DESTINO
- SOLIDÃO
Ana
Claudia dos Santos
Capítulo 6 - Os Mais Belos Olhos do Mundo
Ele tentou não olhar para a garota na sua frente. Tinha que se concentrar
em outras coisas, principalmente na carta que tinha junto ao corpo, escondida
por baixo da blusa cor-de-abóbora. A menina parecia mais interessada
em seu gato, porém.
- Você não vai tirá-lo da caixa? - ela perguntou.
Severus a olhou. Não estava preparado para o que viu. O rosto da garota, bastante sem graça, era embelezado por um par de olhos de um verde muito vivo. Algo naqueles olhos o fascinara, parecia que eles eram independentes da dona, parecia que lhe diziam que tudo estava bem e ia acabar bem. Ele, pela primeira vez, se sentiu à vontade com uma menina.
- Vou - e abriu a caixa, puxando o gatinho e colocando-o no colo. - O nome dele é Fuligem e eu o achei na rua.
- Fuligem? - ela riu. - O nome é bem apropriado, eu acho.
Severus riu também.
- É. O pêlo dele parece empoeirado, né?
A menina sentou-se ao seu lado, para acariciar o gatinho. Severus sentiu um perfume de lavanda, misturado a cheiro de patchuli, uma mistura estranha, que combinava com a menina.
- E como é o seu nome? - ela perguntou, voltando para o seu lugar, observando a paisagem pela janela.
- Severus. E o seu?
- Lílian.
Por um breve momento ele não sabia o que dizer. Mas bastou um sorriso tímido da menina para ele pensar em algo.
- Hã... Essa caixa que você carrega, é uma vassoura?
- Vassoura? Ah, não. É um violão - ela abriu a caixa e tirou um instrumento musical de dentro dela. - Espero que não seja contra as regras trazer um violão...
Era difícil encontrar bruxos que tocassem esse tipo de instrumento. Havia alguns que tocavam violino, outros piano, a maioria das mulheres gostava de tocar harpa, mas violão, só os muito jovens, e de alguma forma relacionados a trouxas. Seria a menina uma trouxa?
- Eu ainda estou me acostumando à idéia de ir para uma escola de bruxos, não sei se vou saber como me portar lá, essa estória de varinha, de caldeirão... - ela deu uma risada. - Para mim bruxos nem voavam em vassoura. Pelo menos Mary Poppins não voa - ela riu de novo. - E ela é bruxa, né?
Severus a olhou com um olhar confuso. Mary quem?
- Q-quem?
- Ah... Vocês não assistem a filmes não? É um filme... Quero dizer, é um livro que transformaram em filme. Meu pai ajudou na produção, ele é assistente de cenografia.
- Seu pai é trouxa? E sua mãe também? - Severus ainda tinha a esperança da menina ser mestiça.
- Nenhum dos dois é bruxo, se é isso que você está perguntando - disse Lílian, colocando o violão no colo e dedilhando as cordas. - Você quer ouvir alguma coisa? Beatles, por exemplo?
Severus fez que sim com a cabeça, sem coragem de dizer que nunca ouvira falar em "Beetles". O aroma de patchuli e lavanda pareceu aumentar quando a menina balançou os cabelos para trás, ajeitando o violão contra o corpo.
- Bom, a-ham, eu não sei cantar muito bem, sabe? Então vamos lá...
A voz macia e fraca de Lílian acompanhava os acordes produzidos pelo violão. Seus dedos magros e compridos pareciam bem treinados. "Yesterday... All my troubles seem so far away"...
Alguma coisa na melodia da canção, ou na letra, trouxe melancolia ao coração de Severus. Ele fazia força para não ficar com os olhos molhados. "Deveria ter dormido melhor à noite, estou nervoso", pensou. Lílian parecia concentrada na música.
A porta da cabine se abriu e Severus, para seu desgosto, viu Veronica, acompanhada de um garoto de aparência estranha e cabelos castanho-claro.
- Então foi aqui que você se...
Parou ao ouvir a voz de Lílian, que terminava a canção.
- Muito bem - aplaudiu o garoto. - Eu gosto muito dessa música. Tenho tios trouxas e eles têm todos os long-plays desse grupo.
- Ah, que legal, eu também tenho, tenho até os singles, sabe? Mas li em Hogwarts, Uma História que não se pode usar eletricidade lá na escola... É uma pena, pois eu tenho uma vitrolinha portátil.
- Você sabe tocar outras músicas? - perguntou o garoto, sentando-se ao lado de Lílian, e acariciando Fuligem, que pulara para seu colo. - Sabe "I Wanna Hold Your Hand"?
- Sei, claro!! - Lílian começou a tocar a música, cantando junto com o menino, os dois bastante desafinados. Veronica voltou-se para Severus, parecendo um pouco ressabiada.
- Seu irmão quer falar com você - sussurou ela.
- Mas eu não vou sair daqui - resmungou ele, virando o rosto para observar melhor Lílian.
Veronica parecia chateada.
- Ele quer te apresentar o monitor da Sonserina.
- Mas eu não quero...
A porta da cabine abriu novamente, e Sisudus, depois de olhar com desdém para todos, falou alto para ser ouvido em meio à cantoria:
- Sevvie, me siga. Agora.
Severus achou melhor obedecer, para se livrar logo do irmão. Lílian estava concentrada na canção, e agora até Veronica e Melissa - que aparecera do nada - participavam também.
- Volto logo - disse Severus, mas ninguém prestou muita atenção
nele.
No vagão estavam Avery, monitor da Sonserina, Wickman, melhor amigo de Sisudus, Lucius Malfoy - que parecia metido e petulante como sempre - e uma menina muito bonita de cabelos louros platinados.
- Acho que daqui você não conhece Mathew Avery, que é nosso monitor desde o ano passado, e Narcisa Stewart, cuja família também pertenceu à Sonserina.
Severus queria saber para que exatamente ele fora chamado ali.
- Eu quis reunir aqui os novos alunos que obviamente irão para a Sonserina - começou Avery. - Quero discutir um assunto que vem nos incomodando há muito tempo. Há cinco anos a Sonserina não ganha um campeonato de Casas em Hogwarts. Em parte, isso se deve à conduta descaradamente parcial da professora Stratas. Ela favorece a Corvinal em tudo, isso devia ser proibido, uma vez que é diretora da Casa.
- Mas e Macnair, não favorece os Sonserinos? - perguntou Malfoy.
- Macnair só se preocupa com seus próprios assuntos, nunca vi ninguém mais egoísta - respondeu Sisudus.
Narcisa encarava Severus de uma forma peculiar. Enquanto Mark Wickman, Lucius Malfoy, Sisudus e Mathew Avery discutiam a melhor forma de favorecer a Sonserina, a menina o media de cima a baixo, como se fizesse uma avaliação. Finalmente sentou-se a seu lado e perguntou, numa voz suave e fria:
- Você não lava os cabelos não? Existe uma coisa chamada shampoo, você sabia? - perguntou, dando uma risadinha.
Foi o que bastou para Severus. Não estava interessado em Sonserina ou Corvinal, não gostava da companhia de Malfoy, e aquela garota metida o irritava. E já sentia a falta da doçura dos olhos de Lílian.
- Hã, esqueci meu dinheiro no vagão, vou comprar alguma coisa para comer.
E saiu correndo, antes que Sisudus falasse alguma coisa.
No momento em que chegou a sua cabine, o carrinho de lanches passava, e Severus resolveu impressionar Lílian, que parara de tocar o violão, já guardado em sua caixa. O menino, que Melissa chamava de Remus, ainda estava com Fuligem no colo, e conversava animadamente com as garotas.
Severus comprou toneladas de doces e foi-se juntar ao grupo, que falava de quadribol.
- Eu não sei jogar muito bem, sou muito nervoso - disse Remus.
- Pois eu vou tentar uma vaga na minha Casa, a Corvinal - disse Veronica. - Agora que vou para o segundo ano já me é permitido jogar. Eu acho que jogo bem, não jogo Severus?
Ele limitou-se a balançar a cabeça, tentando chamar a atenção de Lílian discretamente. Finalmente ela o olhou, e ele falou, tímido:
- Comprei umas coisas para você.
- Para mim? Obrigada! - exclamou Lílian, os lindos olhos brilhando ao ver tanta coisa diferente.
Os outros pararam de falar e prestaram atenção na conversa.
- Ah, esses são deliciosos, você vai adorar - disse Remus.
Lílian perguntou a Severus o que eram.
- São corujinhas multi-sabor, drops que, conforme a gente chupa, mudam de sabor. Ah, e esses chicletes são de bolha flutuante, você faz uma bola e ela fica como uma bolha de sabão, sai flutuando até desaparecer, mastigue um de cada vez senão a bolha fica muito grande - ele riu.
Lílian sorria, agradecida. Severus achou que devia estar corado, pois sentia as faces do rosto arderem em chamas. Nada mal para uma criança pálida, quem sabe ele ficara menos feio e repugnante? Lembrou-se do olhar frio e indiscreto de Narcisa...
Melissa saiu e voltou carregada também.
- Olha, esses são novidade, são feijõezinhos de todos os sabores, a moça disse. Ela disse que são de todos os sabores mesmo... ou seja, tem até de legumes...
Todos fizeram uma careta. Mas dois segundos depois avançaram para cima
dos feijõezinhos, divertindo-se com um concurso de quem achasse o pior
sabor. Veronica ganhou, pois tivera o infortúnio de escolher um feijão
sabor óleo de rícino.
(continua)
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