SOMBRA ...


No meio do deserto,
esverdeado, ao sol,
com milénios de ferrugem
Há um portão de palavras ...

Viajei para ti com uma venda nos olhos,
e através do portão a minha sombra projectou-se
longa
e foi dormir contigo
o bater monótono das horas sem nexo.

No teu pesadelo, as palavras
como um oceano que te quer afogar
estão a cortar lentamente, como gumes afiados,
as pontas dos teus cabelos
e abrem tuas veias uma a uma.

Há uma estátua branca, enorme, na relva verde
do parque
que move uma das mãos na carícia das crianças descuidadas
e outra que se estende para ti
náufraga na procura dos teus seios !

Acordar é a certeza duma gaveta fechada à chave
que liberta pelas frinchas uma alucinação de poeta
condensado em selos,
morto nas horas de sol,
implacavelmente morto,
mas perigoso
durante as horas de serviço.

Só à noite arrombo com a minha sombra o portão, no deserto,
e torno-me maravilhoso e incómodo
como uma tempestade de areia
que te entra nos olhos, na boca, no cabelo
te arrepia,
te dói na pele
e custa a sacudir dentro de ti.
     

       LUANDA, MARÇO/1970

Do livro “MEMÓRIAS DO AMOR IMPOSSÍVEL”
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