Estas
fotografias chocam mesmo. Pela violência e pela crueldade dos assassínios -
cometidos em 1961 pelos membros da UPA. Pela forma serena e quase sorridente com
que os nossos soldados se deixaram fotografar frente a cabeças espetadas em
paus ou corpos esventrados - com o mesmo ar com que posam para a fotografia de
fim de curso.
Mas
esta foi a realidade dos anos 60 em Angola. Compreenda-la é perceber melhor o
que foi aquela guerra e não deixar esquecer aquilo que as guerras, sejam elas
quais forem, fazem aos homens.
As
fotografias que aqui mostramos nunca foram publicadas porque a censura nao
deixou. Os horrores e violações flagrantes dos mais básicos direitos Humanos
passaram-se no norte de Angola. São imagens da violência da guerra e,
sobretudo, do terrorismo da guerra - na Fazenda Tabi, os membros da União dos
Povos de Angola (UPA) liderada por Holden Roberto, mataram os administradores
brancos a golpes de catana, e na Fazenda Cassoneca esventraram um soba (chefe de
uma tribo) e mataram toda a sua família, porque se recusou a deixar de
trabalhar para os brancos. Os negros que trabalhavam nas fazendas de café
administradas por portugueses - um objectivo “militar” a atingir porque
destruir a economia é uma das formas de vencer a guerra - e que eram
identificados por usarem uma fita colorida á volta da cabeça, eram decapitados
e as suas cabeças espetadas em paus.
Além
de trabalharem para os brancos, os negros assassinados pertenciam a outras
etnias. Eram originários do Sul de Angola e tinham sido trazidos
propositadamente pelos colonizadores que os julgavam mais dóceis e facilmente
domináveis do que os naturais do Norte.
Os
soldados portugueses foram chamados a proteger estas áreas e era nessa função
que aqui se encontravam. A sua expressão impassível revela bem que assistir a
massacres deste tipo, contra civis, se tornou facilmente um hábito.
Numa
guerra de guerrilha toda a população é o “inimigo”. E as tropas
portuguesas não demoraram muito a utilizar os mesmos métodos, instigadas pelo
treino que, depois, passaram a receber antes de embarcarem. Da preparação para
a guerra constavam ainda slogans de conteúdo racista, que apresentavam
indiscriminadamente, o “preto” como inimigo, música e canções guerreiras.
Estas
histórias e as dos massacres cometidos pelas tropas portuguesas estão
registadas em fotografias e filmes que estão na posse das chefias militares e
de ex-combatentes da guerra colonial. Mas em Portugal, os poderes político e
militar e a sociedade, de uma maneira geral, têm evitado discutir esta página
negra do vida do país. A APOIAR (Associação de Apoio aos ex-Combatentes Vítimas
de Stress de Guerra) prepara-se para mandar a primeira pedra. Em Abril foi
inaugurada uma exposição com material “tirado do baú”.
A
violência alimenta a violência e é disso que são feitas as guerras. Ao ver
estas fotografias não é difícil perceber como funciona este ciclo de ódio.
In Notícias Magazine, diário Notícias 17 de Março de 1996