NOSSA SEGUNDA VIAGEM DE BYKE

Por mais que eu tente, não conseguirei retratar nossa viagem, é um misto de desafio e determinação, chegamos, às vezes, aos nossos limites físicos porém sempre com muita energia, uma satisfação enorme e um prazer que transbordava a cada etapa vencida.

Com certeza rejuvenesci uns 12 anos.

Estávamos em cinco, eu, VALDIR, o MALAMUD, o GERMAN, o ÉRICO e o FERNANDO pessoas, idéias e faixa etária diferentes.

Algumas divergências tivemos de administrar mas conseguimos um conjunto que tornou a viagem marcante e inesquesivél.

Quem conhece o Malamud sabe que ele foi o programador e roteirista, sempre preocupado com a próxima etapa e interpelando pessoas que pudessem trazer alguma nova informação. Eu não me preocupava muito com a programação, elaboramos antes do início da viagem, apenas discutia o roteiro seguinte e curtia muito cada etapa vencida, meu companheiro de METRÔ o German se mostrou sempre muito solícito integrando-se ao grupo rapidamente; ele vibrou muito a viagem toda, ao final esalava satisfação pela sua participação, eu e ele fomos os mecânicos das bykes na viagem, o Érico e o Fernado curtiram a viagem toda com a maior despretensão sempre muito light. Iniciamos a viagem no dia 08/12/97 saindo de Alphaville por volta das 07h00 de perua Besta (a Luciana esposa do German nos levou ) até o Boqueirão, em Santos.

Pedalamos 84Km, 05h00, pelas praias até Peruíbe, depois pela Pedro Taxi e Estrada da Banana até Pedro de Toledo onde pernoitamos.

Foi um dia fácil, porém eu estava com uma leve gripe e confesso não muito disposto, almoçamos em Itanhaem e antes de abandonarmos as praias, em Peruiíbe, eu e o German tomamos um banho de mar, minha gripe ficou naquelas ondas e passei a pedalar confortavelmente.

Em Pedro de Toledo ficamos num hotel a beira da estação de trem, um hotel rústico, construção antiga com algumas barreiras contra enchetes de aproximadamente 0,70m de altura, muito simples, sem grandes confortos mas muito aconchegante, quando entramos no hotel, a primeira coisa que chamou nossa atenção foi uma caixa de laranja e todos tomamos pelo menos 2 copos de suco que estava uma delícia, feito no espremedor e batido no liqüidificador. Enquanto tomávamos o suco, conversando com o atendente do hotel soubemos do rio, o Ribeira, que passa nos fundos, novamente eu e o German demos um mergulho no mesmo, uma água gelada e transparente mas que descontraiu nossos músculos, depois do banho jantamos e não tinha nada para fazer na cidade, então, fomos dormir.

No dia 09/12/97 saímos com destino a Iguape entrando no parque da Juréia pela Serra do Itatins, foram 52Km de serra em estrada de terra e pedra com uma vegetação maravilhosa, muitos rios, e 40Km de alfalto. Durante este percurso quebrou o cubo da roda traseira de minha byke, estavamos no meio da Serra do Itatins, pedalei ainda uns 25Km ate chegarmos a um restaurante já na area asfaltada onde fizemos uma refeição leve, empadas, cochinha de frango, quibe e sucos. Saimos direção a Iguape, porem minha byke foi ficando cada vez mais pesada e resolvemos que o grupo iria pedalar no seu rítimo e eu tentaria uma carona, seria mais facil carona para uma byke. Mesmo assim continuei pedalando e tentava a carona sem sucesso, um primeiro onibus parou mas o motorista não quis levar-me, caminhões, caminhonetas e kombis não pararam até que um onibus parou para desembarque de um passageiro e consegui convenser o motorista que a byke cabia no bagageiro, foram mais 15Km no onibus para terminar o dia em Iguape.

Neste dia o total da distância percorrida foi de 92,41Km em 05h47min. Pernoitamos no Silvi Hotel, muito confortável, pessoal atencioso, refeição boa a preços condizentes, na manhã de 10/12/97 substitui o cubo da minha byke e todas as outras passaram por limpezas e ajustes.

Saímos para Cananéia pela Ilha Comprida, foi um dia tranqüilo apreciando as praias e tomando alguns banhos, comemos peixe numa barraca na ponta sul da Ilha Comprida.

Chegamos na balsa para Cananéia, encontramos a Solange e o Érico. A Solange trouxe o Érico que se integrou ao gurpo em Cananéia. Voltamos para que a Solange conhecesse a praia, depois fomos para a pousada da Néia onde nos deleitamos com uma piscina, cervejas e petiscos, podemos dizer que foi o dia mais confortável da viagem e pedalamos, efetivamente, 64,38Km em 03h21min.

Na manhã do dia 11/12/97 saímos atrasados mas conseguimos pegar a balsa das 09h00, na saída da balsa quebrou a corrente da byke do Malamud, voltamos imediatamente para Cananéia, o Malamud de carona em uma caminhoneta; reparamos a corrente, e retornamos na balsa das 10h00.

A ligação Cananéia - Ariri foi de 73,25Km em 04h25min. por uma serra de vegetação exuberante e colorida, também com muitos rios, onde tomamos vários banhos e abasteciamos nossas garrafas com água, tivemos que passar por dentro de três deles com uns 20cm de água, em estrada de terra e pedra, mas muito gostosa de pedalar, apenas a ressaltar que a byke do Malamud apresentou muitos problemas inclusive tivemos que emendar mais uma vez a corrente que voltou a quebrar.

Ariri é uma vila de pescadores no extremo sul do Estado de São Paulo, a hospedaria é muito simples, mas a refeicão é boa, mas não conseguimos dormir bem nesta noite porque minúsculos insetos, os "porvinhas" como chamam os nativos, não deixavam.

Acordei por volta da meia noite achando que estava com intoxicação pois tinha o corpo cossando da cabeça aos pés, mas encontrei o German fora do quarto, e pudemos identificar a nuvem de insetos que nos picavam, voltei e me cobri inteiro, inclusive a cabeça.

Em 12/12/97 fomos até a Ilha do Cardoso para um dia de relaxamento.

A Ilha do Cardoso, com 140Km2 de área coberta por uma abundante Mata Atlântica, com montanhas que chegam a 800m de altitude, foi transformada em Parque Estadual em 1962 devido sua biodiversidade.

Curtimos as praias, dum lugar chamado Marujá, a hospitalidade do Damião, um nativo da ilha que explora uma pousada, nos brindou com um histórico da região e nos recomendou um passeio até as lagoas há uns 20Km dali. Almoçamos em seu restaurante e voltamos para Ariri onde pernoitamos.

Na manhã de 13/12/97 voltamos para a Ilha do Cardoso e juntamente com um guia, primo do Damião, também nativo da ilha, fomos até as lagoas.

Pedalamos uns 4Km sentido norte e então entramos muma trilha que mal dava para passar a pé, subimos e descemos a maior parte do percurso, de 3Km, com as bykes nas costas, fomos e voltamos pelo mesmo caminho, foi o dia mais exaustivo da viagem, pedalamos mais 6Km pela praia onde deixamos as bykes, e entramos numa outra trilha de mais 5Km, fechada e não recomendada sem um guia, chegamos às piscinas onde avistamos um lugar maravilhoso, o banho de água gelada e cristalina com escorregador em padras, foi um troféu para tamanho esforço.

Quando saíamos das lagoas encontramos um grupo de criança e adolecentes da ilha, alguns aparentados do nosso guia, estavam chegando para aproveitarem os prazeres destas lagoas.

Já na praia, próximo a pousada do Damião, encontramos um grupo de estudantes que se deliciavam numa bica de água doce e gelada, e estavam percorrendo as ilhas da região num trabalho comunitário.

No restaurante do Damião almoçamos e às 16h30min saímos pedalando sentido sul, no final da ilha pegamos uma barca, a mais vulnerável que usamos nesta viagem, era uma embarcação de alumínio que mal cabiam as 5 bykes, os 5 " bykeiros" e 1 barqueiro, a travessia era curta, uns 100m, mas a barca balançava tanto que ficamos bastante apreensivos.

Na Ilha do Superagui começamos a pedalar e de repente deparamos com um rio que o Damião não havia mencionado, foi da conversa com ele que resolvemos conhecer esta ilha.

Parei, encostei a byke e entrei no rio para conhecer sua profundidade; como a água "batia" pela cintura carregamos as bykes para atravessarmos até o outro lado , (minha byke mais mochila pesavam 27K e eu 85K ).

Pedalamos mais um pouco e um segundo rio, novamente o transpusemos com as bikes nas costas; em seguida o terceiro, agora mais largo e aparentemente sem ponto de saída, o Malamud esbravejou achando que o Damião deveria ter informado, e que o barqueiro deveria ter nos levado até ultrapassarmos os três rios, foi contestado por mim e pelo German, quanto ao barqueiro, que demos graças à DEUS quando este aportou na margem.

Fizemos um reconhecimento do rio e, bykes nas costas, atravessamos; cada um saiu num ponto diferente e do outro lado a chuva nos brindou durante uns 10min, apesar que da cintura para baixo estávamos molhados pelas águas dos rios, da cintura para cima pelo suor do esforço e pela adrenalina da surpresa.

Subimos nas bykes e pedalamos sentido sul até a Barra do Superagui onde encontramos um barqueiro disposto a nos levar até a Ilha do Mel por R$ 70,00 pechinchamos e ficou por R$ 60,00, achei caro e disse a ele que era uma exploração, num percurso previsto para 01h10min.

Eram 20h quando deixamos a Barra do Superagui, o mar estava calmo, mas depois de uns 20min. este começou a apresentar grandes marolas, o barco subia, descia e balançava muito, voltamos a ficar bastante apreensivos e preocupados, esta embarcação era de pesca, com uns 12m de comprimento; mais uns 30min e o mar começou a acalmar, a noite já era total e o tempo estava incoberto mas podíamos ver luzes em 2 pontos diferentes à nossa frente, mais uns 20min e o motor apagou, desligou.

O barqueiro comunicou que o diesel acabou, o Malamud se desesperou falou um monte para ele, chamando-o de irresponsável e outras coisa mais, fui obrigado a discutir com o Malamud e lembrá-lo que estávamos todos no mesmo barco e precisávamos de solução, não de culpados, o barqueiro então nos garantiu que estávamos a 1Km da praia, o que para nós parecia muito mais, e disse que a maré nos levaria até ela. Durante esta travessia falamos muito pouco, enquanto o motor fucionava pois era muito barulhento, nós estávamos indo no sentido das luzes à esquerda do barco e depois que ficamos sem motor essas luzes começaram a se distanciar e nossa embarcação foi levada no sentido das luzes à nossa direita.

Enquanto o barco estava a deriva o clima foi tenso mas o barqueiro nos fez entender que os dois pontos de luz eram da Ilha do Mel, e que estávamos numa baia, e havia um areião que ligava os dois pontos e em algumas marés altas a ilha se dividia em duas, nós iríamos desembarcar neste areião.

Depois de uns 40min o leme bateu no areião. Com a ajuda da âncora, que o barqueiro havia lançado uns minutos antes, viramos o barco para a proa encostar no areião então o German e o barqueiro pularam e começaram a retirar as bykes que eu dava à eles.

O Fernando, o Érico e o Malamud levaram as mochilas.

Desci no mar por último e junto com o German ajudamos a empurrar o barco que batia no areião com o vai e vem das ondas, depois de livre o barqueiro, com ajuda da âncora, levou o barco para um ponto seguro e voltou nadando buscar o pagamento da viagem e conseguir diesel para retornar.

Paguei ao barqueiro, agora em terra firme, achando que o valor cobrado foi barato para o tamanho da emoção da travessia, parabenizei o barqueiro pela segurança que me transmitiu quando precisamos dele, recomendei um pouco de cautela e desejei-lhe muita sorte.

No areião cada um pegou sua byke e mochila e pedalamos 1,5Km até a pousada Girassol onde, às 22h00, demos um banho geral nas bykes e respondemos um monte de perguntas das pessoas e crianças que viram nossa chegada, tomamos nosso banho e jantamos, pizza fechada, acompanhado de uma galera bastante agradável, ao som de muita música ao ar livre, na beira da praia e nos deliciando pelo excelente dia que tivemos. Total pedalado 61,97Km em 3h05min.

Dormi muito bem esta noite, sem qualquer inseto para incomodar e transbordando felicidade.

Vale ressaltar que os tempos anotados são os efetivamente pedalado. Saíamos sempre por volta das 9h e o restante do tempo era gasto apreciando o percurso, tomando banhos, com alimentação, conversando entre nós e com pessoas que encontrávamos ao longo da viagem, etc, etc.

Na manhã do dia 14, domingo, eu, o German e o Érico tomamos café e fomos à praia observar o local onde havíamos desembarcado, a Praia do Farol, e pudemos ver que o barqueiro teve que dormir na ilha e estava recebendo ajuda (diesel) somente naquela hora, já eram 9h30min. Esta ilha, assim como a Ilha do Cardoso, não têm veículos motorisados e nem reserva de combustível.

Este dia passeamos pela Ilha do Mel.

No período da manhã pedalamos pelo lado leste da ilha (o lado que estava a direita do barco) conhecemos as praias e um Forte dos idos de 1770, com canhões do sec. XVII e XIX e um mirante há uns 200m de altitude, que subimos por uma trilha de Mata Atlântica.

Almoçamos e saímos a pé pelo lado sul da ilha, com algumas centenas de construções, sem ruas, apenas vielas e picadas que cortam a ilha bastante rochosa, passamos pelas praias do Farol, Grande, do Miguel, de Fora até a praia do Encantado. 4h00 de caminhada em círculo ao redor da ilha não podiamos voltar pelo lugar que viemos pois a maré havia subido, estávamos cansados e a praia a frente não permitia que continuássemos, resolvemos completar o percurso de barco, visto que

já eram umas 18h00.

Achamos um barqueiro e lá vamos nós, porém bastaram menos de 5min para o Malamud contar a história do ocorrido na noite anterior, e este barco também apresentou um vasamento de óleo e o barqueiro abortou a viagem, voltamos a empurrões de bambú para a praia.

Enquanto caminhávamos 2 Km. de volta ao local original, o Malamud contava um outro problema que teve com uma jangada em Macéio, aí quase que alugamos dois barcos, um para ele e outro para o resto do grupo, porque achavamos os avisos bastantes preocupantes, mas apareceu uma lancha rápida e nos levou de volta para a praia do Farol.

Nesta noite jantamos quase sozinhos, a maioria do pesssoal havia deixado a ilha, mas tivemos a presença de uma senhora muito simpática e comunicativa, filiada ao Greenpace e defensora da preservação da Ilha do Mel, que contou sobre sua participação como ativista. Na Ilha do Mel pedalamos apenas 12Km.

Na manhã do dia 15/12/97, às 8h00, pegamos uma embarcação, percorremos a baia de Paranaguá por 2h00 e lá o Malamud levou sua byke à uma bicicletaria onde trocou o conjunto, catraca e corrente, e fez um ajuste geral, o Érico também fez alguns reparos em sua byke e os demais apenas lavaram, ajustaram e lubrificaram, aproveitei e comprei uma ferramenta para reparos em correntes, para compor meu "kit reparo", composto ainda de câmara, remendos para câmaras e bomba de ar, alicate universal, prego de aço, um molho de chave Alen, chave de fenda Phillips e canivete.

Por volta das 12h00 saímos com destino a Morretes, onde almoçamos.

Às 15h00 saímos e subimos a Serra da Graciosa, linda com suas hortências e flores do campo, uma serra um pouco ingrime para pedalar mas muito agradável, no final alguns pontos para nos deliciarmos nos declíves.

Chegamos a BR-116 às 20h00 e a noite já dificultava a visão, não bastasse o agravante de pedalar na BR-116 que achavamos ser de uns 3Km, porém tudo que encontramos nessa distância foi um Posto da Polícia Rodoviária que nos informou que o hotel mais próximo estava há mais 8Km, por sorte um policial jovem resolveu nos escoltar.

A noite estava escura e aproveitavamos as faroladas dos veículos que passavam para observar alguns metros a nossa frente, de vez em quando o policial colocava farol alto e clareava o nosso caminho, mas ele baixava o farol para não incomodar os veículos que trafegavam em sentido contrário.

Nós pedalavamos pelo acostamento e num dado momento o Fernando não viu um pedaço de pau e caiu invadindo a pista, por sorte ou até pelo alerta da escolta, naquele momento não passava carros por aquela pista então ele se levantou e como, não se feriu, continuou a pedalar.

Às 21h30min. chegamos ao hotel chamado Taquari, que fica num posto da estrada, , à uns 45Km de Curitiba, no lado sentido Curitiba.

Agradecemos muito ao jovem policial pela iniciativa, solidariedade e prestesa da escolta. Ressalto que no Posto Policial havia um outro policial, de longo tempo de polícia, que sequer tomou conhecimento da nossa presença.

Nesse dia pedalamos 86,37Km 05H15min..

Na manhã de 16/12/97 saímos de Taquari às 9h30min e pedalamos 12Km pela BR-116 até um posto no sentido São Paulo, onde por não querermos pedalar nessa rodovia, por causa do perigo, conseguimos uma carona em 2 caminhões da mesma empresa, que retornavam para São Paulo vazios e aceitaram 2 e 3 "bykeiros" em suas cabinas.

Foram 120Km de carona até Jacupiranga, e um acidente na Serra da Fumaça me impressionou muito; o motorista do caminhão que viajavamos parou para ajudar, esperamos por uns 10min, como ele não voltava, fui até o local do acidente e o vi tentando, junto com outras pessoas, retirar um garoto de aproximadamente 14 anos que estava preso nas ferragens.

A polícia ainda não havia chegado.

Uma perua Santana havia atravessado a pista e batido no acostamento num caminhão que trafegava em sentido contrário, a motorista, provável mãe das duas criança vítimas, estava com um braço quebrado e escoriações na cabeça.

No chão uma criança de aproximadamente 12 anos, viva mas imóvel e choramingando. Dentro do carro, preso no banco do co-piloto, o outro garoto, provavelmente em coma, imóvel, sem expressão, estava preso pelas pernas.

Um caminhão com braço mecânico ajudava na tentativa de levantar o painel do carro que prendia o garoto, chegou a polícia toda despreparada e junto com aquelas pessoas conseguiram tirar o garoto.

Com a demora da chegada da ambulância, as três vítimas foram colocadas no carro da polícia, que se dirigiu para Curitiba.

As pessoas ali tentavam fazer o que achavam ser o melhor, porém sem nenhum preparo, portanto é necessário que todos procurem aprender primeiros socorros, para no caso de um acidente poder, quem sabe, minimizar os efeitos de um mal atendimento.

Em Jacupiranga demos uma gratificação de R$ 50,00 para os motoristas e parabenizei-o pela solidariedade que observei no acidente, agradeci a carona e desejei-lhes boa viagem.

Durante todo o percurso nós 3 conversamos muito, eu e o Malamud , percebemos que ele era muito determinado, um bom profissional do volante, um pouco arrogante, mas muito solidário em suas viagens, tinha um rádio de comunicação faixa do cidadão e por várias vezes entrou na conversa dos outros usuários, nós ficamos sabendo do acidente através rádio.

Almoçamos em Jacupiranga e lá pelas 15h00 saímos destino à Caverna do Diabo, via Eldorado, onde de um bar o Malamud ligou para os funcionários do parque da Caverna do Diabo e fez a reserva do pernoite, nessa hora pudemos ver a seleção brasileira fazer dois gols, dos 3x2, na seleção do México.

De Eldorado até a Caverna são 40Km as margens do Rio Ribeira de Iguape e 5Km de serra íngreme que só eu e o Érico conseguimos subir pedalando apesar de algumas paradas para descanso.

Comemoramos muito termos conseguido chegar até a Caverna pedalando, em meio a comemoração acabei discutindo com o Malamud, pois como ele mesmo diz, com seu estilo sempre preocupado (pessimista) esquecia a etapa vencida e começava a criar fantasmas para a próxima etapa, foi assim a viagem toda.

Chegamos ao Parque da Caverna aproximadamente às 20h30min, e tivemos que agradecer aos funcionários de lá, que pareciam estar ali fazendo um favor em nos acolher, pagamos adiantado R$ 10,00 cada um, por um colchão e um lençol, sem café da manhã ; o restaurante estava fechado e estes funcionários abriram-no e pude tomar a minha cerveja, o Malamud não quis tomar comigo, tomou a metade de uma sozinho.

Tomamos nosso banho e voltamos para jantar que, o qual só aconteceu graças ao telefonema do Malamud, pois o concessionário deixou, arroz, feijão, frangos, batatas e verduras cozidas; estava muito bom!!

Pedalamos 76,33Km em 3h56min e mais os 120Km de caminhão. Esta noite no parque só dormimos nós, os 5 "bykeiros" no chalé 5, e os 2 funcionários do parque no chalé 1, passamos frio.

Eu diria que os funcionários do parque até que foram gentís, mas pelas acomodações que recebemos foi muito caro e portanto não ficamos devendo favor a eles.

Na manhã de 17/12/97 visitamos a caverna e realmente fiquei encantado, palavras e fotos não descrevem as imagens do local; são vários salões com todo tipo de estalagmites e estalactites multi coloridas, e delas trouxe belas recordação, fui também a uma cachoeira com uma piscina na base, próxima a caverna, onde pude tomar um bom banho, a água estava geladíssima, isto porque o chuveiro do chalé era horrível não saia água.

Saímos do parque por volta das 11h00 e pedalamos os 45Km de volta para Eldorado onde almoçamos, e mais 30Km, ainda às margens do Ribeira, até Sete Barras.

O German neste dia teve dores fortes no joelho esquerdo, mas em Sete Barras tomou uma injeção antinflamatória e ficou bem.

Era aniversário da cidade no dia seguinte, e aconteceria uma gincana de byke, algumas pessoas pensaram que estávamos lá para participar da festa, fomos ao único hotel existente no local e apesar das comemorações eramos os únicos hóspedes.

O hotel era muito simples, o banheiro fica no fim do corredor e cada hóspede tinha direito a uma cota de 5 rolinhos, de 50cm. de papel higiênico, tudo muito limpo.

O Fernando quando recebeu a toalha pensou que era o pano de chão.

O café da manhã, fomos alertados que era só café, leite e um pão com margarina, também, isto nos custou R$ 7,00, bem melhor que na caverna que nem um pano de chão como toalha tínhamos.

Após o banho fomos ao centro da cidade para jantar, entramos numa pizzaria numa esquina na praça onde montavam um caminhão de som para uma noite festiva, pedimos cervejas, refrigerantes e sucos enquanto olhavamos as opções de pizza, a moça que nos servia não sabia como eram as pizzas que questionávamos e depois de uns 20min de tentativas, pois a cada pergunta esta ia atrás da informação, de repente nos abandonou e atravessou a praça quando voltou as opções eram calabreza, mussarela e atum, fechamos a conta fomos a outro ponto da praça onde também tivemos que chamar os atendentes que estavam assistindo novela.

Após o jantar demos uma volta pela praça, e constatamos que apesar do caminhão de som, se contassemos todos os presentes não teríamos mais que umas 300 pessoas.

Amanheceu 18/12/97 chovendo e às 9h00 fomos tomar café, o Malamud já havia reforçado o café com queijo, iogurte e pão que comprou na padaria. Devido ao tempo e algumas incertezas da rota até São Miguel Arcanjo o Malamud queria mudar o roteiro, que não concordei, e às 10h00 saímos para subir a Serra da Macaca, localizada na Serra de Paranapiacaba. Os primeiros 30Km foram tranqüilos com chuva leve e pista asfaltada, aí começou a Serra da Macaca, abastecemos nossas garrafas com água, e nos refrescamos numa bica junto ao posto da Polícia Florestal, os guardas-florestais vieram até a bica e esclareceram algumas dúvidas do percurso e se admiraram com nossa disposição e os feitos que ouviram.

A Serra é simplesmente fantástica para pedalar, é de terra com muita pedra tipo pedregulho arredondado, são 28Km de aclive acentuado ininterrupto de Mata Atlântica, muito bonita que em muitos pontos fecha sobre a estrada formando um túnel de floresta.

Este percurso consegue-se fazer de carro com suspensão alta.

No caminho encontramos dois caminhões, uma Pick-up e um Jeep Toyota, ambos da Polícia Florestal.

Já no final da subida da Serra encontramos três senhores com idade bastante avançada, que perguntaram a distância até Sete Barras, fiquei com dó de dizer a real e encurtei-lhe o caminho, os mesmos acho que também tiveram dó da gente, porque disseram que faltava só 3Km para atingirmos o fim da subida e depois era só um carrerão a baixo, andamos pelo menos mais uns 11Km para chegarmos ao asfalto. Encontramos ainda um caminhão médio que era usado de apoio por um grupo de adultos e crianças que peregrinavam a pé para Iguape.

Na parte alta da serra encontramos algumas subidas e aproveitávamos as decidas para desenvolver até 70Km/h em alguns desviando de pedras e buracos, podíamos observar o espanto de alguns trabalhadores locais, quando ultrapassados por nós.

Foi magnífico!!!

Saimos de Sete Barras a uma altitude aproximada de 80 m., e chegamos a 700 m no alto da Serra; em seguida começa um trecho de 22Km asfaltado até São Miguel Arcanjo onde terminamos o dia todos sujos de barro e suados, meu estado era tão precário que estava mais próximo da família dos Gambás do que da família dos Garcia.

Foi uma epopéia!! Na serra cruzamos três rios de dificil acesso e temperatura neste dia, na serra, era muito baixa e úmida.

No final do aclive encontramos uma bica onde pudemos repor nosso estoque de água para beber, mas não nos atrevemos a molhar nosso corpo com aquela água extremamente gelada.

Todo o dia transcorreu com chuva, usei um saco plástico como capa, imaginem o que suei e o cheiro que esalava, foram 6h53min de pedalada e 83,39Km. percorridos.

Eu carregava dinheiro, documentos, máquina fotográfica numa pochete que resolvi proteger da chuva sob a capa de saco, simplesmente tudo estava molhado pelo suor, o talão de cheques tive de anular.

Em São Miguel Arcanjo, fizemos uma reunião onde decidimos voltar para casa de carro, as estradas, a partir dali, eram todas asfaltadas mas sem acostamento e com tráfego acentuado.

Na manhã de 19/12/97 alugamos outro veículo Besta que nos trouxe até Alphaville onde chegamos por volta das 12h15min.

A viagem foi fantástica, com atividades e emoções diversas.

Minha byke esteve "redonda", só deu problema quando da quebra do cubo, que não foi trocado na revisão anterior a viagem, porque o mecânico da Ciclo Garça não achou necessário a troca que estava programada; a byke do Malamud deu muito problema e atrasou muitas etapas; a byke do Érico quebrou a corrente na Serra da Macaca, mas foi arrumada prontamente pelos mecânicos de plantão; e as bykes do German e do Fernando não deram nenhum problema.

O percurso total viajado foi de 1300 a 1400Km, mais ou menos, desses 730Km de byke (registrados pelo computador de bordo das bikes do Malamud e do German), o restante: de caminhão 120Km, 2 Besta 340Km e barcos.

Minha bagagem tinha: 4 calções, 6 camisetas, 6 cuecas, 3 sungas, 4 pares de meia, um conjunto de agasalho, um colchonete, um boné, um capacete, um óculos, um par de tenis no pé e uma mochila. Só usei o tenis, 3 pares de meia, 2 calções, 2 sungas, 3 cuecas, 3 camisetas, o boné o capacete e o óculos. Normalmente eu pedalava o dia todo com uma sunga, um calção, uma camiseta, o boné, o capacete e o óculos, no final do dia lavava a roupa, que ficava a noite secando, no dia seguinte usava a mesma roupa, ainda úmida, que secava no corpo. Levei ainda além do kit reparo para as bykes, um kit de primeiros socorros e bisnaguinhas de mel, muito consumida.

O gasto per capta foi de R$ 500,00 mais algum gasto com as byke, eu gastei R$ 53,00 na troca do cubo mais as lubrificações; as refeições ficaram em média de R$ 6,00 mais bebidas; as hospedagens em R$ 8,00, o local mais dispendioso foi na Néia seguido do Silvi algo em torno de R$ 15,00 a diária, mas o jantar no Silvi custou R$ 6,00 com a bebida, o jantar mais caro foi em Cananéia R$ 16,00 com a bebida num restaurante típico japonês; o gasto mais contestado foram os R$10,00 no Parque da Caverna do Diabo, mas o local é indiscritível.

Em todos esses lugares a comida era farta, na Ilha do Cardoso foi o melhor cardápio com arroz, feijão, farofa de frutos do mar, salada e peixe, e em São Miguel Arcanjo comi a melhor bisteca com fritas.

Muitas pessoas duvidavam e se admiravam com nossa viagem, ficavam estarrecidas.

Para mim é indiscritível o contato muito próximo com a terra, com a água dos rios e chuva, com a floresta, com o canto dos pássaros, com as pessoas muito simples e tão diferentes, é um tempo de vida e valores diferentes, onde conseguimos nos alienar dos problemas do dia a dia.

Os vividos naqueles dias foram diferentes, quem quiser saber terá que pedalar e este roteiro é ótimo.

VALDIR GARCIA

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