RIO DE JANEIRO MADRUGADA 1957 que importa já passou nada restou daquelas noites mornas e sem normas pelas ruelas sujas paredes descascadas da Lapa detrás dos Arcos prostitutas mendigos tabuleiros angu com torresmo travestis drogados acuados grasnando de saltos altos seios postiços línguas masturbando clientes colados aos postes garotos de programa na Galeria Alasca mostrando pênis rijos como mercadorias vendedores de amendoim torradinho lá vem o camburão arrasando quarteirão sexo ali na praia ali mesmo luzes refletidas corpos nus fricção orgasmo curra sofreguidão susto prostração que a noite é longa e os sonhos aguçados um intelectual na porta do boteco cisma um resto de samba-canção desnaturado o bonde trepida os marinheiros urinam e as igrejas dormem e os ratos assustados os jornais da madrugada pesam nas calçadas os bêbedos os malandros os vendedores de rua os casais que saem dos cabarés suados e o velho que dorme no banco de praça e as luzes da avenida reverberando e as colunas mortas e as portas fechadas os anúncios luminosos as hospedarias e os sobrados envergonhados sonolentos não há lua sob um céu de chumbo o bolso vazio o coração esfacelado um desempregado com fome na parada esperando o ônibus para o subúrbio fantasias notívagas os preconceitos suspensos desejos absconsos e sua cumplicidade classes sociais aproximando-se promíscuas antes que o dia enquadre as criaturas Antonio Miranda |
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