C  A  S  T  E  L  O      D  A 


Uma boa lição - PARTE II

Claro que na época eu não tinha - plena - consciência do caráter dominador de minha tia, mas eu começara a perceber as coisas como uma espécie de jogo, cujas regras cabia a mim apenas aceitar - e eu estava estranhamente disposto a fazê-lo! A humilhação de obedecer suas ordens, ficar de castigo, apanhar... era tudo ao mesmo tempo novo e atemorizante - uma combinação de efeitos surpreendentes. Eu sabia que ela tinha razão e que eu deveria obedecer, mas de algum modo também sabia - assim como ela, certamente - que não conseguiria e novas punições seriam inevitáveis, e talvez mesmo desejáveis.

Na hora do almoço, ainda com a lembrança da palmatória e do castigo bem recentes, não tive muito ânimo de ficar resistindo. Mesmo assim, lembro-me de ter tentado recusar a salada e um outro prato - sem sucesso, claro. Bastava ela se referir à nossa conversa da manhã, ou perguntar ironicamente se eu ia querer acompanhar com "bolos" (palavra usada em alguns lugares para designar a pancada da palmatória), e eu murchava e comia, geralmente tendo de repetir. Não cheguei a apanhar, mas quando acabou, tia Célia me fez ver que eu ainda não me comportara adequadamente, e teria de encarar algumas conseqüências. Ela me fez ficar em pé, na frente de todos, e vestiu-me um avental amarelo, com o qual tive de ficar até acabar de lavar, sozinho, toda a louça do almoço. Acabado o serviço, voltava tudo ao normal; ela era novamente minha amiga. Nosso "jogo" recomeçaria mais tarde.

E chegou a hora do lanche - por volta de quatro, quatro e meia da tarde. Conforme ela havia prometido, o mesmo queijo que eu não terminara de comer de manhã estava à minha espera, colocado no meu lugar já com uma faca ao lado, além de duas bananas (eu não comia nenhuma fruta!!). Tentei protestar, mesmo já imaginando o que viria a seguir...

 - Então, o Fernandinho acha que não gosta de queijo, nem de frutas! Pois eu acho que está é com a cabeça fraca, pois hoje de manhã comeu tão bem... ! Mas já vou refrescar sua memória.

Dessa vez, não tive de esperar meus primos terminarem o lanche. Tia Célia foi novamente à despensa e voltou com a palmatória. 

- Fernando, você agora vai levar UMA DÚZIA de bolos, e quero que conte um por um! Se você errar, ou ousar fechar as mãos antes de acabar, vou recomeçar do zero, nem que falte um só. Entendeu?

Respondi que sim, e ela começou imediatamente. PAFT! PAFT! A palmatória ia de uma mão a outra, apenas com uma ligeira pausa para eu contar. A força era muito maior que de manhã, eu parecia ter fogo nas mãos. Mesmo assim, não errei nem fechei as mãos. Terminada a dúzia, fui colocado na mesma posição humilhante da manhã, mãos na nuca e boca encostada no queijo úmido. 

Quando meus primos acabaram, Tia Célia disse:

 - Agora, vamos mostrar ao seu priminho mimado como é gostoso comer queijo!

Ao sair, cada um apertou meu rosto no queijo, repetindo o gesto que ela praticara pela manhã. Pouco depois, meu tio chegou para buscá-los (eles eram mais velhos que eu, e geralmente acompanhavam o pai) e foi convidado a fazer o mesmo, o que efetuou sem disfarçar sua satisfação. Ele sempre achara meus pais muito coniventes. Depois que todos saíram, ficamos só eu e tia Célia. Ela mandou-me levantar e perguntou:

 - Fernando, o que eu disse hoje de manhã se precisasse colocá-lo novamente de castigo para comer queijo? O que eu ia fazer?

 - Eu... eu ia ter de comer um queijo inteiro...

 - Sim? E o que mais?

 - Bom... eu ia ficar ajoelhado no milho... mas...

 - Eu prometi deixá-lo ajoelhado no milho, até comer um queijo inteiro, e na frente de todos. Mas, como para sua sorte todos saíram, vou dar-lhe uma chance. Se você terminar de comer o queijo que deixou hoje cedo em no máximo seis minutos, vou deixar passar. Se não conseguir, prepare seus joelhos para o café da manhã. E, para cada cara feia, vai ser mais um bolo! - arrematou, pegando a palmatória. Pode começar!

Eu mal podia acreditar no que ouvia. Comi o mais rápido que pude, e a cada careta - PAFT - lá vinha a palmatória! Levei mais uns quatro ou cinco bolos. Quando acabei, ela me mostrou o relógio. Tinham passado dez minutos.

 - Sinto muito, mas você desperdiçou sua chance. Agora, vá para o seu quarto, e só volte na hora da janta. Depois, vamos ter uma "conversinha" antes de você ir para a cama.

Fiquei um bom tempo sozinho, no quarto. Na hora do jantar, tive de tomar uma canja, e como "sobremesa" as duas bananas que não comera no lanche. Mal acabei, fui mandado para o banho e de lá para o quarto, onde deveria ficar esperando por ela, para nossa "conversa".

Depois de um bom tempo de espera, tia Célia entrou no quarto e mandou que eu ficasse de costas para ela. Em seguida trancou a porta, e sentando-se na cama, colocou algo atrás de si para que eu não pudesse ver ainda. Aí, mandou-me ficar em pé, diante dela, para conversarmos. Ela disse estar muito decepcionada comigo, e que ela lamentava precisar ser mais severa, mas eu não deixara escolha. Perguntou como eu achava que um menino mal comportado devia passar a noite, para não esquecer de ser mais obediente no dia seguinte. Eu sabia a resposta.

 - Penso que precisa dormir "quente".

 - Muito bem! E o que você acha que vai lhe acontecer agora?

 - Eu... vou apanhar.

- Isso mesmo! Agora, deixe-me mostrar o que trouxe para você...

Ela pegou uma escova de roupas em formato oval,  com um cabo de madeira curto, e as costas lisas, também em madeira. Parecia ser bem pesada, como eu logo confirmaria.

 - Muito bem, quanto antes começarmos, mais cedo terminaremos. Abaixe o pijama!

Fiquei estático. Não imaginara que receberia uma surra com as calças abaixadas!

 - Se demorar, vai ser ainda pior! 

Envergonhado, obedeci. 

 - Você não tem nada que eu já não tenha visto. Fernando, você provou hoje ser um menino muito mimado, e é assim que será tratado. Deite-se no meu colo!

Com o coração na boca, obedeci. Tia Célia segurou-me com firmeza, e começou a surra. Primeiro um lado, depois outro, primeiro na parte mais baixa, depois na extremidade das coxas, depois acima. Ela batia sem se alterar, alternando a força, ora mais forte, ora menos, mas nunca "leve". Eu chorava e me debatia, prometia não desobedecer mais, que faria o que ela quisesse. Apanhei durante vários minutos, sem pausa alguma. Eu cerrava os dentes para tentar não gritar - ela redobrava a força - mas era inútil. Quando acabou, senti uma estranha sensação de calma e docilidade. Ela mandou que eu olhasse meu traseiro no espelho, para me lembrar bem da imagem. Estava completamente vermelho, mas um vermelho uniforme, desde as coxas até pouco acima da metade da minha bunda. 

Acabada a surra, novo sermão, lembrando-me de que eu concordara com seus métodos, e que deveria estar preparado para o café da manhã. Além disso - completou ela - dei folga para a empregada pela próxima semana, e acho que vou ganhar um ajudante... 

Dormi surpreendentemente bem. No dia seguinte, já não tinha marcas, mas a dor continuava me lembrando de ser mais obediente. Na mesa, a ponta estava sem a cadeira. Comecei a me preparar para o pior. Tia Célia pegou um punhado de milho e colocou no chão, formando dois círculos. Tive de me ajoelhar - na frente de todos, como ela prometera - e ficar com os braços bem abertos, por capricho. Ela explicou que eu ia esperar todos comerem, e depois ela pegaria um queijo para mim. Senti meus joelhos em fogo, mas agüentei firme. A vergonha era terrível. Terminando de comer, ela pegou um queijo de bom tamanho, e cortou em oito pedaços iguais. Mandou-me começar, lembrando que eu só sairia do castigo depois de terminar tudo, e que se eu saísse antes, iria completar o serviço da noite passada com uma vara de marmelo.

Era terrível, ser eu próprio a definir a duração do castigo. Começava a comer, parava... Mas ela permaneceu inflexível. Levei uns quarenta minutos, e quando acabei, pedi para sair, agradecendo por ela se importar comigo.
 

FIM DA PARTE II

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