Anos 60 – A década das revoluções

 

A geração pós-guerra no início dos anos 60 estava ficando adulta, o que implicou em mudanças radicais. Os Estados Unidos acabaram de nomear John F. Kennedy como presidente, que morreu assassinado três anos depois. O muro de Berlim é construído e a Pop-Art (arte produzida para o consumo de massa) entra no mundo da publicidade. No Brasil, lutava-se contra a ditadura militar, a censura e a reforma educacional.

Nesta época a juventude se torna o modelo absoluto na maneira de vestir e de se comportar.

Apesar da mudança de conduta das mulheres nos anos 60 algumas mulheres que recebiam educação rígida não podiam aderir à nova moda.

O surgimento da pílula anticoncepcional foi responsável pelo comportamento sexual feminino mais liberal. As mulheres começaram a lutar por direitos iguais aos dos homens.

A moda hippie também estava em alta. Homens e as mulheres andavam descalços, tinham cabelos compridos e usavam bijuterias, calças de ganga (tecido de qualidade inferior azul ou amarelo) e camisas com flores coloridas. As mulheres usavam saias compridas e fitas no cabelo.

Surgem também vestidos de cortes retos, longos e campestres e roupas futuristas. O jeans e a camisa sem gola se tornaram unissex. Havia uma grande variedade de tecidos e estampas com imagens de símbolos populares na cultura norte-americana, como as latas de sopa Campbell.

A alta costura começou a perder cada vez mais espaço. Segundo a professora de moda da Universidade Anhembi Morumbi, Rose Andrade, “o cinema sempre trabalhou junto com a moda, dando ao estilista convidado o direito de dizer o que deveria ser feito com a beleza de acordo com a roupa”, afirma.  

 

 

1968: o ano da contestação política generalizada

 "Criança destinada a uma existência louca, a nova esquerda nasceu da pélvis ondulante de Elvis Presley".

Jerry Rubin

Os "hippies" eram parte do que se convencionou chamar movimento de contracultura dos anos 60. Adotavam um modo de vida comunitário ou estilo de vida nômade, negavam o nacionalismo e a Guerra do Vietnã, abraçavam aspectos de religiões como o budismo, hinduismo, e/ou as religiões das culturas nativas norte-americanas e estavam em desacordo com valores tradicionais da classe média americana. Eles enxergavam o paternalismo governamental, as corporações industriais e os valores sociais tradicionais como parte de um establishment único, e que não tinha legitimidade.

"Já se disse que os moços são incapazes de dizer o que querem, mas sabem claramente o que não querem. Não querem essencialmente a rotinização da existência, se­ja ela de sentido capitalista ou comunista". (Marialice Foracchi.) Em 1968 o mundo ia explodir. Agitações e passea­tas se sucediam em todos os cantos e continentes. (...) Mutantes da nova, os jovens entre quinze e 24 anos tornaram-se ao mes­mo tempo mito e mitificadores da sociedade. Consumindo e sendo consumidos, contestadores e contestados, eles luta­vam em todas as frentes para destruir o velho e impor o no­vo. Já no começo dos anos 60, de eterna ameaça românti­ca, eles passavam a destruidores radicais de tudo o que estava estabelecido e consagrado: valores e instituições, ideias e tabus. Em todos eles, um máximo denominador comum: o não, que poderia ter a aparência de cabelos com­pridos para ambos os sexos, jeans desbotados, pés descal­ços, anéis em todos os dedos, colar de índio, chapéu de cowboy. Os adultos se chocavam e ficavam arrepiados diante das vastas cabeleiras encaracoladas e das boinas dos jovens espalhados nos campi universitários, que declara­vam, na voz de um hippie; "Desconfiem dos chefes, dos heróis. Desconfiem de todas as pessoas de fora que tentam impor a vocês suas estruturas. Façam o que tenham de fa­zer. Sejam o que vocês são. Se não sabem o que são, des­cubram". O "papa" desse movimento hippie era Timothy Leary, professor de Psicologia da Universidade de Harvard. Distribuindo drogas (mescalina e LSD) a seus alu­nos, Leary procurava revelar caminhos da mente até então ignorados pela ciência e pelo senso comum. Explode a mo­da psicodélica, que traz cores gritantes para as roupas e de­ corações jovens e torna best sellers livros como As Portas da Percepção, relato das experiências com drogas feitas pelo escritor inglês Aldous Huxley. Leary acaba­ria expulso da universidade, mas suas palavras de ordem seriam adotadas por milhares de jovens adeptos do "paz e amor", que buscaram formas alternativas de vida em co­munidade, sob o signo da pílula anticoncepcional, da mi­nissaia, do LSD, do rock e da maconha. "Sexo, drogas e rock ‘n roll" era a bandeira de ídolos como Janis Joplin e Jimi Hendrix, que morreram jovens, justamente devido a doses excessivas de heroína.

 

13 de dezembro de 1968

AI-5: Quando o Presidente governa sozinho

Controle integral sobre a sociedade civil brasileira.

É decretado o AI-5

 

Voz grave, pausada, o ministro da Justiça, Luís António da Gama e Silva, na noite de 13 de dezembro de 1968, dá conhecimento ao país, por uma cadeia nacional de rádio e televisão, dos lermos do Ato Institucional n." 5 e do Ato Complementar n." 38, que decreta o recesso do Congresso. O Al-5 confere poderes quase totais e absolutos ao Governo. Amparado no seu Artigo número 2, por exemplo, o "presidente da República poderá decretar o recesso do Congresso Nacional, das Assembleias Legislativas e das Câmaras de Vereadores por ato complementar, em estado de sítio ou fora dele, só voltando os mesmos a funcionar quando convocados pelo presidente da República". Com o recesso parlamentar, o Poder Executivo correspondente fica "autorizado a legislar em todas as matérias previstas nas Constituições ou na lei orgânica dos municípios". O Ato permite que o presidente, "no interesse nacional", possa decretar a intervenção nos Estados e municípios sem as limitações previstas na Constituição — bem como, ouvido o Conselho de Segurança Nacional, suspender direitos políticos de quaisquer cidadãos' 'pelo prazo de dez anos e cassar mandatos eletivos federais, estaduais e municipais". A suspensão dos direitos políticos, segundo o Artigo 5 do Ato, importa simultaneamente no impedimento do direito de votar e ser votado em eleições sindicais, na proibição de atividades e de manifestações sobre assuntos de natureza política. Ficam suspensas, com a edição do Ato, as garantias constitucionais ou legais de vitaliciedade, inamovibilidade, estabilidade, "assim como o exercício de funções por prazo certo". Oparágrafo 1." do Artigo 6 dá uma medida da amplidão do AI-5: "O presidente da República poderá, mediante decreto, demitir, remover, aposentar ou pôr em disponibilidade quaisquer titulares das garantias referidas neste artigo (juizes e funcionários do Estado), assim como empregados de autarquias, empresas públicas ou sociedades de economia mista, e demitir, transferir para a reserva ou reformar militares ou membros das Polícias Militares". O presidente da República, pelo Alo, ganha a condição de decretar o estado de sítio e prorrogá-lo à luz de sua conveniência; e assume o poder de decretar o confisco de bens "de todos quantos tenham enriquecido ilicitamente" no exercício de cargos e função pública. Está suspensa a garantia de habeas corpus. Por fim, qualquer medida praticada de acordo com o AI-5 está excluída de apreciação judicial. O Governo, a partir do comunicado de Gama e Silva, assume O controle integral sobre a sociedade civil brasileira.

 

Márcio Ates, o estopim

Um discurso do deputado carioca Márcio Moreira Alves, do MDB, pregando o boicote popular ao desfile de 7 de setembro, provoca irritação nas Forças Armadas, pressões de seiores "duros" sobre o governo Costa e Silva e adiciona combustível à crise política que lavra no país no final de 1968. A Procuradoria Geral da República representa contra o deputado junto ao Supremo Tribunal Federal, e o pedido de licença para processá-lo chega ao Congresso em meados de novembro. A Comissão de Justiça da Câmara Federal accita-o por 19 votos contra 12, depois que nove dos seus membros contrários à medida são substituídos. O plenário do Congresso, contudo, recusa a licença no dia 12 de dezembro. No dia seguinte o Governo edita o Al-5 e fecha o Congresso.

"Tempo negro. Temperatura sufocante. O ar está irrespirável. O país está sendo varrido por fones ventos. Máx.: 38° em Brasília. Min.: 3° nas Laranjeiras". A primeira página da edição do JB de 14 de dezembro de 1968 fazia várias referências ao "clima" criado no país após a promulgação do AI-5.

 

Um filósofo alemão, velhinho... E mais os Beatles, Dylan, Hendrix, guerrilheiros, "hippies".., O que faltou nesse ano louco ?

Na música, firmava-se a influência dos Beatles e dos Rolling Stones, formavam-e centenas de conjuntos de rock.

A partir de meados dos anos 60, principalmente Estados Unidos, na Itália, na França e na Alemanha, a rebelião pessoal acabou se tornando uma rebelião política.

Mudar o mundo, sim — diziam os jovens radicais americanos e europeus. Mas isto implica mudar o cotidiano, o próprio mundo de cada um. O não passivo dos hippies evoluiu para o não ativo dos yippíes, influenciados pelo anarquismo e pelo pacifismo e pelo pacifismo na linha de Mahatma Gandhi. Jerry Rubin, ativista norte-americano que seria o principal teórico do movimento Yippie, diria: "Yippie é um cruza­mento híbrido de esquerdista e hippie, diferente de um e de outro. É o super-angry, alucinado, incómodo e cabelu­do, cheio de pêlos por todo lado. Sua vida é um teatro per­manente; cada dia ele cria uma nova civilização sobre as ruínas da antiga, que ele se prepara para demolir" Nos textos desta Nova Esquerda (New Left) apareciam com fre­quência referências quase mitológicas a um velho pensa­dor alemão — Herbert Marcuse, que vivia nos Estados Unidos há muito tempo. Inspirando os líderes estudantis Daniel Cohn-Bendit (francês) e Rudi Dutschke (alemão), Marcuse valorizava ao máximo o papel transformador dos jovens e, segundo seus seguidores, acreditava na importân­cia da utopia e das ações diretas e radicais. Ao lado de Marcuse, outro grande mito da época era Guevara, morto em 1967 e cultuado como um santo pela juventude rebelde -» seus ideais de solidariedade entre os povos contra a opressão, sua boina estrelada, sua revolução que queria criar "um, dois, três, mil Vietnans". Nos Estados Unidos, verificou-se a ascensão do movimento negro (o Black Po­wer), iniciaram-se as açòes dos índios e dos presidiários, bem como as das feministas e as dos homossexuais, As­sim, nos EUA, confluíram, de um lado, os movimentos de estudantes negros (incluindo os Black Panthers) e brancos pelos direitos civis, e, por outro, a esquerda radical liberal (relativamente minoritária) e os movimentos hippies (ver­são norte-americana do anarquismo), que se associaram às correntes neo-marxistas, influenciadas por Marcuse (que fundia Marx e Freud). Toda essa gama de correntes se unia nas manifestações do ano de 1968. No Brasil de 1968, contudo, os "cabeludos" eram mui­to malvistos, sofrendo até agressões físicas. Os líderes estu­dantis brasileiros ainda usavam roupas tímidas, seu padrão de arte era Geraldo Vandré e não Caetano Veloso e Gilber­to Gil, que revolucionavam a música popular. Os mais ra­dicais encaminharam-se progressivamente para a guerrilha de moldes cubanos.

 

"Claudia": pela emancipação /feminina

Na capa do primeiro número da revista Claudia aparecia o perfil de urna bela jovem sorrindo para um pássaro engaiolado: símbolo deliberado ou involuntário da mulher na época? "Claudia nascia debaixo de uma lei: 'Revogam-se todas as disposições de provar a superioridade de um sexo sobre o outro'. Formou-se assim sob o signo de uma luta para abrir mentes e corações, lutar contra tabus e preconceitos, romper com o obscurantismo". (Ignácio de Loyola Brandão, jornalista e escritor.) O Brasil dos anos 60 era um país em que a classe média estava em expansão e a mulher começava a conquistar seu lugar. Nesse sentido, a psicóloga Carmen da Silva, constante colaboradora da revista, era um sensível porta-voz dos novos ventos que sopravam sobre a condição feminina: "Claudia trazia artigos, reportagens, notas sobre cinema, teatro, livros, beleza, moda. cozinha, decoração e outros lemas habituais nas revistas femininas. A maior novidade, porém, era seu tom arejado, sua forma de dirigir-se à leitora reconhecendo nela uma mulher concreta, situada no aqui-e-agora, e não uma abstração, uma vaga e idealizada visão do ideal feminino, concebida pela fantasia e pelos preconceitos dos homens". Nada sonhadora, profundamente realista, pé-no-chão, corajosa, carregando um ideal (o de abrir cabeças e lutar pela liberdade), Carmen brigava às vezes com as mulheres condicionadas e acomodadas. Na verdade, no início Claudia estava deslocada, porque insistia em sair à frente de todos os assuntos. Numa época em que apenas 5000 mulheres tomavam pílula anticoncepcional no Brasil, a revista tratava  de temas como o aborto, abria espaço para destacar a importância de a mulher trabalhar fora de casa, mantinha um debate permanente sobre o desquite e o divórcio, levantando o tema da marginalização da mulher "descasada" e tentava, na medida do possível, desmistificar o tabu da virgindade.


 

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