ESTUDO EM DOIS TONS PARA UM GRANDE POEMA DE AMOR IMPOSSÍVEL
(excerto do final)

Amor:
Eu queria que este amor fosse banal para se conter em nós,
e odeio-me quando me transcendo e te escrevo poemas que devia guardar dentro  de mim.

A vida ensinou-me que os poemas morrem esquecidos nas gavetas da cómoda
e são ridículos fora do momento e das pessoas que os criaram e viveram.

Mas os poetas - esses - esquecem na voragem da vida real
que engole as pessoas nas suas diversões
e aventuras banais,
e andam depois para aí mascarados se querem existir
num mundo absurdo.

Perdoa, meu amor do Signo de Leão
que julgue e sinta que a chuva há-de vir e lavar tudo,
que o tempo irá embaciar a minha figura no teu espírito
até parecer-te que viste o meu rosto num jornal                                                                                                                                                                                                                      
e as carícias das minhas mãos desiludidas se confundirem
com as mãos que te apertem num baile vulgar.

A vida desmonta todo o labirinto da aventura, se deixares,
e o teu amor impossível,
sem saberes porquê vai para outro que te diga
coisas compreensíveis.
                                                                                               
E o poeta ficará - como é costume - a girar à volta de si próprio, de alma entontecida e doida       
só, miseravelmente só, com os lábios em sangue,
os  nervos doendo,
escavando dentro de si mesmo ânimo para viver outra vez, cada vez mais fundo,
procurando sedativos e analgésicos nas farmácias de serviço,
para ressuscitar um outro amor falhado,
porque não merece um só amor
    e tem de viver estrangulado, sonhando espaços e estrelas,
    de rastos,                                                                                            
    só com o seu amor a toda a gente.                                   

                     MALANJE/ANGOLA/20ABRIL/68

                                                             Vitor de Figueiredo

Do livro “MEMÓRIAS DO AMOR IMPOSSÍVEL”
Direitos autorais registados nos termos legais. Proibida a reprodução por qualquer meio sem autorização do autor.
Poema 2
Letra V
Menu