inquéritos às mortes sob custódia evidenciaram os perigos de certos métodos de imobilização usados por agentes das forças de segurança. Houve alegaç5es de maus tratos por parte de agentes da polícia e informações de violações dos Direitos Humanos pelas forças de segurança, durante as “Paradas de Verão” na Irlanda do Norte. As condições de detenção nas Unidades Especiais de Segurança constituíram tratamentos cruéis,

desumanos ou degradantes. Os grupos políticos armados foram responsáveis por abusos aos Direitos Humanos.

Kenneth Severin morreu pouco depois de ter sido forçado a manter-se imobilizado, de face para baixo, por funcionários prisionais. Estes negaram ter-lhe aplicado no pescoço uma técnica de imobilização ou ter-lhe aplicado os joelhos nas costas, ponteado e esmurrado; contuso, não sabiam explicar os ferimentos que apresentava na zona superior das costas e pescoço. Foram recebidas informações indicando uma frequente falta de imparcialidade das actuações policiais na Irlanda do Norte. Algumas pessoas como consequência dos espancamentos e tiroteios de “castigo”.

 

Turquia

Centenas de pessoas foram detidas devido às suas actividades políticas não-violentas.; a maior parte delas foi libertada após um curto período sob detenção policial, mas outros foram condenados a penas de prisão. A tortura continuou a ser prática generalizada e sistemática nas esquadras de polícia e, apesar da nova legislação relativa a detenções ter tido algum impacto. Houve pelo menos seis alegadas mortes sob custódia e nove pessoas terão “desaparecido” quando se encontravam sob custódia das forças de segurança. Pelo menos 20 pessoas foram mortas em circunstâncias sugerindo execuções extrajudiciais. Grupos de oposição armada cometeram assassinatos deliberados e arbitrários de prisioneiros e civis. Sindicalistas, estudantes e manifestantes foram frequentemente detidos após reuniões públicas pacíficas ou nas instalações de organizações, tendo estado sob custódia durante horas ou até mesmo dias devido às suas actividades políticas não-violentas. Alguns artigos do Código Penal Turco foram utilizados contra escritores, jornalistas e activistas políticos que criticavam o estado turco. Pessoas que expressavam as suas convicções políticas com base numa perspectiva islâmica também foram detidos como prisioneiros de consciência.

 

Vietname

Pelo menos 49 prisioneiros de consciência e possíveis prisioneiros de consciência continuaram detidos durante o ano. Pelo menos 56 pessoas foram condenadas à morte. Foi oficialmente comunicado que nove pessoas foram executadas, embora se acredite que o número real seja muito superior.

Prisioneiros de consciência continuaram detidos devido às suas crenças religiosas; entre eles, incluíram-se dois líderes da Igreja Budista Unificada do Vietname (UBCV), não oficial: o Supremo patriarca, Thic Huyen Quang, detido sem acusação ou julgamento há quase 13 anos, e o Secretário-Geral Thich Quang Do, a cumprir uma pena de 5 anos. Houve informação de que seis membros da Congregação católica da Madre Co-Redentora apresentavam um estado de saúde debilitado, incluindo fraqueza, artrites, hipertensão arterial e problemas cardíacos. Durante todo o ano, o governo negou a existência de presos políticos.

Em outubro, Nguyen Hoi foi condenado a 3 anos de prisão por “abuso de liberdade e direitos democráticos e violaç5es de interesses do Estado e organizações sociais”, após ter estado detido durante dois anos sem julgamento.