Os
processos de globalização da economia nas duas últimas décadas (...) fizeram
convergir em alguns aspectos significativos a situação das mulheres operárias
do Norte e do Sul. E certo que a grande maioria das mulheres activas no Terceiro
Mundo trabalham na agricultura. Mas, em geral, tem-se verificado uma feminização
da força de trabalho assalariado e a presença das mulheres tende a ser
particularmente forte nas áreas e sectores de exportação onde o investimento
multinacional se tem concentrado.
Mais
importante é o facto de as mulheres serem sistematicamente vítimas de
discriminação salarial, sendo-lhes na prática negada a fruição do princípio
do salário igual para trabalho igual consagrado na legislação da maior parte
dos países. A segmentação do mercado do trabalho ocorre por outros factores
que não o sexo, por exemplo, pela raça e pela etnicidade. Mas a segmentação
pelo sexo é talvez um dos factores mais universais e a globalização da
economia em nada tem contribuído para o atenuar. Pelo contrário, a existência
de um vasto potencial de força de trabalho feminino a nível mundial torna a prática
da discriminação mais fácil.
Boaventura de Sousa Santos, Pela Mão de Alice.