PESQUISA
Para 53% dos entrevistados no Rio, preconceito racial se manifesta
principalmente nos locais de trabalho
Para a maioria dos fluminenses, existe racismo no
Brasil
CRISTINA GRILLO
DA SUCURSAL DO RIO
Pesquisa feita pelo Ceap (Centro de Articulação das Populações Marginalizadas), uma organização não-governamental ligada ao movimento negro, mostra que 78% da população do Estado do Rio acredita que existem problemas de convivência entre negros e brancos no país.
O local onde mais se manifestam os problemas é no ambiente de trabalho, de acordo com 53% das pessoas ouvidas. Para 93% deles, há preconceito contra negros no Brasil.
O levantamento "O Racismo no Rio de Janeiro em Números" foi feita em parceria entre o Ceap, o DataUff (instituto de pesquisas da Universidade Federal Fluminense), com o apoio da Fundação Ford. Foram ouvidas, entre janeiro e abril, 1.172 pessoas de 41 dos 91 municípios do Rio, com idades entre 18 e 60 anos.
"A pesquisa mostra que há racismo no país e que ele é percebido pela população. A mentalidade que negava sua existência não existe mais", diz Ivanir dos Santos, secretário-executivo do Ceap.
Santos e os pesquisadores do Ceap ficaram impressionados com outra constatação obtida a partir da análise da pesquisa. "Ninguém assume ser racista. O preconceito é sempre do outro, nunca de si mesmo. Este caráter inconsciente é uma característica peculiar do nosso racismo. Primeiro, as pessoas não viam o racismo. Agora elas vêem, mas sempre no outro", diz.
A afirmação de Santos fica nítida quando se comparam as respostas a algumas perguntas. Enquanto 93% dos entrevistados afirmam haver racismo no país, 87% dizem não ter, pessoalmente, nenhum preconceito.
A diferença de respostas se repete quando a pergunta faz referência à reação ao fato de estar submetido a um chefe negro. À pergunta direta - "você se importaria de ter um chefe negro? "- , 96% dos entrevistados respondem que não.
O percentual muda bastante quando é perguntado se as pessoas, de uma maneira geral, se importariam de ter um chefe negro: 50% dos entrevistados afirmam que sim, os "outros" se importariam; 47% respondem que não e 3% não responderam.
Para 58% dos entrevistados, a maioria das pessoas brancas não gostaria que um parente próximo casasse com uma pessoa negra, mas 85% afirmam que se casariam com uma pessoa negra. Dos entrevistados, 12% disseram que não se casariam com um negro.
Do total de entrevistados, 15% disseram já ter sido vítimas, alguma vez, de formas de racismo. Quando as respostas são agrupadas segundo a cor pela qual o entrevistado se identifica, percebe-se que o percentual diminui à medida que o tom da pele clareia.
Assim, disseram já ter sido discriminados 41% dos negros, 33% dos mulatos, 1 7% dos pardos e mestiços, 10% dos morenos e 6% dos brancos.
Um dos tópicos da pesquisa dedicou-se à questão educacional e ao mercado de trabalho. Para 60% dos entrevistados, a discriminação racial impede que os negros consigam bons empregos e melhorem de vida e para 59% deles há discriminação no sistema educacional brasileiro.
Por conta disso, a maioria
dos entrevistados disse ser favorável à implantação
de um sistema de cotas para os negros: 58% acham que deveria haver reservas
de vagas para negros no mercado de trabalho e 55% disseram ser favoráveis
à reserva de vagas nas universidades públicas.