C  A  S  T  E  L  O      D  A 

Uma boa lição - Parte I
Fernando

Quando eu tinha 12 anos, meu pai resolveu enviar-me para passar as férias com minha tia, no sítio. Como eu era muito enjoado para comer, e ela era uma educadora bastante severa, achou que uma boa dose de disciplina à moda antiga me faria muito bem. 

Tia Célia concordou, mas exigiu que eu passasse as férias inteiras sob sua responsabilidade, e que ela tivesse total autoridade para me castigar como achasse melhor. Meu pai aceitou, e, logo no primeiro dia de férias, à tardinha, fui com ele para o sítio - ainda sem saber o que me esperava - apesar de prevenido para obedecê-la. Fui recebido com o carinho e atenção de sempre. 

Na manhã seguinte, no café, as coisas começaram a mudar. Na mesa, havia de tudo: leite, café, pão, bolo, frutas, queijo fresco. Sentada à cabeceira da mesa, chamou-me para ficar ao seu lado. Assim que sentei, ela cortou uma fatia grossa de queijo e colocou no meu prato, perguntando: 

– Quer um pedaço de queijo, Fernando? 

– Obrigado, tia, mas eu não gosto de queijo... 

– Não gosta?! Mas você já experimentou? Eu nunca vi você comer queijo antes... Como sabe que não gosta? 

– É que... bom... – Eu não sabia o que dizer. 

– Mas que menino mimado! Pois se você não comer essa fatia, e também mais essa - cortou outra fatia, ainda mais grossa - vai ficar de castigo! 

– Mas tia, eu não quero mesmo! 

– Tudo bem. Mas então, prepare-se! 

Dito isto, ela levantou-se e, ficando atrás de minha cadeira, colocou meus braços fora da mesa, deixando-os voltados para baixo, e disse que "quem escolhe o que quer comer é porque não tem fome", e portanto eu ia ficar paradinho sem comer nada, esperando todos terminarem, enquanto aguardava o castigo. 

Obedeci, com o rosto queimando de vergonha. Quando todos acabaram de comer, fiz menção de sair, mas ela me deteve, dizendo: 

– Que pressa é essa? Já esqueceu do castigo? 

Fez-me sentar na cadeira da ponta, e deixou a toalha dobrada cobrindo só o meu lugar na mesa, colocando um prato limpo bem em minha frente. Em seguida, foi até a geladeira, de onde tirou uma forma com meia dúzia de queijos frescos, feitos por ela mesma no dia anterior, todos ainda com bastante soro. Escolheu um de bom tamanho e, tirando só um pouco do soro, colocou-o no prato. 

– Agora, espere só um pouco. 

Tia Célia foi até a despensa, que ficava bem ao lado da cozinha, e pude notar que abriu o armário alto para pegar alguma coisa. Estremeci ao vê-la voltar com uma antiga palmatória de aula, toda em madeira escura, com um longo cabo terminando na famosa extremidade redonda, com cinco furos em cruz. Ela mandou-me estender as mãos com as palmas para cima. Eu estava assustado demais para fazer qualquer coisa, e obedeci sem reclamar. Levei meia dúzia de bolos, todos bem ardidos, três em cada mão. 

Quando acabou, tive de cruzar as mãos atrás da cabeça e abaixar, de modo que fiquei com o nariz quase encostando no queijo, sem conseguir ver onde ela estava. Tia Célia explicou que meu castigo seria ficar naquela posição, "apreciando" o cheiro do queijo, até eu estar pronto para pedir para comê-lo, e eu teria de comer quanto ELA mandasse. E, acabando de explicar o castigo, empurrou meu rosto no queijo com bastante força, deixando minha boca suja de soro e pedacinhos de massa. 

Fiquei de castigo um bom tempo. Ela me vigiava e cada vez que eu tentava mover a cabeça para me acomodar ou afastar um pouco do cheiro, ela me fazia "beijar" o queijo novamente, abaixando-me duas ou três vezes. E ia me repreendendo, dizendo que ela estava sendo até paciente comigo, pois na época em que era criança, quem não comia ficava era ajoelhado no milho para aprender, que minha mãe não sabia educar, e que na casa dela as regras eram diferentes e eu teria que obedecer. 

Depois de ficar mais de meia hora de castigo, acabei resolvendo ceder: 

– Tia, eu quero sair do castigo. 

– Não é assim que se fala! - retrucou, fazendo-me quase enterrar o nariz no queijo. Entreguei os pontos de vez. 

– Tia, eu quero comer queijo. Quanto a senhora mandar. 

Satisfeita, ela me deixou levantar a cabeça, mas mandou que eu continuasse com as mãos na nuca. Pegando uma faca, cortou duas fatias bem grossas e foi enfiando em minha boca, uma após a outra. Fiquei mastigando demoradamente, fazendo força para engolir. Sem se alterar, ela cortou mais duas fatias e fez-me comê-las, dizendo: 

– Quem faz cara feia é porque tem fome! Você vai repetir até comer direito! 

Engoli o melhor que pude, mas sem conseguir evitar as caretas. Tive de repetir de novo e de novo. Ali pela quarta ou quinta vez, tentei reclamar: 

– Tia, será que não vai fazer mal comer tanto queijo? 

– Castigo não precisa fazer bem para meninos mimados. Você pediu para comer quanto eu mandasse, e é o que vai fazer! E se reclamar de novo, vou pegar a palmatória outra vez! - falou, já com o cabo ao alcance da mão. 

Depois desse aviso, não reclamei mais. Ainda podia sentir a queimação nas mãos. Continuei comendo, mastigando devagar e evitando as caretas, apesar de sentir vontade de chorar de vergonha. Quando ela se deu por satisfeita, eu já tinha comido metade do queijo. 

– Viu só, você não morreu! Mas não pense que vai ser tão fácil. Vou guardar este queijo para você terminar de comer no lanche da tarde. E, se eu precisar colocá-lo de castigo de novo, você vai apanhar de verdade e vou obrigá-lo a ajoelhar no milho, na frente de todos, e deixá-lo ficar até comer um queijo IN-TEI-RO! Agora, vamos conversar. 

Ela teve uma longa conversa comigo, explicando que eu estava muito malcriado, e a importância de me disciplinar. Explicou que meu pai havia autorizado a tratar-me como se fosse filho dela até o fim das férias, e que ela realmente gostava de mim o suficiente para castigar-me como e quando fosse preciso. Contou que eu era um dos seus sobrinhos preferidos, que achava-me muito inteligente, mas que, por isso mesmo, ela agiria com o máximo de severidade. Ressaltou que, apesar de me achar já grande o bastante para não precisar mais apanhar, se insistisse em agir como um menino mimado seria tratado como tal. 

Fui mandado ao quarto para pensar em tudo que ela havia dito e feito. Estava ao mesmo tempo assustado e excitado com tudo que aconteceu. Fiquei olhando minhas palmas rosadas (elas ainda haveriam de ficar bem mais vermelhas que aquilo antes do fim das férias, assim como meu traseiro e joelhos) e pensando em minha atitude. Realmente, não podia discordar dela. Quando voltou para dar-me permissão para sair do quarto, perguntou se eu havia pensado o bastante. Respondi o que ela queria ouvir: que eu realmente não sabia comportar-me, era muito enjoado para comer, que merecera o castigo e estava pronto para ser disciplinado se não conseguisse melhorar sozinho. 

"Ótimo", respondeu. 

FIM DA PARTE I
Fernando

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