Esta crítica do obreirismo foi escrita em 1995. Não somos obreiristas, mas admitimos que existe uma tendência neste sentido em alguns dos textos que publicamos. Portanto, este texto é também uma autocrítica.

OBREIRISMO

O obreirismo é uma forma de ideologia capitalista muito comum entre os revolucionários autoproclamados.

É uma ideologia que encoraja a aceitação e a propaganda do trabalho assalariado entre indivíduos conscientes da alienação que o trabalho assalariado acarreta. É, portanto, uma das piores formas de alienação.

O culto do trabalhador é encontrado em ideologias como o stalinismo e o nazismo. Os trabalhadores são demagogicamente bajulados pelo seu papel como construtores da nação, da economia, do capital. O obreirismo não é uma ideologia que exalta qualquer trabalho assalariado, ele promove apenas o trabalho "produtivo". De fato, ele menospreza os trabalhadores de escritório e de serviços, elogiando apenas os que estão mais diretamente envolvidos na valorização do capital.

O obreirismo cultua o trabalho manual. Sua imagem do proletário é um macho musculoso. Desprezando o trabalho nos escritórios e serviços, ele rejeita uma enorme parte de mulheres trabalhadoras assalariadas, revelando-se assim sexista.

O obreirismo tem estado presente no movimento operário desde o início. As primeiras sociedades operárias foram inspiradas no cristianismo. Cultuavam a assiduidade, a economia e o trabalho pesado. Essas idéias moralistas prolongaram-se no obreirismo, que é um baluarte da ideologia cristã na classe operária.

Os entusiastas do obreirismo não são os trabalhadores manuais, que não podem escolher seu trabalho, mas ex-marginais que tomam a decisão moral de se tornarem um operário manual "revolucionário". Sua defesa do obreirismo é uma compensação pela falta de certeza quanto à sua situação de classe e uma condenação moral de proletários que fazem escolhas diferentes.

O obreirismo vê a revolução como uma escalada das lutas cotidianas dos operários, no capitalismo. A história das revoluções contradiz essa visão. As revoluções Francesa e Russa foram detonadas por lutas femininas. As revoluções alemã e portuguesa surgiram de motins. Maio de 68, em Paris, começou com uma rebelião estudantil. O obreirismo falsifica a história para manter a ideologia. Em qualquer caso, o papel assumido pelos não-operários é subestimado ou negado. A teoria revolucionária, ao invés, analisa os eventos reais para compreender as debilidades do capitalismo.

Os obreiristas dizem que os operários produtivos assumem uma posição crucial porque eles podem, parando de trabalhar, destruir o capitalismo. Efetivamente, a centralidade dos operários produtivos é um exagero: a produção é apenas uma parte do ciclo de acumulação. Os operários envolvidos na comunicação, distribuição e circulação também possuem elementos de força. Uma greve de bancários pode ter um efeito maior, para o capital, do que uma greve de operários numa fábrica de automóveis. Uma onda de lutas urbanas pode ter um efeito maior que ambas.

A busca por frações estratégicas do proletariado, cuja luta é privilegiada, revela a postura hierárquica dos obreiristas e reforça a visão dogmática de que o comunismo é um programa já pronto, que basta pôr em prática. Essa perspectiva é um torpe legado do socialismo da segunda Internacional, que via a luta de classes como uma guerra burguesa, com soldados e generais. Assim, o "revolucionário" decide o programa que os operários executam.

O obreirismo e o intelectualismo são diferentes mas não opostos. Eles se complementam. O pensamento e a ação são separados, os operários devem praticar suas (do obreirista) teorias. O obreirista tem sua própria crítica dos intelectuais, mas ela só vale para os outros intelectuais, não para o obreirista. Os operários devem evitar os intelectuais, mas não o obreirista, que pretende não ser um pensador especializado. O obreirismo mantém, além da oposição entre pensamento e ação, o privilégio de fato do pensamento, que são inerentes ao capitalismo.

Os sujeitos revolucionários não são apenas os operários produtivos, ou mesmo todos os operários. É o proletariado, os que não têm poder nem riqueza social, aqueles que não têm nada a perder a não ser as correntes que os aprisionam. Além disso, os trabalhadores não-proletários podem atuar numa situação revolucionária, desde que o proletariado se organize autonomamente e assuma a direção da luta. Foi o que se viu, com os camponeses revolucionários do movimento makhnovista e nas coletividades comunistas criadas durante a guerra espanhola de 1936.

O objetivo do movimento comunista não é um estado operário ou uma ditadura proletária. É a abolição de todas as classes na comunidade humana mundial, criada na luta revolucionária que destrói o capital e o estado.

Livremente traduzido do site antagonism http://www.oocities.com/CapitolHill/Lobby/3909/



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