O LENINISMO CONTRA A REVOLUÇÃO

 

 

 

 

PRIMEIRA PARTE: SOCIAL-DEMOCRACIA, LENINISMO, STALINISMO.

 

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A CONTRA-REVOLUÇÃO

 

Rússia e URSS nunca foram socialistas. A política dos "partidos comunistas" de todos os países nunca foi revolucionária.  Muito pelo contrário, a URSS foi um imenso campo de trabalho e acumulação capitalista, um campo de concentração cujos primeiros ocupantes foram os verdadeiros revolucionários (1). Os "partidos comunistas" de todo o mundo, em nome de táticas muito variáveis, sempre se opuseram à luta proletária pela revolução e, quando não puderam desviá-la e liquidá-la ideologicamente, não vacilaram em se juntar às tropas de choque da contra-revolução, utilizando sistematicamente a tortura e o assassinato contra os que lutavam pela revolução. (2)

 

Durante décadas, revolucionários de diferentes latitudes denunciaram o mito do socialismo russo e os partidos dirigidos por Moscou pelo que eram de fato: forças da contra-revolução internacional.  Mas a contra-revolução continuava, havia cada vez menos revolucionários para gritar a verdade e poucos eram os ouvidos que queriam escutá-la. A liquidação física de militantes revolucionários (na Rússia, na Espanha e noutros países da Europa, da Ásia, da América... onde a GPU os escolhia como alvos) se generalizou, simultaneamente com uma enorme camada de ideologia, na qual todo aquele que não reconhecesse "os êxitos do socialismo" era considerado agente do imperialismo.

 

Os gigantescos expurgos, que começaram nos anos 20 e 30, foram decisivos em toda parte para liquidar os revolucionários e a própria revolução como perspectiva proletária real. Cabe registrar que a versão "comunista" era conveniente não só para seus criadores, os marxistas leninistas de Moscou e do exterior.  O resto da burguesia mundial se comprazia de que "isso" fosse o "comunismo", de que o "socialismo" que tanto haviam temido fosse tão parecido com uma grande fábrica e se mostrasse tão capaz de subjugar ao trabalho milhões de seres humanos. E que esse "comunismo" não pusesse em questão a mercadoria e nem o Estado! Marx tinha sido superado!

 

A burguesia de todos os países se regozijava ao constatar que os "comunistas", além da disputa interimperialista pela repartição do mundo e por sua influência sobre as massas, não eram perigosos e nada tinham em comum com os revolucionários que organizavam greves insurrecionais e queriam abolir o dinheiro e o Estado, mas haviam se tornado colaboradores racionais, democratas, progressistas, possibilistas, sindicalistas, colegas parlamentares etc. com os quais não só podia se entender, nos diversos aspectos do progresso social, mas inclusive consultar e decidir juntos as diversas políticas de gestão (e repressão!) da força de trabalho.

 

Graças, precisamente, a essa confusão e identificação sistemática de socialismo com URSS, de "comunismo" com a política contra-revolucionária dos partidos que usam esse nome e com as diversas frentes (únicas, unidas, populares e antiimperialistas) que formam com outras forças social-democratas ("socialistas", "libertários", progressistas...), a contra-revolução se perpetuou, se desenvolveu em reprodução ampliada. E o desencanto das grandes massas proletárias com relação ao "comunismo" foi cada vez maior.

 

A defesa do programa comunista, como prática e consciência atuante, foi perseguida inquisitorialmente e reduzida à sua menor expressão quase secreta, como nos primórdios sectários do movimento comunista. Durante todo o século XX, a contra-revolução manteve sua hegemonia totalizadora e a história foi reescrita pelos vencedores. Com base no esforço interessado dos homens de estado na URSS e dos intelectuais orgânicos do capitalismo internacional, o "socialismo real", negação absoluta do próprio socialismo (sem capital, sem mercadoria, sem Estado....), passou a ser a verdade absoluta: a única alternativa "real" ao "capitalismo".

 

A manobra de endossar como "real" o que diziam os homens de estado russo sobre seu próprio mundo (que evidentemente concordava com os interesses da burguesia mundial), foi uma operação publicitária de grande envergadura e obteve um êxito total. Isso passou a ser considerado como a explicação materialista, realista. A tal ponto que o termo "socialismo real" foi digerido por grande parte de seus próprios críticos, que até adotaram essa absurda denominação. Os professores de Economia Política Marxista – sic – fabricantes de ideologia, em particular nos países da Europa Oriental, recitavam: "sim, é verdade que Marx disse que no socialismo não existiria mais dinheiro, nem mercadoria, nem trabalho assalariado... mas, agora que o socialismo existe, vemos que ele se equivocou, que 'realmente' tudo isso continua existindo e existirá até o comunismo". O que era apenas um círculo vicioso se transformou na explicação científica por excelência! Essa era a "realidade" do socialismo para a economia política e para a ciência no mundo inteiro. Há tempos, Marx denunciara os homens de ciência por buscarem expor, não a verdade, mas o que é agradável à polícia! O terrorismo de estado foi aperfeiçoado com a consecutiva desqualificação de quem dissesse que aquilo não era socialismo, ou que simplesmente pensasse que a humanidade tinha interesses antagônicos não a este ou aquele país, mas à sociedade mercantil generalizada. O realismo estatal aprisionava a humanidade em sua lógica: “Se não estás de acordo com o socialismo que existe realmente na Rússia, com o socialismo de que outro país estás de acordo?" A luta revolucionária ficava assim relegada a uma utopia que não partia da "realidade socialista".

 

Mas de onde vem essa "Realidade"? Não vem do fato de que Stálin, antes de ser quem foi, tinha sido um bom coroinha? Talvez até mesmo este fato, anedótico e sem importância, tenha muito a ver: em toda ideologia dogmática desenvolvida pelo estado stalinista há aspectos eclesiásticos (3). Isto decorre do fato de que toda a ideologia dominante no capitalismo é de origem judaico-cristã (ou se se preferir, judaico-cristã-muçulmana), que até os termos aparentemente mais verdadeiros são puro produto da ideologia e particularmente da concepção religiosa monoteísta. Assim, "a realidade", ao contrário do que se poderia pensar, não surge da vida e das relações sociais de nenhum país, mas é um termo culto criado pelos teólogos, como "socialismo real", que tampouco provém da sociedade, mas das idéias, da fé. Como diz Agustín García Calvo: "o nome (realidade) não vem da língua corrente, é um nome que vem das escolas de teólogos, que inventaram esse termo para aplicá-lo a Deus, que tinha, naturalmente, que ser a Realidade das Realidades. Acontece que, depois, esse nome oriundo dessas escolas teve tanto êxito que em toda parte há muita gente que declara que tal ou qual coisa é Real, que Realmente acontece isto, que a Realidade é assim, meu filho, e declarações do tipo” (4). "...a Realidade está constituída por Idéias que ao mesmo tempo são crenças. Não se deve distinguir entre Idéias e Fé. Idéias e Fé são a mesma coisa"(5). Como com Deus, a Realidade stalinista não parte do que acontece, mas do conjunto de idéias dominantes validadas por toda classe dominante e sua fé profunda em que o mundo só pode ser assim.

 

O socialismo, o comunismo, enquanto sociedade em que não existe mercadoria, nem dinheiro, nem a exploração do homem pelo homem... foi, desde então, reduzido à "utopia". Inclusive, não faltou quem defendesse uma sociedade sem mercadoria e sem Estado, mas em nome da... Utopia. E construísse, assim, toda uma reivindicação da utopia que, nos fatos, aceita o mito de que o socialismo "real" era o mesmo que esses gigantescos campos de trabalho e concentração denominados "países socialistas". Grupos  autoproclados anarquistas, que criticaram muito confusamente o stalinismo (6) (quando não se fizeram cúmplices dele, como a CNT espanhola na década de 30, que chegou ao extremo de fazer apologia da URSS e do próprio Stalin!), aceitavam na prática o mito dos países socialistas, chamando-os dessa maneira e chamando de "comunistas" os partidos que tinham massacrado comunistas por toda parte.   Mesmo hoje, muitos dos que se declaram anarquistas renunciaram a se dizer comunistas ou anarco-comunistas, como o faziam no passado, e não têm vergonha de chamar de "comunistas" os partidários do estado e do "socialismo real", os próprios repressores e contra-revolucionários. Contribuem, assim, para a maior mentira burguesa do século XX, vigente ainda: o comunismo seria um grande campo de concentração. Os que, em nome da anarquia, procedem desta maneira, não só atraiçoam gerações e gerações de anarquistas comunistas, mas se juntam a todos os Estados do mundo, ao estado mundial contra o proletariado em sua necessidade de difamar o comunismo.

 

A construção ideológica stalinista propriamente dita, sobre as supostas etapas e distinções entre socialismo e comunismo, foi totalmente secundária em toda esta imposição mediática. O monopólio dos meios de fabricação da opinião pública e a ação da polícia política stalinista em todo o mundo, reprimindo os verdadeiros revolucionários e comunistas foi muito mais importante do que as imbecis explicações "para marxistas" sobre o fato de que era preciso distinguir socialismo e comunismo: no primeiro havia, sim, dinheiro, mercadoria, trabalho assalariado.... mas no segundo, não. E como se tudo isso fosse pouco, quando a crise da acumulação capitalista na Rússia começou a impulsionar o questionamento das diversas frações burguesas nesse país, em meados da década de 60, elas mesmas não vacilaram em cagar para tudo isso e tentar outra operação mediática. Em meio à crise econômica e política da burguesia russa, em meio aos conflitos no interior da classe dominante, expressos nas reivindicações de reformas e autonomia financeira das empresas, o PC da URSS declara, sem vergonha, que o socialismo já estava superado, que se estava já em pleno comunismo... mas, obviamente, com a mesma sociedade mercantil de sempre, agora em plena bancarrota. Com isso, a confissão do caráter capitalista da sociedade russa e do império soviético, que Bordiga havia previsto, foi adiada. Com a queda do muro, caíram mitos e máscaras, mas a confissão foi dissimulada por enormes operações mediáticas e assim  foram vendidas as supostas "transformações operadas pela queda do muro", ou "a volta do capitalismo". Tudo foi organizado para ocultar a verdade histórica. Era muito mais rentável ideologicamente, para a contra-revolução mundial, afirmar que se voltava ao capitalismo do que admitir que nunca houve socialismo, nem comunismo, nem nada parecido.

 

Os trotskistas engoliram tudo isso sem nunca terem denunciado o verdadeiro caráter capitalista da URSS – com as honrosas exceções de Natália Sedova (viúva de Trotsky) e Munis, que, por tal razão, romperam com o trotskismo – e sem nunca dizerem claramente que a propriedade estatal não liquida o caráter privado da propriedade, nem denunciado as origens do stalinismo. As fórmulas sobre estado operário deformado e/ou degenerado e seus apelos por uma revolução exclusivamente política situam os trotskistas de todos os tipos numa aberta cumplicidade com o stalinismo: negam a necessidade de uma revolução social. As críticas à burocracia, à corrupção, à "degeneração do socialismo", como em qualquer outro país capitalista, correspondem não à crítica proletária do capitalismo na Rússia, mas a uma série de ajustes de contas no interior da classe dominante e não visam, de modo algum, a questionar o sistema social em sua globalidade, mas apenas a gestão política da sociedade.

 

A expressão máxima da contra-revolução foi a guerra que a burguesia mundial catalogou como "segunda guerra mundial". E isto em todos os terrenos. A guerra terminou de destruir fisicamente o proletariado, que a contra-revolução conseguira liquidar política e ideologicamente. Dos milhões de proletários em luta pela revolução social em 1917, 1918, 1919..., 20 anos depois não restava nada. O isolamento dos grupos verdadeiramente revolucionários é o pior da histórica – "é meio noite no século". O proletariado mundial, salvo poucas e breves exceções, estava reduzido a uma imensa massa produtora e reprodutora do capital mundial e se mobilizava nacionalmente para defender sua própria exploração. O socialismo nacional, o nacional socialismo, a democracia, a frente única, a frente popular, a frente de libertação nacional eram diferentes estruturas e bandeiras para o mesmo objetivo (7): trabalhar muito pela pátria e preparar assim a guerra. Essa farsa gigantesca tinha como verdadeiro objetivo terminar de domar o proletariado para fazê-lo cúmplice de sua exploração, para transformá-lo em povo russo, povo ianque, povo francês, povo alemão... Em bucha de canhão do imperialismo mundial.

 

Para fechar com chave de ouro, esse mundo da verdade única e da guerra por toda parte fabricou um grande inimigo absoluto e misterioso que justificaria todas as barbáries da civilização ocidental, cristã e democrática. Assim, todos, após terem namorado com os fascistas e pactuado com os nazistas, à medida que nazistas e fascistas vão perdendo a guerra, esconde-se a origem desses partidos (na verdade, variantes da social-democracia e diferentes versões do socialismo nacionalista) e eles vão sendo definidos como o inimigo absoluto.

 

A atrocidade nazi-fascista deve ser redefinida não só como pior do que todas as outras atrocidades, mas como a atrocidade em si, como a atrocidade que se proíbe de comparar com qualquer outra. É preciso minimizar as dezenas de milhões de mortos em campos de concentração stalinistas, Hiroshima, Nagasaki, ...Dresde, as matanças na Grécia, os campos de concentração aliados. Até se inventaram palavras, procedimentos, leis, proibições, para que o verdadeiro genocídio não seja aquele cometido pelas Cruzadas, nem pela Inquisição, nem o cometido contra os índios da América, os negros da África, os exterminados pelas bombas atômicas lançadas no Japão, os massacrados no Congo belga, pelos campos de concentração lenino-stalinistas, somente o cometido por esse inimigo em si. O proletariado mundial, vencido e humilhado, foi assim posto de joelhos diante do totalitarismo democrático abençoado por todos, incluídos os supostos comunistas. O espantalho do fascismo e do nazismo servia, assim, para legitimar o integralismo democrático. O comunismo, que surgiu e se desenvolveu em antagonismo total com a democracia, à qual sempre definiu, com razão, como ditadura da burguesia, ditadura que deve ser totalmente derrotada, foi assassinado pelos que, em seu nome, se dobraram à grande cruzada democrática.  Yalta e outras festas capitalistas anteriores e posteriores, em que os representantes dos mais poderosos do mundo se abraçavam, foram a canonização geral desses valores. A humanidade escravizada foi condenada a se submeter aos que repetiam a famosa frase de Churchill de que o sistema democrático é o pior dos sistemas com exceção de todos os outros. O totalitarismo do mal menor se fez onipotente e toda crítica foi obrigada a se curvar diante dele: "a única coisa de que podemos nos queixar é não termos suficiente democracia."

 

O integralismo democrático havia vencido!

 

Notas

1 Na época em que a doutrina do socialismo num só país foi proclamada, circulava entre os militantes a horrível piada: “sim, existe um país socialista, é formado pelos campos de concentração onde todos os presos são socialistas e comunistas”.

 

2 Na Argentina, como neutros países do Cone Sul, o desaparecimento sistemático de militantes revolucionários foi considerado por muitos, inclusive grupos que se pretendem revolucionários, como algo original, inédito e fruto da maldade dos militares daquele país.  Isso revela ignorância e/ou ocultação total da história da luta de classes.  Certamente, o desaparecimento de pessoas como prática do terrorismo de estado remonta à existência do estado. Mas, durante todo o século XX, usou-se de maneira sistemática esse recurso que o stalinismo consolidou, aplicando-o na Rússia e outros países, contra militantes considerados dissidentes, no mundo inteiro. O mesmo pode ser dito dos militantes torturados e “desaparecidos”, pelos agentes stalinistas e o partido “comunista” de Espanha, entre 1936 e1939.     

 

3 Por exemplo, a concepção do partido leninista, perfeito, expressão do dogma revelado y necessariamente infalível, também vem daí. O conceito de partido da social-democracia que não deriva do proletariado e sua luta, mas da ciência e da civilização (comum a Kautsky, Lênin, Stálin…) é religioso. Nós o demonstraremos na continuação deste texto, que publicaremos proximamente.

 

4 Entrevista de Agustín García Calvo, publicada na CNT número 324, junho de 2006.

 

5 Agustín García Calvo, Idem.

 

6 As esquerdas comunistas, constituindo-se em ruptura com os “partidos comunistas” oficiais, sempre criticaram as bases econômicas do regime lenino-stalinista e denunciaram o caráter capitalista da sociedade russa. A maioria dos grupos denominados anarquistas jamais criticou as bases econômicas daquela sociedade, contentando-se, com as demais frações da social-democracia (incluído o trotskismo), em fazer uma crítica superficial e política. Esta crítica, com a efetuada por Arthur Lehning em “Marxismo e Anarquismo na Revolução Russa”, limita-se a denunciar a ditadura leninista, stalinista, a falta de democracia e direitos humanos etc. Esta crítica “anarquista” e/ou “socialista” avaliza como comunismo o que, na realidade, é capitalismo.

 

7 Aqui utilizamos o termo  democracia tal como se utiliza normalmente, como forma de organização do poder burguês. Como já dissemos muitas vezes, a democracia é muito mais do que isso, é a essência da dominação do capital, produto da generalização da sociedade mercantil e, neste sentido, mais global. Todas essas bandeiras e estruturas (incluindo fascismo, stalinismo, frente popular…) são expressões formais da democracia.

 

 

AS FORÇAS QUE FIZERAM ESSA LIQUIDAÇÃO POSSÍVEL

 

Mas como toda essa merda começou? Como foi esmagada a revolução social que, do México à Rússia, da Alemanha à Espanha,... tinha apavorado a burguesia mundial? Como foi liquidada a força histórica do proletariado se contrapondo à ditadura mundial da democracia e do capital? Como e sobre que bases a burguesia pôde reorganizar sua dominação de classe mundial?

 

Teria sido, por acaso, uma questão militar? Sem qualquer dúvida, não. Aqui e lá, os proletários destruíram exércitos e potências militares. Porém, os proletários que triunfavam eram prisioneiros de um partido e de uma concepção que os levava não à destruição do capitalismo, mas à sua defesa; não a abolir o trabalho assalariado, mas a desenvolvê-lo. Este partido foi, globalmente, a social-democracia, em suas diversas versões ou organizações formais, e especificamente o leninismo.

 

Como desenvolvemos em muitos de nossos textos, a social-democracia é um partido burguês para os proletários, ou seja, um partido que, em nome do socialismo, do comunismo, da anarquia, do socialismo revolucionário etc. defende o desenvolvimento do capitalismo e faz passar a dominação burguesa como positiva para os proletários. Assim é apresentada a ditadura da burguesia, a democracia, como um passo para o socialismo, o desenvolvimento econômico do capitalismo como parte do caminho para o socialismo. Em cada um dos grandes processos revolucionários do século XX, no México, na Rússia, na Alemanha, na Espanha etc., a potência do proletariado armado e triunfante, mas dirigido pela social-democracia histórica, foi posta a serviço do trabalho assalariado, do desenvolvimento do capital e a própria revolução foi liquidada.

 

No dia em que assumiu a presidência do país, Friedrich Ebert declarou finalizada a revolução e, em nome do socialismo, a necessidade de desenvolver o capital. "A partir deste momento - disse - é necessário desenvolver o capital pacificamente, porque só um capital levado até os limites de seu desenvolvimento poderá ser socializado". Assim se resume todo o programa da social-democracia: não só "viva o capital", mas também "o socialismo é a repartição dos frutos do progresso do capital". Não há uma única ruptura entre o capitalismo e essa socialização. Com alguma diferença de palavras, foi o que Lênin defendeu logo que assumiu o poder: "o capitalismo de Estado seria um passo adiante em nossa República dos Sovietes. Se, por exemplo, em seis meses, conseguíssemos instaurar o capitalismo de Estado, isto seria um triunfo enorme [...]. O capitalismo de Estado seria um imenso passo a frente, inclusive se [...] por ele pagarmos mais caro do que agora. [...] O capitalismo de Estado é, do ponto de vista econômico, infinitamente superior a nossa economia atual. [...] Nosso dever é nos inserirmos na escola do capitalismo de Estado dos alemães” (8). Alguns anos depois, na mesma medida em que o proletariado era reprimido em toda Rússia (sangrentas repressões do proletariado agrícola, das greves de Petrogrado, da revolta de Kronstadt), Lênin insistia em sua "tática" (9) de desenvolver o capitalismo a todo custo e de não o temer: "É preciso desenvolver por todos os meios e a todo custo a troca, sem medo do capitalismo... Isto poderá parecer um paradoxo: o capitalismo privado no papel de coadjuvante do socialismo? Mas não é nenhum paradoxo, e sim um fato de caráter econômico absolutamente indiscutível... ele se deduz de modo absolutamente inevitável da importância primordial que tem nestes momentos a troca local, em primeiro termo, e em segundo termo também a possibilidade de que o capitalismo privado preste ajuda ao socialismo" (10). A CNT espanhola, em 1936 e nos anos seguintes, em nome do antifascismo e da frente popular antifascista, impôs a mesma política de renúncia à revolução e de desenvolvimento do capitalismo. O abandono da luta contra o Estado e a defesa dele se baseiam no argumento de que era necessário fazer guerra aos fascistas, mas,  sobretudo, trabalhar muito e reorganizar a produção.

 

A frente popular e os sindicatos basearam sua estratégia construtiva no trabalho. Em todos os casos, em nome da revolução e do socialismo futuro, toda organização autônoma dos proletários foi liquidada, as forças repressivas foram reorganizadas e toda força do proletariado foi posta a serviço da produção. A apologia da grande indústria e os esforços produtivos do Estado, a apologia do trabalho e a repressão dos grupos proletários que lutavam contra a exploração (até nas coletivizações!), o taylorismo e o stakhanovismo, o sindicalismo estatal, os campos de trabalho, o brutal aumento da taxa de exploração foram o denominador comum do processo contra-revolucionário dirigido pelos que se denominavam comunistas, socialistas, anarquistas... A chave da contra-revolução é precisamente este tipo de partido e de programa, que dirigem o proletariado para a defesa do capitalismo e buscam discipliná-lo no trabalho. Sempre em nome de um futuro melhor e socialista, sempre em nome do trabalho, essa força ideológica preconiza o mal menor e apela, explicitamente ou não (todo apelo para trabalhar mais é invariavelmente um apelo ao desenvolvimento do capital!), ao desenvolvimento do capitalismo. Toda força ou energia proletária é liquidada no trabalho, na frente produtiva e/ou na frente de batalha.

 

Então, o programa econômico-social da social-democracia em geral, e de Lênin em particular, é o desenvolvimento do capital, apoiando o que denominam capitalismo monopolista de Estado, que na realidade se resume à estatização (mudança meramente jurídica) da propriedade privada. A revolução se resume, para eles, à política, a uma mudança (violenta ou não) na direção do Estado. È muito importante ter isto em conta, porque esta é a concepção leninista, a concepção realmente posta em prática na política econômica e social dos bolcheviques, tanto internamente quanto no exterior (11). Segundo Lênin, "num Estado verdadeiramente democrático e revolucionário, o capitalismo monopolista de Estado significa inevitavelmente, infalivelmente, um ou mais passos adiante para o socialismo... Pois o socialismo nada mais é do que a etapa imediatamente consecutiva ao monopólio capitalista de Estado posto a serviço do povo inteiro e que, por isso mesmo, deixou de ser um monopólio capitalista” (12). Como se vê, a própria ditadura do proletariado não é concebida como a destruição de todas as relações sociais, mas, pelo contrário, como o controle do capital que, por isso mesmo, segundo qualquer social-democrata ou Lênin, passa a ser socialismo (13). Quão longe se está de Marx, que sempre denunciou a ilusão de poder controlar governamentalmente o capital! O que chamam de revolução é na realidade "revolução” (14) exclusivamente política e reformismo econômico-social. Não há destruição do capital, apenas controle do Estado por quem toma o poder, se apropria do capital e o "dirige” (15), como em toda "revolução" burguesa. E, como em toda "revolução" burguesa, o interesse manifesto é que se trabalhe o máximo possível. Para isto, Lênin patrocinava, desde antes da tomada do poder, as medidas mais brutais, inclusive o trabalho forçado, que se concretizariam mais tarde nos campos de trabalho obrigatório e seriam um modelo internacional que os nazistas logo imitariam. Afirmar que esse sistema econômico, baseado nos campos de trabalho forçado, era – para o stalinismo e, em grande medida, para o trotskismo – sinônimo de socialismo ("estado operário"), pode parecer hoje um exagero. Faz-se, pois, necessário ressaltar que não há, em absoluto, nenhum exagero e que, para o mesmíssimo Lênin o trabalho forçado era não só "um passo imenso" para o socialismo, além de garantir que não admitia retrocesso:

 

"O serviço de trabalho obrigatório instituído, regulado, dirigido pelos Sovietes de deputados operários, soldados e camponeses, não é ainda socialismo, mas já não é capitalismo. É um imenso passo para o socialismo, um passo após o qual é impossível, sempre em democracia integral, voltar ao capitalismo, a menos que se use a pior violência contra as massas...". (Lênin, em "A Catástrofe Iminente e os Meios de Conjurá-la", de outubro de 1917).

 

O marxismo-leninismo é paradigmático nesse sentido. Não no sentido de que seja "original" com relação à social-democracia, porque todo seu programa é social-democrata, mas porque, quando a social-democracia era questionada, no mundo inteiro, ela mesma ressurge com novos brios sob a nova forma marxista-leninista para se impor por toda parte. Aparecendo como oposto à social-democracia e reivindicando "o comunismo", o marxismo-leninismo conferirá uma nova juventude àquele velho e putrefato programa.

 

Notas

 

8 Lênin: “Sobre o Infantilismo da Esquerda e as Idéias Pequeno-burguesas”.

9 O pretexto social-democrata é sempre o mesmo: trata-se de algo tático. Mas a contribuição ativa do leninismo ao desenvolvimento do capitalismo é, na prática, fundamental, estratégica.

10 Lênin: “Sobre o imposto em espécie”.

11 Ver: “Contra el mito de la transición socialista: la política económica y social de los bolcheviques”, em Comunismo número 15/16.

12 Lênin: “A Catástrofe Iminente e os Meios para Evitá-la”, outubro de 1917.

13 Do nosso ponto de vista, é claro que a mudança política não implica nenhuma revolução e, portanto, na Rússia, na medida em que não se exerce nenhuma ditadura contra o capital, isto é, destruidora das relações sociais burguesas, é totalmente absurdo falar de “ditadura do proletariado”, que é precisamente esse processo destrutivo (no econômico-social) .

14 Pusemos “revolução” entre aspas porque na realidade essas “revoluções” são, precisamente, o contrário do que os revolucionários entendem por revolução. Trata-se de uma mudança do poder político, seguido de um conjunto de reformas, que tendem a manter o velho sistema social, como ocorreu inclusive com a chamada “revolução francesa” e, em última instância, também com a “revolução russa”. Em todos esses casos se trata da liquidação da revolução, da contra-revolução.

15 Inclusive a idéia de “dirigir” o capital é muito relativa, a dinâmica do próprio capital implica que ele seja indirigível ou, se se preferir, que aqueles que aparecem dirigindo o capital são, de fato, dirigidos por ele.

 

 

 

CARACTERIZAÇÃO DA SOCIAL-DEMOCRACIA E SUA CONTRAPOSIÇÃO AO COMUNISMO

 

Como dissemos em muitas ocasiões, a social-democracia não é, nem nunca foi, um partido proletário. É, isto sim, um partido da burguesia "para" o proletariado, ou seja: para enquadrar o proletariado (16).

 

Todo partido da burguesia tem como projeto social o desenvolvimento do capital, isto é, do trabalho. A única especificidade da social-democracia é dirigir-se particularmente à classe que tem interesse objetivo em destruir esta sociedade, declarando que tem o mesmo objetivo, mas, desde a sua origem, essa declaração nada mais é do que uma isca para cumprir melhor sua função de enquadrar os proletários e submetê-los ao trabalho, ao desenvolvimento do capital.

 

Conseqüentemente (e contrariamente ao comunismo), a social-democracia não se define nunca contra o capitalismo, mas por seu desenvolvimento, por seu progresso, e dentro deste, diz representar o "fator trabalho". Não se define contra a ditadura democrática da burguesia, mas por sua melhora. Daí o seu nome: social-democracia. Seu programa é, em nome da igualdade social, a realização da democracia. Seu objetivo é democratizar as reivindicações sociais ou, em outras palavras, transformar as exigências proletárias em reformas democráticas. Marx dizia que sua função é aparar as pontas revolucionárias do programa do "partido social" e fazê-lo democrático.

 

Por isso, as estruturas básicas desse partido são o sindicato e o parlamento, principais organismos de enquadramento político-social do Estado, os quais têm por missão transformar as reivindicações proletárias em reformas econômicas ou políticas. Daí que a social-democracia identifique sistematicamente duas coisas que são tão opostas quanto os interesses das classes que representam: a reivindicação e a reforma. A primeira é a exigência proletária; a segunda é o que o capitalismo pode realizar para acalmar aquela exigência, limitando-a às necessidades de valorização do capital (17). Resumindo: esses aparatos do Estado burguês – parlamento e sindicato, que a social-democracia diz utilizar – têm sempre a função de transformar uma reivindicação proletária, que tende sempre a se impor pela ação direta contra o capital, numa reivindicação de reforma sindical ou política (legislação parlamentar). Uma reforma que o Estado concede com o objetivo (seja consciente ou não este processo) de impedir que aquela ação questione a essência do capital e do Estado.

 

A democratização, o progresso, o desenvolvimento etc. são para a social-democracia não só algo positivo em si, que beneficiaria todo mundo, mas também o objeto de seus afãs. Este é outro grande embuste, porque o progresso, nesta sociedade, só pode ser o progresso do capital (considerando que a guerra está inquestionavelmente ligada a toda história do progresso capitalista e não é exatamente um progresso para os seres humanos!), o desenvolvimento da exploração. As tarefas democráticas burguesas nada mais são do que o desenvolvimento das forças produtivas do capital. Apresentar seu próprio progresso como o progresso em si, seu próprio desenvolvimento como o desenvolvimento da humanidade, é uma condição indispensável a todo partido da classe dominante para assegurar sua dominação.

 

Como partido da classe dominante para os explorados, como partido democrático para integrar as reivindicações sociais, é lógico que seu objetivo seja ao mesmo tempo a constante distorção do programa da revolução: o programa comunista. Para isto, em todos os países e épocas históricas, a social-democracia tem – em seu interior, ao lado das frações abertamente democráticas e opostas à revolução – frações que, em nome da revolução, apresentam um conjunto de reformas democráticas. Apesar de que o objetivo sempre é o desenvolvimento do capital, "para melhorar a situação da classe operária", enquanto as primeiras são diretamente parlamentares e gradualistas, as segundas falam de revolução, tentam tomar o poder e utilizam a violência no terreno político (o que na prática corresponde às lutas internas pelo poder político), mas sua "revolução" não é mais do que um conjunto de reformas (em geral estatizações, nacionalizações, coletivizações, socializações, comunizações (18)) que supostamente melhorariam a situação dos proletários. Ao contrário do comunismo – que é ruptura social da ordem estabelecida, destruição total do capitalismo, ou seja, de todas as relações sociais de produção burguesa –, esse projeto "revolucionário" apresenta a reforma como um conjunto de melhoras do edifício social que, em geral, se limitam ao âmbito da distribuição, da repartição. O engodo está em chamar de revolução este reformismo radical, canalizando a fúria revolucionária do proletariado para o reformismo.

A social-democracia não representa, em nenhum caso, os interesses do proletariado contra o capitalismo, mas, como ela mesma diz, os interesses do trabalho no capitalismo.  O engodo consiste em apresentar como sinônimo do conflito entre burgueses e proletários a dupla capital-trabalho e se definir como partidária do pólo trabalho. Que lhe seja concedido este mérito: a social-democracia é o partido do trabalho (19). Esta confusão é habitual, inclusive em setores que se pretendem continuadores da esquerda comunista (20). Quem está em luta com o capital não é o trabalho, mas o trabalhador. E não enquanto trabalhador, mas enquanto ser humano. O trabalho não só não se contrapõe ao capital, como é a sua a sua essência. O trabalho é a própria matéria do capital se capitalizando. No antagonismo proletariado/burguesia, o trabalho, o máximo trabalho, está necessariamente do lado do capital contra o ser humano. Este, enquanto trabalhador, não se opõe ao capital, ao contrário, dá-lhe vida, renuncia à sua vida para afirmar a vida do ser que o vampiriza. O trabalhador, não vive como ser humano, renuncia à sua humanidade. Como trabalhador, ele não é a sua própria vida, mas a vida do capital, é capital se reproduzindo. Com efeito, o capital é também trabalho acumulado e, no processo de produção, subsume o trabalho vivo. Mais ainda: se, do ponto de vista do processo de trabalho, o trabalho aparece como o sujeito ativo, ao transformar os meios de trabalho; do ponto de vista do processo de valorização, é o trabalho morto que dirige o trabalho vivo. Por isso, toda apologia explícita do trabalho é apologia implícita do capital e apologia da subsunção do trabalho ao capital. Por isso, na sociedade mercantil generalizada, toda apologia aberta do trabalho é apologia encoberta da exploração de classes! Pensemos em toda a história do leninismo e do marxismo-leninismo na Rússia, na China, em Cuba, na Albânia, nos países da Europa oriental, no Vietnã, no Laos, Camboja, Coréia etc.! E também nos países em que os marxistas-leninistas apoiaram "criticamente" as diversas frentes, governos e Estados "populares", "antiimperialistas", "progressistas"...!

 

A contraposição programática entre comunismo e social-democracia encontra aqui sua máxima nitidez: enquanto o comunismo luta pela abolição do sistema de trabalho assalariado, ponto decisivo do processo de abolição do próprio trabalho, a social-democracia é o partido do trabalho, o partido da generalização do trabalho. Por isso, enquanto o comunismo, como movimento social,  expressa a luta proletária contra todo progresso da valorização e a própria industrialização, a resistência contra a extensão e intensidade do trabalho, a social-democracia é, pelo contrário, o partido da grande indústria, da massificação do trabalho, dos grandes movimentos para trabalhar o máximo possível, dos apelos ao trabalho voluntário, ao trabalho de emulação socialista, aos ´sábados comunistas`, dos campos de trabalho, dos campos de concentração (inventados precisamente para isso).

 

Lênin, em "Uma Grande Iniciativa" (julho de 1919), cujo subtítulo é, significativamente, "O heroísmo dos operários na retaguarda, os sábados comunistas", diz: "E esses operários famintos... organizam 'sábados comunistas', trabalham horas extraordinárias sem nenhuma retribuição e conseguem um aumento imenso da produtividade do trabalho apesar estarem cansados, sofridos e extenuados pela subalimentação. Isto não é um heroísmo grandioso? Não é o começo duma transformação de importância histórico-universal? A produtividade do trabalho, em última instância, é o mais importante, o decisivo, para o triunfo do novo regime social... O comunismo representa uma produtividade do trabalho maior que o capitalismo, uma produtividade obtida voluntariamente pelos operários conscientes e unidos que têm a seu serviço uma técnica moderna. Os sábados comunistas têm um valor excepcional como começo efetivo do comunismo, e isto é algo extraordinário, pois nos encontramos numa etapa em que 'são dados os primeiros passos na transição do capitalismo ao comunismo' (como diz, com toda a razão, o programa de nosso partido)."

 

A apologia que Lênin faz – do trabalho e do aumento da produtividade do trabalho, como fundamental na transição ao comunismo – é totalmente contra-revolucionária e, na prática, uma apologia do capital. O que Lênin defende aqui não tem nada a ver, apesar da aparência, com o fato lógico de que, em plena luta revolucionária, possa ocorrer que setores do proletariado tenham pontualmente que trabalhar e que esse trabalho, conjunturalmente, seja considerado parte da luta revolucionária que tende à abolição do trabalho assalariado e do próprio trabalho. Aqui, fica evidente que Lênin, como todo social-democrata, não concebe o comunismo como uma sociedade que aboliu o trabalho, mas como uma sociedade que o afirma. Fica evidente que Lênin não concebe a transição ao comunismo como um processo no qual se luta por trabalhar o mínimo possível, um processo de destruição do trabalho assalariado e do próprio trabalho, mas como uma sociedade em que se trabalha "voluntariamente" cada vez mais. Além disso, Lênin, como qualquer patrão ou economista, identifica produtividade com extensão do tempo de trabalho. Com efeito, se lermos bem, constatamos que, no caso considerado, é mentira o que Lênin diz: que haveria um aumento da produtividade do trabalho. No exemplo citado NÃO há nenhum aumento da produtividade do trabalho, mas, como o próprio Lênin nos informa, os sábados comunistas implicam mais trabalho, implicam que os proletários trabalham horas extraordinárias sem nenhuma retribuição. Não é nenhum "aumento imenso da produtividade", mas o mesmo trabalho continua produzindo o mesmo e o que ocorre é que os trabalhadores trabalham mais. O trabalho não se tornou mais produtivo, apenas se trabalha mais. O trabalho seria mais produtivo se trabalhassem o mesmo (ou se trabalhassem menos), se ocorresse o mesmo desgaste humano produzindo um resultado maior. O que, como Lênin confessa, ao dizer que trabalham mais, é algo bem diferente. Como, além disso, trabalham "sem qualquer retribuição", o que aumenta não é a produtividade, mas a taxa de sobretrabalho, o sobretrabalho dividido pelo trabalho necessário, a percentagem que vai para o capital (pois nem Lênin nega que este continua existindo!) em relação com a que os proletários se apropriam, ou seja, a taxa de exploração e, em última instância, a taxa de lucro do capital. O que aumenta não é a produtividade do trabalho, mas a exploração e é isto que Lênin celebra!

A produtividade do trabalho permanece constante, mas o que aumenta é a produtividade do capital; com o mesmo capital se obtém mais. A confusão entre uma coisa e outra é típica dos capitalistas e homens de Estado. Para eles, é lógico, o que lhes interessa é obter mais capital, mais coisas com o mesmo capital. Para eles, é exatamente o mesmo que esse resultado seja obtido pondo mais máquinas ou modernizando-as (neste caso, sim, pode haver aumento da produtividade) ou pondo chefes e, se for o caso, chicotes para que os trabalhadores trabalhem mais (mais tempo ou mais intensamente). Mas, para os trabalhadores, não dá no mesmo: um aumento da produtividade do trabalho não significa nunca trabalhar mais, mas trabalhar menos para obter o mesmo. Um aumento da extensão do tempo de trabalho, ao contrário, sempre significa mais desgaste humano, mais tripalium, mais tortura.

 

Então, fica claro que quando Lênin afirma "o comunismo representa uma produtividade do trabalho maior do que a do capitalismo", não se refere ao que Marx entendia, isto é, um processo pelo qual, uma vez abolida a sociedade mercantil, o aumento da produtividade do trabalho permite trabalhar cada vez menos (menos tempo de trabalho, além de trabalho menos intenso), até sua abolição total, mas totalmente o contrário. Para Lênin, como para todo social-democrata, o comunismo é a realização de uma sociedade do trabalho. Não conhecemos nenhum texto de Lênin, nem de outros bolcheviques que integraram o estado, que faça, pelo menos, uma crítica do trabalho e assuma o projeto comunista de abolição do trabalho. E mais, para a social-democracia, para o leninismo e o stalinismo, os discursos, as canções, as bandeiras e os símbolos do “comunismo” sempre contêm elogios ao trabalho e a apologia dos próprios meios com os quais se trabalha. Nada mais lógico, então, que martelos e  foices tenham sido consagrados como os símbolos do leninismo, do trotskismo, do stalinismo, do maoísmo…, os símbolos históricos dos partidos do trabalho, dos partidos do tripalium, dos partidos da tortura, dos partidos da submissão do ser humano à não vida. Em plena contra-revolução internacional, a apologia marxista-leninista do trabalho como sinônimo de realização do ser humano chegou a subsumir totalmente o movimento operário mundial, até um ponto tal que toda crítica do trabalho podia ser catalogada (como todas as posições revolucionárias) como “pequeno-burguesa”, e a própria luta – silenciosa, mas persistente – dos proletários em todo o mundo para trabalhar o mínimo possível (operação tartaruga, indisciplina, diminuição do ritmo, absenteísmo, sabotagem…) como contra-revolucionária. Talvez o filme “Tempos Modernos” de Chaplin, com o qual muitos proletários se identificaram, nos tenha livrado de que os PCs do mundo substituíssem os martelos pelas cadeias de montagem nos  panfletos e bandeiras. Teria sido coerente com o que eles defendiam e continuam defendendo hoje: o progresso, o aperfeiçoamento da exploração do homem pelo homem!

Embora já o tenhamos feito muitas vezes, vale a pena ressaltar a contraposição total que há entre Marx – que sempre defendeu a luta pela supressão total dos dois pólos da relação capital/trabalho assalariado, assim como do próprio trabalho – e a social-democracia, que se definiu invariavelmente pelo pólo trabalho do capital, pelos interesses do trabalho no capitalismo. Como se, na prática, o capitalismo pudesse ter outros interesses que não sejam o trabalho! Como se a economia nacional do capital pudesse ter outros interesses que não o desenvolvimento do trabalho!

O próprio Lênin fixa assim a atividade dos sindicatos na Rússia, em pleno poder bolchevique: “Os sindicatos devem aplicar sua atividade em todos estes aspectos, não do ponto de vista dos interesses de cada departamento, mas do ponto de vista dos interesses do trabalho e da economia nacional em seu conjunto” (21). Os interesses do trabalho (22) e da economia nacional em seu conjunto! Ambos os aspectos só podem ser interesses capitalistas. Marx passou toda sua vida assinalando a contraposição total e invariável entre os interesses do ser humano e os interesses da “economia nacional em seu conjunto”, entre os interesses do ser humano e os “interesses do trabalho”.

O progresso do trabalho e do partido do trabalho é necessariamente progresso do capitalismo: extensão e intensificação da exploração. O proletariado é a contraposição viva do progresso do capital e da exploração. Claro que isto não implica, como pretende a social-democracia, lutar pela volta do passado. O projeto revolucionário não é voltar às cavernas. Esta é a desqualificação barata que nossos inimigos utilizam em toda polêmica. A luta pela diminuição da jornada de trabalho, contra o aumento da intensidade do trabalho ou pelo aumento do salário, enfim, toda luta contra o aumento da taxa de exploração (com que o capital busca sempre compensar a tendência à diminuição da taxa de lucro), que caracteriza desde sempre a luta dos explorados e que é necessariamente resistência ao desenvolvimento do capital, também impulsiona o desenvolvimento das forças produtivas da humanidade e obriga, por exemplo, o capital a substituir o trabalho vivo por forças tecnológicas e, portanto, também ao desenvolvimento das forças produtivas. Mas há uma diferença enorme entre afirmar – como sempre fez o movimento comunista – o progresso do capital como antagônico à humanidade e afirmar que, graças à resistência contra esse progresso, o mesmo é algo menos nocivo, que fazer a descarada apologia do progresso como se fosse algo neutro. Como se o progresso da sociedade do capital beneficiasse o ser humano!

A transformação comunista da sociedade não partirá das cavernas, mas obrigatoriamente, gostemos ou não (e, de fato, não gostamos!), do imponente (no sentido literal do termo) desenvolvimento das forças produtivas do capital que serão apropriadas pelo ser humano. Porém, justamente porque esse impressionante progresso não é neutro, nem beneficia a todos (mas também é, efetivamente, progresso contra o ser humano), o comunismo deve questionar tudo, absolutamente tudo. Não basta destruir as relações de produção capitalistas, é indispensável questionar absolutamente todas as forças de produção existentes e  substituí-las na medida do possível. Com efeito, do pão que comemos até a máquina mais sofisticada, do último computador até o trator, do hospital à escola, do armamento até as oficinas, das casas aos quartéis…, tudo que assume ou assumiu a forma mercadoria está necessariamente marcado (concebido) pela ditadura do capital. Nada, absolutamente nada deste mundo tecnológico é neutro, todo objeto ou meio de trabalho é o resultado da ditadura de centenas de anos do capital contra o ser humano, do valor contra o valor de uso, que torna os valores de uso tão inumanos. A própria ciência, esse dogma religioso da sociedade burguesa (e muito particularmente da social-democracia), longe de ser algo que beneficiaria todas as classes, está, até a medula, determinada pela ditadura do valor em processo, pela taxa de lucro do capital. Eis por que – ainda que não se possa destruir tudo e começar do zero, sendo necessário partir do que herdamos – é indispensável questionar todas as forças produtivas que a humanidade herdará do capitalismo para substituí-las o mais rápido possível. É crucial, no processo de ditadura do proletariado, a substituição total dessas forças produtivas concebidas para aumentar a exploração por forças produtivas determinadas por critérios humanos, que não exijam mais trabalho ou mais intensidade de trabalho, mas que, ao contrário, o diminuam e tendam a suprimi-lo, que sejam determinadas pelas necessidades humanas, pela boa saúde dos seres humanos (por exemplo, alimentação) e não pelo lucro que hoje contamina tudo.  Trata-se não só de abolir a ditadura social do capital, mas de abolir todo valor de uso produzido sob a ditadura do valor, inclusive o mais anódino e necessário para os homens, porque em sua concepção se concentraram muitos séculos de opressão, de ditadura do valor contra o valor de uso. Todo “bem” leva, em seu âmago, essa opressão histórica. Ponhamos o exemplo mais banal: o pão (23) – e não as armas ou os bancos, os cárceres, os parlamentos… que se trata simplesmente de abolir o mais rápido possível!  O pão está contaminado não só pelos pesticidas, herbicidas e outras porcarias químicas que são adicionadas ao trigo, à levedura e ao próprio pão em seu processo final (digamos, para conservá-lo, para transformá-lo, para vendê-lo), como também não é concebido em função das necessidades humanas e sim do máximo lucro possível. Em sua concepção não é considerada, por exemplo, a necessidade de consumir fibras, nem a de que seja (e não que pareça: conservantes, colorantes…) um produto verdadeiramente fresco, que corresponda à evolução histórica do aparelho digestivo humano (incompatibilidade cada vez mais generalizada com o glúten, degeneração dos cereais, etc.). O pão não foi modificado, através dos séculos, em função das necessidades humanas, mas, ao contrário, em função da rentabilidade do capital que produz e distribui o pão (não de todo o capital, considerada a redução do valor da força de trabalho ou capital variável). Por isso, “melhorou” unicamente como suporte do valor se valorizando. O valor de uso foi se adaptando às necessidades da taxa de lucro, isto é, neste mesmo processo o pão se degradou enquanto valor de uso da humanidade. Este exemplo permite ver até que ponto a ditadura da taxa de lucro se concretiza na “putrefação”, na degeneração da própria coisa. Por isso, a ditadura do proletariado deve questionar todos os valores de uso, aplicando, de forma conseqüente, esses dois critérios de base em todos os setores produtivos: ditadura total do que o ser humano necessita e menos trabalho. Ou seja, que a destruição da ditadura do valor seja levada às últimas conseqüências, destruindo toda aquela herança. Ou, como dizia Engels sobre o estado, só poderão ser conservados os valores de uso da sociedade atual “nos museus da história”.

 

O comunismo é esse movimento histórico antagonista da sociedade do capital e, como tal, é herdeiro de toda a resistência da humanidade contra as sociedades de classes. Da resistência da comunidade primitiva contra a exploração e opressão, passando pela resistência dos escravos contra a escravidão (e/ou a luta de outras classes exploradas e oprimidas contra seus exploradores e opressores, lutas diferentes conforme as diversas regiões do mundo), à luta do proletariado contra o capital há uma linha invariante de objetivos e meios, e que só pode se superar como revolução comunista mundial. Em contraposição a isso, a social-democracia é herdeira de todas as classes dominantes do passado, que têm apresentado seu progresso como progresso de toda a humanidade (24).

Coerentes com isso, os progressistas social-democratas vêem o passado com olhos racistas e civilizadores, porque, como progressistas, são os herdeiros dos colonizadores, dos conquistadores que, junto com a espada, levaram a cruz e a bíblia dos inquisidores a todo o planeta. Às vezes, reconhecem isso... A social-democracia sempre discutiu se a colonização era boa ou má, houve frações que protestaram e algumas que se opuseram, mas nunca fizeram uma verdadeira luta aberta contra a burguesia e o estado das potências colonizadoras. Além disso, a social-democracia sempre se definiu a favor do caráter civilizador do capital, sempre defendeu a separação histórica entre a comunidade humana e os meios de vida, isto é, a expropriação das comunidades primitivas, em nome do progresso. O mesmo progresso que permitiu o aparecimento do assalariado e foi defendido por todos, de Bernstein a Kautsky, de Erbert a Lênin, de Proudhon a Abad de Santillán, de Stálin a Mao, de Trotsky a Fidel Castro, de Ho Chi Min a Rocker … O que ocultam ou relativizam, com suas apologias do desenvolvimento das forças produtivas do capital e a famosa “necessidade das tarefas democrático-burguesas”, é que esse progresso sempre se fez e se faz com sangue e fogo, que esse progresso significa milhões de mortos por toda parte, que contra esse progresso resistiram nossos companheiros “comunistas primitivos”, que o proletariado se constituiu como classe não com base no apoio a esse progresso, mas combatendo, resistindo contra ele com todas as suas forças. Que o proletariado se forjou em classe e procurou se constituir como partido e força autônoma numa luta de morte contra o progresso do capitalismo! O que eles querem é que o proletariado renuncie a essa resistência, que aceite o progresso de seus inimigos. Mas como não aceita, o reprimem! Como não aceita, o mandam aos campos de concentração! A social-democracia não se sente nunca herdeira dessa resistência histórica. Ao contrário, os social-democratas se sentem muito mais próximos dos defensores da “revolução francesa” (25), síntese suprema da realização das tarefas democráticas que eles se encarregam de impor ao proletariado. Nunca se solidarizaram com aqueles que lutaram em todo o mundo contra os efeitos civilizadores do capital.

 

A contraposição programática entre comunismo e social-democracia, que hoje constatamos, é, no fundo, a mesma que houve em toda a história do capitalismo. O comunismo, lutando contra a separação histórica entre o ser humano e seus meios de vida e, portanto, contra toda exploração. A social-democracia, afirmando essa separação, a favor do progresso, do trabalho, da exploração. A humanidade, resistindo ao permanente aumento histórico do tempo e da intensidade do trabalho, a social-democracia convocando ao progresso, ao desenvolvimento do trabalho assalariado e ao próprio trabalho.

***

A globalidade programática que acabamos de resumir é o produto histórico do desenvolvimento da social-democracia como partido, e contém, por sua vez, outro conjunto de determinações derivadas e nela incluídas, que esquematizaremos aqui (26) para acabar de caracterizar esse partido.

 -Assim, essa política implica necessariamente a tática do mal menor (27) que, de fato, consiste em se opor à revolução social em nome do “realismo”, em nome do possibilismo. Assim, todo questionamento que vai à raiz da sociedade, é rechaçado em nome das “condições realmente existentes”. É essencial e invariante, na a social-democracia, afirmar que "as condições para fazer a revolução não estão dadas”. Nunca estão dadas! E, portanto, o jeito é preferir o menor dos males, isto é, aceitar a política reformista do capital ou, no caso dos mais radicais, em nome da revolução de amanhã, lutar pelas reformas hoje.

-Evidentemente, isto está ligado a todo um esquema burguês de preferências, cujo principal objetivo é a liquidação da luta revolucionária do proletariado e sua transformação em luta interburguesa: é preferível a esquerda à direita, o progressismo ao conservadorismo, o democrático ao ditatorial, o republicano ao fascista, o popular ao aristocrático, a libertação nacional ao imperialismo (28)… Na perspectiva comunista, o importante não é discutir, em cada caso, se isto é realmente mais ou menos ruim do que aquilo, se este ou aquele político ou política será melhor ou pior para os  proletários, mas denunciar a essência dessa tramóia:  levar o proletariado a lutar por interesses que não são os seus, afastá-lo da luta revolucionária e fazê-lo servir como bucha de canhão não só em tal ou qual luta burguesa, mas em todas as guerras imperialistas, nas quais sempre se pode argumentar que algum campo é menos ruim que o outro.

 

-O possibilismo, o mal menor, o quadro de referências burguês determina outra característica essencial da social-democracia: o frentismo. Como a política exclusivamente revolucionária, exclusivamente proletária… nunca “é realista”, sempre “é utópica”, assim como a insurreição é, sempre segundo eles, “puro aventureirismo político”, sempre é necessário saber renunciar a “querer tudo”, à luta final. Como na Espanha, em que a CNT, no momento chave de julho de 36, decide não ir às últimas conseqüências e ingressar no comitê de milícias antifascista, submeter-se à colaboração interclassista, primeiro degrau para subir ao estado, antes da integração total ao mesmo. A argumentação possibilista se apresenta invariantemente como meio para: conquistar aliados, ir às massas, ser confiável, não assustar os receosos, desenvolver a frente mais ampla possível com outros setores sociais. O frentismo é o complemento indispensável dessa política de: renúncia, mal menor,  sujeição dos proletários à democracia, à burguesia, à frente democrática, à frente popular, à frente única, à frente antiimperialista, à frente unida…

 

- O apoio à chamada libertação nacional é na realidade uma forma particular de frentismo que, em nome do progresso do capital (nacional) e a oposição a este ou aquele imperialismo, busca fazer uma frente com tal ou qual fração da burguesia. A libertação nacional é uma isca para arrebanhar o proletariado numa frente nacional, como bucha de canhão na guerra imperialista (29).

- Pode-se dizer que, na prática, todas as tramóias são boas para arrancar o proletariado de seu terreno de classe, de sua prática revolucionária. Toda reivindicação econômica ou social, transformada em “algo mais realista”, em reforma, pode servir para fazer o proletariado marchar, bem submetido, como o burro atrás da cenoura. Toda a questão é a capacidade de neutralizar a crítica radical e convocar para a mudança reformista.  A social-democracia tem invariavelmente como objetivo a liquidação da autonomia do proletariado, sua transformação em base de apoio de alguma fração burguesa progressista, e/ou de um capitalismo com máscara mais humana.

- Quando esse objetivo não é alcançado cabalmente, quando não se consegue submeter o proletariado a essas tramóias clássicas para destruir a autonomia de classe, quando não se consegue enquadrá-lo no possibilismo e no realismo politicista, quando é difícil transformar o proletariado em reboque dessa ou daquela frente, são utilizados outros mecanismos, mais sutis e que têm exatamente os mesmos objetivos. Um exemplo disso é a política do apoio crítico. Assim, quando não se consegue que os proletários apóiem um regime social que os explora e oprime, quando salta à vista que a exploração e a repressão aumentam, quando as críticas proletárias são inevitáveis, se recorre a um tipo de formalismo crítico que dissimula o apoio: o “apoio crítico” (que, ainda que com freqüência nos esqueçamos, deveríamos sempre escrever entre aspas, porque assim o chamam, embora o “crítico” fique reduzido, na prática, a uma questão de oportunidade). Concretamente, argumenta-se que “o outro” poderia ser muito pior, que esta opção, apesar de não ser boa, é melhor que a outra, que por isso “é preciso apoiá-la criticamente”, que “é preciso preservar as conquistas”, que “não se deve fazer o jogo da direita”, que não se deve “entrar no jogo do capitalismo” buscando, assim, que as críticas permaneçam num quadro respeitável, não revolucionário. Foi assim que o trotskismo (e outros socialistas influenciados por ele) conseguiu atenuar e canalizar politicamente uma parte importante das críticas que eram feitas ao poder na Rússia: não se devia “fazer o jogo do capitalismo”, “havia que preservar as conquistas da revolução”. Essa concretização política do mal menor e do apoio crítico, que se expressa também nas frentes únicas, que funcionam como isca das frentes populares, gera a confusão geral e funciona como reboque de esquerda para o apoio do statu-quo. Esse irmão menor do estalinismo que é o trotskismo se contrapôs terminantemente à denúncia do caráter capitalista do estado na Rússia e, dividido entre sua ala direita e sua ala esquerda, apoiou “criticamente” toda a política de seu irmão maior (“big brother!) (30). É difícil dizer que, se não existisse esta política de canalização política da contradição social, o proletariado teria a força para retomar o caminho da revolução, mas é certo que, do ponto de vista da dominação, essa política de apoio crítico é uma colaboração decisiva para sua reprodução, e não é exagero dizer que se o trotskismo na Rússia não tivesse existido, Stálin se interessaria por inventá-lo. Ainda que mais não fosse do que para atribuir-lhe todos os fracassos e as sabotagens que, contra a produção burguesa, o proletariado fazia! Até nisto havia complementaridade entre os irmãos! Ao acusar todo sabotador de trotskista, se impedia a unificação dos verdadeiros sabotadores do capitalismo, em sua luta pela revolução social.

 

- Mas o apoio crítico não é utilizado somente nesse caso extremo, também serve de complemento de esquerda de qualquer política frentista. Toda frente popular, toda frente antifascista, toda frente “antiimperialista”, tem seus apoiadores críticos. São uma espécie de brigada de recrutadores dos descontentes. São os que impedem que a ruptura chegue a sua raiz e que a crítica radical e total dessas frentes de enquadramento burguês dos proletários seja estimada pelo que é. O trotskismo, que formalmente se opõe à frente popular em nome de outra frente (a “frente única” com a social-democracia, que no fundo é outra frente popular!), com sua tática de “apoio crítico” deu uma enorme contribuição à submissão generalizada do proletariado, à desaparição da autonomia de classe, à sua transformação em bucha de canhão da guerra imperialista na Europa e no mundo inteiro.

- Além disso, os trotskistas não são os únicos apoiadores críticos. Quantas vezes, em nome do anarquismo, foram apoiados os defensores do estado?! Quantas vezes, em nome do comunismo, se apelou à defesa das medidas econômicas desse ou daquele governo invocando o apoio crítico?! O próprio antifascismo, que há 80 anos é o modelo do frentismo e do recrutamento de proletários para a guerra imperialista, sempre funciona com apoiadores críticos que se denominam marxistas-leninistas, anarquistas, comunistas, trotskistas, libertários! A Segunda Guerra Mundial, que começou com a liquidação da tentativa revolucionária na Espanha e sua transformação em guerra fascista-antifascista, foi um modelo neste sentido. A CNT, em nome do mal menor e do apoio crítico ao antifascismo, colaborou na liquidação do proletariado revolucionário na Espanha e também na guerra imperialista. Esta é uma história emblemática de como transformar a luta do proletariado por seus interesses em seu exato contrário, que, como se sabe, terminou com a transformação dos proletários em bucha de canhão que entronizou mundialmente Stálin, Churchill e Roosevelt. Se continuam funcionando o mal menor, o apoio crítico, o frentismo… que conseguiram, em nome do comunismo e do anarquismo, dissolver a força do proletariado e impor a maior submissão de classes da história; se hoje continua sendo tão utilizado o espantalho do fascismo (até o extremo de se inventar qualquer coisa para lhe dar veracidade!) é porque nenhuma outra frente burguesa histórica conseguiu tanta adesão como a antifascista, porque é o exemplo supremo de totalitarismo e integralismo democrático.

 

- O que a social-democracia apresenta como tático, o mal menor, a frente etc., é, na realidade, estratégico. O que seria supostamente estratégico, o socialismo, a revolução, passa a constituir de fato um conjunto de princípios ideais que servem de isca, mas que não têm, nem terão nunca, uma concretização. Assim, é em nome do comunismo ou do anarquismo, pelos quais os proletários lutam, que os partidos que se autodenominam dessa maneira, conclamam a preferir tal ou qual fração da classe dominante, tal ou qual política ou grupo de poder. Claro que isso sempre é feito em nome da tática, declarando que o objetivo final continua sendo o comunismo ou o anarquismo. Mas, assim, pode-se passar toda a vida esperando que um dia se lute pelo objetivo final. De fato, a social-democracia nunca luta por esse objetivo final, jamais convoca os proletários para essa luta, o que, ao contrário do que diz, mostra que esse não é seu objetivo, mas somente uma isca para que apoiemos, criticamente ou não, todos os males menores que nos propõem. Essa é a história da esquerda burguesa; 100 ou 200 anos podem passar, sempre é e será, em nome desse futuro inalcançável, que a social-democracia arrebanha proletários hoje para lamber as botas de uma ou outra fração da classe dominante.

- O dualismo entre princípios e táticas, programa máximo e programa mínimo, histórico e imediato, político e econômico… está onipresente em todas as teorias, todos os discursos, todas as manobras e explicações social-democratas. O principal de todos esses dualismos é quando claramente nos dizem, como Ebert e Lênin, já citados, que é preciso desenvolver o capitalismo (de estado ou não!) em nome do socialismo, que graças a esse desenvolvimento poderemos alcançá-lo depois. Toda a obra de Lênin é, como antes resumimos, a apologia da tática, da manobra, da capitulação, do apoio ou compromisso com tal ou qual fração da burguesia, a apologia da oportunidade, das bondades do capitalismo, de trabalhar o máximo possível,… em nome de preservar “o socialismo” ou a “pátria socialista” que, de fato, só funcionam como tramóia, que ludibriou todos os que o seguiram.

 

- Mas, em geral, é menos explícito e direto. Quando é sutil pode ter dezenas de mediações antes de chegar aos seus objetivos. Em nome do socialismo, convoca-se ao apoio crítico de tal frente, em nome dessa frente, a apoiar um governo e o estado, em nome desse governo e desse estado, em colaborar com o envio de tropas de pacificação da ONU a tal ou qual país. É imponente a facilidade: com que utiliza, assim, os proletários como bucha de canhão; com que mobiliza por objetivos completamente contrários ao que diz defender; o grau de especialização dos líderes social-democratas, nesse tipo de “tática”.  Em nome das necessidades dos trabalhadores, conclamam à defesa do salário; em nome do salário, conclamam à defesa da fonte de trabalho; em nome dessa fonte de trabalho, conclamam a ser compreensivo com a necessária rentabilidade da empresa e da economia nacional; em nome da rentabilidade da empresa e da economia nacional, a fazer sacrifícios; em nome de tudo isso, terminam invariavelmente utilizando  os  proletários como base de apoio da burguesia nacional e bucha de canhão da guerra imperialista.

 

- Todo esse dualismo tem como único objetivo arrancar o proletariado de seu terreno de classe, levando-o a defender os interesses do capitalismo e a economia nacional. É fundamental, na dominação de classe, esconder os objetivos. Do ponto de vista revolucionário, a questão é bem simples: em todos os casos, países, épocas, circunstâncias… os interesses dos explorados e os dos exploradores são não só diferentes, mas opostos, antagônicos. Como não se pode negar que o capitalismo e o comunismo são coisas diferentes – embora não falte quem, em nome do comunismo, diga que não são tão diferentes! (31) –, a classe dominante deve necessariamente introduzir essas dicotomias. “O ‘renegado’ Kautsky e seu discípulo Lênin” (32) o confessavam, quando consideravam diferentes os interesses imediatos e históricos pelos quais o proletariado lutava, e que a social-democracia era a portadora da consciência socialista, que era um produto da ciência: a famosa introdução da consciência de classe, por parte dos intelectuais e cientistas, característica de toda a social-democracia e o leninismo, é precisamente isto! É assim que nos dizem que, no futuro, lutaremos pelo socialismo e/ou pelo anarquismo, mas que agora, por questões práticas, táticas, imediatas… é preciso fazer o contrário e apoiar a tal ou qual política capitalista. “Não, agora não há condições para impor o programa máximo, portanto lutemos pelo programa mínimo…” “É verdade que este governo é burguês, mas devemos apoiá-lo porque é menos ruim que o fascismo” “Agora não podemos exigir aumento de salário”…

- A clareza e unicidade do programa comunista se opõem à obscuridade e dualidade do programa social-democrata. Nós, proletários, não temos diferentes interesses econômicos e políticos. Nossos inimigos só podem assegurar a dominação dividindo e opondo ideologicamente o que é uma unidade. Se os proletários assumem os seus próprios interesses, necessariamente lutam contra o capital e o estado e, mesmo que não saibam, ou que só uma pequeninísima minoria entre eles saiba, estão necessariamente lutando pela revolução comunista. O dualismo entre programas, entre tática e estratégia, entre um ou outro aspecto do programa não pode surgir, em absoluto, do proletariado, mas da dominação ideológica da burguesia e reproduz na prática esta dominação. A dualidade não está nos interesses do proletariado, no seu programa ou em sua própria vida. Em todos os casos, seu interesse é único e sempre contraposto ao capital como um todo, a todas as suas frações. O fato de que se possa apresentar tal ou tal programa, tática, princípio, frente...  como bom para o proletariado, ao mesmo tempo que se pede sacrifícios, é necessariamente algo que provem da classe dominante. Ao contrário do que dizem os social-democratas, como Kautsky e Lênin, quando defendem a introdução, na classe, da consciência social-democrata, o interesse econômico do proletariado é o mesmo que seu interesse político, a verdadeira luta por seus interesses econômicos é uma luta revolucionária. Por isso, essa introdução ideológica social-democrata, a partir do exterior, da ciência, desde esse deus da social-democracia, é necessariamente antagônica à totalidade dos interesses do proletariado.

- Assim, nosso interesse é resistir a todo aumento da taxa de exploração; esta luta é inseparável da luta contra a exploração enquanto tal e pela sua supressão. Enquanto o capital tem sempre interesse em aumentar a exploração, graças a qual pode aumentar a taxa de lucro, o interesse econômico do proletariado é sempre lutar contra esse aumento. Mas, como é impossível pedir aos  proletários que lutem contra seus próprios interesses, a social-democracia, como todo partido da classe dominante quando se dirige  aos  explorados, tem por objetivo convencê-los de que é impossível lutar contra o capital e o estado como um todo e, conseqüentemente, convencê-los de que, embora os objetivos finais (ou políticos, ou principistas…) são tais ou quais, hoje o melhor é precisamente… o contrário. Só assim, em nome do socialismo, ela pôde e ainda pode recrutar para apoiar o desenvolvimento do capitalismo.

 

- Este fenômeno fez com que muitos revolucionários acreditassem que a social-democracia não defende os interesses históricos do proletariado, mas apenas seus interesses imediatos; e justificam, assim, o papel histórico do sindicalismo. Isto é absolutamente falso, a social-democracia e o sindicalismo nunca defendem os interesses do proletariado, mas a sua recuperação estatal. A confusão provém de confundir a reivindicação com a reforma, a exigência proletária imediata, que uma luta expressa, com o que os patrões ou o estado estão dispostos a conceder: a reforma.

 

NOTAS

 

16 Em tudo o que segue, não chamamos de social-democracia tal ou qual partido formal, mas o conjunto de forças de integração capitalista especificamente destinadas a enquadrar o proletariado e tal como caracterizamos a seguir. Este verdadeiro partido histórico do capital para os proletários, como assinalamos em muitas ocasiões, inclui forças denominadas das mais diversas maneiras: socialistas, comunistas, anarquistas, marxistas-leninistas, trotskistas, bolcheviques-leninistas, maoístas, guevaristas, castristas…

 

17 Sobre a transformação dos interesses proletários em reformas, recomendamos ao leitor o livro de Miriam Qarmat “Contra la Democracia”, Colección Rupturas, Libros de Anarres, 2006, Buenos Aires, e também o artigo “Consignas ajenas consciencia enajenada”

18 Agora, os mais modernos dos social-democratas pós-modernos puseram em moda uma palavra mais radical: “a comunização” – para substituir outras já muito desgastadas. Mas, assim como seus colegas, jamais fica claro em suas teorias como se pode fazer comunismo sem a ditadura revolucionária e a conseqüente destruição do capitalismo.

19 Ver a respeito nosso número “Contra o Trabalho” (Comunismo número 3, em português) e particularmente nosso texto: “Acerca da Apologia do Trabalho”.

20 Ver, por exemplo, o CICA (Circulo Internacional de Comunistas Antibolcheviques) www.oocities.com/cica_web. O CICA é o exemplo típico de grupo que se reivindica da esquerda comunista, sem romper com a essência da concepção social-democrata. Ver, a respeito, nosso sitio Internet www.oocities.com/icgcikg/  

21 Lênin “Sobre o papel e as tarefas dos sindicatos” (publicado em janeiro de 1922).

22 É sistemática, típica de todo partido burguês para os proletários essa confusão e identificação permanente entre duas coisas que são antagônicas: os interesses do trabalho e os interesses dos trabalhadores. Os interesses dos trabalhadores consistem precisamente em trabalhar o mínimo possível, em se impor contra os interesses do trabalho!

23 O que dizemos aqui para o pão é evidentemente válido para o arroz ou os derivados de ambos, assim como para qualquer alimento básico.

24 Isso não implica em não reconhecer que a social-democracia não é um partido burguês qualquer. É um partido burguês especificamente voltado para enquadrar, dirigir quem tem interesse em destruir o sistema social para que não o faça, é um partido burguês para enquadrar os proletários.

25 O que se chama de “revolução francesa” não é a revolução que proletários agrícolas e urbanos tentaram naquela época, na França, executando latifundiários, nobres e padres, queimando títulos de propriedade e atuando para fazer a revolução permanente (tentativa de ditadura dos pobres, conspiração pela igualdade, Babeuf, Buonarroti…) mas, ao contrário, a liquidação dessa revolução social, sua transformação em “revolução” política antimonárquica, a proclamação da república democrática burguesa e dos direitos democráticos do homem e do cidadão.

26 O que se segue é evidentemente um esquema no qual se apresenta uma enumeração de questões consideradas táticas que na realidade formam um todo estratégico contra a revolução.

27 Ver nosso texto “El argumento del mal menor, sirviente caballero del capitalismo” Comunismo No. 42

28 É evidente que fazemos esta enumeração tal como nossos inimigos a expressam, porque essas oposições tampouco são assim. Por exemplo, a democracia não se opõe à ditadura,  ela nada mais  é do que ditadura do capital; a libertação nacional é necessariamente pró-imperialista do “outro lado”; o que é direita num país é esquerda em outro e vice versa; a aristocracia também pode fazer uma política popular; o fascismo nada mais é que um produto orgânico do estado democrático e até do antifascimo, que o desenvolve como espantalho indispensável para seus interesses...

29 Ver, a respeito: “Liberación nacional cobertura de la guerra imperialista”, em Comunismo Números 2 e 3.

30 O melhor documento histórico de como funcionavam as diferentes frações trotskistas na Rússia, contribuindo para a reprodução do stalinismo e sabotando toda crítica de fundo, é, sem dúvida, o livro de Ante Ciliga “Dix ans au pays du mensonge déconcertant”. Desconhecemos se existe tradução em português, castelhano e francês aconselhamos a única obra completa, da “Editions Champ Libre”, e não a versão parcial publicada por 10/18.

31 Por exemplo, Lênin diz: “O imposto em espécie é a transição do comunismo de guerra para uma troca justa socialista de produtos”. E, 6 linhas depois: “A troca significa a liberdade de comércio, é capitalismo.” – na Conclusão de “Sobre o Imposto em espécie”. Ou seja: a troca de produtos é, segundo Lênin, socialista e capitalista ao mesmo tempo! Foi assim que se manejou a direção do estado russo, falando simultaneamente de pátria socialista, dos benefícios do capitalismo de estado, de empresas comunistas, das vantagens da troca capitalista… a confusão generalizada serviu para desorientar totalmente o proletariado e submetê-lo novamente ao trabalho, ao capital, à economia nacional.

32 Ver, a respeito, o texto de Jean Barrot: “O ‘renegado’ Kautsky e seu discípulo Lênin”

Caracterização do leninismo e do marxismo-leninismo

Formalmente, o marxismo-leninismo é uma invenção de Stálin, consagrada como religião de estado, a partir da morte de Lênin. O faustoso enterro de Lênin, organizado por Stálin, e o culto de sua personalidade, foi a forma escolhida de apresentar, ante as massas ajoelhadas, essa “nova” ideologia, verdadeira religião de estado. O marxismo-leninismo é a ideologia que o estado capitalista russo desenvolveu, dirigido pelo stalinismo, para conduzir “o movimento comunista mundial”, em função das decisões dos dirigentes do estado russo e dos interesses do capital imperialista centralizado nesse país.

No entanto, a política que caracterizou o estado russo, desde a tomada do poder pelos bolcheviques e a imposição da política “leninista” ou bolchevique aos grupos e partidos que estavam rompendo com a social-democracia existe desde a consagração dos bolcheviques como exemplo de verdadeiros revolucionários. Isto é, desde a insurreição de outubro e a idealização do papel que os bolcheviques teriam desempenhado nela, idealização que se expandirá por toda parte. É nessa medida que se pode estender a denominação de leninismo, bolchevismo ou marxismo-leninismo (que podemos considerar como sinônimos) para a política inaugurada com Lênin no poder. É assim que, aqui, utilizamos essa denominação. Ou seja, desde quando o próprio Lênin governa, dando-lhe assim um caráter mais geral, que nos parece totalmente pertinente, inclusive antes que se consagrasse formalmente, com a morte de Lênin.

O marxismo já tinha sido uma ideologia de completa falsificação da obra de Marx (levando o próprio Marx a declarar: “eu não sou marxista”) para afirmar a concepção social-democrata de partido, que em nome do socialismo pusera o proletariado a serviço do capital. O leninismo e o marxismo-leninismo passariam a se ocupar das frações mais ativas do proletariado em luta pela revolução social, particularmente daquelas que se diziam comunistas (e que de alguma forma tinham iniciado uma ruptura com a social-democracia formal), com o mesmíssimo objetivo de pô-las a serviço do capital e do estado.

 

Como o resto da social-democracia, o marxismo-leninismo chama de revolução socialista ou comunista não à destruição do capitalismo, à abolição do trabalho assalariado e das relações de produção mercantis, mas, ao contrário, à tomada do poder político para a realização de um conjunto de reformas econômicas. Esse dualismo político e econômico corresponde, evidentemente, ao dualismo de sempre da social-democracia, ao qual já nos referimos. O próprio Lênin definiu todo o seu programa “comunista” em sua célebre frase: “O comunismo é o Poder soviético mais a eletrificação de todo o país” (33). Em toda a obra de Lênin, como na de Stálin ou em general de outros social-democratas, não há nada, absolutamente nada de concreto quanto à destruição da ditadura do valor, do dinheiro, da mercadoria… nada claro e explícito quanto à abolição concreta das relações de produção e exploração próprias à sociedade burguesa! Contrariamente à aparência de radicalidade que o leninismo teve em sua época, sua concepção da revolução socialista é completamente reformista, contra-revolucionária. Reduz-se a tomar o poder para modernizar o capitalismo e, complementando isso, estatiza, ou seja, faz a propriedade privada (jurídica, formal) passar para as mãos do governo. Esse tipo de reforma nacional foi o que iniciou o leninismo e terminou de concretizar o stalinismo na Rússia, o que de fato foi a forma que encontraram de reorganizar e modernizar as relações de produção capitalistas. O marxismo-leninismo, como ideologia, serviu para apresentar essa modernização, em nome de Marx e de Lênin, primeiro, como um passo para o socialismo (sem esquecer que, para Lênin, transição ao socialismo e desenvolvimento do capitalismo são a mesma coisa). Logo após, com a ideologia do socialismo num só país, como o próprio “socialismo”. Assim, o “socialismo” passou a ser em todo o mundo sinônimo de um desenvolvimento acelerado do capitalismo, baseado principalmente no trabalho, na apologia do elemento trabalho e trabalhador do capitalismo. Ainda que a generalização dos campos de concentração, dos campos de trabalho forçado (que a Rússia desenvolveu antes da Alemanha!) tenha sido ocultada, especialmente frente ao exterior, eles foram o elemento essencial do marxismo-leninismo e da construção do “socialismo” no mundo. Toda a produção da União Soviética e sua potência na concorrência interimperialista era função de forçar ao máximo o trabalho em todos os ramos produtivos. Dada a diferença tecnológica, desfavorável à Rússia em comparação a outras potências, esse tipo de desenvolvimento capitalista, no qual predomina a mais-valia absoluta (aumento da extensão e da intensidade do trabalho), foi o único que o stalinismo conseguiu realizar. Os campos de trabalho forçado como realidade econômica e como ameaça generalizada marcaram o ritmo e as flutuações da gestão da exploração, as acelerações e crises da produção “socialista”. Se chamar essa monstruosidade capitalista de “socialismo” foi uma invenção genial da contra-revolução marxista-leninista, isto é, do estado stalinista (esse país da “mentira desconcertante”), compreende-se em seguida que essa denominação foi acolhida com complacência pela burguesia mundial. Nada havia dado tantos benefícios à classe dominante mundial para dominar seus escravos assalariados. Este foi o maior negócio capitalista do século XX!

Contra o comunismo, a social-democracia apresenta, invariavelmente, as nacionalizações e estatizações como parte do programa socialista, e até como a questão central da passagem ao socialismo. Contra os comunistas de esquerda – em seu próprio partido – que denunciavam o desenvolvimento do capital e as estatizações como tendências ao capitalismo de estado, Lênin defendeu abertamente o capitalismo de estado, como um passo para o socialismo. Como o próprio conceito de revolução, sustentado na destruição das relações sociais baseadas no valor, é estranho ao projeto leninista, é totalmente lógico que para Lênin não haja muita diferença entre capitalismo de estado e socialismo (nem, em geral, entre capitalismo e socialismo), ou que a mesma se reduza a quem tem o poder. Daí que, para os leninistas, tudo é questão de “tomada do poder” e nunca de destruição do poder do capital. Como se o poder fosse algo que se toma e se usa para outra coisa! Como se o estado fosse apenas um instrumento! Como se a revolução proletária fosse uma revolução política qualquer! É lógico também que, com a morte de Lênin, tenha sido dado o passo final chamando de “socialismo” esse capitalismo juridicamente estatizado (34) e que, a seguir, o marxismo-leninismo tenha se tornado a doutrina general de tudo o que se autoproclamou “campo socialista”.

O marxismo-leninismo na URSS será simplesmente esse desenvolvimento do capitalismo efetuado em nome da “grande revolução de outubro”. Tudo que não coincide em absoluto com o que Marx havia indicado como socialismo se explicará alegando que Marx está superado pela teoria de Lênin e, depois, pela de Stálin, que corrigiram os erros dele. Mais ainda, o stalinismo globalizará, assim, uma nova teoria (na realidade, uma modernização e adequação da teoria social-democrata apresentada como nova), na qual o dualismo, próprio à social-democracia e imprescindível para pôr o proletariado a serviço da contra-revolução stalinista, será apresentado como a teoria do marxismo modernizada, como a teoria do marxismo corrigida por Lênin e Stálin e aplicável à época imperialista. A teoria do novo, de que a época tinha mudado, de que o capitalismo havia passado de sua fase competitiva à sua fase monopolista, imperialista (35), foi a chave do leninismo e da revisão geral da teoria de Marx que culminaria com o stalinismo. Tudo que não coincide com Marx seria explicado, pelo leninismo e depois pelo stalinismo, não como resultado de seu próprio revisionismo, mas justificado pela mudança de época. Lênin tinha sempre na boca a expressão “Marx não poderia ter previsto que…”. Merece destaque o fato de que a teoria de Lênin, sobre o imperialismo como estado supremo do capitalismo, tem como fontes, reconhecidas pelo próprio Lênin, a direita revisionista da social-democracia, particularmente o livro de J.B. Hobson, “O Imperialismo” (1902), e o de Hilferding, “O Capital Financeiro” (1912). Essa concepção, que Lênin reproduz, e que é a dos principais chefes social-democratas, é dominante nos Congressos social-democratas de Chemnitz e de Basiléia. Como se sabe, a platônica denúncia do imperialismo, que toda a social-democracia efetuou nesses e noutros congressos, não a impediu de ser o partido com maior capacidade de recrutar proletários para a guerra imperialista iniciada em 1914.

Inclusive, o reformismo é defendido por Lênin utilizando esse procedimento revisionista, afirmando que “agora” a relação entre reforma e revolução é diferente da que Marx tinha estabelecido. “Só o marxismo definiu com exatidão e acerto a relação entre as reformas e a revolução, se bem que Marx só pôde ver esta relação sob um aspecto, a saber: nas condições anteriores ao primeiro triunfo mais ou menos sólido, mais ou menos duradouro do proletariado, ainda que num único país… Depois do triunfo do proletariado, mesmo num só país, aparece algo novo na relação entre reformas e revolução. Em principio, o problema continua posto do mesmo modo, mas na forma se produz uma mudança, que Marx, pessoalmente, não pôde prever, mas que só pode ser compreendido colocando-se no terreno da filosofia e da política do marxismo… Até o triunfo do proletariado, as reformas são um produto acessório da luta de classes revolucionária. Depois, elas (ainda que em escala internacional continuem sendo o mesmo ‘produto acessório’) constituem, além disso, para o país  em que houve o  triunfo, uma trégua necessária e legítima nos  casos em que é evidente que as forças, depois de uma tensão extrema, não bastam para efetuar por via revolucionária tal ou qual transição” (36). Em vez da contraposição clara entre reforma e revolução, Lênin, dizendo que “Marx não previu, nem podia prever”, sustenta que o reformismo seria uma espécie de ajuda à revolução, de recuo indispensável para que a revolução avance, com o que poderá justificar qualquer coisa.

 

Junto com esse argumento, de que Marx não havia previsto, o leninismo reafirmará toda a ideologia social-democrata da falta de condições para realizar a revolução, do atraso generalizado das condições econômicas e da consciência das massas. Toda a política contra-revolucionária será justificada dizendo que o atraso das massas não permite outra política. Na Rússia, todo ato contra-revolucionário se justificará pelo atraso do país ou pela falta de consciência das massas, ocultando tanto a potência do capitalismo nesse país como a força e conseqüência que o proletariado mostrou na luta. Assim, para Lênin, não se podia passar do capitalismo ao socialismo na Rússia pelo atraso das massas: “Não há dúvida de que num país onde a imensa maioria da população está formada de pequenos produtores agrícolas, só é possível levar a cabo a revolução socialista através de toda uma série de medidas transitórias especiais, que seriam completamente desnecessárias em países de capitalismo desenvolvido, onde os operários assalariados da indústria e da agricultura constituem uma maioria esmagadora… Só em países onde esta classe está  suficientemente desenvolvida, a passagem direta do capitalismo ao socialismo é possível…” (37) E, depois, para defender a necessidade de restabelecer o comércio, que o proletariado insurrecto tinha começado a destruir, Lênin  insiste que não se pode passar ao socialismo e que é indispensável mais capitalismo: “…não é possível manter o poder proletário em um país incrivelmente arruinado, com um gigantesco predomínio dos camponeses, igualmente arruinados, sem ajuda do capital [sic],  que, logicamente cobrará juros exorbitantes” (38). Com o argumento do atraso, o leninismo faz passar o capital como se fosse algo neutro, como uma quantidade de dinheiro ou de tecnologia, que poderia ajudar o socialismo e não como o que é: uma relação social de exploração e dominação que liquida toda possibilidade de socialismo!

 

Mas, junto com a importância da onda revolucionária em todo o mundo e a imagem que nela mesma vai forjando a revolução proletária na Rússia, o marxismo-leninismo adquirirá uma importância mundial, não só como ideologia para enquadrar as camadas radicais do proletariado, mas como direção formal do proletariado. Com efeito, será essa direção russa que liquidará a força revolucionária do proletariado que, com muitas dificuldades, estava se constituindo como força, fora e contra a social-democracia.

Como é sabido, a ruptura com a política contra-revolucionária da social-democracia que o proletariado em todo o mundo desenvolveu desde princípios do século XX e que pôs o capitalismo em xeque (México, Rússia, Hungria, Alemanha etc.), também se expressou em núcleos ou grupos de militantes que conclamavam à ruptura total com a social-democracia, especialmente quando da participação desta na carnificina imperialista (em nome do socialismo, do comunismo, do anarquismo etc.) evidenciou o caráter contra-revolucionário daquele partido. Essa ruptura, que aconteceu  a diferentes níveis em todos os países, tinha por objetivo a constituição do proletariado em partido separado e oposto a toda a ordem estabelecida, e se expressou, particularmente em núcleos de revolucionários que convocavam, em oposição à política contra-revolucionária e pró-imperialista da social-democracia, à revolução social.

 

Ruptura comunista versus social-democracia

Essa ruptura pode ser esquematizada assim (39):

1. Contra a política defensivista, social-imperialista e centrista da social-democracia, convocava à luta aberta contra o capitalismo, contra todos os estados. Contra a guerra imperialista, os revolucionários opunham o derrotismo revolucionário, a guerra contra “sua própria” burguesia e “seu próprio” estado por toda parte, a revolução social mundial. Contra a guerra e contra a paz burguesa, guerra revolucionária contra a burguesia e os estados de todos os países; revolução comunista mundial.

2. Contra o apoio ao pólo progressista do capital e a defesa das tarefas democrático-burguesas, a ação direta contra o capital, a democracia, o estado.

3. Contra a divisão programa máximo / programa mínimo, da social-democracia, lutava pela defesa de todos os interesses do proletariado e pela revolução social.

4. Contra a defesa da democracia, a luta contra a ditadura burguesa em todas as suas formas.

5. Contra o parlamentarismo e o eleitoralismo, a ação direta contra os exploradores e dominadores.

6. Contra o sindicalismo (o economicismo e o politicismo), a luta fora e contra os sindicatos, esses aparatos do estado e do recrutamento imperialista. Essa luta se concretizou na criação de novas associações proletárias e estruturas revolucionárias (conselhos, sovietes, outras organizações unitárias, núcleos comunistas…) em ruptura total com o capital e o estado.

7. Contra o colonialismo e a libertação nacional, em que se dividiam os social-democratas, a luta do proletariado contra os burgueses e os estados de todos os países.

8. Contra o partido de massas, eleitoralista e parlamentar; a organização dos comunistas em núcleos revolucionários capazes de dirigir o partido e a revolução comunista.

9. Contra a social-democracia formal, em toda parte, a organização específica dos revolucionários.

10. Contra toda frente com a burguesia, contra toda frente com a social-democracia.

11. Contra a utilização do estado ou a tomada do poder do estado, a destruição de todos os aparatos estatais e a destruição do próprio estado.

 

Se nosso interesse fosse o indivíduo Lênin, poderíamos, aqui, julgar em que medida ele foi parte integrante dessa ruptura. Constataríamos que Lênin contribuiu parcialmente para essa ruptura, por sua prática contra a guerra imperialista, seu derrotismo revolucionário, assim como pela defesa da revolução violenta, contra a maioria dos social-democratas, incluídos seus companheiros de partido. Ao mesmo tempo, veríamos que Lênin, por sua concepção global do capitalismo e a ideologia das “tarefas democrático-burguesas”… continuou sendo integralmente social-democrata e considerando que na Rússia só se podia fazer uma “revolução burguesa”.  Assim, nos preocuparíamos com suas incoerências e nos concentraríamos em sua política flutuante e duvidosa nos momentos decisivos (que até em pleno período insurrecional sustentava a possibilidade de uma revolução pacífica!). Mas não nos interessa a prática contraditória e oscilante do indivíduo Lênin. O que nos interessa é como o nome de Lênin passa a se associar a uma prática social decisiva, a uma concepção que será internacionalmente determinante. É neste sentido que Lênin nos interessa, na medida em que seu nome foi ideologicamente associado a uma visão que imporá o estado na Rússia e dirigirá os partidos comunistas em todo o mundo para sua liquidação. Interessa-nos o leninismo, na medida em que, assim definido, é fundamental em todo o processo contra-revolucionário do século XX, muito além do militante Lênin. O culto da personalidade, de quem foi apresentado como o pai da revolução russa, contribuiu evidentemente para superdimensionar a importância desse indivíduo e dar mais força à política contra-revolucionária dirigida de Moscou, desde a fundação da Internacional Comunista (que abreviaremos a seguir como: “IC”).

Devemos, contudo, sublinhar que a política social-democrata dos bolcheviques é característica dominante desse partido desde sempre e explica suas posições oscilantes – desde sua constituição e particularmente durante o processo insurrecional de outubro de 1917 – entre democracia burguesa e luta proletária, entre apoio aos governos provisórios e continuidade da luta proletária até a insurreição.  A propósito, nos parece ilustrativo tomar os mesmos pontos gerais de ruptura, que enumeramos e que expressavam os setores mais radicais do proletariado nos anos 1917/21, e situar o leninismo em relação com essa ruptura; primeiro com Lênin, Trotsky, Zinoviev… dirigindo o estado e a Terceira Internacional e, depois, com Stálin como chefe supremo.

1. Essa política derrotista revolucionária, que situou os bolcheviques à frente da insurreição proletária na Rússia, junto com outras minorias revolucionárias, é totalmente abandonada pela direção do partido e do estado, desde os primeiros dias no poder, com base na assinatura de uma paz separada com o militarismo alemão (40). Não só é traída, assim, a consigna de “transformação da guerra imperialista em revolução comunista mundial”, mas são sacrificados e isolados os setores do proletariado que tinham feito ou estavam em plena insurreição. Foi uma prática concreta, contra a insurreição proletária que estava em plena gestação na Alemanha e uma verdadeira entrega, do proletariado insurreto na Ucrânia e outras regiões, à repressão contra-revolucionária.

2. O leninismo restaurará, desde o princípio, a velha política social-democrata de realização das tarefas democrático-burguesas e desenvolvimento do capitalismo (41), tanto na Rússia, sob a consigna de “controle operário”, como em todos os países, defendendo o pólo trabalho do capitalismo.

3. Tanto no terreno nacional, onde exige sacrifícios, trabalho e até taylorismo, como no terreno internacional, onde os leninistas imporão a política de entrismo nos sindicatos, é reintroduzida aquela separação entre programas mínimo e máximo, e abertamente defendido o minimalismo, o gradualismo, o etapismo, o reformismo, o desenvolvimentismo, o democratismo...

4. Apesar da crítica da democracia como ditadura do capital, são apregoadas diferentes táticas, que fazem distinção entre os diversos partidos do capital, pregando a “tática da cartas aberta” e, a seguir, o frentismo com diferentes partidos democráticos e particularmente a social-democracia. A política do leninismo para o proletariado é, também, a realização da democracia mais democrática possível, “a democracia proletária é um milhão de vezes mais democrática que qualquer democracia burguesa” (42).

5. É considerado infantilista a rechaço do parlamento. O velho parlamentarismo social-democrata é impulsionado – agora, é chamado de “parlamentarismo revolucionário”. Foi um verdadeiro parlamentarismo, por mais molho Lênin que a IC pretenda lhe agregar. Na prática, o parlamentarismo levará a liquidar, eleitoralistamente, os partidos surgidos para a revolução. A fase eleitoralista e legalista, ao distanciar os partidos da ação direta, será sumamente útil à repressão, para fichar os quadros revolucionários.

6. Contra a ruptura, o leninismo defenderá o sindicalismo, para o qual, em muitos casos, utilizará, também, o adjetivo enganoso de “sindicalismo revolucionário” e conclamará, permanentemente, ao trabalho nos sindicatos social-democratas.

7. Será proclamada a necessidade, mais uma vez em nome das tarefas democrático-burguesas e do “necessário” desenvolvimento do capitalismo, da luta pela libertação nacional. De fato, esta política não só implicará em apoio ao nacionalismo burguês, cumplicidade com diferentes frações burguesas e imperialistas, mas o abandono de toda política autônoma proletária, a liquidação das minorias comunistas em todos os países. Sublinhamos que essa política, embora desenhada para países ou nações considerados colônias ou semicolônias, será concretizada numa política contra-revolucionaria de sujeição do proletariado à burguesia por toda parte (43).

8. O leninismo, com sua política de “ir às massas”, aplicará a mesma e velha receita social-democrata eleitoralista, parlamentarista e liquidadora da organização que, sendo estritamente comunista, é indispensável na constituição do proletariado em partido antagônico a toda ordem estabelecida.

9. Tentará fazer inúmeras frentes com a social-democracia formal, e será aconselhado às minorias em ruptura que se dissolvam dentro das estruturas e partidos centristas (44).

10. A política frentista funciona, em todos os casos, com o velho argumento social-democrata do mal menor, e conduz à defesa da democracia sob diferentes formas.

11. O leninismo nunca lutará pela destruição do estado, mas, ao contrário, defenderá, como a social-democracia, sua utilização com o pretexto de realizar os interesses proletários, a tomada do poder, reduzindo assim a “revolução” a uma mudança política, a uma mudança na administração do capital.

Depois da morte de Lênin, toda essa política será confirmada pelo marxismo-leninismo, dirigido por Stálin. A diferença entre as duas épocas é que na época de Lênin se tratou, em nome do socialismo, de desenvolver o capitalismo na Rússia e se falava abertamente das supostas virtudes do mesmo e/ou do capitalismo de estado. Na época de Stalin, baseando-se na consolidação da estatização jurídica do capital, será dito que tudo isso é socialismo, que o país é agora socialista. É verdade que, na época de Lênin, este já falava de “pátria socialista” ou de “socialismo” nos seus discursos e apelos ao sacrifício, ao trabalho e à defesa da pátria; mas, frente à crítica dos comunistas de esquerda, de seu próprio partido, Lênin admitirá, claramente, que se trata não da realidade socialista desse país, mas de uma fórmula de propaganda. Claro que, inclusive esta deformação da realidade, em nome da necessidade de propaganda, este oportunismo, que até o próprio Lênin reivindicará, servirá à burguesia soviética, ao stalinismo, para a defesa do capitalismo, em nome da teoria do socialismo num só país. Os campos de trabalho e de concentração, que foram fundados na época de Lênin com base na velha ideologia de defesa do trabalho, serão generalizados durante toda a época stalinista, até se converterem em característica central da organização do trabalho, repressão social e desenvolvimento capitalista nesse país.

Muito brevemente, vamos retomar a enumeração das rupturas contra a social-democracia que tinham caracterizado a época revolucionária, para ver como o stalinismo se situou em continuidade com o leninismo e a social-democracia:

1. Não restou nenhum vestígio da política derrotista revolucionária. O stalinismo consolidará a Rússia, como mais uma potência imperialista, utilizando seu poderio militar para dividir o mundo com as maiores potências militares do globo. Fará pactos com todas as potências, incluída a Alemanha nazista, participará em todas as guerras e terminará como porta-bandeira do pacto de Yalta. Como potência imperialista, reprimirá as revoltas proletárias que se desenvolverão em sua órbita.

2. Passou da reorganização ao desenvolvimento normal e acelerado do capital, com base em campanhas stakhanovistas (trabalhar mais tempo e mais intensamente), aumentando assim, ao máximo possível, a taxa de mais-valia (taxa de exploração).

3. Em toda parte, defende-se o dualismo programático que permite o máximo de sacrifício do proletariado e a apologia do trabalho em nome de tal ou qual reforma e/ou do “socialismo”.

4. Nada sobrou da crítica da democracia como ditadura do capital. A defesa da democracia foi generalizada, afirma-se que o socialismo em construção tem “a constituição mais democrática do mundo” e, por toda parte, são preconizadas frentes populares com os democratas e/ou com os nacionalistas (incluídos os fascistas), sempre com setores abertamente burgueses.

5. Defende-se o parlamentarismo em geral e se participa em todo processo eleitoral, como a social-democracia sempre fez.

6. A apologia dos sindicatos é geral, participa-se de todo tipo de sindicato e outros aparatos estatais.

7. Constituídos em forças do estado burguês, no mundo inteiro, os PC stalinistas e outros partidos burgueses trabalharão para a consolidação das libertações nacionais e para levar adiante as guerras imperialistas em nome do bloco imperialista russo.

8. Todos os partidos stalinistas se consolidam como partidos de massa e participam em todos os níveis estatais: os parlamentos, a repressão, as instituições internacionais, os governos…

9. Os “PC” são partidos totalmente social-democratizados, com a única especificidade de responder e defender os interesses do capital e do imperialismo russos.

10. Participa-se de todo tipo de frente burguesa e são reprimidas as minorias e em geral os  proletários que recusam essa política.

11. Por toda parte, os partidos marxistas-leninistas são partidos estatais (idem ponto 8).

 

Notas

33 Lênin, no “VIII Congresso dos Soviets de toda Rússia”.

34 Como assinalamos, em muitas oportunidades, discordamos da designação desse regime como “capitalismo de estado” porque o capital só está estatizado formalmente, juridicamente. Ademais, a continuidade das relações sociais mercantis impossibilita um verdadeiro controle central da economia, o que irá ficando claro, contrariamente às ilusões dos marxistas-leninistas, nos anos seguintes. Esse estrepitoso fracasso no controle do capital mostra também até que ponto o regime econômico-político na URSS não era capitalismo de estado, nem mesmo era controlado pelo estado e que esse suposto socialismo, defendido pelos marxistas-leninistas, não era competitivo a nível internacional.

35 É falsa essa oposição entre monopólio e concorrência (ou entre exportação de mercadorias e exportação de capitais…) e outras oposições que essa ideologia faz, quando na realidade o capitalismo contém necessariamente as duas realidades, todo monopólio implica concorrência e vice-versa (toda exportação de mercadorias é exportação de capitais e vice-versa). Por outro lado, o imperialismo existe durante toda a historia do capitalismo, até mesmo antes. Enfim, não há nenhuma mudança na natureza essencial do capital, tal como Marx o descreveu. As supostas mudanças são subterfúgios ideológicos dos social-democratas, desde que existe o partido social-democrata, para revisar a essência da teoria revolucionária e justificar todo tipo de revisão da teoria de Marx, com o pretexto de que a época “mudou”.

36 Lênin: “Acerca da significação do ouro, agora e depois da vitória do socialismo” 1921

37 Lênin, em “Informe sobre a substituição do sistema de contingenciamento pelo imposto em espécie” no X Congrego do PC (R) da Rússia (1921)

38 Idem.

39 A enumeração a seguir não é exaustiva e não pretende ser mais do que um claro esquema ilustrativo, que facilita a exposição e a explicação. Todo leitor atento pode nos dizer, com razão, que a separação em pontos é totalmente arbitrária, que na realidade um ponto e o seguinte se superpõem parcialmente etc. Apesar disto, resulta sumamente útil, para nossa explicação, fazer uma enumeração característica dessa ruptura, para depois contrastá-la com o que foi o marxismo-leninismo.

40 Ver nosso artigo: “Brest-Ltovsk: La paz es siempre paz contra el proletariado” em Comunismo número 15/16 (em espanhol), assim como o documentado trabalho de Guy Sabatier: “Traité de Brest-Litovsk 1918 coup d’arret à revolution” Spartacus.

41 Ver “Contra el mito de la transformación socialista: la política económica y social de los bolcheviques, la continuidad capitalista” Comunismo número 15/16 (em español)

42 Lênin, em “A revolução proletária e o renegado Kautsky”

43 Não só porque em todos os países se encontrarão causas nacionais para defender, mas também porque se subordina o proletariado de todos os países aos intermináveis apoios às libertações nacionais, porque sob essa cobertura se impõe o apoio dos proletários às burguesias de todo o mundo.

44 Sobre este ponto e o anterior, ver neste mesmo número o artigo “O que nos separa”.

A imagem radical dos bolcheviques

Os bolcheviques eram, a nível internacional, uma das tantas expressões do proletariado em ruptura com a social-democracia, que se desenvolviam por toda parte. Esta ruptura foi levada adiante, por grupos que estavam dentro da social-democracia formal e outros que se encontravam fora dela. Mas a ruptura dos bolcheviques não era a mais radical. Como vimos, ela nunca foi à raiz do que é a social-democracia como partido burguês para enquadrar os  proletários. Nunca retomou a crítica que Marx fez do capitalismo, nem a que ele havia iniciado da social-democracia e seus programas formais: crítica do valor, do dinheiro, do trabalho, do progresso, da democracia… e a definição do socialismo como negação generalizada da sociedade mercantil (destruição do valor, do dinheiro, da democracia…).

 

Nunca se situou na trajetória histórica da luta comunista, da resistência histórica da comunidade humana para não ser separada de seus meios de vida; situou-se na linha do progresso, do desenvolvimento, das tarefas democrático burguesas. Os bolcheviques e o próprio Lênin se consideravam herdeiros dos “revolucionários franceses”; e sempre imaginaram a “revolução russa” como continuidade da revolução francesa e não da luta dos indígenas expropriados, os escravos… Cantavam a Marselhesa mais do que a Internacional!  

 

Viam o progresso do capital como o seu próprio progresso e concebiam o comunismo não como a verdadeira contraposição humana ao capital, mas como sua continuação, como evolução suprema do capital à qual só era necessário acrescentar o “poder operário”, o “poder soviético”. A resistência humana contra a acumulação capitalista e o progresso do capital, era, para eles, um arcaísmo que devia ser superado com o próprio desenvolvimento do capital. Nunca fizeram uma verdadeira crítica do trabalho, apenas criticavam a apropriação da mais-valia pelos patrões, como toda a social-democracia e até a esquerda da economia política. A revolução, para os bolcheviques, se situava, assim, não na esfera do modo de produção, mas na da distribuição: era preciso tomar o poder, para liquidar aquela apropriação. O comunismo é, para eles, o desenvolvimento do capitalismo controlado por esse mesmo partido e com uma melhor distribuição. O stalinismo, renegado por tantos leninistas e/ou trotskistas hoje, não foi nada mais do que a aplicação conseqüente deste programa.

 

No entanto, o bolchevismo, o leninismo etc., desde 1917, adquiriram uma imagem completamente diferente. Com a insurreição de 1917, como reivindica Lênin, “O bolchevismo veio a se tornar um fenômeno mundial” em total oposição ao que foi em sua origem… “o bolchevismo, no início da Revolução de Outubro, era considerado uma curiosidade” (45). As duas classes da sociedade viram, então, o bolchevismo não como era na realidade, mas como a própria concretização do comunismo. Para os proletários de todos os países, o bolchevismo passou a ser o exemplo de movimento revolucionário conseqüente; para a burguesia mundial, ele equivaleu ao terrorismo generalizado contra suas propriedades, contra seu futuro, contra suas vidas. O próprio terror, que a burguesia sente então, e as espetaculares medidas antiterroristas que adota, prestigia o bolchevismo frente aos setores revolucionários do proletariado e contribui para lhe dar essa imagem de radical, tão distante da realidade: “Depois da revolução proletária na Rússia e de suas vitórias em escala internacional, inesperadas para a burguesia e os filisteus, o mundo inteiro se transformou e a burguesia é também outra por toda parte. A burguesia se sente assustada pelo “bolchevismo” e está irritada contra ele até quase perder a razão; precisamente por isso, acelera, de um lado, o desenvolvimento dos acontecimentos e, de outro, concentra a atenção no esmagamento do bolchevismo pela força, se debilitando com sua posição em muitos outros terrenos... Os milionários de todos os países se conduzem hoje de tal modo em escala internacional que devemos ficar reconhecidos de todo coração. Perseguem o bolchevismo com o mesmo zelo com que o perseguiam antes Kerenski e compania e, como estes, superam também os limites e nos ajudam como o fez Kerenski. Quando a burguesia francesa converte o bolchevismo no ponto central da campanha eleitoral, injuriando por seu bolchevismo socialistas relativamente moderados ou vacilantes; quando a burguesia norte-americana, perdendo por completo a cabeça, detém milhares e milhares de indivíduos suspeitos de bolchevismo e cria um ambiente de pânico, propagando a notícia de conjurações de bolcheviques; quando a burguesia inglesa, a mais ‘séria’ do mundo, com todo seu talento e experiência, comete inacreditáveis tolices: funda riquíssimas ‘sociedades para a luta contra o bolchevismo’, cria uma literatura especial sobre ele e toma a seu serviço, para lutar contra ele, um suplemento de sábios, agitadores e padres, devemos nos inclinar e agradecer os  senhores capitalistas. Trabalham para nós, nos ajudam a interessar as  massas pela natureza e  significação do bolchevismo. E não podem fazer de outro modo, porque já fracassaram em seus intentos de ‘fazer silêncio’ em torno do bolchevismo e afogá-lo. Mas, ao mesmo tempo, a burguesia vê no bolchevismo quase que exclusivamente só um de seus aspectos: a insurreição, a violência, o terror; por isso, procura se preparar de modo particular para opor resistência e reagir neste terreno…” (46)

 

A propaganda burguesa, inclusive, muito especialmente a que realizam todos os setores da social-democracia, acusando o bolchevismo de antidemocrático, prestigia os leninistas frente   às massas. "Trabalham para nós”, se gabava Lênin, e era verdade! Mas essa propaganda NÃO trabalha para a revolução, porque os bolcheviques não eram o que essa propaganda dizia (47). Essa propaganda serve, pelo contrário, à recuperação dos revolucionários nesse projeto híbrido, centrista, que, de fato, reproduzia a ideologia social-democrata, ainda que a mesma fosse agora pintada com mais cor vermelha. Assim, não só os bolcheviques são vistos como totalmente partidários “da insurreição, da violência e do terror” (quando defendiam a democracia, o parlamento, o sindicato… e até as cooperativas de consumidores!), mas, quando a burguesia injuria “socialistas relativamente moderados ou vacilantes por seu bolchevismo” não é uma tolice tão grande como Lênin crê, está gerando uma confusão ideológica generalizada. Essa confusão é fundamental na dominação mundial burguesa, pois serve para esconder a verdadeira ruptura que o proletariado estava tentando, por trás de organizações formais que não impulsionavam em nada essa ruptura. Pois serve para reenquadrar o proletariado em opções, estruturas, programas, que não são os seus.  

 

É típica da sociedade burguesa e de dominação ideológica de massas essa cultura do formal, essa concentração da espetacularização do mundo no formal. A ruptura que o proletariado e sua vanguarda estavam operando fica totalmente oculta, por um lado, atrás do mito dos bolcheviques e Lênin; e, por outro, do conjunto de social-democratas centristas, que buscavam fundar de novo a Segunda Internacional, mas com a máscara lavada, e que queriam chamar de Terceira Internacional. O Partido e os chefes formais que aparecem em cena, e que dirigirão a Internacional Comunista e os Partidos “comunistas” em toda parte (Lênin, Levi, Zinoviev, Trotsky, Stálin, Kamenev, Radek, Clara Zetkin, Dimitrov, Gramsci, Codovila, Ghioldi…) CONTRA A REVOLUÇÃO, ocultam o verdadeiro desenvolvimento do partido do proletariado em constituição e terminarão por liquidá-lo.

Aquela propaganda, aquele trabalho burguês “para nós”, se concretizou, do ponto de vista do proletariado, no fato de que o que os bolcheviques diziam, ainda que fosse reacionário, era entendido como revolucionário. No mundo inteiro, os militantes revolucionários acreditaram que os leninistas eram a própria encarnação da luta contra o capitalismo, a democracia, a social-democracia, o sindicalismo, o parlamentarismo e que realmente lutavam em todas as frentes contra o capitalismo e o estado. Nesses mesmos anos, Lênin e os seus – ao mesmo tempo em que negociavam com presidentes, generais e ministros, e se consolidavam como sucessores do czarismo no estado nacional russo – conclamavam a reintegrar os sindicatos, a organizar eleições, a participar nos parlamentos, a desenvolver o capitalismo, a fazer frentes e alianças com os social-democratas e frentes únicas, populares e nacionais supostamente antiimperialistas. Todo o prestígio que essa organização e partido formal tinham conquistado serviria para isolar e liquidar as minorias revolucionárias, que efetuavam a ruptura real com a social-democracia, e para consolidar internacionalmente, na chamada Internacional Comunista, uma política oportunista, contra-revolucionária. A própria emergência da Internacional, em vez de ser a concretização histórica do partido mundial do proletariado revolucionário, será a reprodução ampliada do social-oportunismo da social-democracia e da Segunda Internacional.

É importante ressaltar que a mesma coisa tinha acontecido alguns anos antes, com a social-democracia na Alemanha e internacionalmente. A concreção formal dessa organização ocorrera baseada num programa formal (Programa de Gotha), que Marx e Engels criticaram violentamente, anunciando que não retirariam publicamente sua solidariedade com o partido (“estaríamos obrigados a intervir publicamente contra tal depravação do partido e da teoria” (48)), do qual eram tidos como responsáveis. Mas essa crítica se manteve privada e nunca fizeram essa declaração pública de denúncia da social-democracia, que Marx e Engels haviam anunciado. Isto serviu aos chefes desse partido podre para se apresentarem como continuadores da obra de Marx e Engels.

 

Mas, por que Marx e Engels não denunciaram esse programa e esse partido pelo que realmente eram? Segundo eles, porque esse programa confuso e reformista, esse programa burguês, passou a ser considerado como subversivo e comunista por todas as classes sociais. Assim, diz Engels, a imprensa, em lugar de ridicularizar esse programa, o considerou radical: o programa “é de qualquer ponto de vista desordenado, confuso incoerente, ilógico e vergonhoso… mas esses burros jornalistas burgueses… tomaram esse programa totalmente a sério e viram nele o que não tinha e chegaram a interpretá-lo inclusive como comunista. Os operários parecem fazer exatamente o mesmo. Esta circunstância real é a única que permitiu, a Marx e a mim, não nos dessolidarizarmos publicamente com esse programa: enquanto nossos adversários e nossos operários emprestarem ao programa essas intenções, nós poderemos nos calar”. Evidentemente, esse silêncio foi o maior erro da vida de Marx e Engels, pois, ao se calarem, concederam e serviram ao inimigo. Aquele espetáculo de revolucionarismo social-democrático servia ao inimigo, porque era precisamente isso: só espetáculo. Graças ao mesmo, a burguesia, a social-democracia se fortificaram no nefasto enquadramento dos proletários, utilizando também o nome daqueles revolucionários.

 

O bolchevismo, o leninismo, o marxismo-leninismo, ao ser internacionalmente identificado com a revolução russa e com a revolução como tal, gozaria, então, do mesmo mito espetacular de que havia gozado a social-democracia, mas com um matiz ainda mais radical, porque supostamente, “tinham feito a revolução” (49). Como com a social-democracia, inimigos e companheiros considerariam os partidos dirigidos por Moscou comunistas, revolucionários… quando não eram mais do que partidos burgueses para os operários. Esta confusão foi decisiva no enquadramento de proletários radicais em todo o mundo, pelo leninismo e pelo stalinismo. E também no isolamento e liquidação dos grupos de vanguarda revolucionária conseqüentes.

 

Com efeito, os bolcheviques e o marxismo-leninismo se transformariam numa verdadeira autoridade moral de todo o movimento revolucionário, com capacidade para impor a prática de cada partido ou organização formal que se reivindicasse do comunismo e a revolução. Mas, como não impulsionavam, em absoluto, a verdadeira ruptura revolucionária, voltarão a impor a velha política dos centristas, fazendo com que os “partidos comunistas” fossem uma nova versão da social-democracia, acrescida da defesa dos interesses imperialistas do estado russo. Essa política contra-revolucionária isolará e contribuirá para a repressão dos grupos de militantes revolucionários e particularmente dos que, em alguns países, se autodenominarão frações comunistas, ou frações da esquerda comunista. Os “partidos comunistas” culminariam sua evolução como tropas de choque e de repressão contra-revolucionária em todo o mundo e participariam abertamente na carnificina imperialista denominada “segunda guerra mundial”.

 

Notas

45 Lênin, no IX Congresso do PC da Rússia em 1920.

46 Lênin, em “Esquerdismo, Doença Infantil do Comunismo” (1920).

47 O leitor fará inevitavelmente o paralelo com o que os dominantes do mundo condenam hoje como “o islamismo”. Esse paralelismo tem bases históricas reais e pode ser explicado por muitas outras razões, embora também pudéssemos assinalar diferenças. Mas essa análise, tanto no sentido das concordâncias quanto no das diferenças, nos afastaria dos objetivos deste texto.

 

48 “E termino aqui, ainda que seria preciso criticar quase cada palavra deste programa… Até um ponto tal que, caso fosse aprovado, Marx e eu jamais poderíamos militar no novo partido erigido sobre esta base e teríamos que meditar muito seriamente em que atitude adotaríamos frente a ele, inclusive publicamente. Tenha em conta que, no estrangeiro, somos considerados responsáveis por todas e cada uma das manifestações e dos atos do Partido Operário Social-democrata Alemão. Assim por exemplo, Bakunin, em sua obra Política e Anarquia, nos faz responsáveis por cada palavra irrefletida pronunciada e escrita por Liebknecht…” Engels carta a Begle 18-28 de março de 1875.

49 Além de que, nessa afirmação, reduz-se a revolução à insurreição, convém sublinhar que nem sequer isto era certo. Os velhos bolcheviques, o famoso “partido de Lênin”, com suas reivindicações democrático-burguesas, sempre iam a reboque do proletariado revolucionário na Rússia, sempre se opuseram à luta pela revolução social nesse país e se dedicaram ao apoio mais ou menos crítico aos partidos burgueses e da democracia. Durante a insurreição de outubro, atuaram como partido oscilante e os velhos dirigentes se opuseram a ela.

 

 

Nota dos tradutores: Este texto foi publicado na revista Comunismo nº 55, em espanhol, pelo GCI (Grupo Comunista internacionalista). O original está disponível na internet em:

 http:// www.oocities.com/comunismo_gci/comunismo55.htm

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



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