A História da Bossa Nova

VAGAMENTE (Roberto Menesca/ Ronaldo Bôscoli)

Só me lembro muito vagamente

Correndo você vinha

quando de repente

Seu sorriso, que era muito branco

me encontrou

Só me lembro que depois andamos

Mil estrelas só nós dois contamos

E o vento soprou de manhã

Mil canções

Só me lembro muito vagamente

Da tarde que morria

quando de repente

Eu sozinho fiquei lhe esperando e chorei

Só me lembro muito vagamente

O quanto a gente amou

E foi tão de repente

Que nem me lembro se foi com você

Que eu perdi meu amor

PODE IR (Carlos Lyra /Vinicius de Moraes)

Pode ir...

Pode fazer o que melhor entender

mesmo porque cada um sabe de si.

Mas se você quiser brincar

com quem lhe deu amor

alguém provavelmente

Vai amargurar a grande dor

de ver alguém também querer partir.

porque partir é repartir.

Não vê que é se perder,

nesse mar por ai.

Mas você quer brincar quer fingir...

Pode ir e depois chorar.

VIVO SONHANDO(Tom Jobim)

Vivo sonhando, sonhando

mil horas sem fim

Tempo em que vou perguntando

se gostas de mim

Tempo de falar em estrelas

Falar de um céu

de um mar assim

Falar do bem que se tem

mas você não vem não vem

Você não vindo, não vindo

a vida tem fim

Gente que passa sorrindo

zombando de mim

E eu a falar de estrelas,

mar amor luar

Pobre de mim

que só sei te amar

Apesar das inovações na área de interpretação,

trazidas principalmente das experiências de Lúcio

Alves e Dick Farney no exterior, no início dos

anos 50, as músicas consideradas modernas eram

do tipo dor de cotovelo, embora com as

harmonias já mais trabalhadas, como em Ninguém

Me Ama, do lendário jornalista Antonio Maria.

Muito ligada à natureza exuberante do Rio de

Janeiro e à excelente música que se produzia na

América e chegava através de discos e programas

de rádio, como o notável Em Tempo de Jazz,

apresentado por Paulo Santos na Rádio JB, a

nova geração, alegre e irreverente, criada nas

areias limpas das praias de Copacabana e

Ipanema e sedenta por novidades, queria retratar

sua própria experiência, seus sonhos e estilo de

vida.

Naquela época, as boas famílias consideravam

cantar e tocar violão atividades menores e

desestimuIavam qualquer tipo de iniciativa de seus

filhos neste sentido. Roberto Menescal, filho de

uma tradicional familia de arquitetos, lembra que,

quando começou tentar profissionalizar-se, foi

tocar com seu conjunto num baile ao qual seus

irmãos mais velhos também compareceram como

convidados. Depois de muita dança, chegou a

hora do jantar: os convidados foram para as

mesas e os músicos, inclusive Menescal,

recolheram-se à cozinha, que era o lugar

reservado para eles. "Foi um escândalo na

família", recorda Menescal.

Os rapazes normalmente eram direcionados a

seguir carreiras como direito, engenharia ou

arquitetura. As garotas podiam até tocar violão,

enquanto esperavam um marido adequado. Mas

os pais de Nara Leão, Jairo e Tinoca, eram uma

exceção. Eles recebiam com prazer os amigos da

filha para reuniões musicais em que se trocavam

acordes e idéias, tudo regado a muito refrigerante

e sucos de frutas. O apartamento em que

moravam, na Avenida Atlântica, entrou para a

História como o principal reduto da nova turma da

Bossa Nova. Nara, que tinha 12 anos em 1954,

aprendia violão com um professor chamado

Patrício Teixeira. Roberto Menescal, seu amigo da

turminha da rua, bicava as aulas, já que sua família

não via com maior interesse suas tendências para a

música. "A Nara era uma cabeça muito mais

adiantada do que a gente", conta Menescal. E

logo logo toda a turma começou a se interessar

por música.

Nas famosas vitrolas Philips, escutavam juntos

discos como Julie Is Her Name, da cantora

americana Julie London (cuja maior atração era o

violonista Barney Kessel), o violonista mexicano

Arturo Castro, o trompetista americano Chet

Baker, cujo estilo cool de cantar era muito

inspirador, e os pianistas George Shearing. ErroIl

Garner e André Prévin. Outro programa

imperdível para eles era assistir aos musicais da

Metro. Menescal lembra o dia em que foi assistir a

Cantando na Chuva, com Nara. "Quando

saímos do cinema estava chovendo, e foi a

glória. Envolvido pelo clima e pela música do

filme, estava em Copacabana me sentindo o

próprio Gene Kelly e a Nara, a Debbíe

Reynolds".

Um episódio engraçado envolvendo o cinema

Metro aconteceu com Menescal. Na época, os

carros eram um sonho quase inatingível para

muitos adolescentes, principalmente os carros

conversíveis. Um amigo de Menescal, Gustavo,

comprou um Studebaker branco, com rodas

cromadas e capota conversível azul-marinho,

automática. Menescal, que já tocava um

violãozinho, teve a idéia de irem os dois com carro

e violão para a porta do Metro, a fim de esperar a

saída da sessão das quatro e impressionar as

garotas.

Estava tudo planejado: eles ficariam parados na

porta do cinema, bem à vontade, como quem não

quer nada. Assim que se abrissem as portas,

Gustavo apertaria o botão da capota, que se

abriria lentamente mostrando os dois com o violão

no banco de trás. Seria difícil para qualquer garota

resistir a tal espetáculo. E lá se foram os dois.

Tudo teria corrido muito bem não fosse o fato de

o violão ter sido deixado na parte traseira, perto

do porta-malas do carro. Na hora H, Gustavo

apertou o botão e, conforme a capota foi

baixando, também foi esmagando lentamente o

instrumento. Eles ainda tentaram impedir a

catástrofe, mas era tarde demais: todo mundo

realmente parou, mas para olhar o violão sendo

destruído. "Foi a maior vergonha", lembra

Menescal.

Carlos Lira também morava em Copacabana, na

Rua Bolívar, e começou a tocar violão aos 19

anos, por causa de uma perna quebrada quando

servia no Exército. Sua mãe, com pena dos quatro

meses de imobilidade receitados pelos médicos,

resolveu presenteá-lo com um violão. Carlinhos

começou a estudar com o método de Paraguassu

e, mais tarde, quando saiu do Exército, teve aulas

de violão clássico com um sargento da

Aeronáutica chamado José Paiva. "Foi ele quem

me ensinou a fazer arpejos, escalas e a tocar

com uma postura correta, muito necessária na

Bossa Nova", conta o compositor. Quando entrou

para o Colégio Mallet Soares, Carlos Lyra

conheceu Roberto Menescal e Luís Carlos Vinhas

e com eles formou um trio estranhíssimo: dois

violões e um piano. Mas ainda era tudo levado na

brincadeira. O colégio Mallet Soares era a escola

certa para eles: até os professores tocavam violão

e alguns chegavam a estimular os alunos a matar

aula para fazer um som. "Tínhamos um professor

chamado César que tocava violão muito bem, e

saía com a gente para tocar", conta Lyra. Foi no

Mallet Soares que ele começou a compor. Maria

Ninguém, clássico da Bossa Nova, foi criada

durante as aulas de Francês de dona Iolanda.

 

continua