Entre o agora e o que foi


Para Para onde dará esta constelação que sobrevoa 
sobre mim como uma voz trespassando o vazio
Não percebo das luzes os sinais ou os limites
quando cheguei a este culminar astral
já era tarde e a noite tudo alagava  
tudo confundia no magma do silêncio
Consigo ver ainda os oblíquos raios  
como lâminas rentes a uma lua azul que desce
a fatal convergência de pontos brancos
como diamantes que se tocam numa luz comum
Sigo por estes caminhos a vertigem
longe da vida terrena
habitualmente medida pelo conformismo larvar
sou levado como fugitivo em órbita
a correr das vitrinas cegas onde a lama se contorce
das casas vergadas pelo tempo sem sonho 
Sou os olhos baptismais
que são agora os olhos de todos
de todas as ruas que das raízes mais exigem
Espanto-me   
já não sei dos passos o labirinto
enredado na geometria desta solenidade sem tecto
tacteio a minha respiração
entre o agora e o que foi
Grito para escutar o eco que me mediu o sangue
para alcançar o ponto donde partímos
como se às estrelas mais longínquas
habituadas à imponderabilidade de tudo     
como se a elas tivesse também chegado o símio voo
e nas forças nele reunidas levitasse ainda
um humano rumor
no delírio dessa galáxia onde já brilhar não basta
no limiar das noites que a submergem


João Martim   2003      
in  De que plasma agora sou
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