POEMA NA SEGUNDA-FEIRA

                    Menção Honrosa
          Jogos Florais do BNU – 1995


Acertaste-me, amor, um tiro de chumbo que me deixou a sangrar
por mil veias...
Enquanto desfaleço, no meu voo, rego os campos com o meu sangue...
Agora não me venhas dizer que os pássaros  não têm veias,
com o teu rígido sentido concreto das coisas.

Segunda-feira de manhã
o poema sai com todo o gosto do fim-de-semana sem nexo
- é um poema rasgado
da vida
como última página de bloco,
com mil palavras inarticuladas, suspensas em blasfémias
no desejo de ferir-te quando daqui a pouco telefonares a inocência
do teu fim-de-semana isolado de mim.

Que não te pertenço,
é uma verdade que não pode refutar-se.
Não há dúvida
que tudo é um amor de horas disponíveis.

Mas uma coisa é certa e a mais importante de todas:
agora, as coisas que eram brancas vão continuar brancas, e as pretas, pretas.
Se houver lágrimas, que costumam ser úteis, já nada significarão
senão o fim do que nunca começou.

O parêntese fechou-se... Colocou-se um ponto e vírgula na cobardia de um
ponto final que não vem.
Já não interessa o beijo, o delicado afago, a carícia no rosto
porque ambos estamos mortos e já não temos dia e noite,
nem horas e explicações
nem a coragem de nos atirarmos de um terceiro andar, como é da praxe
nestes fins-de-semana de Luanda.


Tenho rasgado a vida aos pedaços -  meu coração é já um bocado de lata,
ferrugenta e mole,
e minhas mãos apenas gestos de adeus dentro de uma grade,
voo raso de ave ferida na beira-mar, gesto de desalento no sexo adormecido.

Assim, fico do lado de fora, no trilho do lado, olhos colados na transparência
de um cristal que só permite ver a tua face difusa na distância...

Olha, se chorares, as tuas lágrimas terão o som dos expressos
Nos entroncamentos,
dirigidas fatalmente nos "rails" obrigatórios,
quando entenderes que me esfrangalhei na bruma do túnel próximo
coberto com um lençol branco sujo com as palavras do poema
na segunda-feira.

       
     LUANDA, 22/MARÇO/71

                                                             Vitor de Figueiredo

Do livro “MEMÓRIAS DO AMOR IMPOSSÍVEL”
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