A Alma da Noite


Há muitas coisas entre o céu e o véu que encobre a noite.
Falam do aperto infartável e da tristeza que oculta, insiste
Em sulcar os ombros com afiada navalha ou curtido açoite,
E em talhar quelóides na alma com o vergalho em riste.

O reverso da luz solar expõe o limiar do lado hamletiano:
Morrer, dopar, dormir e quem sabe, até mesmo sonhar...
Brain storm contínuo que pergunta ao personagem profano:
"Quer ser ou não ser? Lembrar ou esquecer? Fugir ou ficar?"

Jaz o corpo em posição fetal com os olhos semi-cerrados,
Mesmerizados pelo copo d'água cujas gotas do sonífero     
Cor de sépia, são sepulcro dos sonhos antes acalentados,
Mas oásis de um deserto, onde o tempo é lento e mortífero.

A privação da loucura da cidade que enfim no escuro se aquieta,
Traz à tona a espuma densa da inspiração que de dia intimida,
E a criativa insônia que persegue sem trégua todo renitente poeta,
Encontra no verso e na rima, a absolvição da paixão escondida.

Como uma bailarina cega que rodopia tonta e vagarosamente,
Sobre a marca do X nos palcos vazios dos teatros abandonados,
Assim é a nossa tola e vã esperança, teimosa e subserviente,
Que exausta, por fim, se rende ao repouso dos pés calejados.


Texto de Maria Helena Santini
em 12 de janeiro de 2007
Poema 3
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